sábado, 1 de maio de 2021

Era bom que fosse

 

Refiro-me ao título. Quem dera que estes – e muitos outros textos que apontam tantas graves mazelas nacionais, tivessem um efeito apelativo, que chamasse à ordem as cabeças tantas vezes ocas dos que continuam a dilapidar a nação, esta cada vez mais sem força de recuperação, nem sequer  com o auxílio alheio, mal usado, bem desbaratado, sem laivos de vergonha ...

Quem dera que houvesse alvorada, com toque bem estridente! O comentário de Carlos Traguelho sugere  alguma esperança???

 

PELO TOQUE DA ALVORADA - 12

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO 01.05.21

Queres carruagens de passageiros para comboios? Tens que as mandar vir de França. Queres wagons de mercadorias para a «CP»? Tens que os importar de Espanha. Queres gruas para os portos ou para a construção civil? Tens que as mandar vir de fora porque as de fabrico nacional já morreram… e assim foi que hoje decorreu a minha alvorada. Nítida, sim, mas em tom de Sol menor. Pensei que, se eu mandasse, estaria na hora de refazer a «Sorefame», a «Metalsines», a «Mague», … estaria na hora de dar a ordem à «CP» para repor em funcionamento as suas antigas oficinas no Entroncamento e no Barreiro, estaria na hora de arregaçar as mangas e de retirar as condecorações a quem promoveu o desinvestimento industrial em Portugal.

 

  COMENTÁRIOS

 

Participação activa


Do povo que mais ordena, segundo um certo estribilho. Alberto Gonçalves devia ser mais compreensivo com as pessoas que gostam de colaborar na marcha da virtude governamental.

 Um “covideiro” na fila do supermercado /premium

Em matéria de Covid as “autoridades” falharam vergonhosamente, na saúde, na economia, na justiça, na protecção dos velhos e doentes, no respeito que devem aos incautos cujos impostos os sustentam.

ALBERTO GONÇALVES,  Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 mai 2021

Estava na fila do supermercado quando notei que, à minha frente, um sujeito me olhava com particular atenção. Coloquei várias hipóteses. Era um admirador destas crónicas. Era um alvo destas crónicas. Era um amigo. Era um inimigo. Era uma tentativa de engate. De repente, ocorreu-me que o pormenor de ambos termos uma máscara a ocultar metade da tromba tornava as quatro primeiras hipóteses improváveis, e que a circunstância de eu ter companhia feminina tornava a quinta hipótese um bocadinho patética. Enfim, o sujeito falou: “Vocês não estão a cumprir a distância de segurança obrigatória”. Cito literalmente. Ele disse: “Vocês não estão a cumprir a distância de segurança obrigatória”.

Por um instante, seguro de que ninguém diria tamanha palermice, achei que se tratava mesmo de um conhecido, que me reconhecera apesar da máscara e decidira meter-se comigo. Na dúvida, e a sorrir por detrás do farrapo, eu disse: “Diga?” E ele, acreditem se quiserem, repetiu a frase, exactamente como da primeira vez. Só então percebi que o sujeito falava a sério. Notem que a criaturinha, a rondar os 30 anos, dispunha de espaço suficiente para dar um passo e garantir a mítica “distância de segurança obrigatória”. Em lugar disso, preferiu não sair do sítio, voltar-se para trás e, sob a máscara que protege do vírus mas não protege dos abismos da estupidez, ensaiar aquela exibição de zelo.

A pessoa que me acompanhava interrompeu-o secamente: “Pedimos desculpa”, e puxou-me para os domínios da “segurança obrigatória”. Eu, confesso sem orgulho, fiquei com vontade de demolir a segurança do sujeito com um bastão de basebol. Em alternativa, elevei a voz e acrescentei: “Desculpa, não: perdão. Mil perdões.” Entretanto, decerto satisfeito pela oportunidade de educar o semelhante, o sujeito já estava de costas. Durante dois ou três minutos, até pagar as vitualhas e sair dali, ouviu-me dizer o que penso sobre os infelizes que engolem as patranhas que o governo e os telejornais lhes enfiam pela goela abaixo. Não voltou a falar ou a olhar-me. No final, senti-me relativamente aliviado. Sobretudo, sentia-me surpreendido. Em parte, por confirmar que a idiotia dos outros não termina onde começa a nossa dignidade. E também por experimentar enfim o tipo de intolerância que, desde o início desta histeria colectiva, não testemunhara directamente.

Ao longo destes 14 meses, fui um privilegiado que apenas aturou à distância os maluquinhos da pandemia. Excepto por via da internet, nunca ninguém me maçou por não usar máscara na rua, não despejar gosma nas mãos à entrada das lojas, não conceder ao vírus a importância cabalística que o vírus claramente não possui. A certa altura, quase me convenci de que os famosos “covideiros” existiam unicamente nas “redes sociais” e nas “reportagens” televisivas, ou seja, que não existiam no mundo dos adultos. O mérito do sujeito do supermercado consistiu em provar-me que os “covideiros” são reais e andam à solta. É uma sensação extraordinária. E assustadora.

O episódio passou-se há dias, numa altura em que, ao contrário do que previam os “especialistas”, o “desconfinamento” gradual coincidiu com uma descida gradual dos infectados, dos internamentos e dos mortos por Covid. Exactamente o que sucedeu há um ano. E se Maio de 2020 não chegou, Abril de 2021 deveria chegar e sobrar para implodir o mito de que o vírus depende de pessoas livres para se propagar e precisa da clausura de lacaios para se combater. Não chegou nem sobrou. As “autoridades” continuam a decidir, e a ameaçar, e a proibir, e a multar fundamentadas nesse mito. Esta semana, as intervenções de Costa & Marcelo voltaram a ser duas violentas ofensas à inteligência alheia: os portugueses que se portaram bem merecem, por enquanto, um pedacito de liberdade; aos restantes, o castigo. Talvez por gozo íntimo, o prof. Marcelo repetiu a ladainha das “próximas semanas”, essenciais para “ganhar o Verão” ou lá o que é. Não há muitos romances distópicos com personagens tão arrogantes.

A explicação benigna, ou menos maligna, é que em matéria de Covid as “autoridades” falharam vergonhosamente, na saúde, na economia, na justiça, na protecção dos velhos e doentes, no respeito que devem aos incautos cujos impostos os sustentam. E, em larga medida, falharam porque sempre responderam ao problema com primitiva brutalidade, e a lamentável convicção de que a responsabilidade deles desaparece em relação directa à detenção da população: nós enfiamo-nos em casa e eles, invariavelmente em passeio, lavam as mãos, ou fingem encharcá-las em álcool-gel. É a natureza dessa gente, que não se distingue pelo currículo democrático. O que distingue os prepotentes é o seguinte: não admitem o erro – se é que, no contexto vigente, é erro e não projecto.

Já o que distingue a maioria das vítimas da prepotência é a submissão. Uma coisa é políticos pouco éticos ignorarem a evidência e, perante a falta de nexo entre a frequência de esplanadas e a evolução dos contágios, teimarem em lidar com a Covid à conta de prisões domiciliárias. Coisa diferente é a quantidade de cidadãos que, após tantas fraudes, se mantêm obedientes e entrincheirados nessa guerra à realidade. Hoje sei que o sujeito do supermercado é um mero exemplo da loucura que por aí vai: ainda há imensos sujeitos do supermercado, e fora dele. O que não sei é se enlouqueceram com medo da Covid ou se se fazem de malucos por amor ao poder que a Covid lhes dá. Em qualquer dos casos, o sítio é mal frequentado. Apetece ficar em casa.

NOTA: nem de propósito, estarei uma semana de férias. Regresso a 15 de Maio.

PANDEMIA   SAÚDE   CORONAVÍRUS   SAÚDE PÚBLICA  SAÚDE   CORONAVÍRUS 

COMENTÁRIOS:

Tristeza Pakivai: Se a ideia é simplesmente obter um número elevado de cliques, há outras teses igualmente chalupinhas e igualmente eficazes; já experimentou aquela de que os americanos na verdade nunca foram à Lua? Vai ver que vai ter aqui uns quantos aficionados. Claramente sobre este tema AG sofre de transtorno obsessivo compulsivo. É de tal maneira grave que já não tem pejo em usar episódios absolutamente ridículos para suportar a sua tese de que anda tudo doido sobre uma invenção chamada pandemia. Um banhinho no Ganges fazia-lhe tão bem. Tristeza...          João Gabriel Sacôto Martins Fernandes: IN OBSERVADOR (dia 30/04/2021):A única vítima mortal era uma mulher de 80 anos ou mais no Alentejo. E digo eu: E ninguém se interroga porquê no fim do mês de Abril (4 meses depois de ser iniciada a vacinação). Quantos lhe terão passado à frente e quantos, como ela não terão morrido por falta de vacinação na devida e possível altura? QUEM SÃO OS RESPONSÁVEIS? QUE É FEITO DA JUSTIÇA?ACORDA POVO!          Joaquim Moreira: Esta descrição de um "covideiro" na fila do supermercado, é mais uma excelente oportunidade para uma reflexão sobre a realidade. Sou dos que há muito tenta uma explicação para o que se passa nesta velha Nação. Desde logo, porque é que as sondagens continuam sem uma grande alteração? E neste exemplo do "covideiro" encontro uma boa explicação. Existem "covideiros" por tudo o que é lado, sempre dispostos a dar uma ajuda à polícia que não chega para o recado. Ou seja, este socialismo, criou, mais do que um Estado policial, criou um cidadão que mais parece um doente mental. Na verdade, pior que aceitar e cumprir tudo o que lhe mandam fazer, não são capazes de reflectir sobre tudo o que está a acontecer. E que, é uma boa prova de que vivemos numa sociedade de anestesiados, que permite com facilidade que muitos sejam enganados. E não satisfeitos por serem completamente aldrabados, ainda se dão a estes cuidados. Que é dizer aos que pensam pela sua própria cabeça que são os culpados. Da situação em que nos encontramos e que Alberto Gonçalves muito bem resumiu, no sumário que nesta excelente crónica introduziu          Adelino Lopes: Voltando aos gulags (fonte histórica interminável), nós temos conhecimento dos cadáveres que apodreciam à porta. Porquê? Porque os que mandavam acreditavam na “educação pelo medo”. Hoje vamos assistindo à sociedade cheia de medos (mérito absoluto do projecto dos prepotentes). Medo do vírus, medo dos outros, medo de sair de casa, medo da vacina, medo do futuro, medo disto e medo daquilo. “Dêem-nos qualquer coisa em que acreditar” disse em tempos (10 junho 2019) o João Miguel Tavares. Parece ironia, mas percebe-se porque enfureceu a esquerda que manda.          José Paulo C Castro: Seria interessante ter um estudo sobre a prevalência de Covid nos repórteres dos media durante a vaga deste inverno.  Como são uma das profissões que visivelmente estão isentos das regras do resto da população, seria uma boa medida da eficácia das medidas ou inutilidade das mesmas. Como exemplo sei que não serviram, via isso todos os dias.         Paulo Colla: Boas férias. Visite a India. Lá não o incomodam nas filas de supermercado.             Dr. Feelgood: Ti Alberto é porreiro, mas neste tema da virose falha em toda a linha. Acontece aos melhores. E aos melhores com sorte até agora. É que o que tenta fazer passar é que tudo isto se trata duma ilusão e duma paranóia colectiva... Só falta perguntar-lhe se vai de férias para Calcutá ou Bombaim. Porta-te bem, Alberto.           JB Dias: Eles andam por aí com as suas fitas métricas imaginárias, tão crentes hoje como ontem!           Daniel Pinto: O Alberto Gonçalves é o único que diz a VERDADE! E...sem medo das reacções patéticas que por aí grassam...Bem haja. Boas férias! 

Resta-nos ler e identificar


E recordar. Jaime Nogueira Pinto foi espécie de luz acompanhante que, por aquela altura de desacato, nos deu alento. E agora também.


As contas da História no dia da liberdade /premium

O Presidente da República deu-se com certeza conta da ofensiva de desconstrução da História e dos níveis de paranóia que atingiu.

JAIME NOGUEIRA PINTO  Colunista do Observador                  OBSERVADOR, 30 abr 2021

Marcelo Rebelo de Sousa, entendeu, este ano, falar da História e dos modos certos e incertos de olhar para ela, de a sentir, de a viver, de a criticar, de a adoptar ou rejeitar, de a assumir. Foi um discurso interessante pelo inabitual, um discurso cuidado na forma, denso na substância, com mensagens abertas e sibilinas.

O Presidente da República deu-se, com certeza, conta da ofensiva de desconstrução da História de Portugal e dos níveis de paranóia litigante que atingiu, em vozes que reflectem uma importação grátis e acrítica de temas, problemas e agendas da Esquerda Radical americana. Pensou nesses excessos e, com a inteligência e o sentido político que se lhe reconhecem, também nos excessos a que a paciência desfeita dos portugueses, normalmente resignados e alheados, pode conduzir. E veio apelar, justamente, para a introdução de realismo e senso comum nas várias “narrativas” em competição.

 Na História de Portugal do tempo do Estado Novo, as Navegações e Conquistas de Além-Mar tinham como causas essenciais, senão únicas, a Cruz e a Espada, a salvação das almas dos gentios ou a sua promoção e civilização e o alargamento do Império. Essa História não era só a do Estado Novo, era também a da Primeira República e até a da Monarquia Constitucional. Era assim, muito embora, no Estado Novo, um escol de historiadores da oposição – Jaime Cortesão, Vitorino de Magalhães Godinho, Luís de Albuquerque – escrevesse e publicasse alguns dos mais interessantes e importantes estudos sobre economia dos Descobrimentos.

E se os académicos do Estado Novo se dedicaram sobretudo a períodos mais remotos da História Nacional, deixaram para outros os tempos mais próximos, o século XIX. E sobre o século XIX, tínhamos já o Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins, um livro admirável, que teria merecido continuação, um livro de um grande realismo – e pessimismo – que traçava um retrato desencantado do liberalismo português e da classe política que o servia e dele se serviu.

Classe que não mudaria muito e que ainda está por aqui. Depois do Estado Novo e depois do regime instaurado pela revolução, que já dura há 47 anos, feitos e festejados em Abril, geralmente escamoteando todo um outro lado da História.

Os que na adolescência acreditámos e nos batemos por um certo Portugal, não podemos deixar de associar ao “dia da liberdade” e aos seus festejos a liberdade que, durante um ano e meio, nos foi negada; e de recordar as centenas de dirigentes e militantes dos partidos interditados no 28 de Setembro de 1974 e no 1 de Março de 1975 que foram presos ou que tiveram de emigrar. Ou os milhares de saneados do Estado e das empresas que, para sobreviver, tiveram também de sair do país. E, em África, as centenas de milhares que perderam tudo, os bens, a terra onde nasceram e cresceram, a identidade.

Mas tal não significa que não percebamos e até respeitemos muitos dos que estiveram contra nós e então venceram, aqui e em África. O que queremos, sim, e aí é que as contas da História ficarão equilibradas e certas, é que não prevaleçam sobre a verdade múltipla da História a mentira grosseira, a caricatura, a deformação, o cliché, com que, por táctica ou ignorância, os vencedores e a nova geração “activista” demonizam os que não se reconhecem na “História Antifascista” do século XX português que lhes querem contar.

A História dos factos, o acontecido, não muda. Mas apesar da crispação romântica à volta da ideia do Grande Gatsby de que o passado se pode reconstruir e repetir, sabemos que o passado está passado, e que não foi perfeito, e que não volta.  Tanto o passado mitificado do antigo regime, como o passado da “festa revolucionária” e da gloriosa mitologia de Desenvolvimento e da Igualdade que não aconteceram, e que antes se deterioraram, em termos comparativos, em relação à Europa.

A tradição revolucionária portuguesa

As modernas revoluções portuguesas, as posteriores a 1820 – porque, de certo modo, a revolta de Lisboa de 1383 também foi uma revolução e a Restauração de 1640 foi outraestiveram sempre dependentes de uma acção ou abstenção militar. Foram, à partida, movimentos de tropas, golpes de Estado ou revoltas pretorianas, secundados ou não pela população.

Outro aspecto importante da tradição revolucionária portuguesa tem que ver com as circunstâncias que levam à queda dos regimes. São os governos, as “situações”, que apodrecem e se degradam, mais que as oposições ou resistências que se tornam fortes e vencem. A revolução só chega, geralmente, como um golpe de misericórdia, uma eutanásia aplicada a um regime em crise de legitimidade ou popularidade.

Em 1820, depois das invasões francesas, com a Corte no Brasil e o rectângulo sob tutela dos Ingleses, o país – ou pelo menos o Porto e Lisboa, centros da economia e do poder – estavam fartos e queriam mudar. As ideias liberais estavam na moda entre a burguesia letrada, o exército e a aristocracia e davam alternativas de legitimidade. Os juristas e os interesses económicos do Porto mexeram a tropa. Ninguém se opôs e Lisboa seguiu o Norte. Em 1910, depois de D. Carlos ter sido assassinado em 1908 e João Franco afastado como bode expiatório do desastre que procurara parar, a Coroa ficou à mercê de um partido republicano que ganhara popularidade porque a monarquia não defendia as colónias. As poucas centenas de revolucionários da Rotunda e a artilharia dos navios de guerra revoltados fizeram o resto.

No 28 de Maio, também os conjurados, capitães e tenentes de Braga, com um general como “o chefe que os seguia”, tiveram a adesão de um país, da direita à esquerda, farto dos “Democráticos”. No 25 de Abril, o Estado Novo, sem o seu criador, artífice e protagonista, estava também em crise. O golpe militar triunfou, como a Revolução Liberal, o 5 de Outubro e o 28 de Maio tinham triunfado: perante a ausência de qualquer resistência (ou, em Abril, perante uma resistência que o próprio chefe do Governo desarticulou).

As resistências vieram sempre depois: em 1820 foi a reacção miguelista e a guerra civil de 1828 até 1834; em 1910, foram as Incursões de Couceiro e a permanente instabilidade; no 28 de Maio, foi o 7 de Fevereiro do ano seguinte e uma série de levantamentos até ao Verão de 1936. No 25 de Abril, foi o Verão Quente de 75 e o 25 de Novembro, que veio reequilibrar forças, mas que não teve aproveitamento político. E as Forças Populares que viriam depois tentar aprofundar o PREC pela violência armada seriam amnistiadas pelo regime, porque, afinal, apesar das bombas e das mortes, era um capitão de Abril e um certo espírito de Abril que estavam em causa. (veja-se o livro recente de Nuno Gonçalo Poças, Presos por um fio: Portugal e as FP25)

A Corte no Brasil, em 1820, o Ultimato inglês, em 1910, a disfuncionalidade geral do regime, em 1926, a guerra de África, em 1974, foram o elefante na sala; um elefante que estava bem à vista e que, ao mexer-se, partiu o que aparentemente estava intacto e que os poderes estabelecidos se esforçavam por mostrar que assim permanecia. Mas, na verdade, quando as coisas aconteceram já não havia muito a fazer.

Foi assim com o 25 de Abril: um golpe de misericórdia num regime que, havia muito tempo, deixara de ter resposta de legitimidade, além da Guerra de África. Agora, por ocasião do 47º aniversário da Terceira República, voltámos às hipérboles celebrativas, por dever de ofício e pela nostalgia que a avançada idade desta Terceira República e dos antigos revolucionários já explica. Houve ainda quem falasse na “magia de Abril”, mas os festejos lembraram mais o coro de um lar de idosos, a desafinar um “Grândola” de outros tempos.

Nas origens da revolução de Abril

E com “a magia de Abril” toldam-se duas realidades essenciais para o entendimento do acontecido: a fragilidade do anterior regime e as origens corporativas da revolução.

O exotismo institucional do regime, numa Europa ocidental de democracias pluralistas, como a Bélgica, a Espanha, a França, a Grã-Bretanha, ex-países colonizadores, consumou-se a partir do fracasso do “putsch” dos generais em Argel, em Abril de 1961, que deixou Portugal isolado na defesa do Império.

Curiosamente, a Guerra de África, começada em Angola em 1961 – e que determinaria o descontentamento pretoriano que levaria o Regime ao fim – dera um sopro de vida ao Estado Novo. Nesse Março de 1961, os ataques da UPA, no Norte de Angola, tinham acordado um sentimento patriótico há muito adormecido em Portugal. Esse sentimento foi transversal à velha oposição republicana que, guardando distâncias ideológicas, apareceu a manifestar-se patrioticamente com Salazar pela “defesa do Ultramar”. E, digo-o por experiência própria, foi também a partir desse sentimento de “pátria em perigo” que se fez a renovação na Direita, entre os jovens dos liceus e das universidades. Porque não éramos especialmente simpatizantes de ditaduras ou regimes autoritários; o que nos trouxe para a direita nacional foi precisamente a defesa de um Portugal de que o Ultramar fazia parte integrante, com os mais velhos de nós a irem para África nesse princípio da guerra, e outros mais tarde.

Salazar tinha despolitizado o regime e os seus partidários. Tinha, ele mesmo, uma formação política com pouco que ver com o fascismo, um movimento nacional-revolucionário, de partido único, voluntarista, nietzschiano no pensamento e na acção. Ao contrário, Salazar era um contra-revolucionário, um nacional-conservador com um ideário que misturava a tradição dos Papas Sociais com o empirismo organizador de Maurras.

Com inteligência política, sem medo e com a astúcia (ou a manha) necessárias, Salazar ligava pouco a ideologias, e nunca lhe passaria pela cabeça ter um partido único (característica essencial do fascismo) que tivesse de comandar e a que tivesse de dar contas. Aceitou e praticou algum folclore “afascistado” durante a Guerra Civil de Espanha, em que tinha fascistas como aliados objectivos. Mas usava um fato de três peças e nunca se sentiria à vontade de camisa verde, negra ou azul. E muito menos de bota alta.

O seu governo era formado por gente competente, tecnicamente capaz, honesta, mas pouco política. A política era só com ele. E criou um regime feito à sua medida, feito por ele e para ele, e que, por isso, ficaria armadilhado quando ele desaparecesse.

Foi o que aconteceu. Se não houvesse Império, Marcelo Caetano podia ter feito uma transição democrática, semelhante à espanhola. Ou ainda mais fácil. Mas a Guerra e o exotismo do regime não lhe permitiram ir além de uma abertura que durou até aos princípios de 1970. Depois, foi a tentativa do “salazarismo sem Salazar”, que não podia deixar de fracassar, fragmentando a base social de apoio; inclusive, os muitos que apoiavam o regime só pela defesa do Império.

Mas o que levaria “à conspiração dos capitães” – o cansaço das contínuas comissões nas guerras africanas – seria o Decreto 353/73, de Julho de 1973, do Ministro da Defesa, general Sá Viana Rebelo, criando o Quadro Especial de Oficiais (QEO). Por este diploma, os oficiais milicianos com experiência de guerra entravam para a Academia Militar e, fazendo uma espécie de curso rápido, ingressavam no dito QEO. Mas tal feria as “antiguidades” e alguns dos camaradas com cursos regulares da Academia Militar sentiram-se ultrapassados por esta espécie de “via verde” para neófitos. Foi este – e não a restauração da democracia e da liberdade – o ponto de partida das reuniões do que depois seria o MFA, como consta da exposição ao Presidente da República e ao Governo dos 51 oficiais do quadro permanente, dos quais 45 capitães, a prestar serviço na Guiné. Entre os signatários estavam nomes sonantes do futuro MFA, como Manuel Monge, Salgueiro Maia, Otelo Saraiva de Carvalho, Matos Gomes, Duran Clemente. E, no início, haveria ali, politicamente, de tudo – direita, esquerda, centro.

Os generais estavam, já então, divididos entre António de Spínola, Kaúlza de Arriaga e Costa Gomes. Silvino Silvério Marques, um general patriota e com o sentido dos problemas no terreno, tentou juntar essas pontas num entendimento entre Spínola e Kaúlza. Mas não teve sucesso. E o livro de Spínola, fazendo uma “guineização” de todo o Ultramar e da guerra, foi acolhido como uma bíblia salvadora por quem queria iludir-se. A partir do momento em que o trunfo passou a ser “capitães”, a esquerda, a oposição ou o que fosse, foi rápida ou mais hábil a ir a jogo com eles.

No fim das contas

Marcelo Rebelo de Sousa, neste 47º aniversário do 25 de Abril, tentou pôr-se na pele das várias tribos ideológicas que, legitimamente, sempre disputaram o sentido da História, mas que agora parecem fazê-lo em modo de sectária guerra ideológica e sem um mínimo de conhecimento, de preocupação factual, de contextualização, de consciência crítica, de rigor.

A História tem sempre um “outro lado” e haverá sempre versões concorrentes. Mas se todos os regimes, autoritários ou democráticos, escolhem, de algum modo, a sua, convém que a deste deixe de ser a amálgama ideológica confusa, a delapidação e caricatura ignorantes e maniqueístas do passado, a versão sectária que impossibilita um futuro onde possamos todos caber, sem espírito – e risco – de guerra civil.

A SEXTA COLUNA   CRÓNICA   OBSERVADOR   25 DE ABRIL   PAÍS   MARCELO REBELO DE SOUSA   PRESIDENTE DA REPÚBLICA   POLÍTICA   ESTADO NOVO   HISTÓRIA   CULTURA

COMENTÁRIOS:

Antonio Castanheira: 👏👏👏👏👏 E MRS também se apercebeu, ó como se apercebeu, da construção mitificada da História que abunda neste país...            Francisco Tavares de Almeida: Excelente como cronista e como historiador. Apreciei sobremaneira como, apontando os méritos do discurso de Marcelo, se absteve de uma apreciação global. em 27/4, de que não dou a ligação para evitar o algoritmo mas de que não resisto a transcrever: Falando por mim, que combati na Guiné e me senti profundamente injustiçado ao ser considerado quase um criminoso político depois de 1974 e, pelo menos, até à pensão de 150 euros anuais atribuída por acção de Paulo Portas, encontrei a minha migalha de reconhecimento no discurso de MRS, mas sem esquecer que foi um discurso e apenas agora. Mais incisivo, José Meireles Graça, fez uma apreciação muito crítica ao discurso publicada no Observador: "Está tudo isto, e tudo isto com brilho. O que não está é a quartelada que o 25 de Abril foi, a sua captura por quem tinha a estratégia, e os conhecimentos, que aos capitães faltavam, o falhanço do escopo desenvolvimentista, o futuro penhorado pela dívida, a alienação do módico de independência que uma pequena nação pode ter e a captura do aparelho de Estado por uma casta que comprou, com dinheiro alheio, votantes  cativos."         Paulo Guerra: : Espero muito sinceramente que o JNP tenha conseguido endireitar o retrato do Botas no 25 de Abril. Porque quadros tortos na parede até para acumular pó são lixados. Cupid Stunt: Bravo!      José Leandro: Numa só palavra: Obrigado!        Manuel Magalhães: Como sempre muito educativo e clarificador. Abraço Jaime!       Manuel Lourenço: Muito obrigado JNP. Velhos a cantarem a Grândola, pior só mesmo a Cristas a cantá-la há uns anos. A génese do 25A foi a inveja, dos oficiais do quadro em relação aos milicianos, mas a inveja é um dos motores do mundo outro dos motores é a ganância. Rolando Lima: Excelente como é hábito.           advoga diabo: O melhor elogio que se pode fazer ao consensual discurso de MRS, é a arte de deixar migalhas até para aves raras como este senhor!           Elvis Wayne > advoga diabo: Por falar em aves, olha que lindo papagaio arraçado de avestruz me saíste! Manuel Barradas: JNP é um dos melhores e mais interessantes cronistas de toda a imprensa portuguesa. Carlos Quartel: A história estuda-se, analisa-se. mas não se reescreve, excepto se quisermos entrar pela manipulação e pela mentira. Os estaleiros de Liverpool, com os melhores engenheiros navais a desenharem navios para transportas escravos, com cálculos ao milímetro, com previsões de mortos e mesmo do peso estimado de cada escravo, parece-nos, hoje, obra do Mafarrico. No entanto, duzentos anos atrás, era o máximo em tecnologia, era o Sylicon Valley, era indústria de ponta. Temos várias figuras históricas, de dimensão universal, que devemos admirar, porque terão que ser analisadas no contexto  da época. Quem tem um Afonso de Albuquerque, que perante os ataques dos mamelucos, propôs ao rei o desvio do Nilo  e consequente seca e desaparecimento do Egipto ??? Nunca lhe faltou grandeza !!!!!        bento guerra: Marcelo respondeu ao Mamadou, uma festa da Liberdade, para os seus apoiantes.     josé maria: Jaime Nogueira Pinto, se fosse um historiador intelectualmente honesto, deveria reconhecer que não há História politicamente neutra e anódina, toda ela é uma construção subjectivista, feita a partir da insuperável, inevitável e controversa interpretação de cada historiador. Curiosamente, aqueles que tanto se dizem defensores do anti politicamente correcto, quando se trata de pôr em causa a visão laudatória, na qual vão fundamentar o seu historicismo tradicionalista, já não gostam que se evoque uma visão alternativa e politicamente inconveniente...          José Paulo C Castro > josé maria: Tudo é subjectivo se ignorarmos os documentos e criarmos narrativas para o contexto deles. Mas ainda pior que subjectivo é interpretar a história de há séculos com o contexto de hoje. Não apenas subjectivo: é fraude. É o que andam a fazer.    josé maria > José Paulo C Castro: Treta. O que alguns têm andado a fazer é exactamente interpretar a História, como dá jeito a JNP e seus apaniguados. Não há nem nunca houve História interpretada a partir de outro contexto ético e político, que não fosse o do momento presente. Postular que existe uma História absolutizada, unívoca, inequívoca e intemporal, des-subjectivada dos diversos momentos temporais, e perspectivas políticas diversificadas, em que vem sendo formulada, isso, sim, é que é uma tremenda impostura, que dá muito jeito ao JNP e seus apaniguados. Os documentos não falam, falam por eles a interpretação que, sobre os mesmos é feita, a partir da perspectiva, inevitavelmente política, que os analisa. História, politicamente neutra, é uma aberração.          José Paulo C Castro > josé maria: Do momento presente da interpretação. Não do momento presente actual, que é o que vêm fazendo agora. Como querem reinterpretar melhor do que os cronistas da época? É ter lata, essa relativização total do contexto...           josé maria > José Paulo C Castro: A sua lata é que ficou um bocadinho mais destacada.... É preciso, sim, um grande topete para se querer apresentar uma visão unívoca e absolutizada da História, que corresponda à visão, mais ou menos salazarista, dos seus defensores, como aquela que, durante longos anos, foi defendida, como mero elemento de propaganda ideológica, pelos jaimes nogueiras pintos e afins...            Elvis Wayne > José Paulo C Castro: Não dialogue com o troll de sentinela. Para bem desta caixa de comentários.        tomás josé maria: A conversa da impossibilidade da neutralidade em ciência é geralmente instrumentalizada para que activistas políticos possam fazer da disciplina em que se especializaram uma ferramenta de activismo político. Pergunto-me o que estará a tentar fazer.         Manuel Faria: Gostei de ler a verdade, tão esquecida, sobre a génese do movimento dos capitães, mas, como é evidente, também faz parte da reescrita da história esquecer, ou varrer para debaixo do tapete, a realidade e criar uma alternativa menos mesquinha, mais do agrado das esquerdas e dos idiotas úteis defensores do politicamente correcto.          Cruzeiro O Verdadeiro > Manuel Faria: Olha um pulhiticamente incorrecto. Que cultura.            António Lamas: Marcelo falou a tempo?  Espero que sim, senão as almas mentecaptas dos Ascensos Simões continuariam a pairar em cima da história, até não focar pedra sobre pedra da história do país até ao 25.4.74          Maria Nunes: Excelente como sempre. Obrigada.               VICTORIA ARRENEGA: Crónica belissima como sempre. A talhe de foice e a propósito de desafinar: Pede-se ao Presidente da República que da próxima vez que for «assassinar» a Grândola Vila Morena para a janela, o faça sem as câmaras televisivas por perto ou então antes de iniciar o recital ensaie muito, mas mesmo muito. Não veio mal ao mundo com a cantoria mas não é dos melhores momentos do Presidente.          José Sequeira: Mais uma vez obrigado JNP.