domingo, 7 de julho de 2013

“Haverá mulher mais bela do que eu?”

A madrasta da Branca de Neve
Foi uma das que diariamente se revia
No espelho da sua fantasia
Para que este lhe dissesse se havia
Outra mulher mais bela que ela.
E o espelho sempre respondia
Que ela era a mais bela.
Mas a Branca de Neve crescia e um dia
O espelho respondeu que outra havia
Mais bela do que ela.
Furiosamente
A madrasta da Branca de Neve
Agarrou numa maçã envenenada
E deu-lha a comer, inclemente,
Vestida de velhinha doente.
Ela não lera a fábula de Florian
E por isso lhe deu a maçã
Que ficou logo entalada
Na pobre da enteada
Que após adormecer engasgada
Com a maçã envenenada
Foi acordada pelo seu príncipe valente
Felizmente,
O qual nem precisou de lhe bater nas costas
Para a maçã saltar
Pois lhe bastaram as mãos postas
E o seu beijo ardente
Com os sete anõezinhos por perto
A aplaudir.
Mas leiamos a fábula de Florian primeiro,
Que trata de cacos de espelho
E não de espelho inteiro
Como aquele
Em que a madrasta se revia
Sem agonia:

«O espelho da verdade»
«Num belo século de ouro, quando os primeiros humanos
Em meio de uma paz profunda
Viviam dias puros e serenos
A verdade percorria o mundo
Com o seu espelho nas mãos.
Cada um nele se olhava, e o espelho sincero
Traçava a cada um o seu mais secreto anseio
Sem nunca o fazer corar de pejo.
Tempo feliz que pouco durou.
O homem em breve se tornou
Mau e criminoso.
A verdade fugiu para o céu,
Atirando despeitada o seu espelho ao chão.
Partiu-se o pobre espelho.
Os seus cacos que ao acaso a queda dispersou

Foram para o vulgo perdidos.
Vários séculos após
Conheceu-se o preço disso:
E foi desde então que mais dum sábio se viu

A recolher com cuidado esses cacos,
Por vezes encontrá-los
Mas tão pequeninos
Que ninguém os utiliza.
Ai de nós! O sábio primeiro
Nunca nele se vê inteiro.»


Custa-me a crer que a gente se reveja
Em espelhos partidos.
Cada um se revê por inteiro
No seu próprio espelho intacto
E se acha contente
Com o que vê e sente.
Quando Portas bateu o pé e decidiu
Que era a altura de se impor,
Fê-lo convencido de que a razão lhe assistia
E por isso ele se ria.
Entretanto os que esperavam
Que o governo caísse,
As mãos esfregavam e gritavam
O que os seus espelhos lhes aconselhavam
Que nem vale a pena repetir
Para não me afligir
Até porque sei
Que eles falam falam falam
Para destruir
Mas calam
Os seus receios do porvir,
Dando, todavia, o seu contributo de pesadelo
Para tudo fazer ruir
E atropelar
Em falsidade.
Felizmente Passos Coelho
Mostra um verdadeiro amor
Pelo seu país, quero bem crer.
É inteiro o seu espelho
Séria a sua verdade.

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