Do TEXTO anterior – de Martim Andrade e de Pedro Rainho: “Autoridades em alerta "elevado" com ameaças de
bomba e ciberataques. FBI avisou PSP de risco em voos da TAP”
…Como sublinhou, em
declarações ao Observador, o presidente do Observatório de Segurança,
Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), as ameaças feitas em
ambiente de aviação ou em aeroportos têm de ser “sempre levadas a sério”,
destacando estes locais como principais alvos para “provocar alguma disrupção”
nas sociedades. E, de um ponto de vista operacional, os próprios
comandantes têm de seguir estas indicações. “Temos de assumir que [a ameaça] é
verdadeira dentro do grau de risco que nos é transmitido também, e que
normalmente, depois, implica uma adaptação dos nossos procedimentos
operacionais”, explica o representante da Associação de Pilotos Portugueses de
Linha Aérea.
“O operador da companhia
aérea tem um gabinete que interage com as entidades necessárias no que toca a
estas ameaças, nomeadamente forças de segurança. A seguir, isto passa para o
controlo de tráfego aéreo, que fica a interagir com a aeronave, e hoje em dia,
o operador também tem a ligação directa e tem várias formas de comunicação”,
acrescenta o comandante, que já não se encontra activo. O que se tem registado
nas ameaças noticiadas esta semana é que os avisos têm chegado às equipas
em terra, que comunicaram a gravidade dos avisos que receberam à tripulação
que, numa outra instância, acabou por resultar no adiamento de descolagens ou,
em França, na aterragem de um avião comercial numa base militar.
Nos casos denunciados pela imprensa italiana, foi
através de um email que receberam um contacto de um suposto grupo extremista
russo. “Hoje, o vosso céu ficará vermelho”, lia-se na nota
assinada pelo já desmantelado Estado Masculino, que prometia uma explosão
“dentro de 60 minutos” após a mensagem ter sido enviada. “Nós, os
combatentes do Estado Masculino, deixaremos a nossa marca na história com as
nossas acções de hoje. O vosso regime feminista vai lembrar-se disto para
sempre”, escreveram ainda. Esta foi a única instância em que se acusou a
recepção de uma nota a dar conta da ameaça.
▲
Esta sexta-feira, um voo da Ryanair que ia partir de Lisboa rumo a Madrid
recebeu uma ameaça de bomba antes de descolar.
FILIP SINGER/EPA
A triagem em terra e a responsabilidade dos pilotos:
como se responde a uma ameaça de bomba
Mas nem todos os casos são
detectados com a aeronave ainda em terra — como aconteceu, aliás, nos dois voos
TAP. E, quando a ameaça não chega em primeira mão ao cockpit, existe um
protocolo de “triagem” que decide se é necessário, ou não, intervir junto dos
comandantes, para que se altere o rumo da viagem.
Tudo começa no departamento de
segurança da própria companhia aérea, que interage directamente com as
autoridades de segurança nacionais ou internacionais, mas também com o controlo
de tráfego aéreo. “Existem procedimentos de avaliação e de filtragem que
levam a que, a determinada altura, se for validado algum risco minimamente real
na ameaça, se desencadeia um contacto com a aeronave através dos seus pilotos,
e os pilotos desencadeiam um procedimento a bordo”, explica o
comandante ouvido pelo Observador.
A partir deste aviso, existem
dois passos a tomar, dependendo das condições da ameaça. A maioria dos casos
registados são como aqueles que têm sido noticiados nos últimos dias e, como
tal, o procedimento tem sido constante. “O que se desencadeia é um
procedimento que interage com o controlo de tráfego aéreo, com o operador e que
normalmente obriga o avião a alterar a sua rota e acabar por aterrar num
destino alternativo”, refere Jaime Prieto. Mas também existem casos — não
verificados ainda esta semana — em que é necessário tentar identificar um
possível engenho explosivo no interior da aeronave e, aí, o protocolo procura
“minimizar o máximo de impacto que pode ter”.
“Neste procedimento
operacional, que é desencadeado tecnicamente a bordo, quando a ameaça é
validada, o pessoal de cabine é também um elemento de extrema importância. A
interacção entre o cockpit e o pessoal de cabine é de extrema importância e
eles, na parte técnica, também estão na primeira linha a ajudar a resolver
estas situações”, admite o piloto.
Hugo Nunes, especialista em cibersegurança da
Thales, acredita que a "volumetria de ataques tem vindo a aumentar ao
longo destes últimos meses". Esta vertente tem sido "alicerçada pelas
capacidades da IA e da agilidade" dos grupos responsáveis.
Jaime Prieto considera que o
sistema de segurança incorporado para responder a estas ameaças de bomba é
“extremamente robusto”. Como reforça, são as equipas em terra que
normalmente recebem e validam a ameaça, mas é o comandante que tem “autoridade
máxima a bordo”. Mesmo que dificilmente seja possível identificar uma
bomba na cabine — por toda a segurança que ficou associada ao ambiente
aeroportuário no pós-11 de setembro de 2001 —, só os tripulantes é que
conseguem confirmar ou entrar em contacto directo com um hipotético engenho
explosivo. “A bordo, não conseguimos avaliar mais do que isso. Temos,
ainda assim, uma série de procedimentos para minimizar os efeitos, caso haja
alguma detonação”, diz também.
Mesmo com um extenso protocolo
a seguir nestes cenários, o comandante continua a ter como missão
principal “garantir a segurança do avião e dos seus passageiros”. “O piloto responde perante um treino
técnico que é repetido várias vezes durante a sua carreira. É imperativo que
faça uma avaliação no local e no momento daquilo que pode acontecer com a sua
aeronave, com os seus passageiros, com a sua tripulação”, explica
Jaime Prieto.
▲ O protocolo montado para a resposta a ameaças de bomba começa em
terra e, quando chega ao cockpit, resulta habitualmente numa alteração da rota de voo
AFP/Getty Images
O aumento dos ciberataques e a falta de resposta
Esta vaga de ataques e ameaças
surgiu num período muito concentrado. Apesar de ser um tipo de ciberataque
único, no sentido em que sistemas de refrigeração de supermercados ainda não
tinham sido o alvo nesta aparente “guerra híbrida”, Hugo Nunes acredita que a
“volumetria de ataques tem vindo a aumentar ao longo destes últimos meses”. O
especialista em cibersegurança da Thales diz ao Observador que esta vertente
tem sido “alicerçada pelas capacidades da IA e da agilidade” dos grupos
responsáveis.
Neste caso, o alvo foram
os sistemas IoT. Significa “Internet of Things” e representa os sistemas que
estão ligados à internet ou que permitem algum tipo de acesso remoto para
manutenção ou monitorização. Por estarem abertos à internet, acabam por estar algo
mais vulneráveis a este tipo de ataques, especialmente se não forem devidamente
protegidos. Ainda não há uma evidência concreta de qual foi o ponto de entrada
dos grupos que reivindicam o ataque ou daqueles que são apontados como
suspeitos, mas uma das hipóteses apresentadas pela Thales é a fragilidade das
passwords.
“Podem ter colocado uma
password simples, facilmente adivinhável, mas também podem ser os sistemas que
não estão adequados ou que não foram construídos para estar com uma exposição
não controlada à internet”, explica Hugo Nunes, referindo que muitos destes sistemas
são ainda “antigos”, mas que foi decidido “expô-los à internet por uma questão
de facilidade” das operações. É através destes sistemas que se regulava a
temperatura à distância e de uma forma homogénea.
Ainda assim, não existe uma “exploração de uma
vulnerabilidade” que tenha sido clara nesta fase inicial da investigação.
O Observador questionou a Agência Europeia para a Cibersegurança sobre a
origem destes ataques e se já foram accionadas medidas para o reforço da
segurança, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.
O especialista da Thales
indica que é chamado para apurar o que aconteceu numa fase de reacção e de
investigação após o ataque — para além da fase de monitorização e prevenção.
Porém, admite não ter conhecimento de ter sido convocado pela entidade em
Portugal que foi afectada pelos ataques aos sistemas de refrigeração. “Temos
a capacidade de fazer o que chamamos de análise forense digital para perceber
onde foi o ataque ou que dados foram visualizados, também para as organizações
tentarem perceber qual foi a falha ou as implicações do ataque”, explica.
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COMENTÁRIOS
Marco Morgado Ramos
Isto vai tudo dar a uma de "o Pedro e o
lobo". Eventualmente ninguém liga nenhuma aos avisos e puf, acontece algo
a sério. Acima de tudo vai ser mais um caso de terrorismo em que "os
culpados já estavam referenciados e têm problemas mentais". A menos que
sejam europeus brancos, nesse caso serão russos terroristas de extrema- direita
😆
Salazar .
Quando se sabe quem é, diz-se que são os russos.
Quando não se sabe quem é, também se diz que são os russos. Que gente patética.
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