«O Atum e o Golfinho»
«Um Atum que um Golfinho perseguia
As ondas do mar fendia
Em grande alarido;
Prestes a ser apanhado,
Viu-se caído
Na orla da praia
Por causa da maré cheia
Que o empurrou para a areia.
Ora o Golfinho
Que um forte impulso de avidez impelia
Sobre aquele,
Veio esparramar-se junto dele.
Voltou-se o Atum,
E vendo-o a agonizar
Exclamou com prazer
Sem rebuço algum:
“Já não sinto tão amarga a minha sorte
Quando vejo perecer
Aquele que causou a minha morte!”
A fábula mostra que os males
Se suportam com menos celeuma
Quando são partilhados por aqueles
Que os provocaram na calma.»
Por aqui se vê que o Esopo
É muito anterior a Jesus Cristo
Que sempre advogou a bondade
Mandando apresentar a outra face
Quando uma estalada era dada
Com muita maldade
Na face
De qualquer incauto
Que inesperadamente
A recebesse
Com surpresa indignada,
Mas retraidamente
Porque cristãmente.
Por isso nós não nos rimos,
Quando de dores morremos,
Se ficarmos certos
Que os que de dor nos matam
Connosco de dor são mortos
Em idênticos apertos.
Os do Médio Oriente
Andam à pedrada.
Nós à estalada,
Tão só porque estendemos
A face à bofetada
Muito cristãmente,
Fora da entifada.
Também não imitamos
O risonho Atum,
Sem respeito nenhum
Pelo pobrezinho
Do Golfinho
Que a avidez perdeu
E assim morreu,
Como aliás também
O Atum morreria.
Mas é o destino de cada um,
A morte sombria.
Só não se deve nunca
Pôr a Pátria em risco
Por razões de fisco.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Alternativa zero
O texto de Octávio Teixeira “Brutalidade, Irresponsabilidade e falácias”, saído na revista Visão de20/26 de Outubro pondo em causa toda a acção governativa, apela para a luta, como fazem os chefes sindicais, os chefes dos partidos mais virados à esquerda, que, aliás, desde há muito que o fazem, chamando não ao trabalho mas à destruição do país pela inércia, pela vozearia, pela greve, pelo aumento salarial e o boicote às forças do poder, que, aparentemente, pretendem levar a bom termo a solução para a crise monstruosa em que nos afundamos há 37 anos, por má cabeça de todos, que nos lançámos vorazmente sobre um osso alheio, maná no nosso deserto de mediocridade, inépcia, incompetência, ambição, vaidade, orgia, insensatez, ignorância, desonestidade, bestialidade.
E não saímos desta roda-viva, os governantes com maus governos, os governados repudiando-os na desordem e na rebeldia, ninguém se esforçando por progredir, no tempo das vacas gordas comprando, gastando os bens imóveis e os móveis, mais do que aplicando os dinheiros distribuídos segundo uma orientação de previdência e de prudência, antes curtindo o dia horaciano segundo o lema “viaje agora e pague depois”.
Chegámos ao tempo das vacas magras, e o actual governo quer sair bem na foto, pagando a dívida, acima de tudo pagando a dívida, centrado preferencialmente naqueles que não podem recusar a participação no pagamento. Os grandes responsáveis por ela mal são chamados a terreiro, protegidos pelas leis de uma Constituição há muito feita sob ideais de defesa de direitos próprios, mais do que sobre imposição de deveres segundo um ideal pátrio que mais nenhuma nação se lembraria de desprezar, como nós há muito fazemos, salvo por alturas dos jogos futebolísticos ou outros, internacionais, em que defendemos galhardamente, as mais das vezes grotescamente, as nossas cores.
O bispo Januário condena as medidas drásticas, tal como o faz Cavaco Silva, seguindo os acicatadores da desordem, sem respeito por uma orientação governativa assente, é certo, sobre um critério de força desumana, mas com um Primeiro-Ministro crente que é esse o caminho a seguir, lembrando outros países como Finlândia e Suécia que venceram idênticas fragilidades económicas.
Estranham-se, contudo, as referências de Passos Coelho a esses países de exemplo, porque não nos parece que tenhamos qualquer possibilidade de paralelismo com outros povos, pois desde sempre carentes de massa humana intelectualmente apta e responsável para que, paga que seja a dívida, nos lancemos sobre revolução económica salvadora, assente numa política de trabalho que leve à exportação e elimine a importação. Dos limões, dos alhos, das nossas comodidades gastronómicas e de prazer.
As nossas revoluções são de folclore, ruidosas e com flores. E essas, que já destruíram, vão continuar a destruir, desresponsabilizando todos, a lisura para sempre arredada das contas e do respeito humano.
E não saímos desta roda-viva, os governantes com maus governos, os governados repudiando-os na desordem e na rebeldia, ninguém se esforçando por progredir, no tempo das vacas gordas comprando, gastando os bens imóveis e os móveis, mais do que aplicando os dinheiros distribuídos segundo uma orientação de previdência e de prudência, antes curtindo o dia horaciano segundo o lema “viaje agora e pague depois”.
Chegámos ao tempo das vacas magras, e o actual governo quer sair bem na foto, pagando a dívida, acima de tudo pagando a dívida, centrado preferencialmente naqueles que não podem recusar a participação no pagamento. Os grandes responsáveis por ela mal são chamados a terreiro, protegidos pelas leis de uma Constituição há muito feita sob ideais de defesa de direitos próprios, mais do que sobre imposição de deveres segundo um ideal pátrio que mais nenhuma nação se lembraria de desprezar, como nós há muito fazemos, salvo por alturas dos jogos futebolísticos ou outros, internacionais, em que defendemos galhardamente, as mais das vezes grotescamente, as nossas cores.
O bispo Januário condena as medidas drásticas, tal como o faz Cavaco Silva, seguindo os acicatadores da desordem, sem respeito por uma orientação governativa assente, é certo, sobre um critério de força desumana, mas com um Primeiro-Ministro crente que é esse o caminho a seguir, lembrando outros países como Finlândia e Suécia que venceram idênticas fragilidades económicas.
Estranham-se, contudo, as referências de Passos Coelho a esses países de exemplo, porque não nos parece que tenhamos qualquer possibilidade de paralelismo com outros povos, pois desde sempre carentes de massa humana intelectualmente apta e responsável para que, paga que seja a dívida, nos lancemos sobre revolução económica salvadora, assente numa política de trabalho que leve à exportação e elimine a importação. Dos limões, dos alhos, das nossas comodidades gastronómicas e de prazer.
As nossas revoluções são de folclore, ruidosas e com flores. E essas, que já destruíram, vão continuar a destruir, desresponsabilizando todos, a lisura para sempre arredada das contas e do respeito humano.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Um conto premiado da minha neta Ana
Menina vivaça foi sempre a Ana, que sobressaiu como estudante, e foi conduzindo a sua vida sem aparente dificuldade, com uma alegria sadia, que não excluiu nunca uma sensibilidade atenta ao mundo da injustiça ou do risível. Como todos os estudantes favorecidos nos estudos universitários, ganhou o complemento dos seus estudos em Paris, com o estágio que a catapultou, via Internet, para o primeiro emprego cá, que alcançou mediante resposta efectuada em Paris, a anúncio, por via telefónica, perante o sentir deslumbrado de uma avó educada na desconfiança das modernidades. A ambição não se esgotou aí, foi concorrendo a outros empregos de acordo com o sentimento de mérito que a sua consciência apontava e no novo emprego já lhe foi reconhecido esse mérito que a favoreceu com uma visita de trabalho a Angola.
E a Ana vai prosseguindo, na sua senda de interesse pelo mundo dos outros e o seu próprio, criando blogues de grande originalidade, onde esse mundo não escapa ao seu olhar arguto, simpaticamente comentados pelos seus muitos amigos que sinceramente a admiram. Na alegria da sua escrita maliciosa, discretamente atrevida, observadora e artista. Muitas vezes complementada por fotografia a condizer.
Os blogues pararam, nos excessos do trabalho que hoje em dia mal poupa os trabalhadores. Mas na Internet encontrou um concurso literário, com oferta de edição dos contos premiados.
E a Ana concorreu e esperou. Acreditámos nela e na originalidade do seu conto. “O Engraxador de Sapatos”, uma história colhida na sua observação, retocada com a graça da sua expressão, simultaneamente leve e profunda, e largamente assente na observação do real, em que perpassa toda uma sensibilidade pela “dor humana”, a que não são alheios certos laivos do grotesco de situações descritas de miséria e destruição dos sonhos próprios da condição humana, sujeita aos desvios da Fortuna. Uma prosa concisa e poética, no retomar constante dos seus elementos, em circularidade e progressão, para um clímax de efeito dramático.
26 anos, uma vida de bela expectativa literária.
Parabéns, Ana, pelo teu prémio. O lançamento do livro de Contos será no próximo sábado, 22 de Outubro, na Biblioteca Municipal de São Lázaro, Rua do Saco, 1.
E a Ana vai prosseguindo, na sua senda de interesse pelo mundo dos outros e o seu próprio, criando blogues de grande originalidade, onde esse mundo não escapa ao seu olhar arguto, simpaticamente comentados pelos seus muitos amigos que sinceramente a admiram. Na alegria da sua escrita maliciosa, discretamente atrevida, observadora e artista. Muitas vezes complementada por fotografia a condizer.
Os blogues pararam, nos excessos do trabalho que hoje em dia mal poupa os trabalhadores. Mas na Internet encontrou um concurso literário, com oferta de edição dos contos premiados.
E a Ana concorreu e esperou. Acreditámos nela e na originalidade do seu conto. “O Engraxador de Sapatos”, uma história colhida na sua observação, retocada com a graça da sua expressão, simultaneamente leve e profunda, e largamente assente na observação do real, em que perpassa toda uma sensibilidade pela “dor humana”, a que não são alheios certos laivos do grotesco de situações descritas de miséria e destruição dos sonhos próprios da condição humana, sujeita aos desvios da Fortuna. Uma prosa concisa e poética, no retomar constante dos seus elementos, em circularidade e progressão, para um clímax de efeito dramático.
26 anos, uma vida de bela expectativa literária.
Parabéns, Ana, pelo teu prémio. O lançamento do livro de Contos será no próximo sábado, 22 de Outubro, na Biblioteca Municipal de São Lázaro, Rua do Saco, 1.
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