sexta-feira, 3 de março de 2017

«Nem em Paris, Melchior amigo!»


Foi João Sena que me enviou o texto seguinte, julgo que seja seu, mas se não for, certamente que se identifica com quem lho enviou a si, com a respectiva ira que ele reparte com todos os que só podem apontar o olhar embasbacado a essa arte culinária, cada vez mais sofisticada, dirigida aos olhos mais do que à fome dos comensais, aos quais parecerá blasfêmia destruírem numa garfada ou duas, o pequeno Trianon de tanto requinte gastronómico  merecedor de prémio. Mas acho graça ao nosso pendor imitativo, que nos torna facilmente mestres artífices em qualquer arte, e mesmo nesta da culinária, macaqueando jeitos colhidos nos povos de maior pendor  intelectual, que requintam na cozinha como forma de espiritualizar o estômago e as demais vísceras, afinal tão indispensáveis ao equilíbrio corporal, até mesmo dos órgãos superiores mais dignificantes.
Sou das que também se espantam com tal arte de salpicos, a que não falta a manipulação constante nos arranjos finais, com a flor ou uma erva embelezando o todo minúsculo, para recreio dos olhos e agonia do estômago, revoltado contra as mãos do chefe a poluírem a amostra de comida. Mas já Eça bastas vezes referiu o sabor da comida portuguesa em páginas imortais, tantas vezes em confronto com o muito requinte deslavado da cozinha francesa, e com apetite renovado, mas pensando nobremente nos meninos e famílias deste mundo curtindo fome cada vez com maior incidência neste mundo, releio as páginas sobre “o arroz com favas” e outros pratos da boa gastronomia caseira portuguesa, no primeiro jantar de Jacinto em Tormes, que a Internet me permite transcrever, e a divagação posterior dos dois amigos, Jacinto e Zé Fernandes, à luz das estrelas.
As páginas de “A Cidade e as Serras” servem, afinal, para corroborar o pensamento do escrito enviado por João Sena, e tantos outros, como os de Miguel Esteves Cardoso, menos sofisticados e mais amantes dos pratos simples e honestamente bem servidos, como são os da saborosa cozinha portuguesa.

DIVULGUEM ESTAS CANALHICES, PARA BEM DE TODOS NÓS!!
João Sena




Feijoada de Camarão, de Benoît Sinthon, no Il Gallo D'Oro, o novo "duas estrelas" da Madeira

Agora fiquem à espera da "Açorda Alentejana" ou da "Orelha de Porco com Grão"...
É um insulto à gastronomia portuguesa, isto para não dizer à gastronomia em geral.
E não há ninguém a denunciar e a indignar-se com estas modernices da treta chamada de "nova cozinha" para não usar o termo francês.
Para mim as chamadas "estrelas Michelin" só têm uma vantagem: Servem para me informarem quais os restaurantes onde não devo colocar os pés!
Mas continuo a ficar incomodado com o que estão a estragar num património riquíssimo que é a cozinha tradicional portuguesa que devia ser um orgulho e de identidade nacional.
Se deitarem abaixo uns "sobreiros" não há órgão de comunicação que não coloque o assunto em primeira página...
idem idem aspas aspas para qualquer fóssil encontrado ou monumento ou mero edifício classificado como de interesse público. E quanto à gastronomia nacional, nada, silêncio absoluto.
Para mim chegou a altura em que a água transbordou no copo e estou aqui a dizer BASTA de assassinarem o nosso património gastronómico.
Todos estes imbecis deviam ser punidos com coimas e se insistissem encerrar os estabelecimentos onde se praticam estes "crimes" e aos intérpretes tirarem-lhes as "carteiras profissionais" e impedir-lhes de continuarem a praticar aquela "profissão".
Pela defesa da boa e tradicional cozinha portuguesa indignem-se e se concordarem divulguem estas aberrações.

Faço votos para que haja alguém para criar uma petição que impeça estas aberrações culinárias.


Eça de Queirós, inA  Cidade e as Serras
«Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - Está bom!
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
- Também lá volto! - exclamava Jacinto com uma convicção imensa. - É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija rapariga de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado - e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada tímida - e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
- Ótimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia! E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio...
- Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! O homem ótimo sorria, inteiramente desanuviado: - Pois é cá a comidinha dos rapaz da quinta! E cada pratada, que até Suas Incelências se riam... Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar!
O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: - É divino! - Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde - um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava. de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de otimismo na face, citou Virgílio:
- Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?
Eu, que não gosto que me avantagem em saber clássico, espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural:
- Hanc olim veteres vitam coluere Sabini. .. Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rómulo, e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tomou a maravilha do mundo!
E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverência.
Ali jantámos deliciosissimamente, sob os auspícios do Melchior - que ainda depois, próvido e tutelar, - nos forneceu o tabaco. E, como perante nós se alongava uma noite de monte, voltámos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão. Filosofámos então com pachorra e facúndia.
Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os astros - por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de eletricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunhão com o Universo que é a única glória e única consolação da Vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que, como pedaços de chumbo, puxam a alma para o PÓ rasteiro - um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os astros olham para eles.
Uns, certamente, com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferença. Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe compreender os nossos...
- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?
- Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral? - Não sei. Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe Espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de um Ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta Unidade. Moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro - tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum frémito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime Corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte - e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei:
- Acredita!... O Sol tremeu. E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce, perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zés Fernandes, sentados às janelas de outras Tormes, contemplam o céu noturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante Terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa forma, bem frágil, bem desconfortável, e (a não ser no Apolo do Vaticano, na Vénus de Milo, e talvez na princesa de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, horrendos ou de inefável beleza; colossais e de uma carne mais dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos eles são seres pensantes e têm consciência da Vida - porque decerto cada Mundo possui o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu Método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, formulando a única certeza talvez certa, o grande Penso, logo existo. Portanto todos nós, Habitantes dos Mundos, as janelas dos nossos casarões, além nos ou aqui na nossa Terrícula, constantemente perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde - que é sentirmos no Pensamento o núcleo comum das nossas modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da Consciência, a Unidade do Universo! Hem, Jacinto?...
O meu amigo rosnou: - Talvez... Estou a cair com sono. - Também eu. «Remontámos muito, excelentíssimo senhor!» como dizia o Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto das serras, a olhar para as estrelas!... Tu sempre vais amanhã?
- Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. «Penso, logo fujo! » Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?. .. Nem só de arroz com fava vive o Homem! Mas demoro em Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu administrador. E também à espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladação...
- É verdade, os ossos...»

quinta-feira, 2 de março de 2017

Saber às pinguinhas, 14



História, 8º Ano
Manual: MISSÂO-HISTÓRIA

I- Da revolução científica aos ideais iluministas
1- A revolução científica que ocorreu na Europa nos séculos XVII e XVIII originou um movimento de renovação intelectual a que se chamou Iluminismo.
2- O Movimento das Luzes surgiu em Inglaterra, na segunda metade do séc. XVII, mas foi em França, no séc. XVIII, que teve maior desenvolvimento.
3- O Iluminismo tinha por objectivo contribuir para o bem da Humanidade, libertando-a da ignorância e da superstição através do saber e da razão.
4- Neste contexto, o Iluminismo baseava-se no racionalismo, que faz depender da razão, esclarecida pelo saber e a instrução, a felicidade e a verdade do Homem.
5- As ideias de alguns iluministas contribuíram para as grandes mudanças sociais e políticas que se seguiram na Europa, estando na base do liberalismo.
6- Voltaire defendeu a liberdade e a justiça social. Criticou a intolerância do clero, acusando-o de ser responsável pela ignorância das populações (in “Traité sur la Tolérance, 1778). Rousseau defendeu a igualdade de todos perante a lei e a soberania do povo que, por voto, deveria escolher os seus governantes (inLe Contrat Social”, 1762). Montesquieu defendeu a separação dos poderes políticos  (legislativo, executivo e judicial) por diferentes órgãos do poder (in “L’Esprit des Lois,1748).
II- A difusão das ideias iluministas
1- As obras dos autores e as ideias iluministas eram divulgadas em reuniões secretas de maçonaria, academias, salões, livrarias e cafés, e através da publicação de periódicos e da Enciclopédia, uma obra dirigida por Diderot e D’Alembert para a qual contribuíram ilustres intelectuais da época, entre os quais o médico judeu português António Nunes Ribeiro Sanches.
2- Estes meios de difusão de cultura foram muito importantes na formação da opinião pública.

Conceitos:
- Iluminismo: Corrente filosófica que se desenvolveu na Europa do séc. XVIII e que defendia os valores de liberdade, igualdade e valorização da Razão e do progresso da Ciência como meios para atingir a felicidade humana.

- Racionalismo: Corrente filosófica que valoriza a Razão como meio para a solução de questões ligadas ao conhecimento, à moral, à religião e à arte.

- Separação dos poderes: Teoria, defendida por alguns teóricos, segundo a qual a soberania e a liberdade só são possíveis se os poderes legislativo, executivo e judicial forem exercidos por órgãos políticos diferentes.
Textos de apoio:
1: As ideias iluministas
«As nossas esperanças sobre o futuro da espécie humana resumem-se a três pontos: a destruição da desigualdade entre as nações, os progressos da igualdade no mesmo povo e, finalmente, o aperfeiçoamento real do Homem. Chegará, assim, o momento em que o Sol só iluminará sobre a Terra homens livres, não reconhecendo outro mestre além da Razão.(…) Através dos conhecimentos e dos métodos de ensino pode instruir-se todo um povo de tudo o que um homem tem necessidade de saber (…) para reconhecer os seus direitos (…) e para ser senhor de si próprio. (Condorcet,Esquisse d’un Tableau Historique des Progrès de l’Esprit Humain1795.)

2- Capa da Enciclopédia :
 «Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts e des Métiers» par une société de Gens de Lettres  (…)

3- Retrato de Diderot (1713-1784).

4- Textos (e retratos) de Pensadores iluministas :
- De Voltaire (1694-1778):
«Possam todos os homens lembrar-se de que são irmãos, que devem ter horror à tirania exercida sobre os espíritos. (…) Se as guerras são inevitáveis, não nos odiemos, nem nos despedacemos uns aos outros no seio da paz.» (in “Traité sur la Tolérance”, 1765.
- De Rousseau (1712-1778)
«No contrato social a minoria deve submeter-se à vontade da maioria. (…) É verdade que cada um quando vota exprime a sua própria vontade. Mas é do número total de votos que resultará a vontade de todos. (…) Através do voto será exercida a soberania popular. (in «O Contrato Social”).
- De Montesquieu (1689 - 1755):
Quando na mesma pessoa ou no mesmo órgão político o poder legislativo está reunido ao poder executivo não há liberdade (…). Também não há liberdade se o poder judicial não estiver separado dos poderes legislativo e executivo- (in «O Espírito das Leis», 1748).

III - O DESPOTISMO ESCLARECIDO
1- Na segunda metade do séc. XVIII, alguns reis mostraram abertura e interesse pelas novas ideias dos pensadores iluministas e acabaram por levar a cabo reformas que visavam melhorar as condições de vida dos seus súbditos (fundaram escolas, academias, bibliotecas, asilos, etc).
2- Estes monarcas continuavam a ser senhores de poder absoluto, mas agora orientados pela Razão desejavam o progresso e o desenvolvimento cultural do seu país. Eram designados por déspotas iluminados ou esclarecidos.
3- Na Europa, houve vários exemplos de monarcas que seguiram o despotismo esclarecido: Maria Teresa, rainha da Áustria, Frederico II, rei da Prússia, D. Catarina, imperatriz da Rússia, D. José I, rei de Portugal.

IV- A herança do Iluminismo
1- O movimento iluminista defendia ideais opostos aos da monarquia absoluta  (com o poder real de origem divina): propunha antes a soberania popular e a separação dos poderes políticos.
2- Assim, a nação devia ser chamada a expressar livremente a sua vontade política através de eleições livres.
3- O Iluminismo propunha também uma nova sociedade, baseada em princípios como: a igualdade, a liberdade e a tolerância.
4- Estes princípios, difundidos nos meios burgueses, contribuíram para as mudanças sociais e políticas que levarão ao desmoronar do Antigo Regime.
5- As  ideias de Voltaire, Rousseau e Montesquieu também inspiraram o caminho para a democracia, o qual teve avanços e reversos, mas acabou por implantar-se em muitos países do Mundo no decorrer dos século XIX e XX.
6- Passados mais de dois séculos, as ideias de igualdade, liberdade e tolerância são valores pelos quais ainda se luta em muitos Estados, mas que estão presentes em leis e na Constituição de um grande número de países, como é o caso de Portugal.

Conceitos:
Despotismo esclarecido : Regime político em que o rei é senhor absoluto e o seu poder não tem quaisquer limites, sendo guiado pelos princípios da Razão. O rei, esclarecido ou “iluminado” pela Razão, conduz o reino e os seus súbditos.

Textos de apoio:
1- Despotismo esclarecido: «O governo verdadeiramente monárquico é o pior ou o melhor de todos consoante for exercido. Os cidadãos entregaram o poder a um rei para que este vigie o cumprimento das leis, aplique a justiça, impeça a corrupção dos bons costumes, defenda o estado dos seus inimigos. O monarca deverá vigiar a agricultura, proporcionar abundância de alimentos, encorajar a indústria e o comércio. (…) O rei representa o Estado: ele e os seus súbditos formam um só corpo, que apenas será feliz quando todos o sejam. (Frederico II, “Ensaio sobre as formas de Governo e as Obrigações dos Soberanos”, 1788.

2- Exemplos de propostas iluministas nas democracias actuais:
(In «Constituição da República Portuguesa, VII Revisão Constitucional, 2005
Artigo 2º: (“Estado de direito democrático):
«A República Portuguesa é um Estado de Direito Democrático baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão, e organização política democráticos, no respeito e garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o  aprofundamento da democracia participativa.»
Artigo 13º: (Princípio da igualdade):
1- Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. 
 2-Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.»
Artigo 111º: Separação e interdependência:   Os órgãos de soberania devem observar a separação e a interdependência estabelecidas na Constituição.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Para uma descodificação de «O Diário de Anne Frank»



1 - Classificação da obra:
Trata-se de uma obra narrativa, de carácter epistolar - que utiliza a forma de diário, isto é, de relato em discurso directo, feito pela narradora/autora - participante (autodiegética) e omnisciente e, simultaneamente, personagem principal - Anne Frank - ao seu narratário (Diário), que toma a forma de um ser feminino personalizado e imaginário - Kitty -  confidente naturalmente muda das suas confissões, e assumindo sempre a forma sintáctica de vocativo, não só na Introdução de cada um dos relatos diários, como muitas vezes ao longo da diegese narrativa em cada uma das confidências, como expressão carinhosa de Anne, na relação unívoca estabelecida, a que se acrescem por vezes as formas dos pronomes ou determinantes de 2ª pessoa - tu, ti - ou 1ª pessoa do plural - nossa (amizade)…

2 - Tempo
 2.1 -  Tempo cronológico:
As confissões destes relatos epistolares abrangem um tempo cronológico objectivamente demarcado, de cerca de dois anos - 12 de Junho de 1942 a 1 de Agosto de 1944 - acrescido de um epílogo não pertencente à narradora/autora e feito provavelmente pelos responsáveis da edição da obra: informa sobre os acontecimentos que marcaram o fim da trajectória da vida de Anne e dos que com ela ocuparam o “refúgio” de “mergulhados” judeus, fugidos às perseguições nazis.
Com a sua categoria de diário, o tempo é nele medido em sequência progressiva, em semanas, dias e meses, na introdução de cada “epístola confidencial”, em horas, em partes do dia, ou, nas  frequentes analepses, em resumos temporais de maior ou menor extensão. As referências aos advérbios de tempo - hoje, ontem, há tantos dias, à tarde, de manhã, à noite …- com as expressões de lugar, de concomitante proximidade ou afastamento - aqui, lá, no sítio X, ou mesmo nas prolepses de futurologia, com as suposições do que será depois.

a) - Exemplo de analepse (=retrospectiva, flashback): «20/6/1942: “Quando os meus pais casaram tinha o meu pai trinta e dois anos e a minha mãe vinte e cinco. Minha irmã Margot nasceu  em 1926 em Frankfort sobre o Meno; em 12 de Junho de 1929 vim eu. Como somos judeus, emigrámos, em 1933, para a Holanda, onde o meu pai se tornou director da Travis - AG. Esta firma trabalha em estreita ligação com a Colen & Co., no mesmo edifício.
b) - Exemplo de prolepse (=antecipação): «15/7/1944: “quando ergo os olhos para o Céu, penso que, um dia, tudo isto voltará a ser bom, que a crueldade chegará ao seu fim e que o mundo virá a conhecer de novo a ordem, a paz, a tranquilidade”» .

2.2- Tempo histórico:  O que decorre do contexto da segunda guerra mundial .

3- Espaço físico:
 O espaço físico da narrativa do Diário inicialmente abrange a casa de família de Anne, em Amesterdão, na Holanda, e os vários locais frequentados pelas duas irmãs  -  escola, lugares de diversão… - (desde Domingo, 14 de Junho de 1942 a quinta feira, 9 de Julho de 1942) e, a partir de 10 de Julho, o anexo de uma casa (escritório), em Prinsengracht, como refúgio dos oito judeus sucessivamente instalados - a família Frank sendo a primeira - fugidos à perseguição nazi, além das referências ao mundo exterior, não só do contexto guerra, como de referências evocadas de outros espaços temporais, ou mesmo do espaço exterior entrevisto do anexo, através de breve abertura de cortina.
De resto, é a própria Anne que nos vai gradualmente descrevendo os lugares, os móveis, os objectos, as atitudes das várias personagens que povoam o mundo em que está condenada a permanecer encerrada.

4 - Acção:
4.1 - Estrutura da acção: Trata-se de uma narrativa aberta, a do Diário, que vai progredindo em sequências narrativas de episódios vários em torno das personagens ligadas ao seu mundo, várias vezes retomadas, no acaso dos dias vividos, admitindo, grosso modo, as três propostas do processo narrativo - encadeamento, encaixe e alternância:
- Encadeamento, porque se trata de um deslizar de peripécias, associadas à figura central - Anne - com alternância, por vezes, de episódios mais ou menos desligados entre si, ou retomados, ao acaso da progressão temporal e das relações estabelecidas entre as várias personagens segundo a focalização da narradora. O encaixe poderá admitir-se, (para efeito de simplificação) relativamente ao espaço exterior do contexto histórico (II Guerra Mundial), (que surge nas frequentes referências da heroína, com considerações reveladoras da sua maturidade, (o que marcará, de resto, algumas das suas característica psicológicas - em caracterização indirecta - por dedução do leitor).
A narrativa aberta do Diário, converter-se-á em narrativa fechada, com o Epílogo acrescentado, que dá conta do destino das personagens.

4.2- Partes da narrativa:  Está dividida em três partes, precedidas de uma Dedicatória: («ESPERO QUE TE POSSA CONFIAR TUDO A TI; O QUE, ATÉ AGORA, NUNCA PUDE FAZER A NINGUÉM, E ESPERO QUE VENHAS A SER UM GRANDE AMPARO PARA MIM. Anne Frank, 12 de Junho de 1942».):

a) INTRODUÇÃO (3 cartas) - (Narratário não personalizado) : Domingo, 14 de Junho de 1942 - A alegria de receber o Diário; Segunda-feira, 15 de Junho de 1942 - A festa dos anos de Anne; Sábado, 20 de Junho de 1942) - Os porquês de escrever o diário - “O papel é mais paciente do que os homens”; Síntese biográfica”.   

b) I PARTE (8 cartas) - (Narratário personalizado: «Querida Kitty»): de Sábado, 20 de Junho de 1942 a Quinta-feira, 9 de Julho de 1942: A vida na escola (Anne uma adolescente tagarela e espirituosa) e em casa, as relações com os amigos e as amigas, Harry,  um rapaz interessado na Anne (“Sinto que o Harry está apaixonado por mim, e, para variar, isto é engraçado”), o amor pela irmã, Margot, aluna brilhante), as sombras que se adensam sobre os Judeus - os alunos judaicos a terem de mudar-se para as escolas judaicas, o pai que deixou de poder trabalhar  («O sr. Koophuis tomou conta da «Travis» juntamente com o sr Kraler, da firma Kolen & Cº de que o pai também era sócio»); o pai que avisa a filha de que é necessário “mergulhar” para um espaço que havia mais de um ano eles andavam a preencher com os pertences da casa…), mas que ao mesmo tempo a tranquiliza;  três dias que passaram, e a nova carta à “querida Kitty, a informar sobre a antecipação do “mergulho”, para fugirem à convocação das SS para o pai se apresentar (significativa de que seria enviado para um campo de concentração) e a descrever os momentos de pânico, com o pai ausente, a reunião da mãe com o sr. van Daan, outro “mergulhador”. Afinal a convocação era para a Margot, o susto terrível, as coisas disparatadas que as irmãs meteram nas pastas da escola para levar (significativas do apego às recordações e amizades que lhes custa deixar), o pai que chegou às cinco, a reunião nocturna com Koophuis, a Miep (“desde 1933 trabalhava no escritório do pai de Anne, e era uma amiga fiel”) que veio emalar as coisas às onze da noite com o seu bom marido Henk, e as carregaram para o local ainda desconhecido de Anne. No dia seguinte, pelas cinco e meia da manhã, a saída de todos a pé, a Margot de bicicleta atrás da Miep, todos muito enroupados, carregando o mais que podiam roupas no corpo, a despedida do seu gatinho, de que um dos vizinhos tomaria conta.

c) II PARTE:
A:
1- Constituição: Constituída por cerca de 165 Cartas - de Sexta-feira, 10 de Julho de 1942 a Terça-Feira, 1 de Agosto de 1944, a primeira contando da inércia da mãe e da irmã, desfeitas de horror pela catástrofe que se abatera sobre eles, fechados e em silêncio, obrigados a arrumar tudo, que estava monstruosamente empilhado, pois não tinham contado com a antecipação do “mergulho”, o pai e Anne deitando corajosamente as mãos à obra para a instalação.
2) A localização do esconderijo é feita na carta anterior (de 9 de Julho) última da 1ª Parte:
O esconderijo é na casa comercial do pai…. O pai nunca teve muitos empregados. Os de agora eram o sr. Krale, o sr. Koophuis, a Miep e Elli Vossen, a dactilógrafa de 23 anos. Todos sabiam que vínhamos. Só o sr. Vossen, o pai da Elli, que trabalha no armazém, e os dois criados é que não estão no segredo”.
3) Descrição do anexo e distribuição pelos ocupantes: «...A porta da direita conduz a um anexo. Ninguém podia nem sequer suspeitar que, para além desta porta simples, pintada de cinzento, ainda se encontrariam escondidos muitos quartos. Aberta a porta, sobe-se um degrau, e está-se dentro do anexo. Em frente da escada há uma escada íngreme. À esquerda, um corredorzinho leva a um quarto que vai ser o quarto de dormir e de estar do casal Frank e a um outro quartinho: o quarto de trabalho e de dormir das duas meninas Frank. Ao lado direito da escada há um quarto sem janelas com lavatório e um W.C. com uma outra porta que dá para o nosso quarto.
Quando se sobe a escada e se abre a porta de cima, fica-se admirado ao ver, numa casa tão velha, um quarto tão grande, bonito e airoso. Neste quarto há um fogão de gás e uma banca. Aqui estava instalado até há pouco, o laboratório da firma. Agora serve de cozinha, de sala e de quarto de dormir do casal van Daan.
Um quartinho minúsculo de passagem vai ser o reino de Peter van Daan. Como na casa principal, também aqui há águas furtadas e um sótão
4) - A  chegada do casal van Daan com o filho Peter será referenciada na carta da II Parte, de 14 de Agosto, como tendo acontecido em 13 de Julho, também em “mergulho” antecipado.
5) - A instalação do oitavo inquilino - o dentista Albert Dussel, que tem a mulher no estrangeiro - e referido pela primeira vez na 19ª carta, de 10 de Novembro, é referenciada  na 21ª carta da II Parte de 19 de Novembro. Instalar-se-á  no quarto de Anne, ocupando-lhe a cama, passando esta a dormir num sofá prolongado por cadeiras.
6) Os protectores: Toda esta movimentação só foi possível graças à interferência dos protectores - Kraler e Koophuis - intermediários entre o exterior e o interior, e bem assim a ajuda de Miep e Elli, para o fornecimento de víveres através de senhas, remédios, livros, roupas ou outras particularidades assistenciais, tudo realizado com os respectivos sigilo e cautela, Elli igualmente os ajudando dentro do anexo, os outros aparecendo diariamente, e por vezes comendo com eles.
B)
7- O conteúdo da acção narrada: circunscrito ao exíguo espaço, terá a ver, pois, com as relações entre as várias personagens, os comportamentos ocasionais, dependentes das circunstâncias vividas, e dos caracteres específicos de cada um, as zangas ou os amuos, as leituras e os estudos, possibilitados pela ligação ao exterior por intermédio dos amigos protectores, as dificuldades e carências de alimentação e de higiene, as falhas de luz e de água, as indisposições passageiras, ou a doença de estômago e operação do sr. Koophuis, que o ausentou dos seus “protegidos”, como aconteceu com Miep e Elli, o que provocou transtorno no “anexo”, os vários sustos apanhados, de serem descobertos, referentes a ruídos ou desconfianças do exterior,  as conversas e as críticas sobretudo ao comportamento de Anne, pouco dócil, o “boletim” pormenorizado sobre o modo como passavam as noites e os dias e os gestos e “apetites” egoístas de cada um dos não pertencentes à família, e tudo isso analisado pela narradora e personagem principal, Anne Frank, que vai também fornecendo os suas informações críticas sobre os factos da guerra, ouvidos pela BBC, no aparelho de rádio e os dados de que vão tendo conhecimento sobre os amigos e conhecidos judeus apanhados nas malhas do extermínio nazi. Com o avançar do tempo e o próprio crescimento de Anne, esta desabafará com Kitty os seus próprios problemas íntimos, de revoltas e arrependimentos, de adolescente que descobre o amor, na figura de Peter que, de insípido, tímido  e mandrião como Anne o considerava no início, pouco a pouco, se revelará mais desinibido e companheiro de Anne, esclarecendo-a com naturalidade sobre a vida adulta e tornando-se objecto do impulso amoroso de Anne adolescente. Os estados de espírito de raivas e apaziguamentos de Anne, serão naturalmente objecto das suas confissões, bem como a visão crítica sobre as personagens que figuram no espaço limitado do anexo.

5 - As personagens
a) Os “mergulhados” do anexo:
Anne Frank, personagem principal ou protagonista numa narrativa de que ela própria é responsável, apresenta naturalmente características de alegria, travessura, vivacidade, entrega fácil a desesperos, raivas, zangas, arrependimentos em relação ao mundo adulto com quem é condenada a viver; é simultaneamente reveladora de grande sensibilidade e maturidade não só na apreciação crítica dos outros - daqueles com quem é forçada a viver, como dos responsáveis pela guerra e sofrimento do seu povo. Os dois anos no refúgio fazem-na crescer mentalmente, na sua ânsia de aprender, com entrega ao trabalho, no amor pelos seus, na descoberta do seu corpo e do seu amor por Peter, com dúvidas (após os conselhos do pai), sobre a real sinceridade de uma exaltação amorosa que provavelmente um futuro num contexto de maior liberdade e mais maturidade mostrará a irrelevância, dada a diferença de sensibilidades e inteligências. Extremamente inteligente nas suas reflexões e auto-análises comportamentais, (se não houve mão de adulto a manipular alguma da sua escrita). 
 
(As cartas de 4, 5, 9 e 10 de Agosto de 1943, que dão conta dos movimentos diários de todos, ao deitar e durante as refeições, dão-nos as descrições dos comportamentos de cada um, feitos ao modo crítico e directo de Anne).

A irmã, Margot: dócil e sensata, pacífica e boa estudante, quando frequentava a escola, por todos apreciada e estimada, sempre apresentada como modelo a Anne, que, naturalmente, a ama.
O Pai,  (Otto) Frank, (Pim, na designação de Anne): leitor de Charles Dickens, excelente como marido e pai, preocupado com a educação das filhas, bom conselheiro, generoso e modesto, muito amado pelo “feixe de nervos” Anne, defendendo Anne e Margot nas disputas educativas com a srª van Daan, sempre acusadora da primeira.
A mãe, (Edith)  Frank: Crítica de Anne, que por isso sofre, e lhe tem zanga, mas uma mulher discreta e sensata, nem sempre paciente.
O sr. van Daan: personagem que se revela à mesa um comensal pouco delicado e ávido, indiferente aos outros, egoísta, opinioso, irritadiço, vivendo ema relação conjugal de disputas e reconciliações.
A srª van Daan: pessoa fútil e egoísta, provocante e muito crítica de Anne, em disputa permanente com o marido, avara e cozinheira, condenando a educação de brandura do casal Frank, relativamente à filha mais nova.
Peter van Daan: rapaz de dezasseis anos no início, molengão, tímido e pacífico, revelar-se-á, com o tempo, um bom companheiro de Anne, e um namorado que satisfaz o despertar amoroso de Anne, sem a certeza de que no futuro esses amores perdurarão.
O dentista Albert Dussel: Um tanto ávido e grosseiro, crítico de Anne, condenada a dormir no mesmo quarto, e que por isso muitas vezes ia dormir com os pais.

5 - O Estilo:
Próprio da forma epistolar, discurso directo, simples, com expressões ora infantis ora num discurso bem ordenado e sentencioso, de leitura fácil, onde podemos rever a nossa própria infância e os nossos relacionamentos ao longo da vida. Discurso perspicaz, onde a sinceridade domina, sem retórica.