terça-feira, 15 de setembro de 2026

Um problema grave


Que dependerá, naturalmente de causas várias, entre as quais a provável menor exigência pedagógica de alguns pais e professores - como sempre houve, de resto - em permissividades comportamentais agudizadas por uma maior liberdade educativa que a própria democracia de há muito exige. O que vale é que nem sempre as famílias - e nem todos os professores - “alinham” na aceitação das “libertinagens” dos seus pupilos, e defendem corajosamente um ensino competente, além de que os livros escolares são hoje acompanhados de questionários e imagens como não se fazia outrora, o que ajuda, naturalmente a uma maior percepção das questões estudadas… desde que se queira, de facto, aprender – (o busílis da questão).

A crise da escola

A escola é preciosa e insubstituível. Mas tarda a perceber que a forma como as crianças do século XXI pensam, conhecem e falam é diferente daquilo que a escola sempre imaginou.

EDUARDO SÁ, psicólogo

OBSERVADOR, 13 set. 2026, 18:48

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Menos curiosos, mais desistentes, mais superficiais, menos tolerantes ao esforço, com os pais a esperar menos da escola e com 1 em cada 5 deles a achar que ela não vale a pena. Com mais experiências de bullying e com falta de professores. Com maiores clivagens entre os alunos sem recursos e os outros, e com diferenças de rendimento geográficas enormes. Estas são algumas das características que os alunos portugueses com 15 anos mais evidenciam no Programme for International Student Assessment (PISA) da OCDE, agora divulgado. Que nos diz que, nos últimos dez anos, os alunos portugueses perderam o equivalente a mais de um ano de escolaridade nas suas competências escolares. Levado ao absurdo, equivale a que todos eles tenham tido mais de um ano de faltas injustificadas sem que ninguém desse conta. Em termos globais, os dados do PISA advertem-nos para um recuo de 20 anos nas competências dos alunos portugueses, tendo pelo menos 1 em cada 4 desempenhos abaixo do indispensável para participarem numa vida em sociedade, considerando os seus conhecimentos em ciências, matemática e na leitura.

Se, ao dia de hoje, estes resultados nos assustam, e se isso não nos deixa de dar conta que fomos ligeiros nos custos da pandemia sobre todas as crianças, a escola não começou a adoecer a partir daí. Vejam-se os dados da mesma OCDE sobre a leitura e o cálculo de portugueses escolarizados com mais de 30 anos quando, há um ano, alertou para que quase metade deles revelava um dos dois níveis mais baixos em proficiência em leitura avaliados, apenas conseguindo ler textos breves com informação mínima e vocabulário familiar; e que 40% apresentavam dificuldades no cálculo abaixo ou ao nível mais básico das pessoas avaliadas.

Como pode a escolaridade obrigatória garantir o conhecimento e a educação, robustecer a inteligência humana e promover a democracia, a liberdade e a política se os alicerces das aprendizagens básicas se vão manifestando tão inacreditavelmente deficitários? Será que a substituição das metas curriculares por aprendizagens essenciais poderá ter ajudado para tamanho declínio? Ou que o abandono, a partir de 2016, de currículos mais exigentes, dos exames de final de ciclo no 4.º e no 6.º anos e do apoio cognitivo aos alunos com mais dificuldades, podem ter contribuído para estes resultados? Seja como for, mais tempo de ecrã e mais IA contribuíram nos diversos países avaliados para piores resultados.

Estará a escola a cumprir a sua obrigação? Serão a memória e a atenção o problema maior dos alunos ou os planos curriculares ou, também, a forma como a escola continua a imaginar que eles aprendem “mecanicamente”, unicamente por repetição e da parte para o todo, como se fossem crianças do século XIX estarão a confluir para isto? Terão o volume de trabalho que lhes exigimos, a pressão que lhes colocamos e a infância que lhes roubamos sido estranhos a isto tudo? Será que o sedentarismo das crianças e a forma como vamos excluindo o corpo das suas aprendizagens contribuem para os maus resultados? Será que os “novos pais” – que têm dificuldades em definir regras, autonomia, capacidade de estar só, e de educar as crianças para a paciência, para a humildade e para as manifestações de frustração – não “ajudam”, muito mais do que desejariam, para que tudo seja assim? E o facto de termos crianças cada vez mais audiovisuais que verbais e hipotético-dedutivas, não “inquina” as aprendizagens tal como lhas oferecemos?

Os conteúdos e a forma como as ensinamos, o modo como se espera que as crianças reproduzam conhecimentos (como se só isso fosse aprender), a educação com que chegam das famílias, a forma como o audiovisual e a IA enviesaram a sua forma de aprender e as têm vindo a tornar muito menos inteligentes, serão esses os eixos do desencontro das crianças com o conhecimento. Se associarmos a isso a doença da escola pública, a forma demagógica como as avaliamos, a escassez de professores e a sua formação, e todas as pressões que colocamos sobre elas é fácil perceber o estado a que isto chegou. O que mais inquieta nos resultados do PISA não é tanto a forma como a escola parece não estar a funcionar; mas o modo como esta geração parece ter deixado de aprender com ela e de lhe ir reconhecer mais-valias. A transformação da experiência em palavra é a primeira operação matemática da natureza humana. E a palavra é o tijolo com que se constrói todo o conhecimento. (E, já agora, a saúde mental.) Uma geração que, com a nossa complacência, foi transformando gerações e gerações de palavra numa geração, sobretudo, audiovisual e digital, talvez não possa esperar que a escola cumpra, hoje, da mesma forma, a sua missão de trazer as crianças ao conhecimento. Porque é querê-la a ser aquilo que já não consegue cumprir. Se não pensarmos como pensam as crianças hoje, e se não nos perguntarmos o que queremos delas, estamos a perder a escola. E, por mais mudanças razoavelmente superficiais que se tragam, corremos o risco de ficar todos a perder.

A escola é preciosa e insubstituível. Mas tarda a perceber que a forma como as crianças do século XXI pensam, conhecem e falam é diferente daquilo que a escola sempre imaginou. E precisa de perceber que a memória não é uma função “solta” mas o resultado da ligação entre imaginação, perspectiva e processos associativos. E que aos bons resultados nunca se chega sem o erro e o insucesso. E que a avaliação não é um reforço positivo, mas um exercício que só quando se usa com verdade ajuda a crescer. E que os resultados escolares e as aprendizagens essenciais precisam de ter tudo a ver uns com os outros.

Se quem o aprende nunca esquece, quem esqueceu ou, hoje, não sabe, nunca aprendeu. Será esta a escola que temos para oferecer aos nossos filhos. Mas não representará esta escola uma crise bem mais grave que todas as crises que eles parecem ter à sua espera?

Escolas       Educação

COMENTÁRIOS:

Lourenço de Almeida

Oh. meus amigos!  O problema não é radio, televisão, cinema ou telemóvel a mais! O problema é ensino e exames a menos! A Telefonia e o jogo dos berlindes, não impediu que as crianças de há um século aprendessem a ler e a escrever. A televisão e o rock&roll também não os impediu há 60 anos, embora tudo isto tenha potencial de causar distracção e de absorver superficialmente os conhecimentos que noutras épocas só os livros davam! Por isso, os miúdos podem aprender ou desaprender o que entenderem com os telemóveis. Mas se tiverem que estudar textos longos e fazer contas de dividir para passar nos exames, haverá os que os lêem e aqueles que não o fazem, como sempre aconteceu desde que o mundo é mundo. Se lhes ensinarem outras coisas e não tiverem exames, certamente que ninguém aprenderá aquilo que não lhes é ensinado, e poucos aprenderão o que o é ... mas não a ler e a escrever ou a fazer contas!

Manuel Ferreira

Excelente! Está bem que a cultura é diferente, mas basta ver o que fazem a China, Coreia e Singapura. Também pela educação se explica que um país com 900 anos não passa da cepa torta, mas ninguém se preocupa, as elites formam-se nas escolas de elite (geralmente privadas) ou no estrangeiro e a massa ignara servirá os senhores.

Daniel José

A escola pública que passa a vida em greve devido aos sindicatos da extrema esquerda que sempre viram na educação um braço armado politico só podia dar bom resultado. Já viram a quantidade de férias relativamente aos outros países têm as nossas escolas? A quantidade de baixas? Os professores dão hoje mais horas de aulas do que há 20 anos? E os programas curriculares, será que evoluem para o mercado de trabalho ou apenas para doutrinar? Na área metropolitana de Lisboa as famílias de classe média foram empurradas para o ensino privado para ter o mínimo de qualidade. Respondendo a este belo artigo, a Escola, tal como o Estado, não cumpre a sua obrigação!

António Dias

Obrigado, Dr. pelo seu artigo de opinião. Traz a público, de uma forma perfeitamente perceptível para todos, a direcção para onde caminha a Educação em Portugal.  E não estamos com esta visão só a descrever o que está a acontecer aos nossos jovens de hoje. Estamos a vislumbrar o que homens e mulheres serão no futuro.

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