domingo, 31 de maio de 2026

Um deles

 

Ou seja, uma delas, teimosamente persistente no uso do A.O. anterior, declara a sua felicidade, (ciente embora da irrelevância da anotação), pela informação sobre o regresso desse A.O. - conquanto na dúvida de que tal retorno seja garantido, enquanto não for decretado efectivamente o seu regresso, que mereceria umas parangonas festejadoras mais salientes, vista a grosseria grotesca do actual.

Nós, os teimosos da língua portuguesa

O Acordo Ortográfico de 1990 regressa, e regressará, como regressam sempre os problemas mal resolvidos. Tentaram-nos convencer que o assunto estava encerrado. Não está.

FRANCISCO CAMACHO Deputado Municipal em Lisboa

OBSERVADOR, 30 mai. 2026, 00:15

(Parlamento aprova saudação a Carolina Beatriz Ângelo)

Inflação ficou nos 3,3% em maio

Economia estagnou no primeiro trimestre face ao anterior

Irão realiza disparos contra "navios infractores" no Estreito

Edis One honra António Lobo Antunes com mural em Benfica

Manuel Mozos finaliza documentário sobre o Jornal do Fundão)

Num tempo em que se discute nacionalidade é importante voltar a falar sobre língua. Uma coisa é residir em Portugal. Outra coisa é ser português. A primeira pertence à ordem exterior da vida prática. A segunda pertence à ordem interior da pertença, que é precisamente o lugar onde o pensamento, a identidade e a língua habitam

Neste tema, a língua não é, nem pode ser, uma questão acessória. Pelo contrário: é o primeiro factor de integração. É através dela que uma pessoa compreende a lei, fala com a escola dos filhos, participa no debate público, compreende a história do país onde vive e se torna capaz de o habitar verdadeiramente.

Isto não significa, evidentemente, que qualquer pessoa que resida e trabalhe em Portugal tenha de falar português no primeiro dia. Seria uma exigência injusta. Quantos portugueses emigraram sem saberem dizer uma frase na língua do país que os recebia? Muitos. Quase todos. E nem por isso deixaram de se sacrificar e de contribuir para as sociedades que os receberam. Convém, por isso, alguma prudência perante a irritação fácil de quem entra num TVDE e se vê atendido em inglês com sotaque do Paquistão.

Não obstante, quem pretende tornar-se português deve demonstrar uma ligação efectiva à comunidade nacional. E essa ligação passa, inevitavelmente, pelo português como condição mínima de participação.

A questão, porém, tem um lado que raramente é discutido. Ou que deixou de se discutir. A pergunta que interessa (a primeira pergunta que deve ser feita) não é se os candidatos à nacionalidade conhecem suficientemente a língua portuguesa. É se o Estado português tem cuidado convenientemente dela. Antes de exigirmos aprendizagem, convinha garantir a estabilidade, previsibilidade e coerência da língua. Uma língua que não pareça, aos olhos de quem a aprende, um labirinto de facultividades.

O Acordo Ortográfico de 1990 regressa, e regressará, como regressam sempre os problemas mal resolvidos. Tentaram-nos convencer que o assunto estava encerrado. Havia uma nova norma, havia documentos oficiais, havia conversores automáticos, havia manuais escolares, havia imprensa a escrever assim; e quem resistia era tratado como saudosista, excêntrico, reaccionário ou simplesmente teimoso.

Mas a realidade tem uma enorme falta de respeito por decisões tomadas às três pancadas. Prometeu simplificação e multiplicou dúvidas. Prometeu unificar variantes nacionais da língua portuguesa e acabou por criar novas divergências e novas hesitações. Professores, alunos, revisores, editores, jornalistas, escritores e cidadãos passaram a viver com uma norma que exige mais interpretação do que aprendizagem.

Uma língua comum precisa de regras compreensíveis. Precisa de previsibilidade. Precisa de continuidade. Nenhuma comunidade política se fortalece quando a sua própria escrita se torna oscilante. E menos ainda quando as autoridades competentes, em vez de reconhecerem o problema, se limitam a repetir que está tudo resolvido porque um acordo assim o determinou.

Não está.

Houve, porém, quem, durante todo este tempo, não tenha deixado morrer o assunto. Nesse particular, a persistência do linguista Manuel Monteiro é notável. Através dos seus livros e textos no Público, fê-lo com recurso a exemplos tão corriqueiros quanto devastadores. Num dos seus textos sobre o Acordo, propôs uma sequência de frases banais, como esta: “Descaracterizámos ou deixámos descaracterizar Lisboa.” Somadas as várias facultatividades (consoantes, acentos, maiúsculas, formas aceites por uns prontuários e recusadas por outros), a sequência admitia 33.554.432 formas ortográficas possíveis. Parece absurdo? É a consequência lógica de uma norma que, em vez de estabilizar a escrita, multiplicou as suas possibilidades.

Esta preocupação não é exclusivamente portuguesa. Em 2024, a Assembleia Parlamentar da CPLP reconheceu a necessidade de rectificações ao Acordo Ortográfico, precisamente por este continuar a gerar controvérsia e confusão no espaço lusófono. O assunto que muitos davam por encerrado voltou, mais uma vez, pela porta da realidade.

E, na passada terça-feira, a Assembleia Municipal de Lisboa deu um sinal importante. O CDS-PP, no seu voto de saudação ao Dia Mundial da Língua Portuguesa, para além do reconhecimento de Lisboa como capital da lusofonia e da defesa da valorização internacional do português, abriu caminho a uma reavaliação política, científica e pedagógica da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

Foi surpreendente. Na votação por pontos, era possível imaginar que as referências ao Acordo Ortográfico caíssem, como tudo o que obriga a enfrentar problemas incómodos normalmente cai. Mas não caiu. Com votos a favor de PSD, Chega e IL e votos contra de PS, PCP, BE, Livre e PAN, Lisboa, capital de Portugal, cidade-sede da CPLP, lugar de encontro da lusofonia, afirmou com eloquência que, mais do que celebrações vazias, a língua portuguesa merece todo o cuidado.

Um erro é um erro. Por muito que se acredite na ideia de que o tempo o normaliza, ele teimará em regressar. Se queremos discutir nacionalidade e integração, comecemos pelo princípio. A língua é esse princípio. É a grande continuidade histórica de Portugal. Não pertence ao Estado, mas o Estado tem responsabilidades perante ela. Não pertence aos partidos, mas os partidos devem saber defendê-la. É a nossa primeira casa. E uma casa não se constrói na areia.

Receba um alerta sempre que Francisco Camacho publique um novo artigo.

Novo Acordo Ortográfico País Sociedade

 

sábado, 30 de maio de 2026

Linhas cruzadas

 

Mortíferas, nestes tempos pró russos.

Drone russo atinge prédio na Roménia.

“Putin sacode culpas, mas Europa e NATO dizem que a Rússia "cruzou mais uma linha"

MANUEL NOBRE MONTEIRO: Texto

CÁTIA ROCHA: Texto

UE acusa Rússia de ter "cruzado uma nova linha", NATO fala em "imprudência" e Moscovo nega qualquer responsabilidade. Sete pontos sobre o drone russo que fez dois feridos na cidade romena de Galaţi.

OBSERVADOR, 29 mai. 2026, 19:17

ÍNDICE

Como reagiu a Roménia? Forças Armadas romenas detectaram o drone. Qual a razão para não ser interceptado?   Qual foi a reacção da União Europeia?    Como reagiu a NATO?       Vários países manifestam solidariedade com Roménia e condenam acção russa         É a primeira vez que um drone russo entra no espaço aéreo de um país da UE e da NATO?       Rússia responde: “Acusações sobre drones em países da UE são todas infundadas”

90 quilómetros adentro da fronteira romena. Um rasto de três metros no relvado depois de ter batido e incendiado o décimo piso de um prédio residencial em Galaţi. Dois feridos. Cerca de 70 pessoas retiradas de casa. Galaţi é na Roménia, não longe das linhas que separam aquele país da Moldávia e da Ucrânia. O responsável por estes estragos é, já oficialmente confirmado, um drone russo, dos 43 com que ontem os russos atacaram — outra vez — os ucranianos. E as consequências só não foram piores porque o drone, o Geran-2, não transportava qualquer engenho explosivo. O detalhe ainda assim mais importante: a Roménia é um membro da NATO.

Por isso as reacções foram imediatas. O Presidente romeno, Nicușor Dan, foi o primeiro, afirmando que tinha avisado a NATO e todas as entidades europeias. Os aliados de Zelensky condenaram violentamente a acção. A NATO prometeu o reforço da capacidade de defesa e disse estar pronta para socorrer qualquer país da organização. Já o Kremlin garantiu que todas as acusações eram “infundadas” e Putin voltou à velha táctica de sugerir mesmo que o drone poderia ser ucraniano (depois de ficar provado que era russo).

As Forças Armadas romenas não interceptaram o aparelho por razões de “segurança”. Segundo o Kyiv Independent, o drone estava a ser usado durante um ataque aéreo à Ucrânia. O Ministério da Defesa romeno emitiu, entretanto, um comunicado no qual confirma que o drone entrou no espaço aéreo do país.A Federação Russa retomou os ataques com drones contra alvos civis e infraestruturas na Ucrânia, nas proximidades da fronteira fluvial com a Roménia. Este drone entrou no espaço aéreo romeno, tendo sido detetado pelo radar na zona sul da cidade de Galaţi, e despenhou-se no telhado de um bloco de apartamentos, tendo o impacto sido seguido de um incêndio”, pode ler-se.

Mas como é que o Governo romeno reagiu? Qual a razão para o drone não ter sido interceptado pelas Forças Armadas? O que a União Europeia e a NATO disseram? E a Rússia? Explicamos em seis pontos.

Como reagiu a Roménia?

Nicusor Dan, Presidente da Roménia, afirmou que o país irá usar “medidas proporcionais em relação à Rússia”, condenando aquele que “é o incidente mais grave” no país desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.

Termos e condições | Pinto Lopes Viagens

“O carácter sem precedentes do evento exige uma resposta firme, coordenada e à altura — a nível nacional, aliado e internacional”, escreveu o chefe de Estado na rede social X. O Presidente marcou logo uma reunião do Conselho Supremo de Defesa Nacional para esta sexta-feira, às 11h00 locais (9h00 em Lisboa).

“Declaro, com toda a firmeza, que a responsabilidade integral por este incidente cabe à Federação Russa“, sublinhou o Presidente romeno. “O que aconteceu em Galați é a consequência directa da guerra de agressão desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia, do modo irresponsável e indiscriminado em que Moscovo opera esses sistemas de armamento na vizinhança imediata das fronteiras da NATO, bem como do desprezo sistemático pelo direito internacional. Não há nenhuma ambiguidade quanto ao autor e à causa desta agressão”.

O chefe de Estado frisou que a Roménia “é um Estado-membro da NATO e não aceitará, de forma alguma, que a guerra de agressão travada pela Rússia contra a Ucrânia seja transferida para os cidadãos romenos”.

O apoio da Roménia à Ucrânia, a nível “político, humanitário, militar e no caminho da integração europeia, permanece inabalável“, disse ainda o Presidente romeno. “Quanto mais a Rússia continuar esta guerra, mais clara se torna a necessidade de que ela seja encerrada por uma paz justa e duradoura, que respeite a soberania, a independência e a integridade territorial da Ucrânia”.

Nicusor Dan anunciou, ainda, que o cônsul-geral russo é persona non grata. Segundo a agência romena Agerpres, o cônsul-geral deverá sair imediatamente do país e o consulado em Constanta deverá encerrar.

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Drone atingiu o décimo andar de um prédio residencial

AFP via Getty Images

Índice

Como reagiu a Roménia?

Forças Armadas romenas detectaram o drone. Qual a razão para não ser interceptado?

Qual foi a reacção da União Europeia?

Como reagiu a NATO?

Vários países manifestam solidariedade com Roménia e condenam acção russa

É a primeira vez que um drone russo entra no espaço aéreo de um país da UE e da NATO?

Rússia responde: “Acusações sobre drones em países da UE são todas infundadas

Ilie Bolojan, o primeiro-ministro da Roménia, afirmou, depois, que a incursão de um drone russo em espaço aéreo romeno “é inaceitável”.

“Condeno veementemente estas acções graves e apelo à Rússia para que pare de imediato”, reforçou o chefe do Governo romeno, citado pelo Digi24. Bolojan sublinhou que este incidente “é mais uma prova da importância” de reforçar a defesa romena.

O primeiro-ministro está de visita à Moldávia e não esteve presente na reunião do Conselho Supremo da Defesa Nacional, que teve lugar logo na manhã desta sexta-feira. A visita à Moldávia foi encurtada, com Bolojan a regressar à Roménia. “Estarei presente nas duas próximas reuniões”, confirmou.

Oana Toiu, ministra dos Negócios Estrangeiros da Roménia, revelou, também, que o país chamou o embaixador da Rússia ao ministério após o incidente com o drone russo. “A segurança da Roménia é a nossa prioridade absoluta”, explicou no X. “Tivemos a confirmação do Ministério da Defesa Nacional de que o drone que caiu num edifício residencial em Galaţi tinha origem russa”, contextualizou.

A decisão de convocar o embaixador russo na Roménia “foi tomada após este incidente extremamente sério” e “serão comunicadas oficialmente as consequências desta falta de responsabilidade da Federação Russa para as relações diplomáticas” entre os dois países.

Forças Armadas romenas detectaram o drone. Qual a razão para não ser interceptado?

Nicusor Dan explicou que as Forças Armadas da Roménia, que acompanharam o drone, decidiram não interagir com o alvo “porque não existiam condições para que fosse destruído sem comprometer a segurança da população“.

Após ter sido detectado o drone em espaço aéreo romeno, apenas dois caças F-16 e um helicóptero militar foram accionados. As autoridades decidiram não abrir fogo. A explicação foi dada pelo brigadeiro-general Gheorghe Maxim, que sublinhou um cenário em que a decisão ficou condicionada por vários factores.

Segundo o militar, o principal entrave foi jurídico, uma vez que as Forças Armadas romenas “não podem abrir fogo de forma a colocar em risco o espaço aéreo de um país vizinho”. “Além disso, atacar um alvo aéreo requer um certo tempo, que envolve detecção, identificação e envolvimento. Os quatro minutos que tínhamos à nossa disposição foram um período extremamente curto“, disse, citado pelo Ukrainska Pravda.

O responsável explicou também que os sistemas de defesa aérea da Roménia foram feitos antes de 2023, numa altura em que ainda não existia uma guerra de drones tão intensa como a actual. O país está agora a tentar modernizar estes sistemas. ”A Roménia solicitou aos aliados que enviassem mais capacidades antidrones para o país”, notou esta sexta-feira o Presidente romeno, com o intuito de fortalecer a defesa do país.

"Declaro, com toda a firmeza, que a responsabilidade integral por este incidente cabe à Federação Russa." Incisor Dan, Presidente da Roménia

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Epitáfio porquê? Para quê?

 

Somos quem somos, fazemos bem, fazemos mal, colaboramos na marcha do mundo com a nossa singularidade, note-se ou não. Como todos a têm, com mais ou menos poder. Creio que se o mundo proliferou tivemos participação nisso, boa ou má. Não digo que recolhamos à nossa insignificância, todos nós significamos qualquer coisa, mesmo que seja apenas no trabalho, nos filhos, na brincadeira. Esforcemo-nos, sim, como pudermos, para participar razoavelmente nos esforços em que nos comprometemos. Já seria bom se resultasse bem. Se, não, procuremos melhorar, talvez… Participemos… Ou não. Para participar como a Rússia, hoje, mais valia suspender, sem dúvida. e contemplar as estrelas. À noite. Dormir de dia. Tudo o que acontece por algum motivo é, é certo. A Historiografia que o diga. E o bla bla bla como este, também, talvez proveniente de cansaço, que pode terminar sem epitáfio.

Os 100 anos que ninguém notou

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido.

ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista

28 mai. 2026, 00:21

(1 Lei de retorno teria impedido libertação de narcotraficante

2 Entre eleições e não assuntos: desgaste de Governo sem rumo

3 Os 100 anos que ninguém notou

4 O 28 de Maio de há um século

5 A cova que Passos está a cavar

6 O veredito do fantasma)

Fosse biologicamente possível e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário – podemos não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais participação na forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo. Reconheço, porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E, todavia, tenho quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz comemorar umas efemérides e desviar os olhos de outras.

Em 2010, celebrámos durante um ano a implantação da República. Houve comissão para as comemorações, filmes, programas de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje, que faz precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime republicano, liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia dúzia de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim, bem sei que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem sei que vivemos em república até hoje – mas viver em república não é um bem por si mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que aconteceu há 100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em dar-lhe alguma atenção.

Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de Braga, em desfile país abaixo até à capital, não havia duas frentes em confronto, duas visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço, desilusão. Meros 16 incompletos anos depois, tinha fracassado a tentativa de implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe. Mas o país que também antes se tinha cansado da monarquia e, sobretudo, da corte, dos condes e dos barões, e que correra até com os padres e os frades na repetida ânsia de culpar alguém ou alguma coisa pelos males que o afligem, desembocara num estado de miséria ainda pior do que aquele em que se encontrava antes de 1910, esmagado pelas consequências da Guerra, em que se metera por vaidade dos protagonistas políticos preocupados com a afirmação do regime além-fronteiras (o clássico “para inglês ver”), pela gripe espanhola e, acima de tudo, pelo caos político e social.

Há cem anos, quando o resto do mundo ocidental celebrava os “loucos” anos 20, Portugal vivia a década em que mais divergiu economicamente dos seus parceiros de continente. Os governos sucediam-se à média de três a quatro por ano, de desilusão em desilusão, dilacerados, primeiro, pelo projecto hegemónico de poder de Afonso Costa e do Partido Republicano e, depois, pelas múltiplas correntes e dissidências. Ficou a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior, mas sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real.

O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido. Pior ainda do que em 1910, quando não se ofereceram mais do que Paiva Couceiro e umas centenas de militares para defender uma monarquia de quase 800 anos e que tanto nos orgulhávamos de, de tempos a tempos, ter salvo e recuperado quase por milagre, não apareceu sequer, dessa vez, um herói mais ou menos romântico que se atravessasse no caminho daRevolução Nacional”. Bernardino Machado, Presidente da República, e António Maria da Silva, primeiro-ministro, entregaram pacificamente o poder a Gomes da Costa quando este chegou a Lisboa, e até intelectuais como Fernando Pessoa defenderam, por um momento, a necessidade temporária de uma ditadura militar para “limpar” o país dos males causados pela I República.

Só que, atrás de Gomes da Costa, não estava qualquer projecto; estava um conjunto de gente que não podia pensar de formas mais distintas: monárquicos, republicanos, militares, maçons, católicos, quase todos desiludidos de alguma coisa. Unia-os a desilusão, o estarem fartos. Mas estar farto não é um projecto político, como se perceberia pela incapacidade de produzir um nos meses ou sequer anos seguintes. O que se sucederia não seria, portanto, propriamente, temporário, mas a mais longa ditadura da Europa Ocidental.

Em 1926, o regime caiu de podre; como em 1910; como, em boa parte, em 1974; como talvez seja a única maneira de mudar alguma coisa num país tão velho. Não por combate vigoroso ou sanguíneo, mas por desistência, por cansaço. 100 anos depois, os portugueses vivem extraordinariamente melhor do que nesse Portugal de então, mas os perigos do cansaço e da desilusão voltam a pairar por aí e a confundir-se, exactamente como há um século, com um “projecto”, uma “ideia” que, na verdade, ninguém sabe qual é, nem os próprios. Não temos ataques bombistas nem milícias a distribuir pancada pelas ruas, mas não falta, como em 1926, quem implore por “ordem”, “limpeza”, alguém que “pegue nisto”. Um descrédito das instituições, uma falta de pessoal “qualificado”, de vez em quando um ténue fantasma a espreitar: a “ingovernabilidade”. E agora, até uma geração que parece achar que um governo autocrático talvez nem seja coisa má de todo.

Poderíamos meditar um pouco nas razões destas nossas mortes recorrentes, destas quedas. Assinalar com pelo menos metade da pompa os funerais das efemérides que, tão galhardamente, nos ocupamos em celebrar. Para perceber as razões e melhor descortinar os inimigos. Afinal, em 1926, quando caiu a república livre e democrática, entregue a si mesma e à autodeterminação do seu destino, quem falhou não foram os reis, nem os padres, nem os militares, nem a extrema-esquerda, nem a extrema-direita. Fomos nós.

POLÍTICA HISTÓRIA CULTURA

COMENTÁRIOS (de 65)

Luis Fernandes Machado: Como sempre o Alexandre Borges é brilhante, mas há duas notas onde insiste, de certa forma, num erro de percepção institucionalizado: nem a Implantação da Republica em 1910 foi uma aspiração popular, surgida de um movimento popular consistente, nem a I República foi "livre e democrática". O derrube da monarquia foi um projecto de alguns poucos que, simplesmente, ambicionavam ocupar a posição na política e na sociedade ocupada antes por outros. Entre alguns poucos idealistas mais ou menos genuínos, como Machado dos Santos, ou proto-ditadores como Afonso Costa e seus muitos cúmplices, ninguém "pediu" licença ao povo, ninguém "ouviu" o povo e muito menos ninguém "consultou", antes ou depois, o povo sobre isso. Tal como uma certa ideologia política hoje em dia, "actuou em nome do povo, porque não podemos deixar ao povo a decisão do que quer".

O que aconteceu durante aqueles 16 anos, não foi mais liberdade, nem mais democracia que antes na Monarquia, nem sequer depois no Estado Novo. Foi antes um delírio à la revolução francesa de gente não recomendável que se serviu do país num banquete sanguinário, desde a insistência na participação idiota na Grande Guerra, contra a vontade dos próprios aliados, até à Camioneta Fantasma de 1921. Tal como o Napoleão foi a "salvação" das  loucuras da Revolução Francesa, também o Estado Novo acabou por o ser da I República.

Mas há uma ideia onde o Alexandre Borges está total e irremediavelmente correcto: o paralelismo com o que vivemos hoje é absoluto.

COMENTÁRIOS:

Df: Como podia a 1ª República ser "livre e democrática" se havia "milícias a distribuir pancada nas ruas" e o direito de voto era mais restrito do que na Monarquia? Algo não bate certo.

Francisco Almeida: Chamar república livre de democrata à ditadura "de facto" de Afonso Costa e do Partido Democrático, apenas define o autor. E mencionar o que o povo escolheu, quando se restringiu o direito de voto e quando as "revoluçõezinhas" a começar pela de 1910 eram decididas em Lisboa e comunicadas ao país por telégrafo, mete dó. Incidentalmente, é facto que a resistência se limitou a Paiva Couceiro mas houve motivos para isso. O general comandante militar de Lisboa deu ordem para dois regimentos saírem mas o cabo telegrafista era da Carbonária e, pura e simplesmente não enviou as mensagens. Para quem gosta de comparar revoluções, algo de semelhante aconteceu com a malograda saída do Regimento das Caldas em 16.3.1974. Presos todos os oficiais spinolistas o MFA ficou aberto a comunistas iinfiltrados e até foi escolhido para liderar um palhaço vaidoso e manipulável.

Ricardo Horta: Como se pode qualificar a I.ª República como uma "república livre e democrática" quando "... sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real."!!???

José Tomás: Um artigo com contradições - porque o autor sabe a história, (brilhantemente resumida no artigo de Nogueira Pinto), mas não abdica do mito - mas que é muito útil para chamar a atenção para isto: num tempo em que (graças à Internet) "os de sempre" perderam o exclusivo da narrativa e o poder de martelar os factos sem ninguém os contrariar, só lhe resta tentar que ninguém se lembre de que hoje faz 100 anos o 28 de Maio de 1926 (uma das 3 datas-chave do séc. XX português).

Maria Paula Silva: Excelente! Excelente análise histórica, de forma sintética e divertida. Fartei-me de rir porque, afinal, tanto faz o tipo de governo, somos mesmo  uma nhoca ingovernável  sem governantes qualificados.  Cem anos depois, uma análise perfeita da realidade actual.

Luis Monte Rosa, abre os olhos, se fores capaz! Não és, está mais que provado. Este artigo é extremamente oportuno mas, infelizmente, não vai servir de nada. Daqui a 100 anos alguém escreverá algo idêntico. Sempre achei interessante esta parecença de nomes (Gomes da Costa/Costa Gomes;  Afonso Costa/António Costa nos ciclos que se repetem).