De VIDA(S):
Pessimista, a de JOÃO DE DEUS, radiosa a de MIGUEL TORGA, -
como preâmbulo lírico de uma História realista dos nossos tempos:
“A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!
João de Deus Ramos
Bucólica
A vida é feita de nadas;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga TORGA,
M., Diário, 1941.
George Clooney em Veneza: “Tenho 65 anos. Tudo é
melancólico...”
O norte-americano falou
à imprensa sobre a relação com o festival, a carreira, o jornalismo, a crise da
indústria cinematográfica e os desafios da IA. Recebe esta noite um Leão de Ouro
honorário.
Francisco
Ferreira (em Veneza): TEXTO
OBSERVADOR, 02 set. 2026, 15:47
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▲“Estamos a
atravessar uma revolução na nossa indústria e ela tem um nome: inteligência artificial", disse o actor
WireImage
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O Leão de Ouro à carreira que George Clooney vai receber
esta noite das mãos de Laura Dern (são amigos e contracenaram juntos há pouco, em Jay
Kelly) não foi a única coisa que trouxe o actor e realizador norte-americano
a Veneza. Clooney também está na Sereníssima para promover uma produção sua, Furies, história libanesa
realizada por Rami Kodeih, e co-produzida com o brasileiro Rodrigo Teixeira. Esse filme
será exibido fora de concurso.
Depois de se ter mudado para a
Europa com a mulher, Amal
Clooney, o “homem que tem tudo no sítio” (como em tempos lhe chamou uma
colega nossa de redacção) tem travado gradualmente o passo. Tornou-se
mais selectivo nos papéis que interpreta e afastou-se por tempo incerto da
realização para ocupar-se dos dois filhos gémeos do casal. A família
tem propriedades em França, no Reino Unido, e passa férias em Itália, no Lago
Como. A Veneza, Clooney deve imenso e destacou isso mesmo no princípio da tarde
desta quarta-feira, à conversa com a imprensa internacional, pois foi aqui, há
21 anos, que Boa Noite, e Boa Sorte foi lançado. Essa segunda longa-metragem
tornar-se-ía num dos seus trabalhos de melhor bilheteira.
Filho de um jornalista e
marido de uma advogada e activista cuja família também está ligada ao
jornalismo, Clooney
mostrou-se preocupado com a concentração dos meios de comunicação americanos
nas mãos de alguns dos homens mais ricos do mundo. “Eles são
actualmente donos do Washington Post, do Twitter e da maioria dos lugares onde obtemos
informação.
Claro que isso é preocupante”, afirmou. Mas recusou a ideia de que o
jornalismo está condenado. Pelo contrário, assinalou a sua mudança
constante: “Está sempre a ser posto à prova. Era assim no século XVIII e é assim
agora”.
Com a simpatia do costume,
respondendo a alguém que lhe perguntou sobre a melancolia da sua personagem em
Jay Kelly, respondeu assim: “Tenho 65 anos. Tudo é melancólico…
Literalmente. Lavas os dentes e pensas: ‘Os meus dentes costumavam ser muito
mais bonitos.’ Mas também me sinto sortudo, tenho uma mulher que me
ama, filhos maravilhosos e continuo a poder trabalhar quando quero. Há muitas
coisas no mundo que não estão bem e a nossa tendência enquanto seres humanos é
concentrarmo-nos nelas. Mas também temos de celebrar as coisas boas da vida.”
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▲
Clooney à saída da
conferência de imprensa desta quarta-feira
Variety via Getty Images
Curiosa foi a forma como
Clooney desvalorizou o facto de Hollywood estar a ter cada vez menos presença
nos grandes festivais de cinema europeus, como Cannes e Veneza. Para o
norte-americano, é consequência de uma transformação que já dura há décadas. Os
estúdios, explicou, passaram progressivamente a produzir filmes muito mais
caros, de grande escala (o recente A Odisseia é disso exemplo), à medida que
deixaram de apostar em filmes de dimensão intermédia, aqueles que,
tradicionalmente,
encontravam nos festivais a sua plataforma de lançamento. Recordou então a
época em que Hollywood produzia obras como Bonnie and Clyde ou Os Homens
do Presidente. Onde está esse cinema hoje?
Contudo, a maior
transformação nem é essa, referiu. “Estamos a atravessar uma revolução na nossa indústria e ela
tem um nome: inteligência artificial.” Clooney não
escondeu a inquietação perante o desenvolvimento da IA e a possibilidade de
poder ser “recriado” depois da morte: “Gostava de evitar aparecer num anúncio
de tampões 20 anos depois de estar morto”.
E rapidamente passou do humor à preocupação. Os
deepfakes, lembrou, permitem criar vídeos de pessoas a dizerem coisas que nunca
disseram e a fazerem coisas que nunca fizeram. E o problema deixa de
ser exclusivamente cinematográfico porque essas ferramentas entraram no
território da informação. “O que nos acontecerá se um governo que não temos a certeza de
ser particularmente inteligente se deparar com um vídeo falso de Putin a dizer
que lançou o primeiro ataque nuclear? Como vamos reagir face a esta dificuldade
crescente em distinguir o verdadeiro do falso? Vai ser cada vez mais difícil
para nós discernir a verdade daqui para a frente. Aquilo que é verdadeiro vai
também começar a ser posto em causa, ou seja [dirigindo-se aos jornalistas]:
Vai ser cada vez mais difícil para vocês fazerem o vosso trabalho.”
No fim da conversa,
Clooney voltou ao seu percurso para recordar que a carreira de um actor é feita
de altos e baixos. Veneza é a cidade em que casou, mas também aquela em que
conheceu os maiores dissabores profissionais. “A carreira de um actor nunca avança em linha recta.
Lembro-me de estar aqui com a Catherine Zeta-Jones para a estreia de Crueldade
Intolerável [2003], dos irmãos Coen, e as piadas do filme não funcionaram,
ninguém aderiu. São tantos os acidentes diferentes que nos trazem até aqui. Nos
maus momentos, ficamos a depender das pessoas a quem fomos gentis quando elas
precisaram de nós. Mas é preciso contar com a sorte ao longo de todo o caminho. Não tenho dúvidas disso.”
O autor escreve segundo
a antiga ortografia
Festival de Veneza
Cinema Cultura
COMENTÁRIOS:
Jose
Rodrigues: Um
hipócrita
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