Definidos segundo normas de muita
cordialidade nos costumes, sobretudo no que concerne às questões raciais, o
equilíbrio justiceiro sobre as mesmas tendo brotado com especial fervor nesta
época de muita firmeza no aperfeiçoamento de aparelhagem bélica para se matar preferencialmente
em espaços abertos e com a distância precisa.
EXPLICAÇÃO PRÉVIA (da INTERNET):
Protestos do movimento Black Lives Matter em
Oakland em 2014. O movimento é responsável pelo uso generalizado da palavra woke.
Woke (pronúncia em
inglês: ['wouk]), como um termo político de origem afro-americana, refere-se a
uma percepção e consciência das questões relativas à justiça social e racial. O
termo deriva da expressão do inglês vernáculo afro-americano "stay
woke" (em português: mantenha-se atento), cujo aspecto gramatical se
refere a uma consciência contínua dessas questões.
TEXTO:
Resposta a muitos leitores
Após a vitória de Donald Trump em 2024, o clima
político começou a mudar. AOC eliminou
os seus “pronomes”, num momento celebrado por muitos como simbolizando o início
do fim da loucura trans.
PATRÍCIA FERNANDES, Professora na Escola de Economia e Gestão da
Universidade do Minho
OBSERVADOR,
07 set. 2026, 00:25
Uma das perguntas que
mais vezes me é colocada relaciona-se com o fim do wokismo: será que o período
woke já acabou? A resposta é complexa por duas razões: não só a futurologia é uma
modalidade perigosa, como tudo depende do que entendermos por wokismo.
Ainda assim, vou sugerir uma estratégia inspirada nos comentários às grandes
voltas transmitidas pela EuroSport. Como as emissões são longas e é preciso
preencher o tempo, Olivier Bonamici costuma perguntar: qual é o ciclista que vão seguir
nesta etapa com mais atenção? (não necessariamente porque pode ganhar, mas
porque temos curiosidade em saber o que é capaz de fazer) Podemos politizar esta pergunta: há
alguma figura pública que possamos seguir para perceber o futuro do wokismo?
A
resposta é Alexandria Ocasio-Cortez (daqui em diante, AOC).
Professora na Escola de
Economia e Gestão da Universidade do Minho Transforme leitura em conversas.
Não é assim
surpreendente que AOC tenha ocupado um lugar de vanguarda nas questões
mais extremas da agenda woke. Entrou no meu radar há 7 anos quando, numa
entrevista ao programa 60 Minutes, foi confrontada com a sua dificuldade em
acertar com os números:
“Uma das críticas que lhe
são dirigidas é que os seus cálculos matemáticos são imprecisos [“your math is
fuzzy”] e o The Washington Post atribuiu-lhe recentemente quatro ‘Pinóquios’
por ter apresentado de forma errada algumas estatísticas sobre as despesas do
Pentágono.”
AOC respondeu com o mantra do pensamento identitário:
“Acho que há pessoas mais preocupadas em estarem correctas
em termos de precisão, factos e semântica do que em estarem moralmente certas.”
Notemos que AOC não disse
que os factos podem ter diferentes interpretações – simplesmente afirmou que os factos, mesmos correctos, não são
mais importantes do que estar moralmente certo. É, claro, uma observação que pode
levantar dificuldades à implementação de medidas políticas: basta imaginarmos
um orçamento mais preocupado em ser “moralmente certo” do que em ser
matematicamente rigoroso. Mas também impossibilita a discussão política: o que
está subjacente à sua frase é que apenas ela – ou as pessoas que pensam como
ela – estão moralmente certas, pelo que todas as outras posições seriam
ilegítimas. Estamos, pois, perante a primeira linha do subjectivismo e da arrogância
moral do pensamento identitário.
Nos anos seguintes, AOC esteve sempre na frente das
grandes lutas woke: em 2020, no contexto político incendiário
gerado pelos protestos com a morte de George Floyd, defendeu entusiasticamente o
“defunding the
police” (medida que AOC poderia considerar “moralmente certa”
mas que, como revelam os estudos de opinião, é recusada pela maioria da
população e, em particular, pelos sectores mais pobres da sociedade
norte-americana). E na vaga woke seguinte colocou entusiasticamente os seus
“pronomes” nas redes sociais.
Um ano depois as coisas parecem estar novamente a
mudar: em entrevista recente à ABC News, deixou no ar a hipótese de se
candidatar à Presidência dos Estados Unidos, o que, naturalmente, implicaria um
percurso com mais precaução e moderação. Afinal, se as suas
posições políticas têm sido suficientes para se afirmar na ala mais radical do
partido democrata, elas não garantem uma vitória nas primárias e impedirão, com
quase toda a certeza, uma vitória presidencial. E, por isso, AOC aproveitou
para se distanciar das medidas mais radicais que apoiou nos últimos anos,
dizendo: “Woke 1.0 was crazy”.
As suas declarações são
muito relevantes por duas razões. Por um lado, elas permitem encerrar a
discussão sobre “a existência do wokismo”. O wokismo existiu mesmo, embora AOC
não lhe atribua grande importância: podemos olhar para tudo o que
aconteceu como olhamos para uma fase mais maluca da nossa adolescência, quando
arriscamos pintar o cabelo ou vestir roupa realmente feia. O problema é que dizer isto é ignorar
os danos gravíssimos causados a tantas pessoas.
Por outro lado, as suas declarações permitem concluir
que não está fora de hipótese um novo período woke – menos maluco, talvez, mas
igualmente resultado da convicção de que se tem um acesso privilegiado à
verdade e que, por essa razão, só essas ideias são moralmente certas.
Embora muitas pessoas
utilizem o termo “wokismo” de forma bastante ampla, a minha preferência
é por um uso mais restrito, separando as ideias identitárias da sua
manifestação woke. De acordo com esta hipótese, a essência do wokismo é o impulso incontrolável de exibição
moral
– a tal sinalização de virtude que foi, sobretudo, permitida pelas redes
sociais. Ainda segundo esta hipótese, o exibicionismo moral pode ter
abrandado após a vitória de Donald Trump, mas as ideias identitárias não
desapareceram e continuam a proliferar entre as gerações mais novas.
Não é por isso
descabido que venhamos a ter um período woke 2, talvez sob a forma de tragédia.
Mas se estivermos atentos a AOC, saberemos quando é que isso vai acontecer.
Receba um alerta sempre que Patrícia Fernandes
publique um novo artigo.
COMENTÁRIOS (de 53)
J P:
Por favor, senhores colunistas e jornalistas, deixem
de chamar "progressistas" a esta gente louca! Se o que elas defendem
é o progresso eu não quero, muito obrigado. O único futuro que defendem é a
destruição de todos os valores e cultura ocidentais e o suicídio colectivo, às
mãos do terrorismo islâmico ou de outros inimigos do ocidente.
Cláudia Borralho:
Belíssimo artigo. A hipocrisia de AOC é a mesma dos
seus eleitores. Eu também vi alguns meninEs a removerem os pronomes assim de
fininho.
Tim do A:
Sim, Donald Trump, corajoso, foi ao encontro do povo
nessa importante matéria. Mas o wokismo ainda domina o Ocidente. Nas
universidades, na comunicação social, nas escolas, na cultura, nas empresas,
nos espectáculos, etc.
Francisco Almeida:
Desde que primeiro vi um programa sobre a primeira
campanha e eleição de AOC que decidi que era pessoa a evitar. Mas Patrícia
Fernandes deu-lhe utilidade prática, uma espécie de barómetro que nos pode
alertar para descidas bruscas da pressão atmosférica, um "avisador"
de tempestades.
Maria Tejo:
Este artigo peca pela superficialidade. O fenómeno não
é uma moda intelectual; nasce de fracturas socioeconómicas reais, mas foi
capturado por um moralismo de fachada. No mundo real, a 'cartada do
preconceito' serve frequentemente como escudo para fugir à responsabilidade
individual em relações laborais e sociais vulgares. Ao focar-se apenas na
'superioridade moral' de figuras públicas, a autora ignora o verdadeiro impacto
deste ecossistema: a fragmentação da sociedade em tribos e a destruição
do tecido social e da convivência no quotidiano.
(CONTINUA)
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