quinta-feira, 7 de março de 2013

Histórias da minha mãe gansa


«O castelo de cartas»
É um conto de Florian que me deu no goto
Por o achar um tanto roto
Não só porque já nem se encontram famílias assim,
Amantes de um viver tão feito de elevação sem fim,
Como se lia nas histórias infantis de antigamente,
Mas porque há nele um ponto de discordância fulcral
No entendimento da gente,
Embora não geral:

«Um marido excelente, sua mulher e os dois lindos filhos
Passavam em paz os seus dias, numa modesta casinha,
Onde tinham vivido os pais, tal como eles,
Em harmonia.
Os esposos, partilhando os arranjos da casinha,
Cultivavam a sua horta, faziam a ceifa,
Com valentia,
E à noite, no verão, comendo sob a parreira,
No inverno, frente à lareira,
Ensinavam aos filhos a virtude, a sabedoria,
Falavam-lhes da felicidade que sempre se obtém
Com o Bem:
O pai, com um conto, alegrava os seus dizeres,
A mãe, numa carícia, os seus olhares.
O filho mais velho, de feitio sério, aplicado
Lia e meditava sem cessar;
O mais novo vivo, gentil, um pouco estouvado,
Saltava, ria, só feliz nos seus jogos, a brincar.
Uma noite, segundo o costume, ao lado do pai,
Sentado a uma mesa onde se apoiava a mãe,
O mais velho lia Rollin, o mais novo, pouco interessado
Em aprender os altos feitos dos romanos ou dos partas,
Empregava a sua arte, a sua concentração,
A erguer, a unir pelos quatro lados,
Um frágil castelo de cartas.
Ele mal respirava, no seu medo, na sua preocupação
De o castelo de cartas destruir.
De repente, eis o mano leitor
Que se interrompe: “papá, diz-me cá:
Porque é que certos guerreiros se chamam conquistadores
E outros fundadores de impérios?
Estes nomes são assim tão diferentes?”
O pai, mente aberta,
Meditava uma resposta certa,
Quando o filho mais novo, radiante de alegria
Por ter conseguido depois de tanta canseira
Colocar no seu castelo o segundo andar,
Exclamou: Acabou!,
E o irmão, resmungando, se zangara,
E de um só golpe a sua obra destruíra,
E o mais novo chorara.

“Meu filho, o pai então respondeu.
O teu irmão é o fundador,
Tu, o conquistador.”»

 Não sei se a resposta do pai estava certa
Pois que a história antiga e a moderna
Informa que muitas vezes os fundadores
Se confundem com os conquistadores.
O próprio Cristo conquistou as almas
Embora com outras armas,
Sendo um extraordinário Fundador.
Sempre os impérios se fundaram
Por conta dos que os conquistaram.
Ou vice-versa, embora os destruidores
Também sejam considerados fundadores
De outros manes e de outros lares,
Juntamente com os seus pares.
Veja-se a quantidade de fundadores
De Fundações não dependentes
De conquistadores de coisa alguma,
Mas de angariadores de bens próprios
Por aproveitadores que se lançaram
Na derrocada do império
Que os antepassados conquistaram
E fundaram!
Fundação, a grande conquista da nação,
Após a sua destruição,
Sem que ninguém lhes venha à mão
Por especial consideração
Que, em minha opinião,
Não tem razão.
Nem perdão.

 

terça-feira, 5 de março de 2013

Na Lua


Nem só como fabulista ou contista
Foi La Fontaine considerado,
Pois que a fábula seguinte,
“Um animal na Lua”
Mostra que a sua sabedoria ia
Muito para além das Letras,
Que às vezes até são de tretas,
E metia uma sabedoria
De moderna filosofia
Ao mostrar que o conceito da relatividade
É uma já antiga teoria,
E que a trigonometria
Lhe serve de apoio com racionalidade:

«Enquanto um filósofo assegura
Que os homens são sempre enganados pelos sentidos
Um outro filósofo jura
Que os sentidos jamais nos enganam.
Ambos têm razão: e a filosofia diz a verdade,
Quando afirma que os sentidos enganarão
Enquanto os homens julgarem a partir da sua revelação;
Mas também,
Se rectificarem a imagem do objecto segundo o seu afastamento,
O meio que o rodeia,
O órgão e o instrumento,
Os sentidos não enganarão ninguém.
A natureza ordenou estas coisas sabiamente:
Direi um destes dias, amplamente,
As razões de tal bem.
Eu avisto o sol: Qual é a sua figura?
Cá de baixo esse grande corpo
Não tem mais que três pés de envergadura
Mas se eu o visse lá em cima frente à sua postura
Que seria aos olhos meus senão o olhar da mãe natura?

A sua distância faz-me julgar sobre a sua grandeza;
Sobre o ângulo e os lados a minha mão a determina,

Sem fantasia,
Em cálculo de trigonometria;

O ignorante julga-o plano, em esfera eu o avolumo;
Torno-o imóvel e a terra a andar;

Em suma, desminto o meu olhar em toda a sua estrutura.
Este sentido da visão não me prejudica contudo pela sua ilusão.
A minha alma em qualquer ocasião
Desenvolve o verdadeiro, oculto sob a aparência.
Eu não sigo sem inteligência,
Com o meu olhar talvez demasiado lesto,
Nem com o meu ouvido a reproduzir-me os sons, bem lento.
Quando a água curva um pau por refracção
A minha razão ergue-o:
A razão decide como mestra.
Os meus olhos, mediante este socorro da razão,
Jamais me enganam, mentindo-me sempre.
Se creio na sua referência, erro bastante vulgar,
Uma cabeça de mulher está no corpo da lua.
Poderá isso ser? Não. Donde vem, pois, este objecto?
Alguns sítios desiguais fazem de longe este efeito.
A lua em parte alguma tem uma superfície una:
A subir em alguns lados, em outros aplanada,
A sombra com a luz pode por vezes lá traçar
Um homem, um boi, um elefante.
Há pouco a Inglaterra, viu lá coisa semelhante,
- “O Elefante na Lua”, poema de Samuel Butler -.
Posicionada a luneta, um novo animal apareceu
Neste astro tão belo; e cada um se maravilhou:
Tinha chegado lá acima uma transformação
Que pressagiava sem dúvida um grande acontecimento.
Não seria que a guerra entre tantas potências
 – Holanda, França, o Império Germânico, a Suécia, a Espanha –
Não era o efeito disso? O monarca inglês, Carlos II, acorreu:
Como rei, favorece os altos conhecimentos.
O monstro na lua por sua vez lhe apareceu.
Era um rato escondido entre copos:
Na luneta era a fonte destas guerras.
Riram por isso. Povo feliz, quando poderão os Franceses
Entregar-se como vós a estes prazeres?
Marte faz-nos obter amplas colheitas de glória:
Aos inimigos pertence os combates temerem,
A nós o procurá-los, cientes de que a vitória,
Amante de Luís, de nós será,
Os seus passos por toda a parte seguirá,
Os seus loureiros tornar-nos-ão célebres na história.
Mesmo as filhas da Memória
Não nos abandonaram; nós saboreamos prazeres;
A paz é conforme aos nossos desejos, não nos dá suspiros.
Carlos sabe usufruir disso. Ele saberia na guerra
Assinalar o seu valor e conduzir a Inglaterra
A estes jogos que em paz ela hoje vê.
Todavia, se ele pudesse acalmar a discórdia
Quanto incenso! Há algo mais digno dele?
A carreira de Augusto foi menos bela
Que as famosas proezas do primeiro dos Césares?
Ó povo feliz, quando virá a paz clemente
Tornar-nos, como a vós, às belas-artes
Entregues inteiramente?»

 E, a partir, assim, de uma figura
Apercebida na lua,
Que serve de brincadeira
Mas também de reflexão,
Traça La Fontaine o itinerário
Dos reis amantes de guerra
Mas também das belas letras
A dar satisfação
A quem delas beneficiava.
Quem dera
Que entre nós também houvera,
A partir de antigamente,
Quem as belas letras defendesse,
Como condição imprescindível
Para o mundo tornar compreensível
A todo o homem, com mais ou menos filosofia.
Mas os nossos escritores dessa época,
Indispostos com a vida,
Só pediam
O retorno egoísta
A uma mediania letrada
- Dourada, como diziam -
E nem se apercebiam
De que o pobre povo
Ficava sempre para trás,
Povo bobo, sem visão
Nem orientação.
E hoje também se diz
Entre nós,
Que a protecção
Das belas letras e artes
Recebe muitos maus tratos.
Mecenas, só os têm,
Os partidos
Eos clubes de futebóis,
Não tenhamos ilusões.

domingo, 3 de março de 2013

Presidentes do Crucificado


- Eu estou convencida de que este Papa não devia aguentar mais os horrores, devia estar bem por dentro dos problemas que ali se passavam, no Vaticano, de lutas pelo poder e por dinheiro, de infâmias sexuais e luxos desmedidos. Aquela pompa! E vejam bem a crise instalada em toda a Europa e a quantidade de gente que teve que viajar para o adeus ao Papa!
Mas eu sou compreensiva:
- Ao menos é por uma boa causa, um papa sempre é um papa e a sua resignação merece uma despedida em forma, tanto mais que este Papa me parecia uma figura doce e triste, talvez pelas torturas a que estava sujeito o seu espírito, com tanta infâmia a rodeá-lo.
- Cuidado com o Vaticano, olhe que eles têm por sua conta os castigos do Céu, e esta esplanada está sobre a calçada. Ainda nos estatelamos, se falamos demais.
Retorqui à minha amiga que uma cunhada minha, que não está por dentro dos desmandos eclesiásticos, aliás bem antigos, ou pelo menos a sua fé não lhe permite condená-los, também malhara na calçada e andava de braço empanado e além disso outras desgraças nos estão eminentes nestes tempos de desordem, até os assaltos na rua e nas casas, que a crise comanda os destinos, mais do que os potentados do Vaticano.
A minha amiga continuou:
- Mas agora acabou-se. Ponha aí um papa africano, que também tem direito. Acho bem. Eles têm sido racistas. Veja bem se alguma vez sentaram lá um africano. Este é capaz de ter mais vergonha na cara e não permitir as coisas horrorosas que por lá se passam, no Vaticano.
A minha amiga sempre foi adepta do Obama e como ele foi eleito, acha que também vai acertar no próximo ocupador da cátedra de S. Pedro, e eu desculpo-lhe as pretensões ao dom divinatório que não aquentam nem arrefentam nesta palhaçada constante em que quase toda a Terra anda mergulhada, pois até de onde menos se espera, como seja, dos países nórdicos, surge um qualquer adepto fundamentalista neonazi a matar a seu bel-prazer. Quanto à África, continente alfobre das maiores desigualdades e crueldades ditatoriais, não seria melhor nem pior do que outro qualquer no seu candidato, para defender a infalibilidade do papa em matéria de fé, e de mais nada, visto que aquele belo espaço de riqueza e arte que é o Vaticano, vive poluído das mais graves infracções, como em qualquer outra parte mundo. Jamais a doutrina de Cristo, que pregou o amor e a decência, serviu para desviar a sua Igreja de corrupção grave, de crueldade arrepiante e até de cegueira dogmática, relativamente ao progresso da ciência, colidindo com a aventura da narrativa bíblica.
Até Gil Vicente, imbuído do espírito crítico dos alvores do Renascimento e em plena Reforma, nos mostra como já no seu tempo era grave a situação, no seu Auto da Feira, na interpelação do SERAFIM:

«À feira, à feira igrejas, mosteiros,/ pastores das almas, Papas adormidos; / comprai aqui panos, mudai os vestidos,/ buscai as samarras dos outros primeiros,/ os antecessores. Feirai o carão / que trazeis dourado; ó presidentes do crucificado, / lembrai-vos da vida dos santos pastores do tempo passado. »
 
É certo que hoje não haverá reforma que valha, e o melhor é procurarmos a diversão ainda com Gil Vicente e com o discurso inicial do seu Frei Paço da Romagem dos Agravados, tão expressivo de que as maleitas não abrangiam, já nesse tempo, apenas a cabeça eclesiástica, porque as práticas do tronco e dos membros também enfermavam de vícios:
«Quem me vir entrar assi / com estes jeitos que eu faço, / cuidará que endoudeci, / até que saiba de mi / que sou o padre frei Paço.
«Deo gratias não me pertence, / nem pera sempre nem nada, / senão espada dourada; porque muito bem parece / ao Paço trazer espada.
«Eu sou fino da pessoa, / e por se não duvidar / fiz uma cousa mui boa: / leixei crecer a coroa, / sem nunca a mandar rapar, / e portanto vos não digo “Deo gratias” se atentais nisto, / nem “louvado Jesu Cristo” / inda que trago comigo / hábito que é muito disso.
«E sou tão paço em mi, / que me posso bem gabar/ que invejar, mexericar / são meus salmos de David / que costumo de rezar. / Falo, mui doce cortês, / grã soma de cumprimentos; / obras não nas esperês, / senão que vos contentês, / com palavrinhas de ventos.
« Sou favor e desfavor, / mestre-mor dos namorados, / engano dos confiados, / sou templo do Deus d’amor, / Inferno de namorados. / Porém não como soía / é já a lei namorada: / e porque tudo s’enfria, / amo assi de sesmaria, / e suspiro d’empreitada.
«O auto que ora vereis / se chama, irmãos amados, / Romagem dos Agravados, / inda que alguns achareis / que se agravam d’abastados. …»

E agravados somos. Poucos mas bons, os abastados. "Em nome do Pai..."