segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma de abelhas

As abelhas são insectos trabalhadores,
Todos o sabem,
Que nos dão o mel e a cera
A partir do néctar das flores.
Às vezes também se enganam
No seu julgamento
Mostrando falta de gratidão
E de discernimento
Em relação aos benfeitores
Que lhes tratam da habitação
Embora, naturalmente,
Por interesse,
Para o mel e a cera venderem
Para sua benesse.
Vejamos a fábula comprovativa
Por Esopo contada,
Talvez da sua inventiva
Ou da inventiva oriental
Já que muito aí colheu
Da sua inspiração final:

«O apicultor
Na ausência dum apicultor,
Um homem penetrou
Na casa dele e roubou
Os favos e mais o mel
De que ele era produtor.
O apicultor regressou
Sem sequer suspeitar
O desastre cruel
Das suas colmeias vazias.
Ao pôr-se a investigar,
Ficou de alma fria
E acelerado coração,
Na raiva da constatação
Da enorme malfeitoria
Feita para sua desfeita.
Mas as abelhas, entrando
Das suas libações
Nos seus volteios pelas flores
Da pradaria,
Ao toparem o homem a espreitar
As colmeias vazias,
Trataram de o picar
Com os seus dardos ferinos,
Sem prévia investigação
Sobre quem fora o ladrão.
O pobre do apicultor sofredor
Dirigiu-lhes repreensões
Provenientes do seu desconcerto
Ante a injustiça do tratamento:
“- Infames bestazinhas!
Aquele que os vossos favos roubou
Deixaste-lo impune partir.
A mim, que sobre vós velo,
De picadas me ferrais
Sem pejo de me ferir
Até ao desespero?”

O mesmo acontece connosco,
- Pobres pecadores -
Que por ignorância
Ou desmazelo,
Não só não nos protegemos dos inimigos,
Como repelimos os amigos,
Que julgamos os verdadeiros
Construtores
Do nosso pesadelo.»

Nós somos as abelhas previdentes,
Lutando pelo dia a dia e juntando
Para o nosso futuro ou para a sobrevivência,
- Embora alguns conheçam melhor
Os caminhos da abundância
Para as libações do seu néctar.
Mas não sabemos reconhecer
O verdadeiro malfeitor
Que nos despoja do mel
Do nosso fervor trabalhador,
E até o idolatramos
E o benfeitor culpamos,
Sem nenhum pudor,
Se por acaso o topamos.
O mal é que já não acreditamos
Em nenhum benfeitor,
Fora ele Sebastião
Ou o próprio Salvador.
Estamos enterrados
Até às orelhas,
Afundados,
Definitivamente arrumados
Dizem as velhas,
Ou mesmo só os observadores
Sabedores
Que tanto nos assustam com as suas previsões,
Sem ilusões
Sobre benfeitores.
Todos, afinal, foram
Malfeitores
Que a colmeia destruíram,
E ainda não fugiram,
Salvo as excepções
Dos que já o puderam
Fazer,
Porque, sabedores,
Souberam
Como se faz
Para viverem em paz
Pela vida fora,
Seja qual for o regime
Que vigora.

Nenhum comentário: