sábado, 7 de novembro de 2026

E voltamos sempre

 

A Salazar, e aos seus conceitos refractários aos do PC, ironizados, aqueles, pelos progressistas dos meus tempos de juventude obediente… Sim, Salazar tinha razão, relativamente aos esquerdismos avançados, que serão, naturalmente, os mesmos que os de hoje, os inteligentes da cartilha desprezadora …

Autoridades em alerta "elevado" com ameaças de bomba e ciberataques. FBI avisou PSP de risco em voos da TAP

Martim Andrade: Texto

Pedro Rainho:  Texto

Troca de informações entre serviços e autoridades no universo NATO têm sido intensas. Não há consenso sobre origem de ataques, mas Moscovo e Teerão são suspeitos de tentar provocar o caos.

06 nov. 2026, 21:22

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Em apenas uma semana, dezenas de aviões foram alvos de ameaças de bombas e vários supermercados por toda a Europa foram atingidos por ciberataques nos seus sistemas de refrigeração — uma acção que também visou alguns bancos de sangue, que funcionam com o mesmo sistema. Os ataques ainda não lançaram o caos, mas colocaram as forças de segurança e os serviços de informações em “nível elevado de preocupação” com uma eventual escalada destas ações para outro tipo de infraestruturas. Uma fonte que tem acompanhado as intensas trocas de dados entre serviços de informações no contexto NATO nos últimos meses refere ao Observador dois exemplos concretos: unidades de saúde (hospitais) e unidades de produção energética (como barragens).

As ameaças de bomba têm sido a face mais visível destas acções. Em Portugal, só esta sexta-feira, um voo Ryanair com destino a Roma foi impedido de descolar na hora prevista por suspeitas de que teria (ou poderia vir a ter) uma bomba a bordo. O caso foi reportado publicamente pela PSP. Mas, apurou o Observador, não foi caso único — também esta sexta-feira, outros dois voos TAP, um com destino a Paris e outro que viajava para Copenhaga, foram alvo de ameaças de bomba. A informação tornada pública, em comunicado, fazia referência a uma “comunicação através dos mecanismos de cooperação policial internacional”. Mas o Observador sabe que, em todos estes casos, as informações foram transmitidas à Polícia de Segurança Pública directamente pelo FBI, a agência norte-americana de investigação criminal.

Mas as acções disruptivas não ficam por aqui: também no início da semana, sete lojas Intermarché anunciaram terem sido afectadas pelo mesmo tipo de ataques que já tinham sido identificados noutros pontos do continente europeu. Esta nova vaga de “ataques híbridos” tem revelado um “impacto violento”, em qualquer um destes sectores afectados, como classifica o especialista em cibersegurança Bruno Castro. Mas será que os dois tipos de acções estão relacionados?

Dois grupos pró-Kremlin foram rápidos a reivindicar os ciberataques à tecnologia associada aos sistemas de refrigeração. “Quando um colectivo destes assume responsabilidades, é certinho. São grupos criminosos a sério, nos tops do cibercrime a nível mundial”, explica o fundador da Visionware, Bruno Castro. Já fontes com conhecimento destes processos mostraram uma “grande preocupação” com o facto de os ataques terem outra origem: o Irão.

São "ataques orientados à sociedade", mais do que propriamente o roubo de dinheiro ou venda de dados, que normalmente está associado a este tipo de ofensivas. "Estão a cortar um serviço que vai ter um impacto na comida e um avião que vai aterrar à pressa. Mas estão a criar medo na sociedade", sublinha.

Bruno Castro, especialista em cibersegurança

Os ataques híbridos promovidos por Moscovo (ou com ligações a grupos pró-russos)  contra Estados europeus não são uma novidade. Mas há um outro país que tem surgido com frequência nas trocas de informações entre parceiros NATO, sobretudo na área da cibersegurança, ao longo dos últimos meses: o Irão. Uma das razões para que as suspeitas recaiam sobre o país do Médio Oriente é a pegada geográfica das acções, com uma incidência inicial grande nos Estados Unidos, que depois se propagou a vários países europeus. Após uma fase inicial do conflito entre Washington e Teerão, muito centrado no controlo da circulação no Estreito de Ormuz e que afetou a capacidade iraniana de infligir ciberataques, a partir do verão o país conseguiu recuperar a iniciativa. E, então, começaram a multiplicar-se as acções disruptivas.

Não há, ainda, uma certeza absoluta da origem destas ofensivas — até porque elas não são, na esmagadora maioria das vezes, reclamadas —, mas o que chocou os especialistas na área da defesa no meio digital foi o facto de ter havido uma “segunda ronda” de ataques a estruturas de refrigeração.

“Isso foi surpreendente, porque de alguma forma mostra que o fabricante em causa não fez o trabalho de casa na recuperação”, admite Bruno Castro. Hugo Nunes, um especialista na mesma área consultado pelo Observador, admite que o ataque “não foi sofisticado”, mas que o impacto verdadeiro desta ofensiva híbrida transcende aquele que foi registado inicialmente no sector alimentar. Bruno Castro explica que o grande objectivo foi “criar instabilidade na sociedade”, uma sensação que acabou por ser replicada pouco tempo depois na indústria aeronáutica, quando dezenas de aviões tiveram de alterar os seus planos de viagem após receberem ameaças anónimas de bombas a bordo.

Nestes últimos casos, não houve um ciberataque generalizado que afectasse uma determinada companhia aérea, um aeroporto em particular ou uma área geográfica. Os especialistas admitem que não veem qualquer “ligação técnica”. Mas existe um ponto comum: “Criar receio de que a Europa não se consegue defender.” Bruno Castro diz que são “ataques orientados à sociedade”, mais do que propriamente o roubo de dinheiro ou venda de dados, que normalmente está associado a este tipo de ofensivas. “Estão a cortar um serviço que vai ter um impacto na comida e um avião que vai aterrar à pressa. Mas estão a criar medo na sociedade”, sublinha.

Como o modus operandi é totalmente diferente — num caso, trata-se de um típico ciberataque; no outro, uma experiência de “engenharia social” — os especialistas ouvidos pelo Observador dizem que é difícil assumir que se trate de actos coordenados. Não existem evidências de que esteja tudo ligado. Mas a verdade é que a recente vaga de ameaças de bomba parece estar “completamente concertada”, tal como é costume ocorrer num ataque cibernético, mesmo que não envolva o recurso à mesma tecnologia.

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▲ Dezenas de supermercados na Europa viram os seus frigoríficos e congeladores com as temperaturas desreguladas após uma vaga de ciberataques

Anadolu via Getty Images

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Jaime Prieto pilotou aviões comerciais durante várias décadas e não se recorda de assistir a “tantas ameaças em tão curto espaço de tempo”. Na Europa, em menos de uma semana, foram registadas cerca de 40 ameaças de bomba que obrigaram a alteração dos planos de viagem de diferentes companhias aéreas, desde a Ryanair à Finnair, passando pela TAP.

No caso da companhia portuguesa, a ameaça que visava os dois voos da TAP foi transmitida pelo FBI à Polícia de Segurança Pública quando os dois aparelhos já se encontravam em rota, um em direcção ao aeroporto de Orly e outro a voar para o aeroporto de Copenhaga. Por essa razão, a PSP accionou de imediato o protocolo de acção e informou as autoridades francesas e dinamarquesas da ameaça. Em ambos os casos, foi descartada a existência de um risco real e os voos seguiram para os respectivos destinos.

Mas, horas antes, a situação foi diferente com um voo da Ryanair com destino a Lisboa. Nesse caso, depois de o aparelho aterrar, a PSP accionou uma equipa da Unidade Especial de Polícia e os passageiros, que já se encontravam a bordo, tiveram de sair do avião e tanto eles como as malas que já estavam no porão foram submetidos a uma minuciosa busca para despistar a presença de explosivos. “Claro que isto provoca constrangimentos enormes, quer às pessoas quer às companhias”, reconhece uma fonte que acompanhou todos estes casos que se verificaram esta sexta-feira. “O problema é que não podemos descartar o risco em nenhuma destas situações”, diz a mesma fonte para justificar os meios empregues nestas respostas às ameaças dos últimos dias.

"Temos de assumir que [a ameaça] é verdadeira dentro do grau de risco que nos é transmitido também. Depois, implica uma adaptação dos nossos procedimentos operacionais", explica o representante da Associação de Pilotos Portugueses de Linha Aérea.

O avião que iria descolar do Aeroporto Humberto Delgado de volta à capital italiana acabou por não sair de terra na hora prevista, após a tripulação ter sido informada de um alerta de segurança a bordo do avião — à semelhança dos outros episódios que têm vindo a ser noticiados na Europa. “Perante a natureza da ameaça e os elementos disponíveis, a PSP desencadeou os procedimentos de segurança aeroportuária previstos para este tipo de ocorrências, em articulação com a entidade gestora aeroportuária, a companhia aérea e as restantes autoridades competentes. Após a aterragem da aeronave em Lisboa, foi realizada uma vistoria de segurança por polícias da Unidade Especial de Polícia (UEP), com o objectivo de verificar a existência de eventuais objectos ou engenhos susceptíveis de comprometer a segurança da aeronave e dos seus ocupantes”, revelou a força policial num comunicado enviado às redações.

É verdade que nenhuma destas ameaças se materializou numa situação de perigo real. Mas, a partir do momento em que a informação de risco chega ao cockpit, é forçoso tratar todas as ameaças como verdadeiras.

(CONTINUA)

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