A leitura destas ternas memórias, num momento sombrio, de hospitalização do meu marido, quando, enquanto o acompanho, junto à cama do Hospital, vou lendo um livro que este “Memorial”, igualmente terno e sombrio, de Nuno Lebreiro veio recordar: Trata-se de “O MÉDICO E O MONSTRO”, de R. L. STEVENSON, também evocador de tempos passados, embora numa acção naturalmente mais romanesca, mas com saudosismo próximo, próprio das evocações do passado ternurento, em momento de dor. Gostei a valer do texto de NUNO LEBREIRO, não só pela sua graciosidade e encanto, como pela saudosa ternura fraterna, subentendida, com a sua composição.
Regresso
a este conto, dedicando-o ao meu irmão Nuno, que nos deixou
Nuno
Lebreiro Investigador académico, membro do podcast Linhas Direitas
OBSERVADOR, 11 set. 2026, 00:20
O meu Alentejo, e chamo-o de meu do mesmo modo como trato o
meu braço direito, foi nascendo muito antes de eu sequer imaginar o que viria
aí. Começou, penso eu, com o meu irmão mais velho que, partilhando o
mesmo primeiro nome próprio que eu, e sendo grande, maior mesmo que o nosso
Pai, com o meu nascimento ganhou a alcunha de Nunão. Já eu, por oposição, nasci
Nuninho e, por maior que fosse ficando, assim continuei. Cresci em Cascais, a
ver o mar, isolado na encosta da Serra de Sintra, na casa, como o meu Pai
costumava dizer, “mais perto do mar”. Tirando um vizinho mais ou menos da minha
idade que, tendo os pais separados, aparecia ao fim-de-semana, como amigos e
companhia, tinha quatro cães, uns pastores alemães enormes, mas brincalhões,
pachorrentos com a criançada, em particular comigo que viam como uma espécie de
equivalente humano.
Nesse tempo, o meu irmão
Nunão, o filho mais velho do primeiro casamento do meu Pai, vivia em Amsterdão,
na Holanda, e vinha todos os anos passar umas semanas connosco, tanto no Verão
como pelo Natal. Para mim, desde que me lembro de vir a este mundo, eram as
melhores alturas do ano. O meu irmão não só trazia sempre um qualquer reforço
para o meu equipamento futebolístico — bolas, luvas de guarda-redes,
caneleiras, meias ou chuteiras, — como também se prestava a jogar à bola
comigo, substituindo os muros contra os quais, sempre equipado a rigor, eu
normalmente tabelava, ou chutava, a bola em geniais passes rasgados e remates
fulminantes. Paciência do meu irmão, prazer o meu, alívio dos cães que, doutro
modo, à falta de companhia, eu fintava, rabiava e por cima dos quais fazia
saltar a bola, sem que, entre bocejos lentos, alcançassem a complexidade dos
enredos de conquistas gloriosas nos quais participavam, como adversários, mesmo
que inadvertidamente — tirando, naturalmente, quando o esférico acertava nos desgraçados.
A casa, grande e em parte
normalmente vazia, nessas ocasiões em que o Nunão vinha visitar e ocupava o
“quarto lá de baixo”, ganhava uma vida familiar à qual eu não estava habituado,
tendo-me legado, em particular no Natal, impressões ainda hoje tão vivas quanto
as centenas de memórias guardadas nos álbuns — aqueles em que se tinha que
enfiar os cantos das fotografias nuns fugidios triângulos de plástico — que
guardo ainda aqui na biblioteca, numa prateleira reservada especialmente para
esse efeito. E o mundo assim girou, na sua tranquila e repetitiva normalidade,
durante grande parte da minha infância.
Em 1988, tinha eu dez anos,
esse mundo mudou. O Nunão, depois de visitar uma amiga exilada no Sudoeste
alentejano, ali para os lados do Cercal, decidiu que seria boa ideia comprar um
velho monte vizinho que, incorporando uma taberna, um mini-mercado e algumas
dependências agrícolas, estava para venda. A ideia, original à época, era
transformar o monte naquilo que hoje se chama um turismo rural, mas que na
altura, fruto da novidade, ainda não tinha nome. O meu irmão, creio eu, foi o
pioneiro nessa actividade que agora por aqui abunda e que consiste numa das
forças económicas da região.
Mas naqueles tempos ainda não
era assim. O Alentejo litoral mantinha ainda o seu carácter inóspito, em muitos
casos de abandono, povoado por pequenos montes onde a taipa, encarniçada,
esburacada, se misturava com a cal e o tijolo mais moderno, muitas vezes à
vista, criando barracas, a maior parte das quais sem casas de banho,
esparsamente espalhadas pelos campos e servidas por poeirentas estradas de
“caminho velho”, ou seja, terra batida. Os aglomerados eram pequenos,
“levantados do chão”, com actividade centrada na taberna, no mini-mercado ou no
posto dos correios, local onde, invariavelmente, residia também o telefone,
sendo que em muitas ocasiões um só estabelecimento acumulava todas as funções —
no caso das Casas Novas, o lugar onde o
meu irmão se queria instalar, era a venda da D. Guiomar.
De resto, fechados dentro das
casas e tabernas, de janelas pequenas quando não limitados aos postigos das
portas de madeira antiga descoloradas pelo sol, refúgio face ao frio húmido no
Inverno ou o calor seco no Verão, os nativos passavam lentamente os dias
enfiados naqueles casulos sombrios, fechados, claustrofóbicos, junto com o copo
de tinto, a média de cerveja e o tirinho de aguardente de medronho vendido
ilegalmente, protegidos dos caminhos desertos e poeirentos. As horas, então, em
particular por aqueles lugares remotos, passavam ainda mais devagar. Os dias,
as semanas, os meses e as estações repetiam-se, as vidas também, de pais para
filhos, de avós para netos, de bisavós para bisnetos, numa rotina partilhada
por gerações, um modo de viver e morrer que se parecia imortalizar, vidas cujos
princípios e fins se confundiam numa espécie de sempiterno terreno que nada,
nem a catadupa de revoluções industriais, tecnológicas e sociais dos últimos
séculos transformando o mundo, parecia ameaçar.
Nas aldeias e vilas já
maiores, a coisa era diferente. Em redor das praças centrais, ponto de encontro
onde, normalmente, paravam os autocarros, os mais empreendedores, sem qualquer
certificação da ASAE, abriam esplanadas e toldos onde serviam bifanas, pregos e
sandes, sempre acompanhadas de vinho a copo, ou cerveja fresca. Aí, a vida
social saía do negrume escondido para a claridade do dia, das trevas para a
luz, revelando toda uma sociedade pobre, mas cuidada. Eles, de boné, casaco
quadriculado de lapelas com dois botões, camisa e gravata; elas, de aventais e
batas coloridas, cabelos muitas vezes curtos, ou pelo menos apanhados, isto as
mulheres de meia idade. Já as mais velhas, essas vestiam invariavelmente preto,
com lenços a condizer, enquanto as mais novas mostravam ares de modernidade com
longos cabelos negros e trajes mais arrojados.
Nenhuma desta gente ia à
praia. Muito deles, mesmo vivendo em linha recta a 15 ou 20 quilómetros da
costa, não tinham carro nem burro, andavam sempre a pé e nunca tinham sequer
visto o mar. E que mar, esse, o do Alentejo vicentino. Azul, desde a praia até um
horizonte pincelado por cristas enormes, poderosas, mitológicas, de espuma
branca e aroma a Atlântico. Frio, sempre frio, tal como cristalino, enfeitado
de algas multicolores, torna-se esverdeado nas fozes das ribeiras, bem como nas
poças semeadas por entre os infinitos rochedos jogados ao acaso pelo tempo,
semi-enterrados nos areais.
Ao longo da costa, por cima de
praias desertas e dos pingos das ondas, então, não havia mais que umas
pequenitas vilas piscatórias, com meia dúzia de ruas de alcatrão, sempre
fervilhante no Verão, ladeadas por uns quantos cafés e variadas lojas de conveniência
estival. Lá em baixo, no findar de cada vale, cada qual com o estuário da
respectiva ribeira, sem pontes, éramos forçados a atravessar as águas
correntes, rasas, de carro ou a pé, para, finalmente, chegar aos areais puros,
praticamente vazios, das múltiplas praias que, em pequenas enseadas sucessivas,
compõem grande parte da costa alentejana.
Nesses tempos, nos areais
maioritariamente desérticos, onde inclusive se podia ainda acampar para
pernoitar, a fauna humana, separada por zonas informais, era composta por uns
poucos jovens locais, turistas aventureiros, em muitos casos nudistas, e alguma
dose de lisboetas e demais portugueses citadinos, de calções às riscas e fio ao
pescoço que, normalmente por ligações familiares, ali tinham na zona segundas
casas onde costumavam veranear. À distância, perto dos portos sem areal e
pejados de rochas — o do Canal, o das Barcas, o da Azenha —, invariavelmente
encavalitado no topo de uma falésia e a ver o sol por-se no mar, a oferta
gastronómica consistia numa ou duas barracas de madeira, com telhados de chapa
forrados a canas velhas e chão de cimento pintado.
Aí, sentados em cadeiras
velhas, carunchosas, quando não bancos, servia-se em mesas de madeira, umas com
plásticos pregados, outras cobertas a toalhas de papel, as mais variadas
iguarias: desde o percebe abundante que servia de entrada, ao mais fresco dos peixes
e a uma infinidade de mariscos diversos, uns e outros grelhados ou fritos, bem
como, a tacho, feijoadas de búzios ou de choco, sem esquecer as caldeiradas,
tudo sempre devidamente acompanhado de vinho fresco a jarro, tal como pago a
preços modestos, bem anunciados em cartazes de xisto escrevinhados a giz
branco.
Nos centros das vilas, as
casas, brancas e com barras de cores diversas — o amarelo de Milfontes, o azul
da Zambujeira, por exemplo — organizavam-se em ruelas de alcatrão velho,
permanentemente adornadas com os então tradicionais cartazes, escritos à mão e
pendurados nas janelas, anunciando quartos para alugar a quem quisesse passar a
noite, ou a semana. Naturalmente, com a mira posta nos estrangeiros que vinham
espraiar-se nas areias já famosas de Vila Nova de Milfontes e Porto Côvo,
predominavam os escritos em inglês e alemão — “Room”, “Zimmer”, diziam eles,
livres de impostos, ratings, livros de reclamações, ou sequer das garantias de
conforto inclusivo, integrado e digital do Airbnb.
Pelo contrário, naquele velho
mundo de então, a melhor crítica era mesmo a sugestão do dono do restaurante
central. Este, por oposição aos dos “portinhos”, já oferecia luxos variados, tais como uma vistosa toalha
de pano por baixo da de papel, menu escrito à mão, mas encadernado a couro,
mosquiteiro eléctrico com luz negra letal para mosquitos, moscas, besouros e
demais insectos, azulejos a meia parede de cores variadas compondo desenhos
geométricos, bem como quadros ou fotografias da própria zona decorando as
salas, muito mais amplas, normalmente corridas ao longo de balcões de inox onde
os velhos, pela tarde, se encostavam a beber cerveja e medronho enquanto
ouviam, primeiro rádio, mais tarde televisão — uma praga que, sempre ligada
desde os anos 80, ainda infecta o país inteiro.
Mas divirjo. Certo dia, em
1987, o Nunão levou-nos a ver o tal monte que queria comprar. À primeira vista
aquilo não prometia muito. Telhado antigo, bambo e com falhas de telhas, os
tectos suportados por barrotes antigos, pouco confiantes, carunchosos, forrados,
nos intervalos, a cana velha, lascada e, de tão seca, já mais cinzenta que
amarela. Nem casa-de banho-tinha. E da cozinha nada se aproveitava além de uma
enorme pedra de mármore que compunha uma bancada separando-a do resto da sala
onde diversas mesas com tampos de mármore e algumas cadeiras desirmanadas
pareciam co-existir há décadas.
Pior que tudo isso, mal o
nosso Pai, o convidado principal da romaria na medida em que se prestava à
condição de potencial fiador, passou essa sala principal da taberna — ainda em
funcionamento — e entrou para inspeccionar um corredor esconso, eis senão quando,
no meio da escuridão, ainda nem tinha entrado na casa há dois ou três minutos e
já ele tinha esmurrado a cabeça na aduela de uma porta pensada, imagino eu,
para pessoas com metro e meio, metro e sessenta de altura, na melhor das
hipóteses.
Naturalmente, o meu Pai não
ficou impressionado. Nem eu, para ser sincero. Não gostei do cheiro, quer da
tasca, quer do mini-mercado. Tudo me pareceu velho e porco, tendo preferido
ficar do lado de fora, ao sol, ou debaixo do alpendre onde uma imensa parreira
fazia sombra, entretido com uma espingarda de plástico da qual gostava
particularmente porque o gatilho estalava de verdade e a madeira fingida da
coronha, oferecendo ares de grande realismo, lembrava a caçadeira verdadeira
que o meu Pai guardava no armário grande do hall da nossa casa do Guincho.
Verdade seja dita, lá, naquele meu mundo hoje perdido, mas em que então ainda
vivia, não me ocorreu que, naquele mesmo momento, enquanto os adultos se
acertavam em pormenores, valores e prazos e eu brincava com a espingarda
mirando inimigos imaginários para além da ribeira das Casas Novas, nascia algo
que, a seu tempo, dentro de mim, com os anos, em germinando, iria definir muito
daquilo que é a minha vida hoje em dia.
O meu irmão comprou, portanto,
o monte e, desculpando-se a aliteração, montou o estaminé. Lavou, pintou,
arranjou, reconstruiu, recuperou e, no Verão de 88, a coisa abriu. Esteve meses
cheio de amigos, amigos de amigos e, para bom augúrio dele, amigos de amigos de
amigos, na maior parte dos quais holandeses à descoberta da aventura prometida
por uma terra de uma Europa distante, ainda perdida no espaço e no tempo.
Nesses Verões primordiais, durante o dia, ia-se para a infinita Praia do Malhão
ou, em ficando no monte, refrescávamos as almas, frequentemente estarrecidas
pelos mais de quarenta graus, num duche instalado no meio do jardim, composto
por quatro barrotes enfiados no chão, forrados por três tábuas largas de
madeira e uma cortina, um conjunto pitoresco que hoje talvez passasse por chic
freak, mas que deixava à vista as pernas do utilizador — e não só, isto para
quem tivesse menos de metro e meio de altura, como era o meu caso.
De tempos a tempos, também
havia banhos num pequeno tanque junto ao poço que, lavado e desinfectado, mesmo
sem filtragem, dava para uns quantos dias a banhos. Nos intervalos, passeava-se
pelo campo onde o amarelo da seara havia já substituído o verde que nos
Invernos e Primaveras, ao sabor do vento, ondulava levemente como um
infindável, desértico, solitário, mar — um mar verde, um Verdemar, o nome com o
qual o meu irmão baptizou o seu hotel rural. De resto, o campo. O infinito
campo alentejano. Aos ouvidos, além da brisa que espraia a solidão dos montes,
não chegava nada além de um encantado isolamento, uma curiosa comunhão com o
mundo, um mundo que ali parecia tal qual aquilo que é — enorme, gigante,
cósmico, mas de algum misterioso modo também parte de nós.
Ao entardecer, depois dos
banhos, o meu irmão ligava a aparelhagem e, ao som de rock e blues, todos se
juntavam na esplanada enquanto ele, chef de profissão, cozinhava o jantar que,
já de noite, lá fora, debaixo da parreira, todos os hóspedes, amigos e familiares
partilhavam numa comprida mesa de madeira à luz de velas enfiadas em garrafas
de vinho vazias, daquelas de um verde fosco e fino que hoje em dia já não se
fazem e que os anos vieram a cobrir de cera derretida. O ambiente da refeição
era de grande algazarra e feliz convívio, fazendo-se a cacofonia do
português misturado com o holandês e o inglês, um caleidoscópio sonoro de
opiniões e risos, todos bebendo do mesmo jarro de vinho, sempre cheio, o que
ajudava à animação. O meu irmão servia o típico português, mas sempre com um
toque de originalidade — aquilo que hoje, armando ao pingarelho, se chama
“fusão” —, juntando o tradicional explanado numa primeira edição do Pantagruel
devidamente assinada pela Berta da Rosa Limpo, e que ele ainda tem lá em casa,
com tudo o mais que os anos de experiência a cozinhar em Amesterdão lhe tinham
ensinado.
CONTINUA
Nenhum comentário:
Postar um comentário