Mas quanta civilização, quanta descoberta se lhes deve! Afinal, o resto do mundo foi-se alargando por conta desse continentezinho ambíguo mas corajoso q.b.… Mesmo a Islândia…
A nega da
Islândia à União Europeia
Seria bom que a UE
aproveitasse esta rejeição para um exercício de auto-análise sobre os seus
próprios problemas internos.
André Azevedo Alves Professor do Instituto de
Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa
OBSERVADOR, 02 set. 2026, 00:22
No dia 29 de Agosto, os
islandeses foram às urnas e rejeitaram em referendo a possibilidade de reabrir
negociações de adesão à União Europeia. A primeira-ministra
socialista Kristrún Frostadóttir havia prometido realizar um referendo antes de
2027 e o resultado, com 52,8% dos islandeses a rejeitarem a proposta
apresentada pelo Governo por si liderado, constitui uma derrota política que já
se comprometeu a respeitar.
A campanha pelo “Sim” foi
inteligente, assentando no slogan “Já til ad sjá” (que pode ser traduzido por
algo como “Sim para descobrir”) para tentar contrariar um sentimento
popular tradicionalmente muito céptico quanto à possibilidade de
integração na UE. A ideia do Governo era tentar que o “Sim”
pudesse triunfar numa lógica de abrir caminho à descoberta do que a UE poderia
oferecer à Islândia num contexto de abertura de negociações – e não como um
compromisso sem retorno de integração na UE.
Ainda assim, e apesar desta
estratégia de campanha inteligente e bem financiada, apenas uns
insuficientes 47,2% votaram a favor, um resultado que certamente causou mais uma desilusão
aos eurocratas sediados em Bruxelas. Num contexto em que a política
externa errática de Trump – e em especial as afirmações sobre a Gronelândia –
poderiam favorecer a lógica de integração na UE, este resultado pode parecer
particularmente intrigante. Mas será menos se atendermos às razões económicas e
políticas que lhe estão subjacentes, assim como à debilidade institucional e de
liderança da própria UE.
Em primeiro lugar, a
Islândia está longe de estar isolada do resto da Europa. A sua pertença
desde 1994 ao Espaço Económico Europeu (juntamente com a Noruega e o
Liechtenstein) proporciona um elevado grau de integração económica ao mesmo
tempo que preserva uma substancial autonomia em matérias cruciais para a
Islândia como as pescas, a agricultura, a política monetária e alguns aspectos
do comércio internacional. A preservação dessa autonomia foi um dos principais elementos
valorizados por quem votou “Não” no referendo, receando especialmente a perda
de autonomia em matéria de pescas, uma actividade fundamental para o país.
Ainda no plano económico, também terá pesado o facto de que a
próspera Islândia iria contribuir muito mais em termos líquidos para a UE do
que iria receber. Da mesma forma que os eurocratas viam a
potencial integração da Islândia como uma fonte adicional de rendimento para
redistribuir (e até para compensar os custos com a potencial integração de
países como o Montenegro), os islandeses que votaram “Não” expressaram a sua
rejeição dessa equação.
Adicionalmente, no plano político pesou também a
forte identidade nacional dos islandeses, forjada ao longo de séculos
frequentemente em contextos e grande adversidade. O árduo caminho até à conquista da
soberania perante a Dinamarca em 1918 deixou marcas profundas. O mesmo pode ser
dito dos inúmeros conflitos que os islandeses enfrentaram ao longo da sua
história para preservar os seus recursos marítimos de vários tipos de incursões
e ameaças externas.
Finalmente, as próprias perspectivas oferecidas pelo
estado da UE também não terão sido suficientemente persuasivas para a maioria
dos eleitores islandeses. Infelizmente para os europeus de
países membros (como Portugal), a UE é hoje um bloco em notório declínio
político, económico e demográfico. A Islândia partilha alguns desses
problemas, mas tem uma economia bem mais robusta (por exemplo com um PIB per
capita que é cerca do dobro da média da UE e com um forte pilar de
capitalização no seu sistema de pensões, um dos mais sustentáveis do mundo) e,
apesar das dificuldades e incertezas recentes, uma aliança de defesa sólida com
os EUA, que a maioria dos islandeses deseja manter. Integrar um
bloco em decadência geopolítica e que conta nos seus mais altos cargos com uma
linhagem de figuras que oscilam geralmente entre o ridículo e o deprimente –
veja-se, por exemplo, o caso de Ursula von der Leyen – não foi, assim,
compreensivelmente um cenário suficientemente atractivo para os islandeses.
Seria bom que a UE
aproveitasse esta rejeição para um exercício de auto-análise sobre os seus
próprios problemas internos, mas infelizmente é pouco provável que tal
aconteça.
União Europeia Europa
Mundo Islândia
COMENTÁRIOS
José B
Dias: Subscrevo!
Ruço
Cascais: Bater na UE é a praxe da maioria dos comentadores.
A UE está em declínio
político económico e demográfico, diz o Sr. André. Está tão em declínio que
todos os habitantes de outras regiões do mundo sonham em vir para cá viver.
A União Europeia não é uma
federação de estados.
Do ponto de vista
civilizacional quem está em declínio é a Rússia que ataca os vizinhos, os
Estados Unidos com este presidente, o Brasil com o seu habitual carnaval
político, a China com a sua ditadura social, o Irão com os Aiatolás, um Medio
Oriente sempre a arder, a Coreia do Norte que antagoniza com democracia e
liberdade e grande parte do continente africano que não consegue sair da
corrupção nem crescer para sociedades desenvolvidas.
Não é a União Europeia
que está em declínio, é o resto do mundo. Não obstante, a União Europeia
tem muitas reformas para fazer e tem muito que melhorar. Uma delas é não ser um
destino premiado para os políticos dos seus diversos estados, como é o caso de
António Costa. Outra, e sem dúvida a grande transformação que permitiria ter
uma União Europeia muito mais unificada e a funcionar em bloco é a federação da
União. Um presidente comum eleito com a sua respectiva administração.
É possível uma federação da
União Europeia? R: é, um ataque da Rússia a um membro da União Europeia, algo
muito previsível segundo os analistas, pode ser o "boost" para a
federação da União Europeia sem pruridos nem hipocrisia.
Não é a União Europeia que está em declínio, é o resto do mundo. A Islândia ter preferido manter o actual estatuto, não foi nenhuma derrota para a União. Se a Islândia fizesse um referendo para integrar a federação russa, o não seria praticamente absoluto
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