sábado, 13 de julho de 2013

“À sombra das meninas em flor”


Cavaco Silva não se conforma com a passagem do tempo, continua à procura do seu tempo perdido, tal como fez Proust, que o relembrou exaustivamente, em grandes memórias e muitos debates de consciência delicadamente e profusamente analisados. É claro que não há qualquer resquício de comparação entre um Proust relator dos comportamentos humanos, despoletando revivescência dos seus próprios num tempo que a memória aprimorou, e um Cavaco que chamou a si uma tarefa de pêndulo nacional, na sua pretensão de orquestrar os destinos do país, provavelmente rancoroso por não estar ele nesse lugar onde já esteve. É certo que o fez no tempo das vacas gordas, mas vacas alheias cujas tetas ele soube sugar e fazer sugar avidamente por tantos apaniguados, onde todos lamberam, embora com eficácias diferentes, sem criar meios para um progresso real, enxurrada dispendiosa que os sucessores não conseguiram estancar, fugindo a tempo, e pondo-se a salvo na hora aprazada. De resto, mais preocupados numa continuidade parasitária que os servisse e salvasse, no “salve-se quem puder” da sua filosofia por conta própria.

Cavaco Silva não foi dos que fugiu. Tinha as suas poupanças, que soube manter por cá, os seus queixumes em tempos o deram a entender, mas ao invés de aceitar com honestidade as reduções e cortes nos vários vencimentos de reformas obtidas nos vários postos, foi com dor alardeada que se julgou injustiçado, sabendo que não tínhamos o direito de usufruir de benesses provenientes de torrentes externas tão vorazmente absorvidas.

Chegara o tempo de pagar e Cavaco Silva pagou. Como os outros. Mas lamuriou, o que foi espectáculo indecoroso. Porque não pôs os vários pesos na balança, desaparecida a Justiça, ela própria afogada na trafulhice e no despesismo por conta das mesmas vacas.

Houve um governo que foi obrigado a recuar, que deitou mãos ao extraordinário encargo de suster tanto desvario parasita, e que seriamente forcejou por endireitar o país, pela via de uma honestidade que o tornasse mais credível. Logo o coro se ergueu dos semeadores do ódio, tarefa em que a má educação do povo colaborou com a parolice dos seus meios – interrupções, cantigas, impropérios, punhos erguidos, festa.

Entretanto, os golpes de teatro de Gaspar e Portas acentuaram as fragilidades de um Governo sério e isolado no seu cumprimento. Logo o monte dos “ventos uivantes” se desprendeu em esperanças de o derrotar de vez. É só vê-los e ouvi-los, os dentes arreganhados de fúria. Excepto Seguro, que mantém a mesma máscara de uma beleza parada, que não deseja criar rugas, no mesmo discurso sem ideias, futuro ministro de um país sem meios.

Mas Passos Coelho tem a coragem do lutador e tenta prosseguir, em novos acertos e consertos, que simultaneamente denunciam as maroscas de Portas para obter aquilo a que se julga com direito e que talvez obtivesse, caso o seu partido de “homens bons” tivesse maior relevância.

Admiro Passos Coelho e a sua luta titânica para prosseguir, creio que por real amor ao seu país.

Mas Cavaco interveio. Num golpe certeiro de vingador, contra quem lhe fora às poupanças. Hesitou, demorou, criou suspense, foi enxovalhado, hibernou. Como costuma fazer. Mas a machadada – seria demasiado pretensiosa a espada de Dâmocles – caiu enfim. Propondo soluções patuscas, por utópicas. Antes da empreitada do Governo terminar. Trazendo o caos, não a solução.

Cavaco, “menina em flor” originadora de paixões ainda, com vida própria, só na aparência hibernante, e pautando-se por recalcamentos de traição vingativa, indiferente ao seu país, numa aparência de meditação arrastada, criadora de suspense…

Na verdade, procurando não o tempo perdido, mas apenas o tempo em que ganhava mais. E sem debates de consciência.

Admiro Passos Coelho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

“A Fortuna do Gaspar”


É a propósito de um artigo
De um professor de Economia
Da Universidade de Colúmbia,
- Ricardo Reis de sua bizarria –
Saído no “A Bem da Nação”
Com muita precisão,
Sobre Victor Gaspar e a sua acção governativa
 Como ministro das Finanças sem alternativa,
Na nação portuguesa endividada,
Que procurei em La Fontaine uma fábula
Justificadora do ponto de vista
Que o transforma de besta em bestial
Na opinião geral,
De gente muito assustada
Não fosse o FMI fazer-nos mal
E retirar-nos o capital,
Que uma política económica de dureza comprovada
Mas, ao que parece, única possível,
Tornou imprescindível.
Nós somos as moscas vaidosas e alardeantes,
Gaspar é a formiga trabalhadora e previdente
Que foi em frente
Abrindo os caminhos do bem-estar futuro
Mais modesto e seguro.
 
“A Mosca e a Formiga”,
Fábula de La Fontaine colhida em Fedro
E outros seguidores:

 A Mosca e a Formiga contestavam sobre o seu valor:
“Ó Júpiter, disse a primeira,
Admite-se que o amor próprio cegue de tal maneira as cabeças,
Que um vil e rastejante animal
À deusa do ar ouse chamar-se igual?
Eu frequento palácios, sento-me às suas mesas:
Se te imolarem um boi
Antes de ti o saborearei,
Enquanto que esta enfezada e miserável
Três dias se alimenta
De um qualquer grãozito imprestável
Que arrastou para o seu buraquito.”
“Mas, minha doçura, diz-me:
Tu instalas-te sobre a cabeça dum Rei,
Dum Imperador ou duma Bela?”
“Com certeza, e beijo um belo seio sempre que quero:
Brinco no seu cabelo,
Realço a brancura natural de uma tez
Com uma “mosca” que reforça a palidez
De uma dama partindo à conquista,
Que não há quem lhe resista.
Depois venha romper-me a cabeça falando em celeiro!”
“Já disse tudo? Replicou-lhe a previdente.
Você frequenta os palácios; mas é aí muito mal vista,
E quanto a saborear primeiro
O que servem perante os Deuses,
Julga que isso valha mais por isso?
Se você entra em toda a parte, o mesmo fazem os profanos.
Sobre a cabeça dos Reis como sobre a dos Asnos
Você vai-se plantar; não vou discordar;
E também sei que duma pronta morte
Esse atrevimento é muitas vezes punido
Sem arrependimento.
Certo sinal, diz você, dá mais beleza.
Não discordo: ele é negro
Como você ou eu.
Admito que se chame Mosca
É razão para que você se ponha
A alardear o seu mérito sem vergonha?
Não se chamam também Moscas aos parasitas?
Tretas!
Deixe pois de manter tão vã linguagem:
Não tenha mais tão altos pensamentos.
As Moscas da corte, vulgo espiões,
São expulsas sem constrangimentos;
Os Moscardos, ou seja “bufos” – da guerra ou da polícia –
São enforcados com perícia,
E você de fome morrerá,
De frio, de inércia, de miséria,
Quando Febo reinar sobre o outro hemisfério.
Então, eu, do fruto do meu trabalho viverei,
Por montes e vales não irei
Expor-me ao vento, à chuva;
Sem melancolia viverei.
Os cuidados que antes tomei
De cuidados me libertarão.
A si lhe ensinarão
O que é uma falsa e uma verdadeira glória.
Adeus, perco o meu tempo: deixe-me trabalhar.
Nem o meu celeiro, nem o meu armário,
Se enchem a palrar.”

 Também “A Cigarra e a Formiga”
Desenvolve este tema de gente inimiga.
A própria a Condessa de Ségur criou uma história
À volta dum Gaspar estudioso
Duro e trabalhador
Que, por ter casado com Mina,
- Rapariguinha com muitos predicados,
Que só se apreciam na infância,
 E mesmo só na de antigamente,
Que agora já ninguém de igual modo a lê ou sente –
Se tornou mais esmoler,
Por amor,
Ele que era tão inteligente
Mas pouco generoso.
O nosso Gaspar também foi isso
- Trabalhador e inteligente
Mas a necessidade tornou-o duro a valer,
Sendo por isso odiado,
Sempre troçado,
Osso duro de roer
Besta na opinião geral.
Mas a Fortuna tornou-o bestial
Espécie de herói,
Assim que se despediu e que se viu
Quanto seria bem pior
Para a nação,
Se ele fosse diferente do que foi
No capítulo da sua acção.

 

 

 

 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O rabecão do sapateiro


Quando vejo as nossas figuras
Discutindo na praça sem muito saber
As politiquices do nosso sofrer,
Conforme o partido do nosso querer,
Lembro-me da fábula de Florian
«O burro e a flauta»
Que no seu tempo também existia,
Pois, se não, ele não se lembraria
De explorar com alegria
A temática, tão nossa irmã,
Da parvoiçada rezingona
Da nossa sabedoria
Soprada com galhardia
Pelo café da manhã:
 
«Os parvos são um povo numeroso
- Virtuoso -
Achando todas as coisas fáceis.
Devemos aceitar, isso torna-os felizes,
Motivo para se julgarem muito hábeis.
Um burro, roendo os seus cardos,
Olhava para um pastor que tocava, sob os ramos,
Numa flauta, cujos sons amáveis
Atraíam e encantavam os pastores do bosquezinho.
O burro descontente dizia: Este mundo está louco
Contentando-se com tão pouco!
Ei-los, de boca aberta,
Admirando um grande parvo que sua e se atormenta
Soprando num buraquinho,
É com tais esforços que se chega a agradar-lhes
Enquanto que eu… basta… saiamos daqui
Pois estou mesmo danado
Com tanta injustiça! Chiça!.
O nosso burro, razoando assim,
Avança uns passos, quando, por entre os fetos
Uma flauta, esquecida nestes lugares campestres
Por algum pastor amoroso
- Mas distraído -
Se encontra aos seus pés. O nosso burro ergue-se,
Os seus gordos olhos fixa na flauta,
Com uma orelha para a frente
Abaixa-se lentamente,
Aplica a narina sobre o pobre instrumento
E sopra esforçadamente.
Oh! acaso inacreditável! 
Sai de lá um som bem agradável.
O asno julga-se um talento,
E todo contente
Em voz estridente,
Exclama dando cambalhota incauta:
Ei! Eu também toco flauta!

Mas não são só as amigas
Que dizem coisas sabidas
Aprendidas nas notícias,
Pois os meios de comunicação
Mostram bando de doutores
Denunciando à exaustão
As doutrinas dos senhores,
Com erros até mais não,
A que todos, bem sabedores,
Dariam outra solução.
Não há paciência, não,
Para tanto sapateiro
A tocar rabecão
Ou mesmo barbeiro
A discutir da nação,
Com tanta insinuação
De melhor resolução!
Veremos se com tanta empáfia
Não vamos todos à viola,
E já nem sequer para Angola,
Como o macaco aldrabão,
E sempre atribulado,
Do rabo cortado.