quinta-feira, 3 de outubro de 2013

“São teus olhos azeitonas”


Vem de longe, talvez da poetisa Sapho, o costume de envolver o retrato das figuras femininas, quer na literatura, quer na pintura, com imagens do belo, retiradas das flores, dos astros, das pedras e metais preciosos, das cores, das manifestações do tempo – a neve em paralelo expressivo hiperbolizante. As próprias cantigas do amor trovadoresco - convencionalmente traduzindo a coita de amor que invariavelmente trespassava o coração do poeta por motivo do distanciamento da “senhor”, aristocrática dama “de bom semelhar” ou “parecer” e bom “prez” e “falar”, que com a sua indiferença o faz ensandecer ou mesmo desejar a morte - embora raramente a retratem nos seus traços físicos, estes surgem aqui ou ali, como no refrão da cantiga de João de Guilhade (“Amigos, non poss’eu negar / a gram coita…”: “Os olhos verdes que eu ui / me fazen or’andar assi”), na de Ruy Paez (“Par Deus, ay dona Leonor,”) a comparação hiperbólica “Com’antr’ as pedras bom rubi, / sodes entre quantas eu ui”. Mais frequente é a metáfora encarecedora “lume destes olhos meus”. Também o lai da Leonoreta, que “Amadis de Gaula” transcreve dos Cancioneiros, utiliza a “roseta” e “toda a flor” para descrever Leonor: “Leonoreta / fin roseta / bela sobre toda fror”, que a Internet tão explicitamente nos mostra (e bem assim a “Crestomatia Arcaica” do Dr. José Joaquim Nunes que sigo.

No Renascimento e séculos seguintes tais paralelos ilustrativos da beleza feminina se multiplicam, até mesmo para as figuras populares, como a do vilancete camoniano “Descalça vai para a fonte”, glosado ao modo maneirista por Rodrigues Lobo – e no século XX, de modo extremamente visualista e dinâmico por Gedeão, no  Poema da auto-estrada” –“Voando vai para a praia / Leonor pela estrada preta. / Vai na brasa, de lambreta”.

Mas o maneirismo retórico todo ele se apura já, no Renascimento, no retrato convencional da mulher amada:

«De quantas graças tinha, a Natureza / Fez um belo e riquíssimo tesouro, / E com rubis e rosas, neve e ouro, /Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza / Do belo rosto as rosas, por quem mouro; /No cabelo o valor do metal louro; / No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia, / E fez deles um sol, onde se apura / A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura / Ela a apurar chegou quanto sabia / De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.»


       Tal preciosismo renascentista será levado, no Barroco, a uma orgia retórica de um rebuscamento angustiado, seguindo um percurso em suspense, de paralelismos antitéticos, no soneto “À morte de F.” de Francisco Vasconcelos do Cancioneiro “A Fénix Renascida”: a figura feminina – hiperbolizada em “jasmim”, aurora”, “fonte” “rosa”, não como metáforas simples mas prolongadas por outros sintagmas buscando efeitos requintados de superação daquelas – será identificada gradualmente, segundo a temática do efémero da vida:


«Esse jasmim que arminhos desacata, / Essa aurora que nácares aviva, / Essa fonte que aljôfares deriva, / Essa rosa que púrpuras desata; …»

Mas é sobre a transfiguração visionária da realidade, no poema “Num bairro Moderno”, de Cesário Verde, pela recriação de uma figura humana a partir dos vegetais que a rapariguinha vendedeira de hortaliças transporta, o motivo desta divagação pela poesia e o retrato metaforizado da beleza feminina de paralelo com as graças da natureza primaveril ou brilhante.

Em Cesário não se trata de realçar a beleza feminina, já que a vendedeira de hortaliças  é descrita, com ternura e simpatia, na sua fealdade e debilidade, ao poisar a sua giga de peso contrastivamente brutal:

«E rota, pequenina, azafamada,  / Notei de costas uma rapariga, / Que no xadrez marmóreo duma escada,  / Como um retalho de horta aglomerada,  /Pousara, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a;  / Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos;  / E abre-se-lhe o algodão azul da meia,  / Se ela se curva, esguedelhada, feia  /E pendurando os seus bracinhos brancos.»

Uma travagem no percurso deambulatório do poeta pela cidade colorida, o “retalho de horta aglomerada” lembrando repentinamente uma “visão de artista” de extraordinário impacto:

«Subitamente – que visão de artista! / Se eu transformasse os simples vegetais, / À  luz do sol, o intenso colorista,  /  Num ser humano que se mova e exista / Cheio de belas proporções carnais?!»


E no meio dos dados sensoriais de aromas, cores, sons, surge o quadro, talvez inspirado nos das Quatro Estações do pintor seiscentista Giuseppe Arcimboldo. Mas, diferentemente do propósito maneirista do pintor italiano, é de expressão naturalista e simultaneamente simbólica e a tender para o surrealismo, a transfiguração cesariana, destinada não só a assinalar o contraste entre a monstruosidade caricatural das hortaliças e o aspecto frágil da vendedeira, e simultaneamente a destacar a força produtiva da terra-mãe - igualmente simbolizada na força moral da rapariguinha do povo - “duma desgraça alegre que me incita” - que o convida, com uma franqueza natural, a ajudá-la a erguer a pesada giga:

«E eu recompunha, por anatomia, / Um novo corpo orgânico, aos bocados. /Achava os tons e as formas. Descobria / Uma cabeça numa melancia, / E nuns repolhos seios injectados.


As azeitonas, que nos dão o azeite, / Negras e unidas, entre verdes folhos / São tranças dum cabelo que se ajeite; / E os nabos – ossos nus da cor do leite, / E os cachos de uvas – os rosários de olhos.


Há colos, ombros, bocas, um semblante / Nas posições de certos frutos. E entre / As hortaliças, túmido, fragrante, / Como d' alguém que tudo aquilo jante/ Surge um melão que me lembrou um ventre.

E como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vívida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.»

Uma irmanação feita de solidariedade, de admiração pela valentia, despojada de rancor, da gente habituada ao trabalho (Cf. “Ela canta, pobre ceifeira” de Pessoa), mas também de um sentimento de revolta social, constante em Cesário:

E pitoresca e audaz na sua chita, / O peito erguido, os pulsos nas ilhargas / Duma desgraça alegre que me incita, / Ela apregoa magra, enfezadita, / As suas couves repolhudas, largas.


E como as grossas pernas dum gigante, / Sem, tronco, mas atléticas, inteiras, / Carregam sobre a pobre caminhante, / Sobre a verdura rústica, abundante, /Duas frugais abóboras carneiras.


      Não se trata, pois, de um descritivo erótico como nos versos de Silva Tavares e musicados por Alves Coelho e cantados por Lina de Moel (“Dia da Espiga”) que igualmente encontramos na Internet:
«Maria! São teus olhos azeitonas
Cachopa! São teus lábios quais cerejas
E teus seios cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja.»

               Hoje, que a poesia não conhece travão no imaginário para se afirmar com originalidade, com maior ou menor profusão de discursos ínvios, e com um erotismo sem preconceito, o discurso preciso, geométrico, de Cesário poderá parecer demasiado prolixo, na transparência de um pensamento rigoroso e claro. Mas a técnica impressionista, por vezes pontilhista, da anotação breve e múltipla, é de inegável sugestividade e beleza, os motivos poéticos, juntamente com o sentido crítico, o tornaram um escritor de vanguarda. O poema citado o demonstra.

Entre tantos artifícios semânticos e formais, em que não são menos expressivos o plano fónico e a variada arquitectura versificatória, que tornaram a poesia de Cesário pioneira de modernidade, inspiradora de grandes poetas posteriores, dois versos, como exemplo, de “O Sentimento de um Ocidental”: “E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, / Amareladamente os cães parecem lobos” que, quer na sequência progressiva da adjectivação descritiva (o adjectivo final “errantes” pontuando o aspecto psicológico, demarcando-se da sucessão dos de carácter físico), quer na hipálage do advérbio formando um traço impressionista de cor, ou a comparação hiperbólica final, traduzem uma estranha pintura de fome canina e de sensibilidade à sua miséria, num perfeito nexo entre a objectividade – a alteridade, o mundo dos outros – e a subjectividade, funcionando na estreita comunhão dos seus “quadros revoltados”,
 
Uma pequena homenagem a um poeta da modernidade, um pequeno vasculhar em poetas anteriores – em Silva Tavares igualmente - que marcaram tão fortemente a literatura portuguesa. Para mim, o encantamento de o reviver.

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