do texto anterior: “o insubstituível lugar do passado” por maria joão avillez“tudo em são recordações”
5 Ia o jantar no seu fim quando o passado insistiu em abrir um outro
leque, falava já filipe gonzalez. o tempo deu
uma brusca reviravolta e parou em viana do castelo, num dia quente de verão de 1980.
gonzalez era então um
jovem andaluz, cabelo despenteado e colete preto, que estava ali para
participar na campanha legislativa de mário soares e da sua frente republicana
e socialista.
ambicioso e intrépido, filipe queria um país e eu
queria uma entrevista. ambos ganhámos: filipe veio a ter a espanha durante 14
anos (1982/96) como presidente do governo, eu obtive a entrevista.
e pude, ao longo do tempo, cruzar-me de novo com ele,
em diversas ocasiões, todas superlativas: três entrevistas – duas na oposição,
a terceira no governo; um jantar histórico numa tasca em vilamoura, antes de um
comício de mário soares em portimão onde ele reuniria vários líderes
socialistas europeus, entre eles mitterrand, bettino craxi, o próprio
filipe.
soares queria comer peixe fresco e, sorte minha, o facto de sermos apenas meia dúzia de
pessoas – entre elas sua filha isabel – permitiu que pudesse conversar
largamente com o líder espanhol. quase no final dos anos noventa o então já ex-presidente do
governo espanhol apresentou no palace de madrid a versão espanhola dos livros
que fiz com soares, num discurso absolutamente extraordinário: tal a minúcia da leitura, a
profundidade da análise do homem e do livro; a admiração pelo seu amigo, a
rendição ao político. já neste milénio tentei um reencontro
profissional que não aconteceu, filipe, vice-presidente da internacional
socialista e muito requisitado internacionalmente, viajava constantemente, eram
grandes as ausências de espanha. não foi possível.
6 aconteceu naquela noite. sentada àquela mesa,
ouvindo conversas que iam rolando em óptimo ambiente, não podia, porém, deixar
de pensar no tão misterioso élan – impulso? inspiração? intuição? – que faz ou não
acontecer as coisas, surgirem as circunstâncias, produzir momentos “especiais”.
acontecem: no dia seguinte, com trinta e oito
graus de calor, estava a entrevistar filipe gonzalez em évora. no jantar da noite anterior mal
pudera abordá-lo – era o “super-convidado” – mas na manhã seguinte a conversa
fluiu, um rio a correr. antes tínhamos “brincado” quando lhe
mostrei as fotos de cada um dos encontros a que aludi acima: “o tempo passa…” sorriso
meio doce, meio irónico. o tempo trata-o bem, porém: filipe tem 84 anos, um farto cabelo
branco e os ombros algo curvados, sim. mas a inteligência, a lucidez, a
imensíssima experiência da política e do mundo, servidas por uma notável
agilidade mental e um raciocínio estruturadíssimo, transmitem a (espantosa)
impressão de que nada está fora do seu radar. e não está.
mostra-se muito pouco “ilusionado” com o mundo que
percebe perigosíssimo. quase tudo o desgosta, indigna ou revolta – é conforme
– e por isso se
mantém tão activo. possui o poderoso instrumento da palavra, usa-a com
propósito e mestria. intervém, sobe a palcos, desloca-se ao encontro dos “bons
interlocutores” que tem pelo mundo, procura outros. tudo menos desistir. nunca
lhe ocorreria.
um grande, grande político.
à despedida, um rasgadíssimo
elogio a mário soares de quem era profundamente amigo. nunca deixou de o ver, aparecendo a
visitar a família barroso soares em lisboa ou nafarros e cozinhando “ovos
rotos” para o dono da casa que tinha por eles uma “perdição”. e as conversas
não tinham fim.
7 aqui chegados (os textos têm de acabar…)
pergunto-me: não fora
o passado – bem preservado – e a memória – bem cuidada –, como poderia ter
escrito hoje o que aqui deixo?
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comentários
filipe paes de vasconcellos
é tão bom e inspirador ler
esta extraordinária senhora logo ao começo do dia. é uma prosa-poética. palmas
e obrigado.
henrique mota:
sublime.
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