Do TEXTO de NUNO LEBREIRO “SUDOESTE”
(in “COINCIDÊNCIA”)
Sempre a três pratos, capaz de
variar o menu por completo durante mais de três semanas, começando pelas
saladas com os produtos da horta, depois com grelhados, assados e estufados de
carne e peixe combinando com acompanhamentos variados, culminando sempre naquilo
que as crianças inevitavelmente mais aplaudem — a sobremesa —, tudo era gabado
pelos comensais. Assim de memória, relembro como imbatíveis o cabrito assado,
que ainda hoje é a minha referência quando a cozinhá-lo, o Gratin Dauphinois
que me enchia as medidas, sempre gulosas, e as peras bêbedas, iguaria que
quando aparecia me levava sempre a ver se conseguia espremer os últimos traços
de molho para o meu prato. De todas estas impressões não tenho eu a versão
fotográfica, mas guardo bem presentes, no coração, as memórias dessas noites
passadas no Verdemar — e mal imaginava o quanto dos verões da minha infância e
adolescência se iria passar naquela alegre, quase perpétua, rotina. Parte de
mim, creio, ainda lá está.
Em boa verdade, não sei como
surgiu a ideia. No entanto, no Verão de 90, tinha eu doze anos, fui passar o
mês inteiro de Agosto ao turismo rural do meu irmão. A razão da estadia foi a
que decorreu de uma negociação familiar que me escapou, mas na qual se decidiu
a minha promoção de convidado esporádico a ajudante de última categoria do
Verdemar. Digo de última categoria porque abaixo de mim só mesmo as
ovelhas e os cães, e esses, pelo menos da minha perspectiva, não contavam para
a ordem hierárquica da situação, coisa que o facto de me sentar à mesa com
todos os outros para jantar, privilégio não conferido aos elementos irracionais
da comunidade, confirmava.
Na minha nova função,
apanhava coisas da horta, varria a esplanada, actividade que detestava e
evitava sob pretextos variados, bem como ajudava a pôr e a levantar a mesa ou,
ainda, a lavar a loiça, aqui normalmente na função de secador. Também era o
principal responsável por, sempre que necessário, ir buscar isto ou
aquilo, ou seja, tornando-me numa espécie de auxiliar, um pouco mais útil que
um alicate e, imagino, certamente acima de um comando televisivo humano, uma
das poucas responsabilidades que já conhecia pois que, tal como toda a geração
de 70, antes dos comandos electrónicos aparecerem, ao serão, e no meu caso a
mando normalmente do meu Pai, era eu o responsável por levantar-me da mesa e ir
rodar o botão para que se pudesse ver o que estava a começar a dar no “outro
canal”, momento de mudança na programação que se apanhava por uns sinais ‘+’
anunciados no canto superior direito do televisor. De qualquer forma, a minha
utilidade no Verdemar, mesmo que reduzida e, por vezes, recalcitrante, imagino-a
comprovada histórica e empiricamente pelo facto de o convite se ter repetido no
ano seguinte.
Aliás, ao longo dos anos
a tradição da minha estadia alentejana manteve-se e, não obstante permanecer no
final da hierarquia do estabelecimento, as minhas responsabilidades até foram
aumentando. Passei a tratar, por exemplo, de dar de comer aos bichos, tarefa
realizada normalmente com sucesso, excepção seja dada a um determinado dia em
que não tranquei a cerca devidamente e o raio das ovelhas fugiram todas para
parte incerta, motivando horas de busca e captura por parte de toda a gente.
Esse não foi um bom dia. Fui, também, incorporado no sector que se dedicava a
renovar certas construções na quinta. Lavei telhas velhas, carreguei carrinhos
e carrinhos de cimento, areia e tijolos, aprendi, inclusive, a fazer massa com
uma enxada e, sob o sol quente de Verão, a suar, foi precisamente no meio dos
dois vizinhos que compunham o grupo de ajudantes que me senti, creio que pela
primeira vez, verdadeiramente útil.
Poucas coisas farão um ser
humano orientar-se num mundo que não lhe liga grande coisa como ajudar a fazer
uma casa. Hoje, que já fiz várias, sei do que falo. Na altura, claro está, não
imaginava tal coisa, sentia-me apenas feliz, e importante, por poder estar com
gente crescida, ajudar e aprender, bem como, pormenor muito importante,
partilhar os momentos de descanso em que eles, os adultos, paravam para beber
uma cerveja e eu, para não ficar atrás, imitando-lhes os jeitos, emborcava
garrafas de Sumol pelo gargalo, umas vezes de laranja, outras de ananás. O
resultado, não duvido, valeu as penas e os sacrifícios. Ainda lá está a
pleno uso pelos “clientes” — um conceito abstracto no linguarajar da casa que
implicava muita responsabilidade — uma casa em que as telhas, originais,
foram lavadas, esfregadas, raspadas por mim, o reboco tosco das paredes, foi
também, em parte, fruto do meu labor, e tudo fruto do transporte dos
pesadíssimos sacos de cimento que, à torreira do sol, carreguei, um a um, a
bufar, desde a entrada da quinta, num velhinho carro de mão.
O meu Alentejo é por isso,
como dizia no início, tão meu como o meu braço direito. Não porque a província
me pertença, ou seja mais minha do que de quaisquer outros, mas porque tantas
das memórias que fazem da pessoa que fui ontem aquele que sou hoje estão
misturadas com um conceito mental, meu, que, para mim, é o Alentejo, no meu
caso particular, o Sudoeste alentejano. É, nessa medida, nesse espaço abstracto
onde residem os conceitos que organizam os sentidos e oferecem os significados
das nossas histórias de vida particulares, meu, e apenas meu, tão apenas meu
quanto as minhas memórias, mesmo aquelas que, espalhadas no tempo e partilhadas
por tanta gente, não deixam ainda de serem memórias minhas e de mais ninguém.
No final, foi assim
mesmo que o meu Alentejo me nasceu: em família, em paz e infantil felicidade,
em sucessivos verões passados no Verdemar, sempre acampado lá fora, no jardim,
atrás de um muro, para não estorvar os quartos destinados aos clientes, mas com
direito a uma extensão, sempre a mesma, que me permitia usar um pequeno
candeeiro e ligar um rádio. Era assim que, à noite, já depois de todos se terem
recolhido, após lidos dois ou três capítulos de um livro policial, ouvia música
baixinho enquanto, deitado num velho colchão de espuma, com a cabeça do lado de
fora da tenda, acompanhado pelo canto dos grilos, olhava as estrelas e sonhava
com o futuro que o tempo haveria de trazer.
N. do A – O presente
conto auto-biográfico é uma versão revista, modificada, melhorada,
originalmente publicada aqui no Observador, e que volto a publicar como
homenagem ao meu irmão Nunão, que a semana passada nos deixou.
N. do A (2) – O Verdemar
ainda lá está, agora nas mãos da minha cunhada, Christine, e dos meus
sobrinhos, Tomás e Duarte.
COMENTÁRIOS
Paulo Rosário
Lembro-me perfeitamente da crónica
original, escrita extraordinária e relato fascinante. Os meus sinceros
sentimentos, para si e toda família.
João Sá
Um texto magnífico e
tocante.
Felizmente ainda hoje os
nossos sentidos são homenageados nas Casas Novas.
Os campos a perder de vista
inspiram paz e estimulam a meditação sobre o sentido da Vida das questões
complexas da nossa existência.
Ainda existe poeira nos
caminhos.
De manhã ouve-se o canto de
(pelo menos) oito aves diferentes.
E o jerico dá prova de vida
do nascer ao por do Sol.
A nossa existência é
transitória, um ponto quase invisível na história da Humanidade. Passamos
velozmente por uma terra bela, fantástica, cuja perenidade desejamos.
Carlos Carvalho
Muitos parabéns e fico
com muita pena do Nunão
António Costa e Silva
À nossa terra calhou uma
parte muito grande da beleza que há e que NL tão bem conta.
JM Azevedo
Muito bonita homenagem e o
conto, realmente melhorado face ao anterior. Esse Sudoeste...
Miguel Macedo
Muito boa crónica!
Lembro-me da anterior!
Humilde Servo
Linda homenagem.
Recordo-me de ter lido este texto na versão anterior. Também passei longos
verões no sudoeste alentejano, no meio de amigos locais, camones e lisboetas,
em tardes infindas de ociosidade e leituras. Um abraço de consolo pela morte do
seu irmão. Que Deus o acolha junto de Si.
Pedro Rocha
Texto incrível, e
ainda melhor do que tinha sido publicado antes (como é possível?!). O Nunão
onde quer que esteja, está certamente muitíssimo orgulhoso. Um forte abraço
graça Dias
Um texto brilhante e
lindooo.
Obrigada NL.
Notung Notung
Um texto excelente, que
se lê com agrado. Parabéns pelo artigo, mesmo tratando-se de in memoriam.
Maria Carreira
Lindo!!
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