sábado, 3 de junho de 2017

O Trump de lá, a trampa de cá



Galaró emplumado, ei-lo que deu o seu passeio, no artificialismo das convenções, actor pisando o seu palco a rebentar de orgulho, na avidez dos media, na pequenez dos discursos, na farsa dos gestos. Um homem de coragem, todavia, pretendendo exibir a sua importância, e viver a sua história de conto de fadas, mas na realidade sem a varinha mágica imprescindível - para nós, pelo menos, europeus do bom viver, que continuamos a precisar da sua colaboração, para podermos usufruir dos copos e das mulheres, sobretudo cá os do sul, mais soalheiros. E afinal, logo após a viagem de fantochada, o passo a seguir de Trump foi rasgar um tratado que impõe a obrigatoriedade de salvar a Terra contra o desastre ambiental. Donald Trump sente-se confortável no seu mundo de poder e não entende de poluições, torcido no inchaço da sua cadeira de ”rei absoluto”, que não percebe das nudezas de todas as condições, e, mais que todas, essa dos tronos. O certo é que, nesta velocidade com que as notícias ocorrem, a visita de Donald Trump, referida por Teresa de Sousa, já foi, a do rasgar do Acordo o será em breve, nesta dança de campeões de um mundo de passagem.
Por cá, tudo vai bem, a Catarina Martins repete, no seu virtuoso inchaço, que foi graças a ela e os seus que a economia portuguesa está a progredir, com o aumento dos salários mínimos, e a mim parece-me que ainda irá progredir mais com a sugestão de diminuição das reformas dos velhos, segundo proposta de José Manuel Fernandes, não de todo absurda, a pensar nos vindouros, e segundo o lema que reduz a trapos esses tais que cada vez mais se agarram à vida, segundo as estatísticas, como ladrões dos novos, pese embora o que fizeram antes, em termos de descontos para assegurarem essa reforma que não tardará o dia, lhes será cerceada, para equilíbrio do erário.
Entretanto, no nosso estrelato artístico, Salvador Sobral começa a impor-se, oxalá que seja um dos vencedores em flecha, a não precisar de reforma, como é uso nestes tempos intranquilos, de cada um construir a sua própria reforma, alguns com muita fraude à mistura, sem consequências para os infractores, embora com extremo reflexo na economia, desde há muito tempo. Mas disso não se fala, faz parte dos nossos tabus. O rasgar do Acordo de Paris, de Trump, desvaloriza quaisquer outros acordos, até mesmo os de cá, onde já existe o costume do muito rasgar.

Donald Trump está a chegar
O novo Presidente americano iniciou este fim-de-semana umas mais do que merecidas “férias” no estrangeiro, que o retiraram do caldeirão interno em que está envolvido e que precisa que lhe corram bem para restituir algum fôlego à sua presidência.
Público, 21 de Maio de 2017
Teresa de Sousa
1. Num artigo publicado na Foreign Affairs enquanto decorria a campanha presidencial de 2000, Condoleezza Rice defendia uma visão para a política externa americana na qual a democracia, com os seus valores, teria de ter um papel fundamental. Rice era vista como a voz de George W. Bush em matéria de política externa, e a sua “professora-em-chefe”. Estávamos ainda a viver o remanso do pós-Guerra Fria. Bill Clinton era criticado pelo establishment mais conservador da política internacional por ter transformado a América numa espécie de “assistente social” do mundo, como dizia Kissinger.
Quando foi eleito, Bush considerou que o papel dos EUA não era reconstruir nações e prometeu mais “humildade” no exercício do poder americano. Mal sabia ele que teria de reconstruir umas tantas. No artigo, a sua conselheira nacional de Segurança e, depois, secretária de Estado do segundo mandato (com a missão de corrigir boa parte dos erros cometidos no primeiro), dizia que estavam reunidas as condições para acabar com a velha prática segundo a qual a América tinha de distinguir entre os “sons of a bitch” e “our sons of a bitch”. A Arábia Saudita, uma velha aliada da América, pertencia à segunda categoria, naturalmente.
Como sabemos, o 11 de Setembro mudou tudo. Derrubar ditadores e mudar regimes passou a ser, na prática, a doutrina oficial. O resultado foi o que se sabe. Condoleezza acaba de publicar um livro cujo título é justamente Democracia, que vai contra tudo aquilo que a actual Administração de Trump parece defender, pelo menos nos dias pares. O que ela diz é que os valores não podem estar dissociados da política externa americana sob pena de a descaracterizar, acrescentando que as palavras são muito importantes. O seu sucessor, Rex Tillerson, explicou recentemente aos funcionários do Departamento de Estado que não é útil passar a vida a falar de democracia, retirando-a das prioridades da política externa. Ninguém se lembra de Trump ter utilizado a palavra “democracia” desde que chegou à Casa Branca. Obama utilizou-a como um instrumento fundamental da sua política externa, mas desviou-a da ideia de que a mudança de regime pela força pudesse alguma vez ser uma solução. Estendeu a mão a Cuba e a Teerão. Privilegiou as forças especiais e os drones no combate ao terrorismo. Manteve-se afastado de outra guerra no Médio Oriente. “America First?”, pergunta Walter Russell Mead numa revisão do livro de Rice. “Não, diz Condoleezza Rice.”
2. O novo Presidente americano iniciou este fim-de-semana umas mais do que merecidas “férias” no estrangeiro, que o retiraram do caldeirão interno em que está envolvido e que precisa que lhe corram bem para restituir algum fôlego à sua presidência. O itinerário é longo e complicado. A ideia de visitar os lugares santos das três grandes religiões poderia ser interessante, caso o Presidente não tivesse antagonizado deliberadamente uma delas, ao ponto de restringir a entrada a pessoas oriundas de sete países islâmicos. Quer remediar essa má impressão. A visita ao Papa destina-se sobretudo a imprimir uma boa fotografia. Francisco já o criticou publicamente por causa dos imigrantes e dos refugiados e Trump devolveu-lhe as críticas dizendo que não era nada com ele. A forma como trata os mexicanos e os hispânicos não pode ser bem vista por Francisco, que também não pode esquecer que seis em cada dez católicos brancos americanos votaram no actual Presidente. Não podiam ser mais distintas as personalidades de ambos e os valores que defendem. 
3. Na NATO e no G7, duas cimeiras sucessivas em Bruxelas e na Sicília, os seus aliados europeus já trataram de organizar uma coreografia que evite o mais possível a imprevisibilidade que caracteriza este Presidente. São, mesmo assim, dois testes fundamentais sobre a aliança transatlântica e a defesa do livre comércio. Como escrevia ontem o New York Times, está tudo preparado para “conversas de 30 segundos e não de 30 minutos” e para memorandos de uma só página. As reuniões serão curtas. A agenda foi construída para dar a ideia de que a NATO já está a cumprir as suas recomendações, nomeadamente sobre o combate ao terrorismo, como se fosse uma novidade. “O terrorismo já é uma prioridade da NATO há 14 anos.” A Europa entrou em pânico quando Trump fez campanha elogiando o “Brexit”, demonizando a Alemanha e declarando a NATO obsoleta. Corrigiu o tiro: “Disse que era obsoleta e agora digo que não é obsoleta.” O chefe do Pentágono e o secretário de Estado já desbravaram terreno. A única coisa que os aliados querem é garantir que os EUA continuam empenhados na segurança europeia, porque sabem até que ponto precisam deles. Temem que a desestabilização interna da sua presidência crie um vazio de poder que abra as portas à China ou a Rússia mais do que seria conveniente para a segurança internacional. Receiam que a sua relação problemática com Putin ponha em causa as sanções aplicadas desde a ocupação da Crimeia. Têm apenas um objectivo: que o Presidente faça uma referência ao Artigo 5.º do Tratado de Washington. Vão levá-lo a inaugurar uma estátua de homenagem às vítimas do 11 de Setembro, para lhe lembrar que foi a única vez que a defesa mútua foi accionada. A favor dos americanos. Mas isso será no dia 25.

Vamos de ter de mudar quase tudo, e não queremos mudar nada
OBSERVADOR, 1/6/2017
Somos um país cada vez mais envelhecido e isso tem e terá imensas consequências no nosso futuro - e também na forma como vivemos a velhice. Mas enquanto houver geringonça ninguém discutirá o problema.
86 anos no caso dos homens, 88 no caso das mulheres. Em 2014-2016 foram essas as idades em que se registaram mais óbitos. No mesmo período duas em três das pessoas que morreram tinham mais de 80 anos. No caso das mulheres foram mesmo três em cada quatro óbitos os que ocorreram depois dos 80 anos.
Habitualmente olhamos para a esperança de vida e celebramos, com razões para celebrar, a extraordinária evolução registada em Portugal. De acordo com um relatório do INE divulgado esta semana, a esperança de vida à nascença era em 2015 de 80,62 anos. Nos últimos dez anos – dez anos que foram quase sempre de crise e de “cortes” que, como sabemos, “destruíram” o nosso Serviço Nacional de Saúde – nunca a esperança de vida deixou de aumentar, sendo hoje 2,44 anos mais elevada do que era há uma década. Em média estamos a ganhar cerca de três meses de esperança de vida por ano.
Mas há um outro dado importante que poucas vezes se refere: a esperança de vida aos 65 anos está agora nos 19,31 anos. Se pensarmos que a idade média das reformas anda nos 63 anos (62,8 no caso dos funcionários públicos em 2016, 63,1 para os restantes trabalhadores em 2015), concluímos que, em média, devemos esperar viver um pouco mais de 22 anos como reformados.
Este número faz-me impressão – e não me impressiona apenas por não saber como iremos financiar tantos anos com tantos portugueses a viverem como pensionistas. Impressiona-me também pelo desperdício que representa. Porventura um desperdício pesado para a economia e doloroso para os próprios.
A regra, nos dias que correm, é usar as reformas antecipadas como forma de reestruturar as empresas. Ou simplesmente de as renovar. Muitas vezes faz-se mesmo a seguinte conta: “Vais três anos para o Fundo de Desemprego e depois já tens idade para te darem a reforma sem cortes”.
Há muitos anos que penso que está quase tudo errado neste raciocínio.
Está errado para as empresas, pois muitos dos trabalhadores que dispensam, mesmo não tendo a criatividade e a energia dos mais novos, possuem uma experiência que lhes faz falta, uma experiência que bem poderia “temperar” toda a frescura e ideias novas trazidas pelos jovens.
Está errado para os próprios, pois a passagem directa da vida activa à vida de reformado é muitas vezes um choque doloroso, uma evolução também desnecessária se pensarmos que hoje, aos 60, aos 65 ou mesmo aos 70 anos se continua a ter boa saúde e se mantém o melhor de muitas capacidades.
E por fim está errado para a economia, pois sabemos que o aumento do contingente de reformados tem evoluído a par com a diminuição de população em idade activa, e essa é uma realidade que não mudaremos por muitas décadas, pois é fruto de tendências demográficas (sobretudo a diminuição do número de nascimentos) que não se podem alterar retroactivamente.
Infelizmente, quando olhamos para esta estado das coisas, quando queremos discuti-lo, por regra nunca saímos do debate em torno dos problemas de financiamento da segurança social. Parece que a única pergunta que faz sentido é “como é que vamos pagar tantas pensões?” ou, mais prosaicamente, “onde é que vamos buscar mais dinheiro?”
Gostaria que o debate pudesse sair desta camisa de forças, onde pouco mais podemos discutir do que a idade da reforma ou se vamos passar a taxar os robots, para passar a um outro debate que me parece mais estimulante: o de criar condições para que a passagem à reforma seja progressiva, isto é, que possa existir um período de transição em que os trabalhadores mais velhos começariam a trabalhar menos horas (ou menos dias) recebendo proporcionalmente menos, e que isso pudesse coexistir com aquilo a que poderíamos chamar “reformas a tempo parcial”.
Muitos dirão: mas então vamos aceitar salários mais baixos no fim da nossa vida activa? De facto nunca foi essa a regra, mas não vejo porque não possa acontecer. Por um lado, para muitos essa é uma fase da vida em que as despesas familiares começam as ser menores; por outro lado, ao aceitar soluções deste tipo estar-se-ia a abrir espaço para que as empresas pudessem contratar trabalhadores mais novos, o que é justo e necessário.
E seríamos capazes de viver com menos rendimentos? Parece difícil, mas é o que já hoje sucede quando se passa à reforma, e a tendência é para que aconteça cada vez mais. Hoje a primeira pensão de reforma corresponde, em média, a pouco mais de 60% do último ordenado, em 2025 estima-se que represente menos de metade e que, lá para 2060, tenha caído para 30% a 40%, conforme tenhamos por referência as estimativas da Comissão Europeia ou as do nosso Ministério da Solidariedade Social.
De novo acho chocante esta evolução. Acho chocante que encolhamos os ombros por aqueles que, trabalhando e descontando, vão pagar as nossas reformas nas próximas quatro décadas – toda uma vida de trabalho – só recebam, no final, o equivalente a metade do que hoje se recebe. E não me parece que este problema se resolva passando a taxar os robots.
Fórmulas que permitissem uma maior margem de liberdade – dos trabalhadores e das empresas – na gestão do processo de passagem da vida activa para a vida de reforma, mecanismos que estimulassem a continuação no mercado de trabalho de tantos que ainda têm tanto a dar à economia (e à sua própria auto-estima), soluções que permitissem optar entre diferentes formas de cálculo da pensão em função desta ser ou não usada como complemento de um corte salarial proporcional à redução do tempo de trabalho, tudo poderia e deveria contribuir para olhar de forma diferente para aquele número de que impressiona – os 22 anos a viver de uma pensão – e que também pesa.
Não era preciso fazer uma grande reforma, toda de uma vez, podia-se testar em alguns sectores ou regiões. Só tinha de se saber em que direcção queríamos ir.
Não tenho porém ilusões. Os tempos que vivemos não são favoráveis a este debate. À esquerda os partidos estão entrincheirados em posições ideológicas rígidas. E à direita tem-se a percepção de que enquanto durar a geringonça não há qualquer possibilidade de falar com o PS sobre um acordo de que este teria de ser sempre parte.
Há muita coisa para mudar. Nalgumas frentes, quase tudo. Mas pressinto que nos tempos mais próximos não quereremos mudar nada, e não apenas por causa do bloqueio político. Na verdade estamos tão habituados a mudar apenas sob pressão que já nem sabemos fazer de outra forma. Pior: falta-nos energia para isso, pois os mais idosos dificilmente serão agentes de mudança e os mais novos têm demasiados problemas hoje para pensarem nos que terão amanhã.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Tudo isso é verdade, mas…



Quando fazemos feef back sobre os que, neste espaço onde nos fincámos, passaram no tempo, dos quais nos orgulhamos a valer, e os que passam ainda hoje, em realizações do nosso entusiasmo e admiração, por muito que valorizemos e admiremos os génios de outros povos, não podemos calar o nosso gosto pelos que, tantas vezes em condições amargas, souberam engrandecer a nossa pátria, com a sua presença genial - na voz, na escrita, na arte, no esforço heróico. Acabo de escutar Amália e o seu “Cochicho” e mais outras músicas populares de uma presença inteligente e elegante, numa voz única e imorredoira. Mas direi de António Variações coisas entusiásticas, por ser tão genialmente português. Bem como outras vozes que vão ficando, de cantores de uma Coimbra de saudade, ou mesmo outras canções tão popularmente nossas, lindas a valer e tão expressivamente cantadas. Os escritores! Ah! Os nossos escritores! Como não reconhecer a genialidade no lirismo mais ou menos conciso, mais ou menos erudito de todos os tempos, na arte dramática vicentina, na arte de Eça e outros mestres, no pensamento profundo e vário de Pessoa, na arte, de uma simplicidade complexa, de Torga, em tantos pintores que a nossa incúria desconheceu e agarra agora, mais abertos os olhos para um saber que a protecção exterior fez promover.
Sim, José Pacheco Pereira tem toda a razão no que afirma, e, acima de tudo - e que nunca as mãos lhe doam por o lembrar - no que refere do tal Acordo Ortográfico fruto de masturbações mentais perfeitamente vis e mentecaptas, e peço desculpa do palavrão que só a muita repulsa ditou, e repito o passo de Pacheco Pereira, cuja indignação é refreada pela disciplina mental do ser culto que é, a que nenhum governante faz jus, pois se está nas tintas para o assunto - mais grave ainda do que a dívida impagável, pois se trata do abastardamento gráfico e fonético grosseiros da língua portuguesa, com consequências fatais sobre uma população cada vez mais despegada da pureza das normas, pontapeando com garra uma escrita sem regras decentes, porque optámos definitivamente pelo jogo do pontapé lucrativo, ou mesmo de cabeça em trabalho de parto físico, de rentabilidade bem fintada: «com acordos como o Acordo Ortográfico, que fez proliferar as normas da ortografia do português, em vez de as unificar, ficando nós com a mais pobre».
Voltemos à Ode Triunfal especificadora, de Álvaro de Campos:
«…Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais….»
Ou à consciência da trágica condição humana, relativizadora dos traumas, segundo Ricardo Reis:
«… Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.»
Crescemos 20 centímetros com a vitória na Eurovisão, mas encolhemos metro e meio nos últimos anos
Os 20 centímetros que o Salvador Sobral trouxe são em grande parte mérito dele, e o metro e meio que perdemos é demérito nosso.
Público,20 de Maio de 2017
José Pacheco Pereira
Isto de ser desmancha-prazeres não é propriamente muito agradável, mas lá terá de ser. A Pátria está mais uma vez a atravessar um espasmo nacionalista por causa da vitória dos irmãos Sobral na Eurovisão. Isto é por surtos, agora vai haver 15 dias de celebrações, cheias de grandes frases, cheias de peito feito, por parte de quase toda a gente que nem sabia que Salvador Sobral existia. Como agora se diz, “as redes sociais fervem”, e, quando elas “fervem”, a comunicação social, que devia ser menos excitável, perde o equilíbrio. Subitamente tudo parece possível, o interesse pelo português sobe em flecha, o lirismo passa a receita universal, Portugal é o maior, e duas pessoas, os irmãos Sobral, passam do anonimato para heróis nacionais. É bom, é cómodo para toda a gente, mas, com a excepção dos irmãos e de quem os ajudou e apoiou, este sucesso tem a característica habitual do modo como nos “auto-estimamos” com o trabalho e a dedicação dos outros, ou seja, sem trabalho próprio, sem esforço — cai-nos no céu. É por isso que é politicamente útil e utilitário, porque civicamente barato e psicologicamente agradável.
Ninguém o disse melhor que o senhor Presidente da República, que afirmou que “a vitória na Eurovisão deu 'mais 20 centímetros' aos portugueses” (cito o PÚBLICO). Sim, excelente, andamos todos com mais 20 centímetros, mas onde é que está o metro e meio que perdemos como nação há 20 anos para cá, com a perda de poderes do Parlamento português, com a assinatura de tratados como o Orçamental, com a subjugação a um modelo de crescimento medíocre em nome das “regras europeias”, com acordos como o Acordo Ortográfico, que fez proliferar as normas da ortografia do português, em vez de as unificar, ficando nós com a mais pobre, com os cortes no ensino da língua e da projecção da cultura, com a ênfase na diplomacia económica e o definhar das instituições como o Instituto Camões?
O mais grave de tudo é que os 20 centímetros que o Salvador Sobral trouxe são em grande parte mérito dele, e o metro e meio que perdemos é demérito nosso. Foi o resultado de uma política de dolo que a União Europeia usou, com destaque para o Tratado de Lisboa, que tirou às escondidas e sem debate público poderes que ninguém conscientemente deu à União, em detrimento da soberania nacional, foi o resultado dos desastres de Sócrates que nos levaram ao resgate e da política para forçar eleições em 2011 do PSD, foi o resultado da nossa apatia cívica face ao que é verdadeiramente importante, em contraste com as excitações futebolísticas. Foi o resultado de um sistema político no qual a dimensão cultural, histórica e expressiva da língua e da sua ortografia foi deitada ao lixo, por uma espécie de engenharia diplomática que se revelou um desastre, ficando todos pior do que o que estavam.
Nós gostamos da vida fácil, anómica, civicamente alheia e, salvo raras excepções, não somos voluntários para quase nada, não temos causas a não ser as mediáticas nestes surtos, somos mais clubistas do que patrióticos, deixamos estragar o que de bom ainda temos, mostramos uma indiferença egoísta face ao trabalho dos outros, a quem atribuímos sempre más intenções, exibimos a nossa ignorância com cada vez com mais arrogância, possuímos a atitude da aldeia, punindo a iniciativa, porque há sempre alguma coisa que está mal, e depois vampirizamos, para alimentar a nossa “auto-estima”, o trabalho e o mérito alheio. Há razões sociais para ser assim, a mais importante é que somos muito mais pobres do que aquilo que pensamos que somos, e temos um caminho ainda longo até termos essa força cívica que faz as nações fortes. Se fosse assim, não “engolíamos” o que engolimos, por inércia, por preguiça, ou porque protestamos pouco e mal.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

E vamos esperando Godot…



Também já tenho o segundo volume, ofereceu-mo a minha irmã, sem sequer esperar pelos meus anos. Em tempos transcrevi o I volume nas várias “Notas Introdutórias” de Frederico Lourenço, e, deste II Volume, ainda só li a Introdução. Não sei se conseguirei retomá-lo nas férias, mas este artigo de Frei Bento Domingues veio relembrar-me esse prazer a colher. Os problemas da veracidade se põem, e ainda há pouco o Público nos trouxe uma entrevista com Michel Onfray, já aqui citado, que com muita determinação, provou que essas histórias bíblicas em torno de Jesus não passavam de mito, e que essa figura tão badalada e fundadora de uma civilização, jamais tivera existência real. Mas, mito ou não, os livros sobre Ele perduram, e o trabalho de Frederico Lourenço, como informa Frei Bento Rodrigues, são bem reveladores de “ talento, competência e muito trabalho”, como, de resto, tem revelado em tantas diversas obras sobre a cultura clássica, que tenho a sorte de possuir por dádiva amiga. Por isso, com muito prazer também, transcrevo este artigo tão cuidadosamente anotado, de Frei Bento Domingues, de um Público já antigo, sobre a segunda parte do «NOVO TESTAMENTO" - Apóstolos, Epístolas Apocalipse» da QUETZAL.

A Bíblia em praça pública
O projecto de Frederico Lourenço, assumido pela Quetzal, não se limita a uma nova tradução do Novo Testamento mas à tradução de toda a Bíblia Grega, judaica e cristã.
Público, 9 de Abril de 2017
Frei Bento Rodrigues OP
1. Como escreveu, em 2016, o Prof. José Augusto Ramos, o universo cultural, editorial, científico e académico português foi recentemente presenteado com o aparecimento do primeiro volume de uma tradução da Bíblia grega, conceito que nos tem sido estranho, desde há muitos séculos [1]. Este ano, nos finais de Março, Frederico Lourenço inundou todas as livrarias com o segundo volume da tradução da Bíblia grega, o Novo Testamento completo, escrito há quase 2000 anos, cujo original é irrecuperável. Esta tradução está baseada no texto fixado por Nestle-Aland [2].
Para F. Lourenço, a leitura comparativa dos evangelhos canónicos e dos restos que nos chegaram dos apócrifos não deixa qualquer dúvida quanto à imprescindibilidade de Marcos, Mateus, Lucas e João, talvez os livros mais extraordinários da História da Humanidade.
Um padre, espantado com este fenómeno, perguntou-me: mas esse tradutor é padre? Quando lhe respondi que não era padre nem ex-padre, não era católico nem protestante e que neste trabalho prescinde, metodologicamente, de pressupostos religiosos, mostrou-se desconfiado. Aí há gato!
O que há, de facto, é talento, competência e muito trabalho. Convidei esse clérigo apreensivo a ler o currículo do tradutor que vem nas capas de ambos os volumes e acrescentei o meu pressentimento: com esta aparição, Frederico Lourenço e os responsáveis da Quetzal Editores vão alterar o clima cultural da Bíblia, no nosso país. Não esperam canonizações, mas merecem avaliações críticas competentes [3].
Pensar que o estudo da Bíblia e as suas traduções só merecem confiança se forem obra de clérigos e de editoras católicas submetidos ao Imprimatur episcopal é supor que a Bíblia é propriedade privada de empresas confessionais. Que os responsáveis das comunidades católicas zelem pela formação bíblica dos seus membros e pelas expressões da fé cristã é o mínimo que se lhes pode pedir. Infelizmente, nem sempre cumprem esta missão.
Ninguém tem o monopólio da Bíblia e só há vantagens em que seja reconhecida e trabalhada como o “Livro dos livros”, a expressão das raízes judeo-cristãs da civilização ocidental. Há muito a fazer para se tornar parte activa da cultura portuguesa, nas suas diversas expressões. Criticam-se, e com razão, as correntes sociais, políticas e culturais que desejam fechar as religiões nas respectivas sacristias. Mas seria lamentável que as sacristias amuassem ao ver essa literatura religiosa estudada e debatida com toda a liberdade, no espaço público.
Herculano Alves reuniu, numa obra muito útil, os Documentos da Igreja sobre a Bíblia, desde o ano 160 a 2010 [4]. No começo deste ano, foi lançado pela Biblioteca Dominicana o testemunho incontornável de Marie-Joseph Lagrange, O.P., sobre os tormentos que sofreu do Vaticano e das invejas eclesiásticas organizadas para impedir as inovadoras investigações e publicações científicas da Escola Bíblica de Jerusalém, nos finais do século XIX e nos primeiros 30 anos do século XX [5]. Quem comparar a miséria cultural dessa situação com o documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 15 de Abril de 1993 [6], pode ter a impressão de que não pertencem à mesma Igreja.
Não reconhecer a importância de colocar a Bíblia no espaço público, segundo as exigências culturais do nosso tempo, só pode alimentar a suspeita de que a razão crítica é inimiga da religião, das suas linguagens e das suas práticas.
2. O projecto de Frederico Lourenço, assumido pela Quetzal não se limita a uma nova tradução do Novo Testamento, do qual já existem várias, de diversos estilos, mas à tradução de toda a Bíblia grega, judaica e cristã. A Bíblia judaica e a Bíblia hebraica não se identificam, como se a grega não fosse, também, judaica. A grega, designada como Septuaginta (LXX), é a primeira tradução da Bíblia [7] e o seu nome designa a tradução da Torah hebraica para o grego, realizada em Alexandria durante o reinado de Ptolomeu II (285-246 a.C.).
Segundo a lenda, setenta sábios de Jerusalém, conhecedores do hebraico e do grego, partiram para Alexandria, cidade com grande população judaica, mas onde se falava sobretudo o grego. Cada um tinha o seu quarto particular e a obrigação de traduzir as Escrituras. Começaram todos ao mesmo tempo e terminaram todos ao fim de setenta dias. Ao conferi-las, verificaram que todos tinham traduzido da mesma maneira. Para lenda e milagre não está mal.
A dita versão constituiu um acontecimento cultural sem precedentes e a iniciativa literária mais importante para os anais da civilização. Pela primeira vez, a sabedoria de Israel passava de uma língua semita para outra indo-europeia e, por aí, ao mundo ocidental.
3. Quando, séculos mais tarde, a LXX foi adoptada pelas primeiras comunidades cristãs, como a Bíblia oficial, acompanhou a expansão do cristianismo, tanto no Oriente como no Ocidente.
A partir do séc. V d.C., a LXX foi destronada, no Ocidente, pela tradução de S. Jerónimo para latim, denominada a Vulgata. Esta versão dominou a cultura ocidental durante a Idade Média. Foi declarada como autêntica, isto é, fiável em matéria de fé e costumes, pelo Concílio de Trento (1546). Na Igreja Ortodoxa, a Bíblia grega manteve-se como Bíblia oficial ou canónica até aos nossos dias.
Outro foi o rumo das traduções da Bíblia na Reforma. Espero que, entre nós, o nome de Lutero tenha deixado de ser considerado um insulto.
[1] Cadmo 25 (2016) 101-113. Cf. também de José Augusto Ramos, Traduções Portuguesas da Bíblia Transversalidades Linguístico-Culturais em Tarefas de Hoje, Gaudium Sciendi, Nº 3, Janeiro 2012, pp 124-146
[2] Entre 1898 e 2012 atingiu 28 edições
[3] Cf. José Augusto Ramos (Cadmo 25 (2016) 101-113); Isaías Hipólito (Brotéria 184 (2017) 205-225)
[4] Documentos da Igreja sobre a Bíblia (160-2010), Difusora Bíblica, 2011
[5] Marie-Joseph Lagrange, O.P., Recordações Pessoais. O Padre Lagrange ao serviço da Bíblia, Biblioteca Dominicana, Coimbra, Tenacitas, 2017
 [6] A Interpretação da Bíblia na Igreja, S. G. E., Rei dos Livros, 1994
[7] Cf. Natalio Fernández Marcos, Septuaginta. La Biblia griega de judíos y cristianos, Sígueme, Salamanca, 2008.