quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Definições

  

De   VIDA(S):

Pessimista, a de JOÃO DE DEUS, radiosa a de MIGUEL TORGA, - como preâmbulo lírico de uma História realista dos nossos tempos:

 

“A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai:

A vida dura num momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que cai!

 

A vida é flor na corrente,

A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave:

 

Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares,

Uma após outra lançou,

A vida – pena caída

Da asa da ave ferida

De vale em vale impelida

A vida o vento levou!

João de Deus Ramos

 

Bucólica

A vida é feita de nadas;

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

De casas de moradia

Caiadas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

De poeira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga  TORGA, M., Diário, 1941.

 

George Clooney em Veneza: “Tenho 65 anos. Tudo é melancólico...”

O norte-americano falou à imprensa sobre a relação com o festival, a carreira, o jornalismo, a crise da indústria cinematográfica e os desafios da IA. Recebe esta noite um Leão de Ouro honorário.

Francisco Ferreira (em Veneza): TEXTO

OBSERVADOR, 02 set. 2026, 15:47

GettyImages-2293157494

Estamos a atravessar uma revolução na nossa indústria e ela tem um nome: inteligência artificial", disse o actor

WireImage

As mais lidas:

Uma cigana de direita

Quem pode usar bens apreendidos pelas polícias e para quê?

Morreu o ator brasileiro Gracindo Júnior aos 83 anos

Quem era a banqueira de 32 anos morta em Times Square?

Hugo Soares reage a Ventura: "Moção de censura é ridícula"

"Isto não acalmará". Bruxelas a ferro a fogo com tiroteios

O Leão de Ouro à carreira que George Clooney vai receber esta noite das mãos de Laura Dern (são amigos e contracenaram juntos há pouco, em Jay Kelly) não foi a única coisa que trouxe o actor e realizador norte-americano a Veneza. Clooney também está na Sereníssima para promover uma produção sua, Furies, história libanesa realizada por Rami Kodeih, e co-produzida com o brasileiro Rodrigo Teixeira. Esse filme será exibido fora de concurso.

Depois de se ter mudado para a Europa com a mulher, Amal Clooney, o “homem que tem tudo no sítio” (como em tempos lhe chamou uma colega nossa de redacção) tem travado gradualmente o passo. Tornou-se mais selectivo nos papéis que interpreta e afastou-se por tempo incerto da realização para ocupar-se dos dois filhos gémeos do casal. A família tem propriedades em França, no Reino Unido, e passa férias em Itália, no Lago Como. A Veneza, Clooney deve imenso e destacou isso mesmo no princípio da tarde desta quarta-feira, à conversa com a imprensa internacional, pois foi aqui, há 21 anos, que Boa Noite, e Boa Sorte foi lançado. Essa segunda longa-metragem tornar-se-ía num dos seus trabalhos de melhor bilheteira.

Filho de um jornalista e marido de uma advogada e activista cuja família também está ligada ao jornalismo, Clooney mostrou-se preocupado com a concentração dos meios de comunicação americanos nas mãos de alguns dos homens mais ricos do mundo.Eles são actualmente donos do Washington Post, do Twitter e da maioria dos lugares onde obtemos informação. Claro que isso é preocupante”, afirmou. Mas recusou a ideia de que o jornalismo está condenado. Pelo contrário, assinalou a sua mudança constante: “Está sempre a ser posto à prova. Era assim no século XVIII e é assim agora”.

Com a simpatia do costume, respondendo a alguém que lhe perguntou sobre a melancolia da sua personagem em Jay Kelly, respondeu assim: “Tenho 65 anos. Tudo é melancólico… Literalmente. Lavas os dentes e pensas: ‘Os meus dentes costumavam ser muito mais bonitos.’ Mas também me sinto sortudo, tenho uma mulher que me ama, filhos maravilhosos e continuo a poder trabalhar quando quero. Há muitas coisas no mundo que não estão bem e a nossa tendência enquanto seres humanos é concentrarmo-nos nelas. Mas também temos de celebrar as coisas boas da vida.”

GettyImages-2292599382

Clooney à saída da conferência de imprensa desta quarta-feira

Variety via Getty Images

Curiosa foi a forma como Clooney desvalorizou o facto de Hollywood estar a ter cada vez menos presença nos grandes festivais de cinema europeus, como Cannes e Veneza. Para o norte-americano, é consequência de uma transformação que já dura há décadas. Os estúdios, explicou, passaram progressivamente a produzir filmes muito mais caros, de grande escala (o recente A Odisseia é disso exemplo), à medida que deixaram de apostar em filmes de dimensão intermédia, aqueles que, tradicionalmente, encontravam nos festivais a sua plataforma de lançamento. Recordou então a época em que Hollywood produzia obras como Bonnie and Clyde ou Os Homens do Presidente. Onde está esse cinema hoje?

Contudo, a maior transformação nem é essa, referiu. “Estamos a atravessar uma revolução na nossa indústria e ela tem um nome: inteligência artificial.” Clooney não escondeu a inquietação perante o desenvolvimento da IA e a possibilidade de poder ser “recriado” depois da morte: “Gostava de evitar aparecer num anúncio de tampões 20 anos depois de estar morto”.

E rapidamente passou do humor à preocupação. Os deepfakes, lembrou, permitem criar vídeos de pessoas a dizerem coisas que nunca disseram e a fazerem coisas que nunca fizeram. E o problema deixa de ser exclusivamente cinematográfico porque essas ferramentas entraram no território da informação. “O que nos acontecerá se um governo que não temos a certeza de ser particularmente inteligente se deparar com um vídeo falso de Putin a dizer que lançou o primeiro ataque nuclear? Como vamos reagir face a esta dificuldade crescente em distinguir o verdadeiro do falso? Vai ser cada vez mais difícil para nós discernir a verdade daqui para a frente. Aquilo que é verdadeiro vai também começar a ser posto em causa, ou seja [dirigindo-se aos jornalistas]: Vai ser cada vez mais difícil para vocês fazerem o vosso trabalho.”

No fim da conversa, Clooney voltou ao seu percurso para recordar que a carreira de um actor é feita de altos e baixos. Veneza é a cidade em que casou, mas também aquela em que conheceu os maiores dissabores profissionais.A carreira de um actor nunca avança em linha recta. Lembro-me de estar aqui com a Catherine Zeta-Jones para a estreia de Crueldade Intolerável [2003], dos irmãos Coen, e as piadas do filme não funcionaram, ninguém aderiu. São tantos os acidentes diferentes que nos trazem até aqui. Nos maus momentos, ficamos a depender das pessoas a quem fomos gentis quando elas precisaram de nós. Mas é preciso contar com a sorte ao longo de todo o caminho. Não tenho dúvidas disso.”

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Festival de Veneza       Cinema       Cultura

COMENTÁRIOS:

Jose Rodrigues: Um hipócrita

Nenhum comentário: