quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Um país grande

 

Falo, naturalmente, dos States.


O feitiço Trump quebrou-se. A noite em que a impopularidade do Presidente levou a uma vitória histórica dos democratas

Cátia Bruno:  Texto

A "onda azul" foi ainda mais avassaladora do que as sondagens previam. Democratas conquistaram tudo o que podiam, à sombra do descontentamento com a guerra do Irão. Mas Trump já ajusta o discurso.

OBSERVADOR, 04 nov. 2026, 06:59

Índice

A primeira reviravolta vinda das Carolinas e as viradas na Câmara dos Representantes

Texas e Kansas. Talarico e Hamilton provam que é possível conquistar até os estados mais republicanos

Perante uma derrota esmagadora, Trump ajusta o discurso: “Vou trabalhar com os democratas”

Desta vez, as sondagens não falharam. Aliás, talvez tenham falhado, mas por defeito. A vitória dos democratas nestas eleições intercalares foi uma vitória em toda a linha: controlo da Câmara dos Representantes, controlo do Senado e eleição de governadores em estados inesperados como o Texas e o Iowa. Até à noite desta terça-feira, falava-se na possibilidade de uma onda azul; na madrugada desta quarta, era evidente que o que deu à costa foi um tsunami.

É uma vitória mais por demérito de Donald Trump do que por mérito dos democratas. Embora a oposição tenha costurado uma coligação de candidatos escolhidos à medida de cada estado — ora mais ao centro nos locais mais conservadores, ora mais à esquerda em terreno favorável à esquerda —, o denominador comum da eleição foi o voto de rejeição à presidência. A guerra do Irão e a subsequente escalada dos preços dos combustíveis, combinadas com o impacto das tarifas em grupos como os agricultores e o desagrado com os raides do ICE entre o eleitorado latino, levaram a popularidade de Trump a cair a pique. E, nestas eleições intercalares, os eleitores fizeram questão de demonstrar o seu desagrado, rejeitando muitos candidatos republicanos que tinham recebido o apoio directo do Presidente.

A primeira reviravolta vinda das Carolinas e as viradas na Câmara dos Representantes

O primeiro sinal chegou com a vitória na Carolina do Norte de Roy Cooper, governador do estado durante vários anos que conseguiu roubar o lugar no Senado aos republicanos. O adversário, Michael Whatley, tinha sido um dos poucos candidatos republicanos que se tinha mantido firmemente ao lado de Trump. Depois vieram as vitórias de Jon Ossoff (Geórgia) e Chris Pappas (New Hampshire), que permitiram aos democratas respirar de alívio por não terem perdido dois lugares fulcrais dos que controlavam no Senado.

Ao longo da noite, os resultados que iam chegando da câmara alta mantiveram vivas as esperanças dos democratas (e sublinharam o desagrado do eleitorado com Trump). A segunda virada ocorreu com a vitória de Annie Andrews sobre Darline Graham na Carolina do Sul — um estado que não vota num Presidente democrata desde Jimmy Carter (1976). Trump tinha escolhido pessoalmente Darline para ocupar o lugar no Senado do seu irmão Lindsay Graham, que morreu em julho, e incentivou-a a candidatar-se para o continuar a substituir, apesar da sua inexperiência. Foi a rejeição de um modus operandi de Trump que resultou ao longo de vários anos, mas que parece estar a chegar ao fim.

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▲ Roy Cooper, eleito senador pela Carolina do Norte

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E os sinais não vinham apenas das duas Carolinas. Na Flórida, a candidata apoiada pelos socialistas democráticos (DSA) Angie Nixon não conseguiu conquistar o lugar no Senado, mas bateu-se melhor do que o esperado — o que ilustra a queda do movimento MAGA até no estado que ao longo dos últimos anos se tornou o expoente máximo do trumpismo. Apesar do gerrymandering na Flórida que alterou as fronteiras dos círculos eleitorais (deixando-os, em teoria, mais favoráveis aos republicanos), os democratas tiveram três vitórias de peso para a Câmara dos Representantes, nos distritos 14.º, 22.º e 25.º.

A onda azul foi varrendo múltiplos distritos por todo o país. Na Pensilvânia, Page Cognetti e Bob Brooks roubavam lugares na Câmara a candidatos republicanos; na Virgínia, Shannon Taylor derrotou um incumbente que estava no cargo há quase 20 anos, enquanto a veterana da Marinha Elaine Luria virou o 1.º distrito; o mesmo fizeram Jamie Ager na Carolina do Norte e Zach Dembo no tradicionalmente republicano Kentucky. E Manny Rutinel foi outro democrata a conseguir virar um distrito (o 8.º do Colorado).

Apesar de Rutinel e o bombeiro Brooks não serem formalmente parte da ala dos socialistas democráticos (DSA), são políticos cujas ideias se enquadram no discurso de crítica à desigualdade económica, personificado nos milionários e grandes empresas, que se tem tornado popular dentro do Partido Democrata — e que se tem revelado também popular entre muitos eleitores. Os resultados de alguns candidatos do DSA em territórios favoráveis aos democratas confirmam que não leram mal a sala: a Alexandra Ocasio-Cortez, Rashid Tlaib, Ilhan Omar e Ayanna Pressley (a famosa “The Squad”), juntam-se agora na Câmara dos Representantes figuras como Darializa Avila Chevalier (por Nova Iorque), Melat Kiros (Colorado) e Donovan McKinney (Pensilvânia).

Texas e Kansas. Talarico e Hamilton provam que é possível conquistar até os estados mais republicanos

Ainda não eram onze da noite na costa leste dos Estados Unidos quando, dentro do Partido Republicano, já se reconhecia que a noite estava a ser um desastre: “É muito pior do que se pensava”, desabafou um responsável do partido ao Washington Post. Menos de meia hora depois, a imprensa norte-americana confirmava que a Câmara dos Representantes tinha sido conquistada pelos democratas.

Sobrava a dúvida do Senado: iria o Partido Democrata conseguir conquistar os quatro lugares de que precisava para a maioria (sem perder nenhum noutros estados)? A noite encarregar-se-ia de responder rapidamente à pergunta. Uma hora depois do desabafo do republicano ao Post, chegava uma avalanche de resultados que punha fim à dúvida: Texas, Ohio, Kansas, Iowa. Todos os lugares do Senado nestes estados foram para os democratas.

A dimensão da vitória é histórica, mas o simbolismo de algumas corridas também. A última vez que um democrata foi eleito para o Senado no Texas foi em 1988 — ano em que o agora vencedor James Talarico ainda não tinha nascido. O jovem de 37 anos é um dos rostos da mudança no Partido Democrata, como ficou claro pelo tempo de antena que os canais de televisão concederam ao seu discurso de vitória. Nem os milhões injectados na campanha do adversário Ken Paxton por Elon Musk conseguiram travá-lo.

▲ James Talarico, eleito senador pelo Texas

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No Ohio, Sherrod Brown reconquistou o lugar que em tempos foi seu e que perdera com o regresso de Trump em 2024. No Iowa, a estratégia centrista de Josh Turek revelou-se certeira, conseguindo derrotar a republicana Ashley Hinson, que nas últimas semanas se tinha tentado distanciar do Presidente. Talvez nada ilustre mais a viragem desta noite do que a vitória do pastor Adam Hamilton no Kansas: republicano tornado democrata, pintou de azul um estado que não elegia um senador democrata há quase cem anos (a última vez foi em 1932).

Perante uma derrota esmagadora, Trump ajusta o discurso: “Vou trabalhar com os democratas”

Perante a derrota, dentro da Casa Branca começava a afinar-se a resposta. “O Presidente Trump não estava no boletim de voto e está provado que os eleitores de Trump vão votar quando é ele que está no boletim. Para além disso, a qualidade dos candidatos importa e o Presidente fez um melhor trabalho a promover alguns dos candidatos do que eles próprios”, soprou uma fonte da administração a alguns jornalistas durante a noite. O mote estava dado: daqui para a frente, a estratégia seria a de culpar os próprios candidatos e não o Presidente pela derrota, apesar de todos os estudos de opinião indicarem que terá sido o contrário. Na TruthSocial, Trump repetiu mais tarde o argumento e prometeu vetar tudo o que os democratas aprovarem no Congresso.

Mas Trump não se tornou o maior disruptor da história da política norte-americana por acaso. Fazendo uso do seu faro, ajustou o discurso ao longo da noite: ao New York Times, disse estar “completamente disponível” para aceitar os resultados e prometeu “trabalhar com os democratas”; mais tarde, reconheceu à Fox News que as pessoas “não gostaram” da subida de preços provocada pela guerra no Irão.

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É que a derrota não se traduziu apenas na reconfiguração do Capitólio. Por todo o país houve derrotas republicanas em executivos locais, como no Iowa, onde os democratas voltaram a eleger um governador pela primeira vez desde 2011, e no Texas, onde Greg Abbott perdeu para Gina Hinojosa, que será a primeira governadora latina do estado. No Ohio, um dos principais aliados do Presidente, Vivek Ramaswamy, também foi derrotado — Amy Acton torna-se assim a primeira governadora democrata deste estado em 20 anos.

Já de madrugada, o Presidente continuava a desdobrar-se em telefonemas e os democratas respiravam de alívio. Mas a eleição ainda não tinha acabado. Corridas que durante semanas captaram toda a atenção mediática, como a do Maine e a do Michigan para o Senado, pareciam agora esquecidas. Até que os resultados saíram: no primeiro estado, a veterana republicana Susan Collins perdeu; no segundo, Mike Rogers foi batido pelo insurgente democrata Abdul El-Sayed. O apoio de Trump, que em tempos foi um bálsamo para qualquer candidato republicano, não salvou nenhum deles. Pode até ter decretado a sua derrota.

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COMENTÁRIOS:

Ricardo Frade

Não há muito a dizer. Trump prometeu menos custo de vida, baixar a inflação de Biden, reverter a desindustrialização, aumentar salários, fazer o tal “drain the swamp” de casos como Epstein e afins, acabar com as guerras, reduzir imigração, eliminar o wokismo. Cumpriu nas últimas duas.

O problema é que, cá como lá, a malta vota com a carteira. A classe média está pior do que estava e ninguém ganha eleições sem classe média.

Agora é o costume: Trump vai dizer que não tem qualquer ligação ao desastre dos resultados e culpar os senadores não eleitos por serem demasiado fracos. Não é leal a ninguém e pede lealdade cega a todos. Um estrume de um homem que na véspera das Midterms achou que seria boa ideia gabar-se, pela centésima vez, das obras que está a fazer na sua Casa Branca.

Quem devia pedir um impeachment a este presidente eram os próprios republicanos, para seu bem.

TM C

Vim aqui só para ler os comentários chorosos dos apoiantes daquele estrupício.

Ricardo Frade > Garcia Moreno

Pois claro, já cá faltava a culpa da guerra do Irão, do crescimento da inflação, do enfraquecimento da classe média, do aumento do custo de muita matéria- prima por conta das tarifas, do sufoco dos agricultores americanos, da corrupção endémica da família Trump, fosse também ela toda dos russos.

L do Campo

É a "acampada" em vez de "acampamento". Agora a jornalista entra na onda e fala em "virada" em vez de "viragem"! Só falta falar em "resultada" em vez de "resultado".

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