Falo, naturalmente, dos States.
O feitiço Trump quebrou-se. A noite em que a impopularidade
do Presidente levou a uma vitória histórica dos democratas
Cátia Bruno: Texto
A "onda azul"
foi ainda mais avassaladora do que as sondagens previam. Democratas
conquistaram tudo o que podiam, à sombra do descontentamento com a guerra do
Irão. Mas Trump já ajusta o discurso.
OBSERVADOR, 04 nov. 2026, 06:59
Índice
A primeira reviravolta vinda das Carolinas e as
viradas na Câmara dos Representantes
Texas e Kansas. Talarico e Hamilton provam que é
possível conquistar até os estados mais republicanos
Perante uma derrota esmagadora, Trump ajusta o
discurso: “Vou trabalhar com os democratas”
Desta vez, as sondagens não falharam. Aliás, talvez
tenham falhado, mas por defeito. A vitória dos democratas nestas eleições intercalares
foi uma vitória em toda a linha: controlo da Câmara dos Representantes,
controlo do Senado e eleição de governadores em estados inesperados como o
Texas e o Iowa. Até à noite desta terça-feira, falava-se na possibilidade de
uma onda azul; na madrugada desta quarta, era evidente que o que deu à costa
foi um tsunami.
É uma vitória mais por demérito de Donald Trump do que
por mérito dos democratas. Embora a oposição tenha costurado uma
coligação de candidatos escolhidos à medida de cada estado — ora mais ao centro
nos locais mais conservadores, ora mais à esquerda em terreno favorável à
esquerda —, o
denominador comum da eleição foi o voto de rejeição à presidência. A guerra do Irão e a
subsequente escalada dos preços dos combustíveis, combinadas com o impacto das
tarifas em grupos como os agricultores e o desagrado com os raides do ICE entre
o eleitorado latino, levaram a popularidade de Trump a cair a pique. E, nestas eleições intercalares, os
eleitores fizeram questão de demonstrar o seu desagrado, rejeitando muitos
candidatos republicanos que tinham recebido o apoio directo do Presidente.
A primeira reviravolta vinda das Carolinas e as
viradas na Câmara dos Representantes
O primeiro sinal chegou com
a vitória na
Carolina do Norte de Roy Cooper, governador do estado
durante vários anos que conseguiu roubar o lugar no Senado aos republicanos.
O adversário, Michael
Whatley, tinha sido um dos poucos candidatos republicanos que se tinha
mantido firmemente ao lado de Trump. Depois vieram as vitórias
de Jon
Ossoff (Geórgia) e Chris Pappas (New Hampshire), que permitiram aos
democratas respirar de alívio por não terem perdido dois lugares fulcrais dos
que controlavam no Senado.
Ao longo da noite, os resultados que iam chegando da
câmara alta mantiveram vivas as esperanças dos democratas (e sublinharam o desagrado do
eleitorado com Trump). A segunda virada ocorreu com a vitória de Annie Andrews sobre
Darline Graham na Carolina do Sul — um estado que não vota num
Presidente democrata desde Jimmy Carter (1976). Trump tinha escolhido pessoalmente
Darline para ocupar o lugar no Senado do seu irmão Lindsay Graham, que morreu
em julho, e incentivou-a a candidatar-se para o continuar a substituir, apesar
da sua inexperiência. Foi a rejeição de um modus operandi de Trump que resultou ao
longo de vários anos, mas que parece estar a chegar ao fim.
GettyImages-2299767726
▲ Roy Cooper, eleito senador pela
Carolina do Norte
Índice
E os sinais não vinham
apenas das duas Carolinas. Na Flórida, a candidata apoiada pelos socialistas
democráticos (DSA) Angie Nixon não conseguiu conquistar o lugar no Senado, mas
bateu-se melhor do que o esperado — o que ilustra a queda do movimento MAGA até no
estado que ao longo dos últimos anos se tornou o expoente máximo do trumpismo.
Apesar do gerrymandering na Flórida que alterou as fronteiras dos círculos
eleitorais (deixando-os, em teoria, mais favoráveis aos republicanos),
os democratas tiveram três vitórias de peso para a Câmara dos
Representantes, nos distritos 14.º, 22.º e 25.º.
A onda azul foi varrendo múltiplos distritos por todo
o país. Na Pensilvânia, Page Cognetti e Bob Brooks roubavam lugares na Câmara a candidatos
republicanos; na Virgínia, Shannon Taylor derrotou um incumbente que estava no cargo há quase 20 anos, enquanto
a veterana da Marinha
Elaine Luria virou o 1.º distrito; o mesmo fizeram Jamie Ager na Carolina do Norte e Zach Dembo no
tradicionalmente republicano Kentucky. E Manny Rutinel foi outro democrata a
conseguir virar um distrito (o 8.º do Colorado).
Apesar de Rutinel e o bombeiro Brooks
não serem formalmente parte da ala dos socialistas democráticos (DSA), são
políticos cujas ideias se enquadram no discurso de crítica à desigualdade
económica, personificado nos milionários e grandes empresas, que se tem tornado
popular dentro do Partido Democrata — e que se tem revelado também popular
entre muitos eleitores. Os resultados de alguns candidatos do DSA em
territórios favoráveis aos democratas confirmam que não leram mal a sala: a Alexandra Ocasio-Cortez, Rashid
Tlaib, Ilhan Omar e Ayanna Pressley (a famosa “The Squad”), juntam-se agora na
Câmara dos Representantes figuras como Darializa Avila Chevalier (por Nova
Iorque), Melat Kiros (Colorado) e Donovan McKinney (Pensilvânia).
Texas e Kansas. Talarico e Hamilton provam que é
possível conquistar até os estados mais republicanos
Ainda não eram onze da noite na costa leste dos
Estados Unidos quando, dentro do Partido Republicano, já se reconhecia que a
noite estava a ser um desastre: “É muito pior do que se pensava”,
desabafou um responsável do partido ao Washington Post. Menos de meia hora
depois, a imprensa norte-americana confirmava que a Câmara dos
Representantes tinha sido conquistada pelos democratas.
Sobrava a dúvida do Senado: iria o Partido
Democrata conseguir conquistar os quatro lugares de que precisava para a
maioria (sem perder nenhum noutros estados)? A noite encarregar-se-ia de
responder rapidamente à pergunta. Uma hora depois do desabafo do republicano ao
Post, chegava uma avalanche de resultados que punha fim à dúvida: Texas, Ohio, Kansas, Iowa. Todos os
lugares do Senado nestes estados foram para os democratas.
A dimensão da vitória é histórica, mas o simbolismo de
algumas corridas também. A última vez que um democrata foi eleito para o Senado
no Texas foi em 1988 — ano em que o agora vencedor James Talarico ainda
não tinha nascido. O jovem de 37 anos é um dos rostos da mudança no Partido
Democrata, como ficou claro pelo tempo de antena que os canais de televisão
concederam ao seu discurso de vitória. Nem os milhões injectados na campanha do
adversário Ken Paxton por Elon Musk conseguiram travá-lo.
▲
James Talarico, eleito senador pelo Texas
Índice
No Ohio, Sherrod Brown reconquistou o lugar que
em tempos foi seu e que perdera com o regresso de Trump em 2024. No Iowa, a
estratégia centrista de Josh Turek revelou-se certeira, conseguindo
derrotar a republicana Ashley Hinson, que nas últimas semanas se tinha
tentado distanciar do Presidente. Talvez nada ilustre mais a viragem desta
noite do que a vitória do pastor Adam Hamilton no Kansas: republicano
tornado democrata, pintou de azul um estado que não elegia um senador democrata
há quase cem anos (a última vez foi em 1932).
Perante uma derrota esmagadora, Trump ajusta o
discurso: “Vou trabalhar com os democratas”
Perante a derrota, dentro da
Casa Branca começava a afinar-se a resposta. “O Presidente Trump não
estava no boletim de voto e está provado que os eleitores de Trump vão votar
quando é ele que está no boletim. Para além disso, a qualidade dos candidatos
importa e o Presidente fez um melhor trabalho a promover alguns dos candidatos
do que eles próprios”, soprou uma fonte da administração a alguns
jornalistas durante a noite. O mote estava dado: daqui para a frente,
a estratégia seria a de culpar os próprios candidatos e não o Presidente pela
derrota, apesar de todos os estudos de opinião indicarem que terá sido o contrário. Na
TruthSocial, Trump repetiu mais tarde o argumento e prometeu vetar tudo o que
os democratas aprovarem no Congresso.
Mas Trump não se tornou o maior disruptor da história
da política norte-americana por acaso. Fazendo uso do seu faro, ajustou o
discurso ao longo da noite: ao New York Times, disse estar “completamente
disponível” para aceitar os resultados e prometeu “trabalhar com os
democratas”; mais tarde, reconheceu à Fox News que as pessoas “não gostaram” da
subida de preços provocada pela guerra no Irão.
Índice
É que a derrota não se traduziu apenas na
reconfiguração do Capitólio. Por todo o país houve derrotas republicanas em
executivos locais, como no Iowa, onde os democratas voltaram a eleger um
governador pela primeira vez desde 2011, e no Texas, onde Greg Abbott perdeu
para Gina Hinojosa, que será a primeira governadora latina do estado. No Ohio,
um dos principais aliados do Presidente, Vivek Ramaswamy, também foi derrotado
— Amy Acton torna-se assim a primeira governadora democrata deste estado em 20
anos.
Já de madrugada, o Presidente continuava a
desdobrar-se em telefonemas e os democratas respiravam de alívio. Mas a eleição
ainda não tinha acabado. Corridas que durante semanas captaram toda a atenção
mediática, como a do Maine e a do Michigan para o Senado, pareciam agora
esquecidas. Até que os resultados saíram: no primeiro estado, a veterana
republicana Susan Collins perdeu; no segundo, Mike Rogers foi batido pelo
insurgente democrata Abdul El-Sayed. O apoio de Trump, que em tempos foi um
bálsamo para qualquer candidato republicano, não salvou nenhum deles. Pode até
ter decretado a sua derrota.
Estados Unidos da América América Mundo
COMENTÁRIOS:
Ricardo Frade
Não há muito a dizer. Trump
prometeu menos custo de vida, baixar a inflação de Biden, reverter a
desindustrialização, aumentar salários, fazer o tal “drain the swamp” de casos
como Epstein e afins, acabar com as guerras, reduzir imigração, eliminar o wokismo.
Cumpriu nas últimas duas.
O problema é que, cá como
lá, a malta vota com a carteira. A classe média está pior do que estava
e ninguém ganha eleições sem classe média.
Agora é o costume: Trump
vai dizer que não tem qualquer ligação ao desastre dos resultados e culpar os
senadores não eleitos por serem demasiado fracos. Não é leal a ninguém e
pede lealdade cega a todos. Um estrume de um homem que na véspera das
Midterms achou que seria boa ideia gabar-se, pela centésima vez, das obras que
está a fazer na sua Casa Branca.
Quem devia pedir um
impeachment a este presidente eram os próprios republicanos, para seu bem.
TM C
Vim aqui só para ler os
comentários chorosos dos apoiantes daquele estrupício.
Ricardo Frade > Garcia Moreno
Pois claro, já cá faltava a
culpa da guerra do Irão, do crescimento da inflação, do enfraquecimento da
classe média, do aumento do custo de muita matéria- prima por conta das
tarifas, do sufoco dos agricultores americanos, da corrupção endémica da
família Trump, fosse também ela toda dos russos.
L do Campo
É a "acampada" em
vez de "acampamento". Agora a jornalista entra na onda e fala em
"virada" em vez de "viragem"! Só falta falar em
"resultada" em vez de "resultado".
Nenhum comentário:
Postar um comentário