quinta-feira, 1 de outubro de 2026

“Tudo são recordações”


“Sim, eu sei”. Das nossas vivências, de racionais que somos, capazes de as traduzir, oralmente, por escrito …

O insubstituível lugar do passado

Gonzalez não está “ilusionado” com o mundo que intui perigosíssimo. Quase tudo o desgosta, indigna ou revolta, por isso se mantém activo. Possui o instrumento da palavra, usa-a com propósito e mestria

“MARIA JOÃO AVILLEZ:  Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 30 set. 2026, 00:27

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1 A memória, indispensável instrumento de vida — nem sempre cuidado como merece – pode até chegar a ser um dom. É assim que o tomo por vezes: o dom de poder dizer: eu lembro-me; estive lá; eu conheço-o; eu vi, eu ouvi.

E de repente, há dias, num (inesquecível) jantar onde fui, era como se sobre a mesa estivesse pousado um ramo de memórias onde presente e passado valsavam sem fronteiras temporais e com desarmante naturalidade. Dirão, é a “idade”. Não é. Será antes o uso da atenção e da maior curiosidade sobre as coisas da vida e da natureza humana e as fantásticas (é a palavra) possibilidades que tive de as aplicar uma e outra.

2 O jantar era oferecido pela Brisa no âmbito do seu já tradicional encontro bienal, “Perspectivas – Reflexão Empresarial e Académica”. Juntou muita gente com boa – ou grande – assinatura no país, o Alentejo resplandecia, a ocasião proporcionava conversas muito interessantes entre os convivas, a guest star chamava-se Filipe Gonzalez (que depois conversaria com Paulo Portas).

Dir-se-á que existem no país diversas outras iniciativas, que há portugueses muito capazes, que o Alentejo é bonito, etc. Não: por detrás da altíssima qualidade e bom gosto daquela noite havia a memória de um passado e a herança duma impressão digital que ficou para todo o sempre impressa no país: a dos Mellos e do grupo que constituíram.

E de mansinho – mas já estou habituada – o passado instalou-se ali ao pé de mim, vinha para ficar. Lembrei-me de como, um bom par de anos antes de 1974, eu olhava para um muito dotado, enérgico e lúcido José Manuel de Mello, dizendo coisas mais à frente que outros e distinguindo-se deles; continuando com persistência e clarividência a formidável obra que era o Grupo CUF, criado pelo avô Alfredo da Silva; batendo-se para que se começasse a olhar melhor e mais fundo para a Europa e tentando convencer Marcelo Caetano a que também olhasse de modo, digamos, um pouco “diferente” dos cinco séculos precedentes, para a nossa então África. Sim, quase toda a gente sabe isso, mas nem toda a gente relaciona ou lembra a formidável importância de se manter uma herança, decidindo estar à altura dela no modo de servir Portugal: o país acima de tudo, a “cultura do saber mandar”, ancorada nos melhores valores e na sua permanente aplicação em qualquer dos ramos que iam constituindo o Grupo CUF, o valor da iniciativa, da inovação. Da não desistência em nenhuma circunstância.

3 Mário Soares percebeu a importância e a herança: fez este verão exactamente 50 anos que o recém-empossado primeiro-ministro do primeiro governo constitucional, ligou um dia para José Manuel de Mello e para seu irmão Jorge – ausentes do país devido à revolução – pedindo-lhes que viessem a Portugal almoçar com ele, a S. Bento: “que era preciso ele fazer para que voltassem ao país?” Voltaram: com a mesma cultura da casa e produzindo os resultados que se sabem. (E eu fiquei extraordinariamente feliz com as duas entrevistas que depois pude fazer a José Manuel de Mello, admirável e admirado cidadão português).

4 Voltando ao presente: aquela noite alentejana era de um dos seus filhos, Vasco, chairman da Brisa, mas (valsando de novo com o passado) podia ser do pai, do avô, do bisavô: tudo ali tinha a ver com a massa de que é feita a herança e por isso a evoquei hoje aqui: do sentido de “serviço” à capacidade de iniciativa, do acerto na escolha dos nomes envolvidos ao interesse para o país de algumas intervenções ouvidas no dia seguinte.

Nada disto tem absolutamente nada a ver com nostalgias despropositadas ou saudades de algum “antigamente”. Trata-se apenas – e não é pouco! – de algumas coisas que julgo deverem ser lembradas. O exemplo, a ética, os passos dados no país que quando trata deles está bem entregue.

Falei acima de escolhas, a César o que é de César: uma das melhores decisões do “sucessor” Vasco foi a escolha de António Pires de Lima, para CEO da mesmíssima Brisa. Observem-se os resultados, quem sabe, sabe.

(CONTINUA)

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