“Sim, eu sei”. Das nossas vivências, de racionais
que somos, capazes de as traduzir, oralmente, por escrito …
O insubstituível lugar do passado
Gonzalez não está “ilusionado” com o mundo que intui
perigosíssimo. Quase tudo o desgosta, indigna ou revolta, por isso se mantém
activo. Possui o instrumento da palavra, usa-a com propósito e mestria
“MARIA JOÃO AVILLEZ: Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 30 set. 2026, 00:27
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1 A memória, indispensável instrumento de vida — nem sempre cuidado como
merece – pode até chegar a ser um dom. É assim que o tomo por vezes:
o dom de poder dizer: eu lembro-me; estive lá; eu conheço-o; eu vi, eu ouvi.
E de repente, há dias, num (inesquecível) jantar onde
fui, era como se sobre a mesa estivesse pousado um ramo de memórias onde
presente e passado valsavam sem fronteiras temporais e com desarmante
naturalidade. Dirão, é
a “idade”. Não é. Será antes o uso da atenção e
da maior curiosidade sobre as coisas da vida e da natureza humana e as
fantásticas (é a palavra) possibilidades que tive de as aplicar uma e outra.
2 O jantar era oferecido pela Brisa no âmbito do seu já tradicional
encontro bienal, “Perspectivas – Reflexão Empresarial e Académica”.
Juntou muita gente com boa – ou grande – assinatura no país, o Alentejo
resplandecia, a ocasião proporcionava conversas muito interessantes entre os
convivas, a guest star chamava-se Filipe Gonzalez (que depois conversaria com Paulo Portas).
Dir-se-á que existem no país diversas outras iniciativas, que
há portugueses muito capazes, que o Alentejo é bonito, etc. Não: por detrás da
altíssima qualidade e bom gosto daquela noite havia a memória de um passado
e a herança duma impressão digital que ficou para todo o sempre impressa no
país: a
dos Mellos e do grupo que constituíram.
E de mansinho – mas já estou habituada – o passado
instalou-se ali ao pé de mim, vinha para ficar. Lembrei-me de como, um bom
par de anos antes de 1974, eu olhava para um muito dotado, enérgico e lúcido José Manuel de Mello, dizendo coisas mais à frente que
outros e distinguindo-se deles; continuando com persistência e clarividência a
formidável obra que era o Grupo CUF, criado pelo avô Alfredo da Silva;
batendo-se para que se começasse a olhar melhor e mais fundo para a Europa e
tentando convencer Marcelo Caetano a que também olhasse de modo, digamos, um
pouco “diferente” dos cinco séculos precedentes, para a nossa então África. Sim, quase toda a gente sabe isso,
mas nem toda a gente relaciona ou lembra a formidável importância de se manter
uma herança, decidindo estar à altura dela no modo de servir Portugal: o país
acima de tudo, a “cultura do saber mandar”, ancorada nos melhores valores e na
sua permanente aplicação em qualquer dos ramos que iam constituindo o Grupo
CUF, o valor da iniciativa, da inovação. Da não desistência em nenhuma
circunstância.
3 Mário
Soares percebeu
a importância e a herança: fez este verão exactamente 50 anos que o
recém-empossado primeiro-ministro do primeiro governo constitucional, ligou um
dia para José Manuel de Mello e para seu irmão Jorge – ausentes do país devido
à revolução – pedindo-lhes que viessem a Portugal almoçar com ele, a S. Bento:
“que era preciso
ele fazer para que voltassem ao país?” Voltaram: com a mesma cultura da casa e produzindo os resultados que se
sabem. (E
eu fiquei extraordinariamente feliz com as duas entrevistas que depois pude
fazer a José Manuel de Mello, admirável e admirado cidadão português).
4 Voltando
ao presente:
aquela noite alentejana era de um dos seus filhos, Vasco, chairman da Brisa, mas (valsando de novo com o passado)
podia ser do
pai, do avô, do bisavô: tudo ali tinha a ver com a massa de que é feita a herança e por isso a
evoquei hoje aqui:
do sentido de
“serviço” à capacidade de iniciativa, do acerto na escolha dos nomes envolvidos
ao interesse para o país de algumas intervenções ouvidas no dia seguinte.
Nada disto tem absolutamente nada a ver com nostalgias
despropositadas ou saudades de algum “antigamente”. Trata-se apenas – e não é
pouco! – de algumas coisas que julgo deverem ser lembradas. O exemplo, a ética, os passos dados
no país que quando trata deles está bem entregue.
Falei acima de escolhas, a César o que é de César: uma das melhores decisões do
“sucessor” Vasco foi a escolha de António Pires de Lima, para CEO da mesmíssima Brisa.
Observem-se os resultados, quem sabe, sabe.
(CONTINUA)
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