Com a velha ênfase do nosso preito – e do nosso peito - a velha expressão “Dar barraca”.
Budapeste 1956: nos 70 anos de uma velha jornada antifascista
Nos 70 anos da revolta
da Hungria, talvez valha a pena lembrar uma das históricas “jornadas
anti-fascistas”, cuja retórica vemos agora delirantemente repetida como se em
nada tivesse já resultado
JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador
OBSERVADOR,
05 nov. 2026, 00:25
(As
mais lidas)
(Acampadas. Chuva preocupa Lisboa, Porto vai a reunião
com PR
A impopularidade de Trump levou a uma vitória
histórica
Eleições intercalares nos EUA: os resultados em directo
Missão de paz na Ucrânia poderá retaliar ataques
russos
Estrangeiros podem perder residência. PS fala em
intimidação
Sismo. Protecção Civil alerta para importância de
saber agir)
No mundo encantado dos partidos comunistas
revolucionários, das assembleias populares e do povo unido – ao Rossio, em
Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto – as barraquinhas são “simbólicas”. Vendem nostalgia revolucionária e
oferecem uma experiência de degustação insurrecional, que pode incluir carga
policial e eventual pirotecnia (de militantes de extrema-direita ou
de agentes infiltrados, evidentemente).
A esta feira de
Outubro da revolução, que promete estender-se até ao Natal e até desalojá-lo da
praça lisboeta, acorrem ávida e carinhosamente o grosso da imprensa e alguns
inocentes, preocupados com a falta de habitação e crentes nas boas intenções e
na eficácia dos “activistas” em resolver este e outros problemas,
incluindo o da Palestina, através de mais uma “jornada de luta antifascista”.
A luta, que começou por ser pela habitação, é agora
contra a violência da polícia “infiltrada pela extrema-direita” e contra um
“perigo fascista”, entretanto também já transformado em “fascismo” tout court.
Aparentemente, o marxismo-leninismo, ali apregoado para combater o fascismo
anunciado e denunciado, deve tomar-se por mera exibição de bom coração e simples
demonstração das melhores intenções, isentas de todo o propósito ou pulsão
violenta, de todo o financiamento, de toda a ligação internacional, de toda a
História acontecida.
Por isso, nos 70 anos do
esmagamento da revolta da Hungria, talvez valha a pena recordar uma das
históricas “jornadas anti-fascistas” cuja retórica vemos agora delirantemente
repetida, como se a nada de concreto correspondesse ou nada dali tivesse já resultado.
Quando a carga sobre os manifestantes é libertadora
Foi há precisamente 70 anos na Hungria, quando do
levantamento popular de Budapeste. A Hungria tinha sido, como uma série
de países da Europa Oriental, conquistada e ocupada pelo Exército Vermelho na
sua marcha para Ocidente, atrás das forças da Wermacht. Os húngaros tinham já passado, a
seguir à Grande Guerra, por uma curta experiência comunista – o governo de Béla
Kun, de má memória. Béla Kun acabara liquidado por Estaline, com outros dirigentes comunistas, nas
grandes purgas de 1938. Por isso, no fim de 1944, dado o “desaparecimento” de Kun, Mátyás Rákosi, outro comunista incondicional, foi
enviado para Budapeste. Ali, com a cumplicidade dos ocupantes soviéticos, os
comunistas ficaram com o Ministério do Interior, que lhes dava o controlo das
polícias. Dividiram a oposição e tornaram-se donos do poder. Tudo isto entre 1945 e 1948, ainda no
tempo de Estaline.
A Esquerda radical e os
seus cúmplices mediáticos, que sempre procuram convencer os mais distraídos ou
ignorantes que o comunismo é uma coisa boa desvirtuada por homens maus,
como Estaline, Mao
Tsé-Tung, Pol-Pot, foram fazendo o seu trabalho. Ora foi
já no tempo do reformista
Kruschev – o
do 20º Congresso e da denúncia e saneamento post mortem de Estaline
– que se deu a
tragédia da revolta húngara e do seu esmagamento. O anti-estalinismo de Kruschev
animara os húngaros, que desceram à rua para acabar com o poder comunista e a
ocupação soviética e libertar milhares de presos políticos, como o cardeal
Mindszenty, na prisão desde 1949.
Tal como muitas coisas boas – e outras menos boas –,
tudo começou por uma revolta estudantil em Budapeste, em 23 de Outubro de 1956.
Ao tempo,
a contestação percorria a Europa Oriental. Em Junho desse ano, tinham
estalado movimentos de protesto em Póznam, na Polónia; e em Julho, na
Hungria, Moscovo substituíra Mátyás Rákosi por um outro comunista estaliniano,
Ernö Gerö. Nesse 23 de Outubro, a ÁHV, a polícia secreta comunista,
que contava com
50.000 homens e era temida e odiada em todo o país, abriu fogo sobre a multidão. Os rebeldes derrubaram a estátua de Estaline (da qual só ficaram as botas)
e assaltaram
a sede da Secreta comunista. Perante a pressão da rua, as
tropas soviéticas retiraram e um comunista “nacional” e moderado, Imre Nagy, foi nomeado primeiro-ministro
e tentou uma democratização do regime.
Esta relativa tranquilidade durou até 3 de Novembro.
A 4, fez ontem 70 anos, os tanques
soviéticos voltavam para a jornada de luta anti-fascista. Depois de combates sangrentos,
reconquistaram Budapeste, esmagando os húngaros que se tinham revoltado.
Eram mais de 1.100
carros de combate e 31.500 militares. O embaixador soviético em Budapeste
sossegara Nagy, dizendo-lhe que Moscovo não ia intervir. Uma delegação húngara, chefiada pelo
coronel Pál Maléter, novo ministro da Defesa, que negociava com os russos em
Tököl, perto de Budapeste, foi detida pelo KGB.
Nos combates de rua, os
civis húngaros tiveram mais de 2.000 mortos e 13. 000 feridos; e os soviéticos,
mais de 700 mortos e cerca do dobro dos feridos. Esmagada a revolta, começou a
repressão: cerca de 26.000 húngaros foram detidos e julgados, 13.000 ficaram
presos e 350 foram executados. Duzentos mil tinham já conseguido fugir. Kadar
foi nomeado primeiro-ministro.
Alguns comunistas
dissidentes, como Nagy
e o filósofo Georg Lukács, refugiaram-se na embaixada jugoslava. Nagy foi depois entregue
aos seus compatriotas comunistas e enforcado. Bem como Maléter, também ele enforcado
nesse mesmo dia.
“Fascismo nunca mais!”
A propaganda soviética descrevia os rebeldes húngaros
como “hooligans fascistas, hitlerianos, reaccionários e
contra-revolucionários”, dizendo-os “financiados pelos imperialistas do
Ocidente para organizar a contra-revolução”. Difundia-se depois
na imprensa de referência soviética o desfecho feliz: “um grupo de patriotas húngaros,
dirigidos por Kadar” formara “um verdadeiro governo patriota” e pedira “auxílio
ao comando soviético para reprimir a contra-revolução”. Era o fim do “perigo fascista”. Tudo acabara
em bem.
Em Budapeste, na rua
Andrássy, número 60 – onde se sediaram sucessivamente o partido Cruzes de
Flecha, o partido hitlerista e anti-semita que tomara o poder com a queda do
governo Horthy, em 1944, e a Secreta comunista, ÁHV – funciona hoje um museu, a chamada “Casa do Terror”. Ali, a par de salas da direcção
policial comunista, estão algumas das celas ocupadas por menores presos na
revolta de 1956 e condenados à morte. Humanistas e legalistas
como só os idealistas de esquerda sabem e podem ser, os comunistas não
atentaram contra o Estado de Direito:
mantiveram os
menores nas celas até perfazerem 18 anos – só depois, já adultos, os
enforcaram.
Em Portugal, o jornal Avante!, na clandestinidade,
esclarecia-nos sobre o que realmente acontecera na Hungria: Imre Nagy, o
primeiro-ministro húngaro, era “um fantoche dos contra-revolucionários” e a
revolta não tinha passado de uma “conspiração, orientada pelos Estados Unidos,
para derrubar o regime socialista e entregar o poder a um governo fascista e
capitalista”. A
intervenção soviética mais não fora do que uma jornada democrática para
libertar o povo húngaro do “golpe fascista” que “as mais negras forças da
reacção internacional” preparavam. Entre estas “mais negras forças”
estava, evidentemente “o governo de Salazar”.
Desta vez, na América
Entretanto, na América do Norte, a intervenção da
Rússia de Putin nas eleições para acabar com a democracia, favorecendo os
candidatos fascistas ao Congresso e ao Senado (anunciada, pelo sim pelo não,
nos círculos democráticos), falhou rotundamente.
A velha União Soviética era mais eficaz. Tanto que os
seus imorredoiros ideais, devidamente expurgados da jornada húngara de há 70
anos e de muitas outras jornadas históricas, parecem continuar a fazer caminho
como mera exibição de bons sentimentos, de bom coração e da melhor das
intenções.
HUNGRIA MUNDO
COMENTÁRIOS
Fernando ce
agora
Uma voz indispensável . Adoro ler as suas crónicas. Deus o guarde.
madalena colaço
Na madrugada de 21 de
agosto de 1968, um dos melhores fotógrafos da História, Josef Koudelka,
registou a invasão dos tanques soviéticos em Praga. Uma das suas fotografias
mais célebres mostra um braço estendido, com um relógio de pulso, sobre a Praça
Venceslau praticamente deserta. O relógio mostra um instante histórico de uma
praça vazia pela tensão da ocupação. A população que saiu à rua nos dias
anteriores, reclamava com Dubcek, que chegara à liderança do Partido Comunista
da Checoslováquia, um programa que ficou conhecido como “socialismo de rosto
humano”, que defendia a liberdade de imprensa, o fim da censura, maior
liberdade de expressão, reformas económicas e a possibilidade de uma
participação dos cidadãos na vida política. Nessa noite de 20 para 21 de agosto
as tropas soviéticas invadiram o país e Dubcek e outros tantos foram detidos e
levados para Moscovo. Em maio de 1968, Tony Judt, um grande historiador,
viajou, como tantos dos seus amigos de esquerda, para Paris para inalar essa
revolução violenta dos estudantes nas ruas. Muitos anos depois, Judt reconhece
que as reclamações desses estudantes não eram muito sérias, pois estavam
“obcecados com os planos para as férias de verão em Cuba”. Mas o mais
importante, como reconhece mais tarde, é que quem reclamava por uma revolução
ia a Paris, não ia a Praga. Em Paris, como escreve mais tarde, “os que tiveram
a infelicidade de passar a noite na prisão, geralmente já estavam em casa à
hora do almoço”. Em Praga era-se preso por vários anos quando não se era
executado. A falta de coragem destes
revolucionários que reclamam um mundo melhor, e que para isso mostravam-se
violentos nas ruas de Paris, em Praga nem lá punham os pés, porque aí a
Revolução era mesmo a sério. Ninguém foi inalar a revolta em Praga. Judt
concluiu: “Nós, no Ocidente, fomos uma geração com sorte”.
Afonso Moreira
Os professores de
História, se não estivessem, em geral, formatados noutro sentido, teriam nas
suas crónicas excelentes dissertações para serem anexadas aos manuais nascidos
de abril.
JM Azevedo
Convém sempre lembrar...
Henrique Mota
Jaime Nogueira Pinto com
a idade ( e com a IA?) está a melhorar a sua ironia. Este texto está sublime.
Convém sempre recordar o que está por baixo das “ manifestações
pacíficas” . Ainda por cima contam com a adesão de tantos idiotas úteis,
que caso isto vire ( rezava se fosse crente para que isso nao aconteça) são os
primeiras vítimas.
SDC Cruz
Caro Jaime Nogueira
Pinto, vou ter de me repetir: As suas crónicas são autênticas aulas de
História, pela clareza e profundidade com que aborda cada tema. É um verdadeiro
prazer aprender consigo.
O socialismo, o
comunismo, o anti-facismo, o anti-capitalismo, o anti-imperialismo e outros que
tais acabados em "ismos", no seu melhor...
E esta gente não
aprende, nem nunca aprenderá...
António Costa e Silva
Numa visita há alguns
anos à Casa do Terror em Budapeste, lembro que além da brutalidade e violência
da repressão comunista, a sua extensão era apresentada de uma forma que não
permitia abstracções: uma em cada três famílias húngaras teve alguém morto, torturado
ou preso.
Américo Silva
A academia política do
café central dispunha-se a conceder o prémio exterminador de ucranianos a Putin
quando alguém lembrou: Zelensky tem mais anos de experiência.
Nenhum comentário:
Postar um comentário