Que dependerá, naturalmente de
causas várias, entre as quais a provável menor exigência pedagógica de alguns pais
e professores - como sempre houve, de resto - em permissividades
comportamentais agudizadas por uma maior liberdade educativa que a própria democracia
de há muito exige. O que vale é que nem sempre as famílias - e nem todos os
professores - “alinham” na aceitação das “libertinagens” dos seus pupilos, e
defendem corajosamente um ensino competente, além de que os livros escolares são
hoje acompanhados de questionários e imagens como não se fazia outrora, o que
ajuda, naturalmente a uma maior percepção das questões estudadas… desde que se
queira, de facto, aprender – (o busílis da questão).
A crise da escola
A escola é preciosa e
insubstituível. Mas tarda a perceber que a forma como as crianças do século XXI
pensam, conhecem e falam é diferente daquilo que a escola sempre imaginou.
EDUARDO
SÁ, psicólogo
OBSERVADOR,
13 set. 2026, 18:48
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acabar"
Menos curiosos, mais
desistentes, mais superficiais, menos tolerantes ao esforço, com os pais a
esperar menos da escola e com 1 em cada 5 deles a achar que ela não vale a
pena. Com mais experiências de bullying e com falta de professores. Com
maiores clivagens entre os alunos sem recursos e os outros, e com diferenças de
rendimento geográficas enormes. Estas são algumas das características que
os alunos portugueses com 15 anos mais evidenciam no Programme for
International Student Assessment (PISA) da OCDE, agora divulgado. Que nos
diz que, nos últimos dez anos, os alunos portugueses perderam o equivalente a
mais de um ano de escolaridade nas suas competências escolares. Levado ao
absurdo, equivale a que todos eles tenham tido mais de um ano de faltas injustificadas
sem que ninguém desse conta. Em termos globais, os dados do PISA
advertem-nos para um recuo de 20 anos nas competências dos alunos portugueses,
tendo pelo menos 1 em cada 4 desempenhos abaixo do indispensável para
participarem numa vida em sociedade, considerando os seus conhecimentos em
ciências, matemática e na leitura.
Se, ao dia de hoje,
estes resultados nos assustam, e se isso não nos deixa de dar conta que fomos
ligeiros nos custos da pandemia sobre todas as crianças, a escola não começou a
adoecer a partir daí. Vejam-se os dados da mesma OCDE sobre a leitura e o cálculo
de portugueses escolarizados com mais de 30 anos quando, há um ano, alertou
para que quase metade deles revelava um dos dois níveis mais baixos em
proficiência em leitura avaliados, apenas conseguindo ler textos breves com
informação mínima e vocabulário familiar; e que 40% apresentavam dificuldades
no cálculo abaixo ou ao nível mais básico das pessoas avaliadas.
Como pode a escolaridade obrigatória garantir o conhecimento
e a educação, robustecer a inteligência humana e promover a democracia, a
liberdade e a política se os alicerces das aprendizagens básicas se vão
manifestando tão inacreditavelmente deficitários? Será que a substituição das metas
curriculares por aprendizagens essenciais poderá ter ajudado para tamanho
declínio? Ou que o abandono, a partir de 2016, de currículos mais exigentes,
dos exames de final de ciclo no 4.º e no 6.º anos e do apoio cognitivo aos
alunos com mais dificuldades, podem ter contribuído para estes resultados?
Seja como for, mais
tempo de ecrã e mais IA contribuíram nos diversos países avaliados para piores
resultados.
Estará a escola a cumprir a sua obrigação? Serão a
memória e a atenção o problema maior dos alunos ou os planos curriculares ou,
também, a forma como a escola continua a imaginar que eles aprendem
“mecanicamente”, unicamente por repetição e da parte para o todo, como se
fossem crianças do século XIX estarão a confluir para isto? Terão
o volume de trabalho que lhes exigimos, a pressão que lhes colocamos e a
infância que lhes roubamos sido estranhos a isto tudo? Será que o sedentarismo das crianças
e a forma como vamos excluindo o corpo das suas aprendizagens contribuem para
os maus resultados? Será que os “novos pais” – que têm dificuldades em definir
regras, autonomia, capacidade de estar só, e de educar as crianças para a
paciência, para a humildade e para as manifestações de frustração – não
“ajudam”, muito mais do que desejariam, para que tudo seja assim? E o facto de
termos crianças cada vez mais audiovisuais que verbais e hipotético-dedutivas,
não “inquina” as aprendizagens tal como lhas oferecemos?
Os conteúdos e a forma como
as ensinamos, o modo como se espera que as crianças reproduzam conhecimentos
(como se só isso fosse aprender), a educação com que chegam das famílias, a
forma como o audiovisual e a IA enviesaram a sua forma de aprender e as têm
vindo a tornar muito menos inteligentes, serão esses os eixos do desencontro
das crianças com o conhecimento. Se associarmos a isso a doença da escola pública, a forma
demagógica como as avaliamos, a escassez de professores e a sua formação, e
todas as pressões que colocamos sobre elas é fácil perceber o estado a que isto
chegou. O que mais inquieta nos resultados do PISA não é tanto a forma
como a escola parece não estar a funcionar; mas o modo como esta geração parece ter deixado de
aprender com ela e de lhe ir reconhecer mais-valias. A transformação da experiência em
palavra é a primeira operação matemática da natureza humana. E a palavra é o
tijolo com que se constrói todo o conhecimento. (E, já agora, a saúde mental.)
Uma geração que, com a nossa complacência, foi transformando gerações e
gerações de palavra numa geração, sobretudo, audiovisual e digital, talvez não
possa esperar que a escola cumpra, hoje, da mesma forma, a sua missão de trazer
as crianças ao conhecimento. Porque é querê-la a ser aquilo que já não consegue
cumprir. Se não pensarmos como pensam as crianças hoje, e se não nos
perguntarmos o que queremos delas, estamos a perder a escola. E, por mais
mudanças razoavelmente superficiais que se tragam, corremos o risco de ficar
todos a perder.
A escola é preciosa e insubstituível. Mas tarda a
perceber que a forma como as crianças do século XXI pensam, conhecem e falam é
diferente daquilo que a escola sempre imaginou. E precisa
de perceber que a memória não é uma função “solta” mas o resultado da ligação
entre imaginação, perspectiva e processos associativos. E que aos bons
resultados nunca se chega sem o erro e o insucesso. E que a avaliação não é um
reforço positivo, mas um exercício que só quando se usa com verdade ajuda a
crescer. E que os resultados escolares e as aprendizagens essenciais precisam
de ter tudo a ver uns com os outros.
Se quem o aprende nunca
esquece, quem esqueceu ou, hoje, não sabe, nunca aprendeu. Será esta a escola
que temos para oferecer aos nossos filhos. Mas não representará esta escola uma crise bem mais grave que
todas as crises que eles parecem ter à sua espera?
Escolas Educação
COMENTÁRIOS:
Lourenço
de Almeida
Oh. meus amigos! O problema não é radio, televisão, cinema ou
telemóvel a mais! O problema é ensino e exames a menos! A Telefonia e o jogo
dos berlindes, não impediu que as crianças de há um século aprendessem a ler e
a escrever. A televisão e o rock&roll também não os impediu há 60 anos,
embora tudo isto tenha potencial de causar distracção e de absorver
superficialmente os conhecimentos que noutras épocas só os livros davam! Por
isso, os miúdos podem aprender ou desaprender o que entenderem com os telemóveis.
Mas se tiverem que estudar textos longos e fazer contas de dividir para passar
nos exames, haverá os que os lêem e aqueles que não o fazem, como sempre
aconteceu desde que o mundo é mundo. Se lhes ensinarem outras coisas e não
tiverem exames, certamente que ninguém aprenderá aquilo que não lhes é
ensinado, e poucos aprenderão o que o é ... mas não a ler e a escrever ou a
fazer contas!
Manuel
Ferreira
Excelente! Está bem que a
cultura é diferente, mas basta ver o que fazem a China, Coreia e Singapura.
Também pela educação se explica que um país com 900 anos não passa da cepa
torta, mas ninguém se preocupa, as elites formam-se nas escolas de elite (geralmente
privadas) ou no estrangeiro e a massa ignara servirá os senhores.
Daniel
José
A escola pública que
passa a vida em greve devido aos sindicatos da extrema esquerda que sempre
viram na educação um braço armado politico só podia dar bom resultado. Já viram
a quantidade de férias relativamente aos outros países têm as nossas escolas? A
quantidade de baixas? Os professores dão hoje mais horas de aulas do que há 20
anos? E os programas curriculares, será que evoluem para o mercado de
trabalho ou apenas para doutrinar? Na área metropolitana de Lisboa as famílias
de classe média foram empurradas para o ensino privado para ter o mínimo de qualidade.
Respondendo a este belo artigo, a Escola, tal como o Estado, não cumpre a sua
obrigação!
António
Dias
Obrigado, Dr. pelo seu artigo
de opinião. Traz a público, de uma forma perfeitamente perceptível para todos,
a direcção para onde caminha a Educação em Portugal. E não estamos com esta visão só a descrever o
que está a acontecer aos nossos jovens de hoje. Estamos a vislumbrar o que homens
e mulheres serão no futuro.
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