sábado, 12 de setembro de 2026

CONTINUAÇÃO

 

Do TEXTO   de NUNO LEBREIRO “SUDOESTE”

(in “COINCIDÊNCIA”)

Sempre a três pratos, capaz de variar o menu por completo durante mais de três semanas, começando pelas saladas com os produtos da horta, depois com grelhados, assados e estufados de carne e peixe combinando com acompanhamentos variados, culminando sempre naquilo que as crianças inevitavelmente mais aplaudem — a sobremesa —, tudo era gabado pelos comensais. Assim de memória, relembro como imbatíveis o cabrito assado, que ainda hoje é a minha referência quando a cozinhá-lo, o Gratin Dauphinois que me enchia as medidas, sempre gulosas, e as peras bêbedas, iguaria que quando aparecia me levava sempre a ver se conseguia espremer os últimos traços de molho para o meu prato. De todas estas impressões não tenho eu a versão fotográfica, mas guardo bem presentes, no coração, as memórias dessas noites passadas no Verdemar — e mal imaginava o quanto dos verões da minha infância e adolescência se iria passar naquela alegre, quase perpétua, rotina. Parte de mim, creio, ainda lá está.

Em boa verdade, não sei como surgiu a ideia. No entanto, no Verão de 90, tinha eu doze anos, fui passar o mês inteiro de Agosto ao turismo rural do meu irmão. A razão da estadia foi a que decorreu de uma negociação familiar que me escapou, mas na qual se decidiu a minha promoção de convidado esporádico a ajudante de última categoria do Verdemar. Digo de última categoria porque abaixo de mim só mesmo as ovelhas e os cães, e esses, pelo menos da minha perspectiva, não contavam para a ordem hierárquica da situação, coisa que o facto de me sentar à mesa com todos os outros para jantar, privilégio não conferido aos elementos irracionais da comunidade, confirmava.

Na minha nova função, apanhava coisas da horta, varria a esplanada, actividade que detestava e evitava sob pretextos variados, bem como ajudava a pôr e a levantar a mesa ou, ainda, a lavar a loiça, aqui normalmente na função de secador. Também era o principal responsável por, sempre que necessário, ir buscar isto ou aquilo, ou seja, tornando-me numa espécie de auxiliar, um pouco mais útil que um alicate e, imagino, certamente acima de um comando televisivo humano, uma das poucas responsabilidades que já conhecia pois que, tal como toda a geração de 70, antes dos comandos electrónicos aparecerem, ao serão, e no meu caso a mando normalmente do meu Pai, era eu o responsável por levantar-me da mesa e ir rodar o botão para que se pudesse ver o que estava a começar a dar no “outro canal”, momento de mudança na programação que se apanhava por uns sinais ‘+’ anunciados no canto superior direito do televisor. De qualquer forma, a minha utilidade no Verdemar, mesmo que reduzida e, por vezes, recalcitrante, imagino-a comprovada histórica e empiricamente pelo facto de o convite se ter repetido no ano seguinte.

Aliás, ao longo dos anos a tradição da minha estadia alentejana manteve-se e, não obstante permanecer no final da hierarquia do estabelecimento, as minhas responsabilidades até foram aumentando. Passei a tratar, por exemplo, de dar de comer aos bichos, tarefa realizada normalmente com sucesso, excepção seja dada a um determinado dia em que não tranquei a cerca devidamente e o raio das ovelhas fugiram todas para parte incerta, motivando horas de busca e captura por parte de toda a gente. Esse não foi um bom dia. Fui, também, incorporado no sector que se dedicava a renovar certas construções na quinta. Lavei telhas velhas, carreguei carrinhos e carrinhos de cimento, areia e tijolos, aprendi, inclusive, a fazer massa com uma enxada e, sob o sol quente de Verão, a suar, foi precisamente no meio dos dois vizinhos que compunham o grupo de ajudantes que me senti, creio que pela primeira vez, verdadeiramente útil.

Poucas coisas farão um ser humano orientar-se num mundo que não lhe liga grande coisa como ajudar a fazer uma casa. Hoje, que já fiz várias, sei do que falo. Na altura, claro está, não imaginava tal coisa, sentia-me apenas feliz, e importante, por poder estar com gente crescida, ajudar e aprender, bem como, pormenor muito importante, partilhar os momentos de descanso em que eles, os adultos, paravam para beber uma cerveja e eu, para não ficar atrás, imitando-lhes os jeitos, emborcava garrafas de Sumol pelo gargalo, umas vezes de laranja, outras de ananás. O resultado, não duvido, valeu as penas e os sacrifícios. Ainda lá está a pleno uso pelos “clientes” — um conceito abstracto no linguarajar da casa que implicava muita responsabilidade — uma casa em que as telhas, originais, foram lavadas, esfregadas, raspadas por mim, o reboco tosco das paredes, foi também, em parte, fruto do meu labor, e tudo fruto do transporte dos pesadíssimos sacos de cimento que, à torreira do sol, carreguei, um a um, a bufar, desde a entrada da quinta, num velhinho carro de mão.

O meu Alentejo é por isso, como dizia no início, tão meu como o meu braço direito. Não porque a província me pertença, ou seja mais minha do que de quaisquer outros, mas porque tantas das memórias que fazem da pessoa que fui ontem aquele que sou hoje estão misturadas com um conceito mental, meu, que, para mim, é o Alentejo, no meu caso particular, o Sudoeste alentejano. É, nessa medida, nesse espaço abstracto onde residem os conceitos que organizam os sentidos e oferecem os significados das nossas histórias de vida particulares, meu, e apenas meu, tão apenas meu quanto as minhas memórias, mesmo aquelas que, espalhadas no tempo e partilhadas por tanta gente, não deixam ainda de serem memórias minhas e de mais ninguém.

No final, foi assim mesmo que o meu Alentejo me nasceu: em família, em paz e infantil felicidade, em sucessivos verões passados no Verdemar, sempre acampado lá fora, no jardim, atrás de um muro, para não estorvar os quartos destinados aos clientes, mas com direito a uma extensão, sempre a mesma, que me permitia usar um pequeno candeeiro e ligar um rádio. Era assim que, à noite, já depois de todos se terem recolhido, após lidos dois ou três capítulos de um livro policial, ouvia música baixinho enquanto, deitado num velho colchão de espuma, com a cabeça do lado de fora da tenda, acompanhado pelo canto dos grilos, olhava as estrelas e sonhava com o futuro que o tempo haveria de trazer.

N. do A – O presente conto auto-biográfico é uma versão revista, modificada, melhorada, originalmente publicada aqui no Observador, e que volto a publicar como homenagem ao meu irmão Nunão, que a semana passada nos deixou.

N. do A (2) – O Verdemar ainda lá está, agora nas mãos da minha cunhada, Christine, e dos meus sobrinhos, Tomás e Duarte.

COMENTÁRIOS

Paulo Rosário

Lembro-me perfeitamente da crónica original, escrita extraordinária e relato fascinante. Os meus sinceros sentimentos, para si e toda família.

João Sá

Um texto magnífico e tocante.

Felizmente ainda hoje os nossos sentidos são homenageados nas Casas Novas.

Os campos a perder de vista inspiram paz e estimulam a meditação sobre o sentido da Vida das questões complexas da nossa existência.

Ainda existe poeira nos caminhos.

De manhã ouve-se o canto de (pelo menos) oito aves diferentes.

E o jerico dá prova de vida do nascer ao por do Sol.

A nossa existência é transitória, um ponto quase invisível na história da Humanidade. Passamos velozmente por uma terra bela, fantástica, cuja perenidade desejamos.

Carlos Carvalho

Muitos parabéns e fico com muita pena do Nunão

António Costa e Silva

À nossa terra calhou uma parte muito grande da beleza que há e que NL tão bem conta.

JM Azevedo

Muito bonita homenagem e o conto, realmente melhorado face ao anterior. Esse Sudoeste...

Miguel Macedo

Muito boa crónica! Lembro-me da anterior!

Humilde Servo

Linda homenagem. Recordo-me de ter lido este texto na versão anterior. Também passei longos verões no sudoeste alentejano, no meio de amigos locais, camones e lisboetas, em tardes infindas de ociosidade e leituras. Um abraço de consolo pela morte do seu irmão. Que Deus o acolha junto de Si.

Pedro Rocha

Texto incrível, e ainda melhor do que tinha sido publicado antes (como é possível?!). O Nunão onde quer que esteja, está certamente muitíssimo orgulhoso. Um forte abraço

graça Dias

Um texto brilhante e lindooo.

Obrigada NL.

Notung Notung

Um texto excelente, que se lê com agrado. Parabéns pelo artigo, mesmo tratando-se de in memoriam.

Maria Carreira

Lindo!!

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