segunda-feira, 5 de outubro de 2026

continuação


do texto anterior: “o insubstituível lugar do passado” por maria joão avillez“tudo em são recordações”

5 Ia o jantar no seu fim quando o passado insistiu em abrir um outro leque, falava já  filipe gonzalez. o tempo deu uma brusca reviravolta e parou em viana do castelo, num dia quente de verão de 1980. gonzalez era então um jovem andaluz, cabelo despenteado e colete preto, que estava ali para participar na campanha legislativa de mário soares e da sua frente republicana e socialista.

ambicioso e intrépido, filipe queria um país e eu queria uma entrevista. ambos ganhámos: filipe veio a ter a espanha durante 14 anos (1982/96) como presidente do governo, eu obtive a entrevista.

e pude, ao longo do tempo, cruzar-me de novo com ele, em diversas ocasiões, todas superlativas: três entrevistas – duas na oposição, a terceira no governo; um jantar histórico numa tasca em vilamoura, antes de um comício de mário soares em portimão onde ele reuniria vários líderes socialistas europeus, entre eles mitterrand, bettino craxi, o próprio filipe. soares queria comer peixe fresco e, sorte minha, o facto de sermos apenas meia dúzia de pessoas – entre elas sua filha isabel – permitiu que pudesse conversar largamente com o líder espanhol. quase no final dos anos noventa o então já ex-presidente do governo espanhol apresentou no palace de madrid a versão espanhola dos livros que fiz com soares, num discurso absolutamente extraordinário: tal a minúcia da leitura, a profundidade da análise do homem e do livro; a admiração pelo seu amigo, a rendição ao político. já neste milénio tentei um reencontro profissional que não aconteceu, filipe, vice-presidente da internacional socialista e muito requisitado internacionalmente, viajava constantemente, eram grandes as ausências de espanha. não foi possível.

6 aconteceu naquela noite. sentada àquela mesa, ouvindo conversas que iam rolando em óptimo ambiente, não podia, porém, deixar de pensar no tão misterioso élan – impulso? inspiração? intuição? – que faz ou não acontecer as coisas, surgirem as circunstâncias, produzir momentos “especiais”. acontecem: no dia seguinte, com trinta e oito graus de calor, estava a entrevistar filipe gonzalez em évora. no jantar da noite anterior mal pudera abordá-lo – era o “super-convidado” – mas na manhã seguinte a conversa fluiu, um rio a correr. antes tínhamos “brincado” quando lhe mostrei as fotos de cada um dos encontros a que aludi acima: “o tempo passa…” sorriso meio doce, meio irónico. o tempo trata-o bem, porém: filipe tem 84 anos, um farto cabelo branco e os ombros algo curvados, sim. mas a inteligência, a lucidez, a imensíssima experiência da política e do mundo, servidas por uma notável agilidade mental e um raciocínio estruturadíssimo, transmitem a (espantosa) impressão de que nada está fora do seu radar. e não está.

mostra-se muito pouco “ilusionado” com o mundo que percebe perigosíssimo. quase tudo o desgosta, indigna ou revolta – é conforme – e por isso se mantém tão activo. possui o poderoso instrumento da palavra, usa-a com propósito e mestria. intervém, sobe a palcos, desloca-se ao encontro dos “bons interlocutores” que tem pelo mundo, procura outros. tudo menos desistir. nunca lhe ocorreria.

um grande, grande político.

à despedida, um rasgadíssimo elogio a mário soares de quem era profundamente amigo. nunca deixou de o ver, aparecendo a visitar a família barroso soares em lisboa ou nafarros e cozinhando “ovos rotos” para o dono da casa que tinha por eles uma “perdição”. e as conversas não tinham fim.

7 aqui chegados (os textos têm de acabar…) pergunto-me: não fora o passado – bem preservado – e a memória – bem cuidada –, como poderia ter escrito hoje o que aqui deixo?

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comentários

filipe paes de vasconcellos

é tão bom e inspirador ler esta extraordinária senhora logo ao começo do dia. é uma prosa-poética. palmas e obrigado.

henrique mota: 

sublime.

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