De enriquecimento e de prazer culturais, estes textos viageiros – nos espaços e nas mentes – de A. G., - que oxalá se prolonguem nos tempos…
Do deserto ao deserto do TikTok: notas de viagem
Os puritanos anglófonos que
primeiro se instalaram no que viria a ser os EUA desconfiavam do
entretenimento, para não dizer que o condenavam com zelo. Desde então que a
América tem recuperado o tempo.
ALBERTO GONÇALVES, Colunista do OBSERVADOR
OBSERVADOR, 5 set. 2026, 00:24
As mais lidas
Super El Niño: Reino Unido aconselha reservas de
mantimentos
Afinal Ministério contradiz Neves sobre destruição de
bidões
Lindsay Clancy. Juiz declara julgamento nulo
'Metrobus' pode vir a ligar Figueira da Foz e Coimbra
Iminente aloja sem-abrigo em AL durante festival
Trump garante que Putin não pretende atacar NATO
Aeroportos
Na era primitiva da aviação
comercial, leia-se até 2020, geralmente os aviões partiam e chegavam quando
estava previsto partirem e chegarem, e os atrasos e cancelamentos constituíam
surpresas desagradáveis. Felizmente tudo mudou, e hoje, pelo
menos na América e sobretudo na Europa, a surpresa é levantar voo à hora
inscrita no bilhete original, sem que dúzias de mensagens no telemóvel alertem
para sucessivas derrapagens temporais. Assim, uma pessoa já vai para o aeroporto convencida de que o
voo das 14.30 acontecerá, em correndo benzinho, pelas 16.15 ou 19.56, isto se
acontecer de todo. Dado que a pessoa continua a fazer
questão de aparecer com duas horas de antemão, não vá dar-se a bizarria de não
haver atrasos, a vantagem é que nunca perdemos a viagem por nossa culpa.
É quase garantido perdê-la,
ou baralhá-la com gravidade, por culpa da falta de pessoal causada pelos
precavidos despedimentos durante a Covid, ou pelas greves semi-permanentes, ou
pelo excesso de tráfego, ou pelas condições meteorológicas, que agora se identificam
como alterações climáticas. Mas não por nossa culpa, o que, se para o corpo é
uma canseira, para a consciência é um descanso.
Nova
Iorque
Não ia a Nova Iorque há dois
anos, e só voltei por dois dias e pressões exteriores. O que a cidade
ainda tinha de atraente no início do século, dos diners manhosos e abertos a
horas impróprias à reposição de musicais clássicos a preços acessíveis,
extinguiu-se aos poucos. Em 2026, à semelhança de 2024 e de 2022, tudo fecha mais
cedo, as bilheteiras da Broadway ambicionam movimentar mais dinheiro que Wall
Street, as livrarias são raras, a arquitectura contemporânea mutilou com
sadismo o skyline da cidade, metade dos edifícios está tapada por andaimes
(uma bonificação estética que resulta do elevado custo das obras que a
burocracia exige), os taxistas desistiram em definitivo de falar
inglês e de ter uma ideia do destino da “corrida”, e há um limite humanamente
suportável para a quantidade de espaços assépticos que servem 18 variedades de
latte macchiato, kefir e “refeições” com quinoa. Desta vez, a minha
única curiosidade prendia-se com os efeitos da governação do mayor Mamdani, sujeito que divide as simpatias entre
o jihadismo e o comunismo. Lamento informar que, do que
constatei, os efeitos são nulos: os transportes gratuitos e os supermercados
estatais, além de inúmeras alucinações adicionais, permanecem fechados na
cabecinha dele. Fora da cabecinha, Nova Iorque faz o que sempre soube fazer: crescer e mudar, com uma
dinâmica que frequentemente finta o controlo político e, actualmente, com
desígnios que fintam o meu interesse. Tanto quanto pude resistir às tais
pressões exteriores, fechei-me no hotel a ler. É possível que eu também tenha
mudado.
Estrada 66
Um dos amigos que me
acompanharam na viagem ficou espantadíssimo, e desconsoladíssimo, com o retrato
da desolação que é a Route
66, de que percorremos uns 500 quilómetros pelo percurso original no
Novo México e no Arizona. E eu espantei-me com o espanto do meu amigo,
indivíduo culto e informado. Palpita-me que muitas pessoas como ele também
imaginam que a famosa estrada é uma passarela de motéis, bombas de gasolina e
excentricidades vintage, todas brilhantes e prósperas como em 1955. Não é. Na verdade, é um
palimpsesto, os manuscritos em que se raspava o texto original para o cobrir
com um novo, mas em que os vestígios do anterior continuavam a notar-se. Percorrer
o que resta da 66 ou de caminhos similares é percorrer as camadas do período
que lhe foi contemporâneo, da Depressão e do Dust Bowl ao optimismo do pós-II
Guerra, e depois a “modernidade” dos anos Reagan, quando a descontinuaram
oficialmente. Há
cidades que se mantêm vivas (graças à própria exploração da mitologia da 66),
há cidades- fantasma ou em vias disso, há centenas ou milhares de negócios
abandonados e em ruínas, há vastos pedaços da estrada engolidos pela I-40 ou
pela natureza. E há, nessa sinuosa e inegável tristeza, uma relevante lição de
História.
Santa Fé
Cinquenta quilómetros a
noroeste de Santa
Fé, fica Los
Alamos, o lugarejo escolhido por Robert Oppenheimer para supervisionar a
criação da bomba atómica e alterar o “paradigma existencial”. Três quilómetros a
nordeste, a minutos da praça central e isolado no sopé das montanhas Sangue de
Cristo, fica o Instituto
Santa Fé, onde iluminados de formações sortidas pensam outras
minudências. Foi no Instituto que Cormac McCarthy passou décadas,
enquanto escritor residente, até morrer em 2023. Aliás, em entrevista tardia
confessou que só se mudou de El Paso, Texas, por causa do Instituto: “Santa
Fé é um bocadinho ‘artística’ para o meu gosto”. E o meu. A cidade é
demasiado “artística” e tem demasiadas galerias e demasiados eleitores
democratas, para cúmulo dos que fazem crepitar as últimas sílabas de cada frase
(o superiormente irritante vocal fry). Apesar disso, aproveito para notar que o segundo
povoado continuamente habitado dos EUA é um lugar bonito que se farta. E aproveito para recomendar as obras
do maior romancista do último meio século, de “A Estrada” a, claro, “Meridiano
de Sangue”. E aproveito ainda para sugerir a visita a Las
Vegas, não essa Las Vegas e sim a cidadezinha do Novo México, ali perto,
cenário de grande parte das cenas de “Este País Não é para Velhos”, o filme
baseado no livro de McCarthy. Desculpem a referência um tanto a
despropósito, mas entre os contemporâneos não conheço quem escreva como
ele e quem me assombre e humilhe quanto ele. E duvido que alguém conheça.
Las Vegas
Os puritanos anglófonos
que primeiro se instalaram no que viria a ser os EUA desconfiavam do
entretenimento, para não dizer que o condenavam com zelo. Desde então que a América tem
recuperado o tempo perdido. E nenhum lugar contribuiu e contribui tanto quanto
Las Vegas. Não falo da Las Vegas kitsch e talvez parcialmente
desfrutável da época de Sinatra, mas da actual. Uma banda pop inglesa dos anos 1980
chamou a um disco “Heaven or Las Vegas”, título que de certeza não previa na
totalidade o inferno que aquilo é hoje. A “strip”, o pedaço da
avenida principal onde se concentram os grandes hotéis, é um labirinto de
túneis, viadutos e passagens internas que sem particular orientação levam de
uns lugares para outros, numa (suponho que) inadvertida recuperação dos
aglomerados urbanos da Anatólia durante o Neolítico, quando o conceito de rua
ainda não fora inventado. Em Las Vegas, a rua é praticamente uma excrescência a
extirpar sem demora. As fachadas são as dos hotéis, cada qual um
simulacro grotesco. As lojas comerciais distribuem-se de modo caótico pelas
artérias do labirinto: aposto que em Anatólia seria mais fácil
encontrar um restaurante. Desgraçadamente, e ao invés da Anatólia antiga, em Las Vegas há música aos berros a
sair de milhares de colunas que entram em competição pela demolição dos nossos
tímpanos. Em qualquer sítio, levamos com dezenas de aberrações sonoras em
simultâneo. Por toda a parte há ecrãs LED, médios ou descomunais, que anunciam
“atracções” e marcas e eventos desportivos e gatafunhadas que nem sou capaz de
destrinçar. É como se, a fim de punir os nossos pecados, nos
prendessem dentro de uma versão à escala natural do TikTok ou lá como se chamam
aqueles vídeos verticais com que as crianças de idade ou de QI ocupam a
existência. E falta referir as indescritíveis figuras exibidas por
incontáveis criaturas que rumam a Las Vegas repletas de excitação – e não se desiludem. Nunca haverá avanços na neurologia
suficientes para explicar a complexidade do ser humano. Ou a simplicidade do
ser humano. Ou o motivo pelo qual já estive em Las Vegas meia dúzia de vezes,
mesmo que envergonhado me desculpe com a insistência de amigos neófitos naquilo
ou com a localização privilegiada do aeroporto local no Sudoeste americano. E
nem mencionei o calor: o inferno, de facto.
Receba um alerta sempre que Alberto Gonçalves publique
um novo artigo.
Alertas activos
Estados
Unidos da América América Mundo
COMENTÁRIOS:
Alexandre
Barreira
Pois!
Caro AG,
É isso.
O Cowboy
solitário....sem o "charro".
No....."canto-da-boca".......!
Francisco
Almeida
Não sei se este desencanto
com a América tem raízes subconscientes na política americana.
Luis
Silva
É um palimpsesto com outras aventuras no Far West.
António
Lamas
Alberto, o
"nosso" Kerouac, que precisamente no dia 5 de Setembro de 1957
publicou o seu Pela Estrada Fora.
Na mouche, Alberto
Obrigado
Vitor
Batista
Bem vindo de volta, Alberto.
A
Estrada é de facto um livro fantástico, recomendo vivamente.
José
Abel Oliveira > Vitor Batista
...a morte é um luxo em tempos como estes. Lê-se na A Estrada.
Ruço
Cascais
Gostei muito de ouvir o
Ideias Feitas desta semana sobre o Salvador Sobral. Estava na esperança de que a crónica
fosse sobre esse tema, mas, Fonix, lá tive que levar com mais uma América das
férias do Gonçalves.
Oh meu, há mais destinos
turísticos. Essa obsessão começa a parecer doentia.
Então o tipo - o Sobral -
quis fazer um boicote ao Spotify, mas como a coisa não resultou e precisava de
guito, mandou o boicote para as urtigas e voltou para o Spotify. 😃
Não tardará muito para
vermos a Sofia Aparício numa telenovela israelita.
Não sei se a administração do Spotify liga a estes
ruídos, porque, se ligasse o Sobral não colocava lá mais nenhuma música.
Paradigmas
Há Muitos! Ruço Cascais
A Sofix Aparícix outro dia
numa entrevista a falar sobre a sua participação na flopilha e disse que tinha
sido um "imperativo cívico e moral" (ou coisa assim lá da cartilha
deles) mas que tinha tido custos pesados na sua vida profissional dado que
tinha deixado de ser chamada para "novos projectos".
Ora isto surpreendeu-me por
dois motivos, um é que eu imaginava que com a flopilha no CV e sendo os
produtores e realizadores "culturais" todos fervorosos "Fri
Palestaine from da riva tu da si" que
os convites iriam chover, mas talvez eles também estejam falidos ou
desempregados.
A segunda surpresa é que eu
desconhecia que a Sofix tivesse alguma actividade profissional minimamente
regular.
Por isso ela aceitar
trabalho em Israel penso que não, mas se as contas estiverem mesmo no vermelho
é capaz de aceitar algum
"projecto" degradante, penso eu de que!
Entretanto vi que vai haver
uma nova flopilha que até passa por Lisboa e por isso a Sofix pode ter de novo
quem lhe dê comida e guarida (e palco) durante umas semanitas. Espero que os
organizadores do Hamas não se esqueçam dela!
Voltando ao Salvadxr e
ligando a este aspecto das coisas não serem o que parecem, isto é dessa onda
ideológica não ser tão forte como os OCS querem mostrar, é ele dizer que um dos
motivos porque voltou ao "capitalismo" bélico da Spotify (o dono
investe em indústria de defesa) é que se sentiu isolado no combate tendo
concluido que sózinho não conseguia enfrentar o "monstro".
Fiquei mesmo com pena do
rapaz, queria ser lider mas os potenciais liderados acobardaram-se!
Mas também tem hipótese de
ser agora o bardo da nova flopilha, ficas-lhes bem ter como participante de
destaque um ex-vencedor da Eurovisão, quase tão famoso como a Greta! Ele já
tinha feito uns abaixo assinados pela causa, por isso está perfeitamente alinhado!
O facto dos islamistas quando mandam mesmo proibirem
ganzas, feminismos, música e excentricidades sexuais não conta para idiotas
úteis da "luta" como o Salvadxr e a Sofix!
Américo
Silva
Mas o cronista foi à américa, ou à amérdica?
Meio
Vazio
Parece que desta vez a coisa não correu tão bem...
Paulo
Nuno Pato Rosa e Silva Cardoso
Gosto, da referência
aos Cocteau Twins, e de tudo o resto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário