(O bocado para quem o há-de comer), costuma-se dizer. Provavelmente serão muitos desses atacantes desse passado prioritário – conquanto não exclusivo – português, os que hoje mais e melhor saboreiam os extractos desse passado descoberto por gente valente. E curiosa. Que sempre admiraremos, enquanto vivos formos.
A nazificação do passado europeu
Para a ONU, o infante D. Henrique teria sido um
Himmler, Vasco da Gama um Goering, Camões um Goebbels, e o ultramar português
um campo de extermínio como Auschwitz.
RUI RAMOS, Colunista do Observador
OBSERVADOR, 02 out. 2026, 00:25
O tráfico de escravos e a escravidão não singularizam as
nações europeias na história da humanidade: o que as singularizou foi terem
sido elas, antes de qualquer outra civilização, a proibir o tráfico e a abolir
a escravidão. Poderiam, por isso, esperar algum reconhecimento. Mas não. É ao
contrário: a assembleia geral da ONU, a 25 de Março, identificou os europeus
como os únicos culpados do tráfico de escravos, e exige-lhes, duzentos anos
depois, “reparações”.
Tudo isto é absurdo, e desde logo o princípio de litigar o
que aconteceu há séculos. Mas mesmo aceitando esse anacronismo, a incongruência
persiste. As potências muçulmanas do Médio Oriente tiraram tantos escravos de
África como os europeus. Porque é que a Turquia ou o Omã não são interpelados?
E porque é que, além dos descendentes dos compradores europeus de escravos, não
são convocados os descendentes dos vendedores africanos de escravos, como a
rainha Nzinga de Angola, sem os quais não teria havido tráfico?
O objectivo é político e muito claro: culpar o Ocidente. O
método também é óbvio. A resolução da ONU classifica o tráfico de escravos
africanos no Atlântico pelos europeus como “o mais grave crime contra a
humanidade” na história do mundo. É fácil de ver onde se quer chegar, ao usar
termos outrora reservados ao extermínio dos judeus pela Alemanha nazi: tratar
os europeus como se todos tivessem sido sempre nazis e tudo o que fizeram no
mundo equivalesse ao holocausto. O infante D. Henrique teria sido um Himmler,
Vasco da Gama um Goering, Camões um Goebbels, e o ultramar português um campo
de extermínio como Auschwitz. Aos europeus, restaria uma maneira de se
redimirem: renegarem o seu passado, e aceitarem que são os únicos povos que no
mundo não têm direito à continuidade histórica nem à soberania política.
Quando percebemos isto, percebemos que o problema não são as
ditaduras africanas. É a esquerda revolucionária ocidental, e o ascendente que
adquiriu através do wokismo: a linguagem da resolução da ONU é sua. Para a
extrema-esquerda, a criminalização do passado ocidental serve dois fins: levar
os ocidentais a desligarem-se das identidades e instituições que assentam nesse
passado, e que são factores de resistência às revoluções que a extrema-esquerda
gostaria de promover; e dissuadir os imigrantes do Terceiro Mundo de se
integrarem em sociedades assim expostas como as mais abjectas da história. Num
Ocidente reduzido a um aglomerado de populações sem nada de comum entre si,
umas cheias de culpas e outras de ressentimentos, as revoluções voltariam a ser
possíveis.
Mas não é só a esquerda revolucionária. Ao seu lado, estão os
idiotas úteis de um eurocentrismo às avessas, convencidos de que o destino da
Europa é agora expiar todos os pecados do mundo, e uma velha oligarquia cobarde
e oportunista, que trata as “reparações” como uma simples e manhosa concessão
ao “ar do tempo”, para facilitar traficâncias com ditadores. De facto, não nos
devemos indignar com quem exige desculpas e reparações, mas com quem não é
capaz de as recusar, como os Estados europeus que se abstiveram na votação da
ONU e agora andarão a negociar com o Gana. O governo português já negou estar a
negociar. Mas Portugal foi um dos Estados que se absteve na ONU, isto é, que
não teve a sabedoria e a coragem de defender o seu passado e os seus valores.
Nada ameaça tanto a democracia e o Estado de direito no Ocidente como estas
oligarquias moral e intelectualmente desarmadas, e por isso incapazes de
guardar e valorizar a história das nações ocidentais.
Escravatura Sociedade
Indemnizações Justiça Ocidente Mundo
Wokismo Cultura Extrema Esquerda Política
(CONTINUA)
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