sábado, 7 de novembro de 2026

CONTINUAÇÃO


Do TEXTO anterior – de Martim Andrade e de Pedro Rainho: “Autoridades em alerta "elevado" com ameaças de bomba e ciberataques. FBI avisou PSP de risco em voos da TAP”

…Como sublinhou, em declarações ao Observador, o presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), as ameaças feitas em ambiente de aviação ou em aeroportos têm de ser “sempre levadas a sério”, destacando estes locais como principais alvos para “provocar alguma disrupção” nas sociedades. E, de um ponto de vista operacional, os próprios comandantes têm de seguir estas indicações. “Temos de assumir que [a ameaça] é verdadeira dentro do grau de risco que nos é transmitido também, e que normalmente, depois, implica uma adaptação dos nossos procedimentos operacionais”, explica o representante da Associação de Pilotos Portugueses de Linha Aérea.

“O operador da companhia aérea tem um gabinete que interage com as entidades necessárias no que toca a estas ameaças, nomeadamente forças de segurança. A seguir, isto passa para o controlo de tráfego aéreo, que fica a interagir com a aeronave, e hoje em dia, o operador também tem a ligação directa e tem várias formas de comunicação”, acrescenta o comandante, que já não se encontra activo. O que se tem registado nas ameaças noticiadas esta semana é que os avisos têm chegado às equipas em terra, que comunicaram a gravidade dos avisos que receberam à tripulação que, numa outra instância, acabou por resultar no adiamento de descolagens ou, em França, na aterragem de um avião comercial numa base militar.

Nos casos denunciados pela imprensa italiana, foi através de um email que receberam um contacto de um suposto grupo extremista russo. “Hoje, o vosso céu ficará vermelho”, lia-se na nota assinada pelo já desmantelado Estado Masculino, que prometia uma explosão “dentro de 60 minutos” após a mensagem ter sido enviada. “Nós, os combatentes do Estado Masculino, deixaremos a nossa marca na história com as nossas acções de hoje. O vosso regime feminista vai lembrar-se disto para sempre”, escreveram ainda. Esta foi a única instância em que se acusou a recepção de uma nota a dar conta da ameaça.

▲ Esta sexta-feira, um voo da Ryanair que ia partir de Lisboa rumo a Madrid recebeu uma ameaça de bomba antes de descolar.

FILIP SINGER/EPA

A triagem em terra e a responsabilidade dos pilotos: como se responde a uma ameaça de bomba

Mas nem todos os casos são detectados com a aeronave ainda em terra — como aconteceu, aliás, nos dois voos TAP. E, quando a ameaça não chega em primeira mão ao cockpit, existe um protocolo de “triagem” que decide se é necessário, ou não, intervir junto dos comandantes, para que se altere o rumo da viagem.

Tudo começa no departamento de segurança da própria companhia aérea, que interage directamente com as autoridades de segurança nacionais ou internacionais, mas também com o controlo de tráfego aéreo. “Existem procedimentos de avaliação e de filtragem que levam a que, a determinada altura, se for validado algum risco minimamente real na ameaça, se desencadeia um contacto com a aeronave através dos seus pilotos, e os pilotos desencadeiam um procedimento a bordo”, explica o comandante ouvido pelo Observador.

A partir deste aviso, existem dois passos a tomar, dependendo das condições da ameaça. A maioria dos casos registados são como aqueles que têm sido noticiados nos últimos dias e, como tal, o procedimento tem sido constante. “O que se desencadeia é um procedimento que interage com o controlo de tráfego aéreo, com o operador e que normalmente obriga o avião a alterar a sua rota e acabar por aterrar num destino alternativo”, refere Jaime Prieto. Mas também existem casos — não verificados ainda esta semana — em que é necessário tentar identificar um possível engenho explosivo no interior da aeronave e, aí, o protocolo procura “minimizar o máximo de impacto que pode ter”.

“Neste procedimento operacional, que é desencadeado tecnicamente a bordo, quando a ameaça é validada, o pessoal de cabine é também um elemento de extrema importância. A interacção entre o cockpit e o pessoal de cabine é de extrema importância e eles, na parte técnica, também estão na primeira linha a ajudar a resolver estas situações”, admite o piloto.

Hugo Nunes, especialista em cibersegurança da Thales, acredita que a "volumetria de ataques tem vindo a aumentar ao longo destes últimos meses". Esta vertente tem sido "alicerçada pelas capacidades da IA e da agilidade" dos grupos responsáveis.

Jaime Prieto considera que o sistema de segurança incorporado para responder a estas ameaças de bomba é “extremamente robusto”. Como reforça, são as equipas em terra que normalmente recebem e validam a ameaça, mas é o comandante que tem “autoridade máxima a bordo”. Mesmo que dificilmente seja possível identificar uma bomba na cabine — por toda a segurança que ficou associada ao ambiente aeroportuário no pós-11 de setembro de 2001 —, só os tripulantes é que conseguem confirmar ou entrar em contacto directo com um hipotético engenho explosivo. “A bordo, não conseguimos avaliar mais do que isso. Temos, ainda assim, uma série de procedimentos para minimizar os efeitos, caso haja alguma detonação”, diz também.

Mesmo com um extenso protocolo a seguir nestes cenários, o comandante continua a ter como missão principal “garantir a segurança do avião e dos seus passageiros”. “O piloto responde perante um treino técnico que é repetido várias vezes durante a sua carreira. É imperativo que faça uma avaliação no local e no momento daquilo que pode acontecer com a sua aeronave, com os seus passageiros, com a sua tripulação”, explica Jaime Prieto.

▲ O protocolo montado para a resposta a ameaças de bomba começa em terra e, quando chega ao cockpit, resulta habitualmente numa alteração da rota de voo

AFP/Getty Images

O aumento dos ciberataques e a falta de resposta

Esta vaga de ataques e ameaças surgiu num período muito concentrado. Apesar de ser um tipo de ciberataque único, no sentido em que sistemas de refrigeração de supermercados ainda não tinham sido o alvo nesta aparente “guerra híbrida”, Hugo Nunes acredita que a “volumetria de ataques tem vindo a aumentar ao longo destes últimos meses”. O especialista em cibersegurança da Thales diz ao Observador que esta vertente tem sido “alicerçada pelas capacidades da IA e da agilidade” dos grupos responsáveis.

Neste caso, o alvo foram os sistemas IoT. Significa “Internet of Things” e representa os sistemas que estão ligados à internet ou que permitem algum tipo de acesso remoto para manutenção ou monitorização. Por estarem abertos à internet, acabam por estar algo mais vulneráveis a este tipo de ataques, especialmente se não forem devidamente protegidos. Ainda não há uma evidência concreta de qual foi o ponto de entrada dos grupos que reivindicam o ataque ou daqueles que são apontados como suspeitos, mas uma das hipóteses apresentadas pela Thales é a fragilidade das passwords.

“Podem ter colocado uma password simples, facilmente adivinhável, mas também podem ser os sistemas que não estão adequados ou que não foram construídos para estar com uma exposição não controlada à internet”, explica Hugo Nunes, referindo que muitos destes sistemas são ainda “antigos”, mas que foi decidido “expô-los à internet por uma questão de facilidade” das operações. É através destes sistemas que se regulava a temperatura à distância e de uma forma homogénea.

Ainda assim, não existe uma “exploração de uma vulnerabilidade” que tenha sido clara nesta fase inicial da investigação. O Observador questionou a Agência Europeia para a Cibersegurança sobre a origem destes ataques e se já foram accionadas medidas para o reforço da segurança, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.

O especialista da Thales indica que é chamado para apurar o que aconteceu numa fase de reacção e de investigação após o ataque — para além da fase de monitorização e prevenção. Porém, admite não ter conhecimento de ter sido convocado pela entidade em Portugal que foi afectada pelos ataques aos sistemas de refrigeração. “Temos a capacidade de fazer o que chamamos de análise forense digital para perceber onde foi o ataque ou que dados foram visualizados, também para as organizações tentarem perceber qual foi a falha ou as implicações do ataque”, explica.

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COMENTÁRIOS

Marco Morgado Ramos

Isto vai tudo dar a uma de "o Pedro e o lobo". Eventualmente ninguém liga nenhuma aos avisos e puf, acontece algo a sério. Acima de tudo vai ser mais um caso de terrorismo em que "os culpados já estavam referenciados e têm problemas mentais". A menos que sejam europeus brancos, nesse caso serão russos terroristas de extrema- direita 😆

Salazar .

Quando se sabe quem é, diz-se que são os russos. Quando não se sabe quem é, também se diz que são os russos. Que gente patética.

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