De apoucamento alheio, talvez dos muitos que se sentem “pouco”
…
O Ocidente que resistiu a bordo de um Boeing
Os israelitas a bordo, com a indispensável ajuda do
comandante, perceberam que ou tratavam do assunto ou o assunto trataria deles.
Já haverá "activistas" a exigir a sua punição.
ALBERTO GONÇALVES, Colunista do OBSERVADOR
OBSERVADOR, 3 out. 2026, 00:24
O Ministério da Saúde de Gaza (abro um avantajado parêntesis
para notar que, a julgar pelas notícias que nos chegam, o governo de Gaza
parece ter um único ministério, o da Saúde. Raramente se ouve alusões ao
Ministério do Interior, que existe, nunca se ouve alusões ao Ministério
dos Negócios Estrangeiros, que parece que está na Cisjordânia, e não há
vestígios de um Ministério do Ambiente ou da Agricultura
& Pescas. A preponderância da “pasta” da Saúde não admira,
dada a desmesurada quantidade de hospitais, clínicas e estabelecimentos
similares disseminados pelo território: sempre que Israel atinge um
alvo ali, quase invariavelmente calha de ser um hospital. Às vezes,
também acontece Israel atingir uma escola, embora não haja alusões nos “media”
ao Ministério
da Educação de Gaza. De
qualquer modo, se descontarmos os escudos humanos, os massacres regulares de
dissidentes, as penas brutais para homossexuais e adúlteras, a endoutrinação de
criancinhas no ódio aos vizinhos e o pormenor de a generalidade dos
“hospitais” e das “escolas” esconderem túneis e armazéns com propósitos
bélicos, não há dúvida de que o Hamas valoriza imenso os cuidados médicos e a
instrução) apresentou há dias um relatório com dados da natalidade e da mortalidade locais, identificando
mortes por causas naturais e violentas.
Mesmo sem procedermos ao desconto recomendado quando a informação é produzida por uma
organização de terroristas sanguinários, o relatório declara
inequivocamente que a população de Gaza tem aumentado desde o início
da reacção israelita ao 7 de Outubro (cerca de 1,2%). Aliás, tem aumentado de forma
bastante superior à média global (0,8%), ainda que inferior ao crescimento
estratosférico que se registava até à guerra, e que era dos mais elevados do
mundo (2,5%).
Em princípio, estas minudências deveriam bastar para provar, ou mínimo sugerir,
que nem
Israel cometia genocídio pela fome antes de 2023 nem comete genocídio pelas
armas de 2023 em diante. Por muito que se estique o conceito, convém que o conceito cubra a
“intenção” de exterminar um determinado “grupo nacional, étnico, racial ou
religioso”. Logo, das duas uma: ou os israelitas são genocidas
terminalmente incompetentes, o que não é provável se atendermos ao respectivo poder militar, ou os israelitas não são genocidas e apenas se
esforçam por erradicar a ameaça de uma associação recreativa que lhes invadiu o
país para raptar, torturar e matar homens, mulheres, velhos e bebés. Parafraseando um espécime
especialista em pântanos, a ofensiva sobre Gaza não nasceu no vácuo.
Em suma, pois, é o próprio Hamas a involuntariamente explicar que Israel não
está a praticar genocídio nenhum. Por azar, desconfio que as inúmeras pessoas que repetem a
propaganda do Hamas sem parança e com zelo não vão repetir esta particular
evidência.
Acredito que, no seu íntimo, fiquem aborrecidas com a circunstância de em Gaza não morrerem
tantos inocentes quanto gostariam, o que tira verdade aos slogans que guincham por aí.
Porém, como a mentira jamais perturbou essa gente, em público os
“activistas” do rio até ao mar vão continuar a jurar que sim, que as políticas
israelitas são genocidas e responsáveis directas pelo falecimento de dezoito ou
dezanove milhões de meninas e rapazinhos que o Hamas, apesar do enorme empenho,
foi incapaz de proteger. E se, movido por uma ingénua crença na redenção humana, um
mensageiro lhes apontar as estatísticas demográficas divulgadas pelo Hamas, o mensageiro será devidamente
insultado, com a indispensável referência à choruda “avença” com que o governo
de Netanyahu patrocina os seus lacaios.
Não adianta. Às vezes, os amigos da Palestina não se vergam nem aos argumentos do Hamas, donde é escusado procurar iluminá-los com
argumentos adicionais que provam que os actos de Israel depois do 7 de Outubro
são uma luta pela sobrevivência e não o genocídio das lendas. É por exemplo escusado lembrar que
Israel retirara de Gaza em 2005. E que
forneceu a Gaza electricidade e água durante 18 anos. E que em 2024 facilitou a vacinação
contra a poliomelite de centenas de milhares de crianças, além de, previamente
a 2023, atender nos seus hospitais milhares de doentes vindos de Gaza. E que 20 mil cidadãos de Gaza
trabalhavam em Israel. E que cada ataque é precedido por avisos. E que os
riscos da ofensiva terrestre são assumidos para reduzir a morte de civis. Etc. As acções de Israel não configuram
genocídio, mas o oposto: a resistência ao genocídio que o Hamas, cuja “carta” pede o
assassínio de judeus, francamente gostaria de perpetrar. E que os simpatizantes do Hamas
gostariam que acontecesse.
CONTINUA
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