segunda-feira, 14 de setembro de 2026

REVISÂO DE CONCEITOS


Porquê EX (A BEM DA NAÇÂO)?

Não nos assuste, Dr. Salles. (Embora a revisão seja um prazer)...

 

Ex-"A bem da Nação"

PENSANDO DEVAGAR - 1

setembro 09, 2026

Karl Marx lá teve as suas razões para diabolizar o lucro, nomeadamente a acumulação do capital e a apropriação patronal das mais-valias do trabalho proletário.

 Mas… (e lá vem o tal «mas» que estraga todas as generalizações), é do lucro que se gera a poupança e é desta que saem o entesouramento e o investimento sendo que é deste último que saem as reparações, a manutenção e a inovação.

Fechada a torneira do lucro, desaparecem as reparações, a manutenção e a inovação, sendo esta última a grande geradora do desenvolvimento. Assim foi que, na queda da «cortina de ferro», o segundo mundo, o do socialismo dogmático e autocrático, revelou indústrias que eram verdadeiros montes de sucata.

Eis por que, após décadas de superação das críticas marxistas pela criação de políticas fiscais e de protecção social, no mundo livre ocidental, não se compreende como pessoas inteligentes e economicamente cultas insistem no dogma marxista.

Setembro de 2026

Henrique Salles da Fonseca

Comentários

Henrique Salles da Fonseca 9 de setembro de 2026 às 14:55

M/ Caro Dr. Salles da Fonseca,

Estes meus três últimos escritos sobre "produtividade" tentam dar resposta à sua pergunta - e aos equívocos que o ti Carlos lançou no pensamento económico.

Abraço

António Palhinha Machado

Responder

Anónimo 9 de setembro de 2026 às 15:33

Caro Dr. Henriques Salles da Fonseca,

"No mundo livre ocidental não se compreende como pessoas inteligentes e economicamente cultas insistem no dogma marxista" e no mundo onde vivem os marxistas, socialistas, democratas de várias matizes, não compreendem como nos países capitalistas, um em particular, com lucros a abarrotar os bolsos, legiões de operários não têm abrigo digno, serviços médicos, etc. É a Biblica Babel onde todos falam, mas ninguém se entende - de um lado é a Vaidade, de quem tudo sabe, do outro, é que aprendemos à perfeição os algoritmos de filtragem do que nos interessa. De um extremo ao outro. Somos os Alienados da HUMANIDADE!

Responder

Anónimo, 9 de setembro de 2026 às 17:26

Muito bom como sempre Henrique. Grande Abraço

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ABRINDO A PORTA...

fevereiro 02, 2026

Ao estilo de Declaração de Princípios, esta é a casa do       humanismo no sentido inequívoco do antropocentrismo em que o Estado serve o cidadão, por ultrapassagem do teocentrismo medieval e em oposição a todos os sistemas que obriguem a pessoa servir o Estado      da Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU 1948) e contra tudo que a contrarie;      … da sistemática busca da harmonização de interesses nem sempre concomitantes, por oposição a perturbadora luta de classes;      … da liberdade de pensamento e respectiva expressão;      do pluripartidarismo que, abrindo alternativas de doutrina e estratégia, permite ao eleitorado (o verdadeiro «dono» do poder) a opção perene ou flutuante entre doutrinas e circunstâncias;      da definição doutrinária do bem-comum, na esperança vinculada de que propostas disruptivas da harmonia e da liberdade como conceitos unicitário chumbem nas urnas…

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SOMOS POUCOS

março 09, 2026

 A área urbana de Londres tem cerca de 9,2 milhões de residentes; na região de Paris moram 11,2 milhões e Berlim alberga cerca de 6,4 milhões. Comparando com os nossos 10,75 milhões a nível nacional, resta a conclusão que somos poucos. Mas, para além de sermos poucos em termos absolutos, somos ainda menos quando «contamos as espingardas» fiéis aos Valores da Europa Ocidental. Ou seja, no actual litígio contra o imperialismo russo, não podemos correr o risco de deixarmos que as nossas Forças Armadas e de Segurança sejam minadas por russófilos ou seus amigos. Eis a cautela que desaconselha a obrigatoriedade do Serviço Militar: nem todos merecem a honra de servir nas Forças Armadas. Não esbanjemos recursos com «tropa fandanga» cujo amadorismo só prejudica a eficácia dos profissionais. Centremo-nos em pequenas Unidades de grande operacionalidade e deixemos as maciças acções de «botas no terreno» para aliados mais populosos que nós. E assim me refiro às forças terrestres...

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DO BEM-COMUM

fevereiro 04, 2026

O conceito de bem-comum tem tudo a ver com harmonia social, com solidariedade e com o Estado de Direito. Com respeito pelas minorias, o bem-comum assenta na vontade da maioria. O bem-comum é antónimo de luta de classes, de privilégios classistas e de revolução. Dá para crer que os movimentos disruptivos nascem e medram a partir da desconfiança sob a profusão de compadrios, mas também podem resultar da inveja. Contudo, seja qual for a causa e seja qual for a consequência, tudo isso é contrário ao bem-comum. O Ocidente tem que ser transparente e, portanto, defensor do seu homónimo, o bem-comum. Mas… … se o secretismo referendário é o garante da transparência eleitoral, já na gestão corrente da «coisa» pública a transparência é garantida pela difusão da informação assim impedindo ilegitimidades e compadrio. No cenário actual, o Ocidente é a Europa e pouco mais. O Ocidente, sede do bem-comum democrático, já é só quase a Europa. A ver se asseguramos pelas pontas…e nó...

Com tecnologia do Blogger

domingo, 13 de setembro de 2026

Talvez


Exista demasiada arrogância em relação a nós – ou sentimento de inferioridade envergonhada em relação aos povos estrangeiros – neste nosso tão arreigado sentido crítico interno que por vezes apaga a visão do quanto de bom por cá se fez e se faz. Para já, julgo que o amor pelo nosso rectangulozinho é bem real.  Talvez por isso, sejamos mais críticos em relação a nós próprios, que nem sempre correspondemos em qualidade de actuação. Mas assusta de facto, esta realidade da dependência relativamente à aparelhagem sonora e visual que nos facilita o saber ligeiro, impedindo-nos da leitura mais pausada e reflexiva.

É a estupidez, estúpido

Não sei se a inteligência artificial destruirá a humanidade, conforme alguns prometem. Mas é evidente que a estupidez natural está bastante empenhada nisso.

ALBERTO GONÇALVES,  Colunista do Observador

OBSERVADOR, 12 set. 2026, 00:24

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No Verão de 2008, a revista “Atlantic” trazia para a capa o título de um artigo: “O Google Está a Tornar-nos Estúpidos?” Para evitar suspenses desnecessários, a resposta é “sim”. Quanto ao artigo, escrito pelo jornalista Nicholas Carr, tinha como subtítulo “O que a Internet Faz aos Nossos Cérebros” e usava o Google enquanto símbolo genérico da chamada “era digital”. As conclusões, que aqui resumo imenso para que não escapem sequer aos viciados no TikTok, previam que o uso constante da Internet provocaria alterações neurológicas, com consequências drásticas nas capacidades de atenção e concentração. Ou seja, às cabecinhas crescentemente dependentes da pesquisa rápida e dos saltinhos entre páginas “web”, cada vez seria mais difícil ler textos longos e, Deus as livre, interpretá-los.

Grosso modo, Carr acertou em cheio, e fê-lo antes da omnipresença do “online” e da disseminação do “smartphone” e do advento das “redes sociais” e do tempo em que uma “storie”, uma fotografia vertical acompanhada de sanfona e frase tonta, constitui o exacto oposto de uma história. Em 2008, ainda não havia casais mudos à mesa do restaurante, entretidos a contemplar as maravilhas embutidas nas entranhas do iPhone. Ou criancinhas, frequentemente com 50 anos, com inquestionável talento para, horas a fio, deslizarem o polegar no ecrã cerca de 0,6 segundos após o início de um vídeo de 3. Ou os portentos do convívio social, avessos a conversas arcaicas mas que são a alma da festa nos 86 “grupos” do WhatsApp onde trocam centenas de mensagens por minuto. Se possível, e é possível, muitos usam umas rolhas enfiadas nas orelhas para ouvir nem ouso imaginar o quê e, sobretudo, evitar que a realidade lhes perturbe a rotina. Confirma-se: a Internet tornou-nos estúpidos.

Há indicadores discutivelmente fiáveis que provam o inexorável avanço da estupidez. Um deles são os testes de QI, cujas pontuações aumentaram durante um século e que nas últimas duas ou três décadas desataram a afocinhar, principalmente nos insignificantes sectores do raciocínio e da abstracção. Outro é o PISA, o estudo comparativo promovido pela OCDE aos alunos de 15 anos e que sai de 3 em 3. Há dias saiu um, e os resultados imitam a torre que não lhe deu o nome. Nos critérios avaliados (leitura, matemática e ciências), o tombo é brutal e, à semelhança dos testes de QI, principalmente brutal na Europa, menos brutal nos EUA e nada brutal na Ásia Oriental. E, preparem-se porque por esta não esperavam, em leitura e matemática Portugal tombou mais que o resto.

Dado que somos um país especializado em escalpelizar as desgraças a posteriori, a fim de parecermos preparados para a desgraça que fatalmente se seguirá, meio mundo lançou causas sortidas para justificar a vergonha do PISA caseiro. São os imigrantes. Foi a Covid. É o PS. É a fuga dos professores. É a invasão das “aprendizagens essenciais”. Quase todos acertaram um bocadinho, quase todos falharam uns bons bocados.

É verdade que a imigração recente influencia negativamente as notas do PISA, embora, a julgar pelos dados disponíveis, o respectivo peso seja ligeiro face à queda total. E é verdade que a Covid, ou a alucinada decisão de fechar os petizes em casa a pretexto de uma doença que estatisticamente não os afectava, ajudou à derrocada: em geral os países – e os estados dos EUA - que menos prolongaram a loucura das escolas fechadas - menos caíram no PISA, ou não caíram de todo. Sucede que a Covid não explica uma tendência que remonta a 2012 e 2015 e desde aí prossegue sem parança. O que talvez explique são as gerações amamentadas a telemóvel e restantes pechisbeques digitais, e a maneira como os sistemas de ensino das diferentes geografias resistiram, ou cederam, aos pechisbeques.                  

Para continuar no exemplo português, aqui o ensino não se limitou a tolerar a moderníssima “digitalização”: a partir de 2015, o ministério, em sábias mãos socialistas, decidiu que não bastava às criancinhas passarem dois terços da vida a fitar ecrãs e despejou ecrãs no terço que faltava. De repente, mesmo que com origem num “relativismo” velho, os “conhecimentos tradicionais”, leia-se “o conhecimento”, foram desprezados em prol de “novas valências”, leia-se “ideologia e lero-lero”, regadas com baldes generosos de “informática”, que é o “futuro” (não sabiam?). Em vez de elevar os alunos à escola, afinal a única utilidade da dita, a escola desceu aos alunos, já de si, excepções sempre à parte, incapazes de uma vaga noção sobre se Pitágoras era um filósofo e matemático ou a cidade natal de uma senhora chamada Teorema. Ou sobre se Salazar governou: a) No século XX; b) No século XII; c) No século que vi num short “bué” cringe e agora não me lembro; d) O que é salazar? Sob o PS, a escola abdicou dos derradeiros resíduos de exigência e adaptou-se com entusiasmo à estupidez.

Simplificando, que a época não está para complexidades, suspeito que é por aí que espreitam as diferenças nos resultados do PISA em Portugal e na OCDE inteira, na forma como certas escolas de certos e raros lugares teimaram em continuar a ensinar e a vasta maioria das demais optaram por se transformar em espaços de ATL, curvadas ante as vistosas luzinhas do “progresso” e o mínimo denominador comum. Pelo meio, haverá incontáveis variações, e a prazo nenhuma deverá escapar à escolha entre a “inclusão” [sic] e o rigor. Ou a escola tenta salvar todos e acaba a não salvar ninguém, incluindo a si própria, ou a escola ignora o processo de ignorância em curso, resgata os que são resgatáveis e, “elitista” e caluniada e parcial, sobrevive.

Um epílogo. O PISA também pede aos meninos e às meninas que falem de emoções e sentimentos. Aqui Portugal está em grande por comparação com a média europeia: os nossos alunos não sofrem tanto “bullying”, sentem segurança acrescida, fazem amigos sem problema e são solidários. Há quem aplauda o facto de a escola ser “mais humana e acolhedora”. Não sei se a inteligência artificial destruirá a humanidade, conforme alguns prometem. Mas é evidente que a estupidez natural está bastante empenhada nisso.

Receba um alerta sempre que Alberto Gonçalves publique um novo artigo.

PISA       Educação

COMENTÁRIOS (de 9)

Maria Tubucci

Muito bem, Sr. AG. Faço minhas as palavras de outro Alberto, o Einstein:  “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.” E ainda não havia telemóveis, mas já havia socialismo…

Jorge Espinha

Eu uso as rolhas nos ouvidos para ouvir, entre outras coisas, a si. Acho que 8 anos de política de educação do PS explicam os resultados de PISA. Tudo o que de bom foi deixado por Crato foi destruído. Tendo em conta que o Português é dos povos que apresenta maiores dificuldades com a língua portuguesa, duvido que a imigração tenha feito qualquer mossa. Aposto que em breve os melhores alunos, pelo menos na escola pública, serão chineses, indianos e nepaleses.

António Alves

A estupidez e a ignorância é bem anterior ao aparecimento dos telemóveis pois estas crianças são vítimas dos estúpidos que as antecederam. Não foram as actuais crianças que votaram anos a fio nos estúpidos que nos roubaram e destruíram as escolas.

sábado, 12 de setembro de 2026

CONTINUAÇÃO

 

Do TEXTO   de NUNO LEBREIRO “SUDOESTE”

(in “COINCIDÊNCIA”)

Sempre a três pratos, capaz de variar o menu por completo durante mais de três semanas, começando pelas saladas com os produtos da horta, depois com grelhados, assados e estufados de carne e peixe combinando com acompanhamentos variados, culminando sempre naquilo que as crianças inevitavelmente mais aplaudem — a sobremesa —, tudo era gabado pelos comensais. Assim de memória, relembro como imbatíveis o cabrito assado, que ainda hoje é a minha referência quando a cozinhá-lo, o Gratin Dauphinois que me enchia as medidas, sempre gulosas, e as peras bêbedas, iguaria que quando aparecia me levava sempre a ver se conseguia espremer os últimos traços de molho para o meu prato. De todas estas impressões não tenho eu a versão fotográfica, mas guardo bem presentes, no coração, as memórias dessas noites passadas no Verdemar — e mal imaginava o quanto dos verões da minha infância e adolescência se iria passar naquela alegre, quase perpétua, rotina. Parte de mim, creio, ainda lá está.

Em boa verdade, não sei como surgiu a ideia. No entanto, no Verão de 90, tinha eu doze anos, fui passar o mês inteiro de Agosto ao turismo rural do meu irmão. A razão da estadia foi a que decorreu de uma negociação familiar que me escapou, mas na qual se decidiu a minha promoção de convidado esporádico a ajudante de última categoria do Verdemar. Digo de última categoria porque abaixo de mim só mesmo as ovelhas e os cães, e esses, pelo menos da minha perspectiva, não contavam para a ordem hierárquica da situação, coisa que o facto de me sentar à mesa com todos os outros para jantar, privilégio não conferido aos elementos irracionais da comunidade, confirmava.

Na minha nova função, apanhava coisas da horta, varria a esplanada, actividade que detestava e evitava sob pretextos variados, bem como ajudava a pôr e a levantar a mesa ou, ainda, a lavar a loiça, aqui normalmente na função de secador. Também era o principal responsável por, sempre que necessário, ir buscar isto ou aquilo, ou seja, tornando-me numa espécie de auxiliar, um pouco mais útil que um alicate e, imagino, certamente acima de um comando televisivo humano, uma das poucas responsabilidades que já conhecia pois que, tal como toda a geração de 70, antes dos comandos electrónicos aparecerem, ao serão, e no meu caso a mando normalmente do meu Pai, era eu o responsável por levantar-me da mesa e ir rodar o botão para que se pudesse ver o que estava a começar a dar no “outro canal”, momento de mudança na programação que se apanhava por uns sinais ‘+’ anunciados no canto superior direito do televisor. De qualquer forma, a minha utilidade no Verdemar, mesmo que reduzida e, por vezes, recalcitrante, imagino-a comprovada histórica e empiricamente pelo facto de o convite se ter repetido no ano seguinte.

Aliás, ao longo dos anos a tradição da minha estadia alentejana manteve-se e, não obstante permanecer no final da hierarquia do estabelecimento, as minhas responsabilidades até foram aumentando. Passei a tratar, por exemplo, de dar de comer aos bichos, tarefa realizada normalmente com sucesso, excepção seja dada a um determinado dia em que não tranquei a cerca devidamente e o raio das ovelhas fugiram todas para parte incerta, motivando horas de busca e captura por parte de toda a gente. Esse não foi um bom dia. Fui, também, incorporado no sector que se dedicava a renovar certas construções na quinta. Lavei telhas velhas, carreguei carrinhos e carrinhos de cimento, areia e tijolos, aprendi, inclusive, a fazer massa com uma enxada e, sob o sol quente de Verão, a suar, foi precisamente no meio dos dois vizinhos que compunham o grupo de ajudantes que me senti, creio que pela primeira vez, verdadeiramente útil.

Poucas coisas farão um ser humano orientar-se num mundo que não lhe liga grande coisa como ajudar a fazer uma casa. Hoje, que já fiz várias, sei do que falo. Na altura, claro está, não imaginava tal coisa, sentia-me apenas feliz, e importante, por poder estar com gente crescida, ajudar e aprender, bem como, pormenor muito importante, partilhar os momentos de descanso em que eles, os adultos, paravam para beber uma cerveja e eu, para não ficar atrás, imitando-lhes os jeitos, emborcava garrafas de Sumol pelo gargalo, umas vezes de laranja, outras de ananás. O resultado, não duvido, valeu as penas e os sacrifícios. Ainda lá está a pleno uso pelos “clientes” — um conceito abstracto no linguarajar da casa que implicava muita responsabilidade — uma casa em que as telhas, originais, foram lavadas, esfregadas, raspadas por mim, o reboco tosco das paredes, foi também, em parte, fruto do meu labor, e tudo fruto do transporte dos pesadíssimos sacos de cimento que, à torreira do sol, carreguei, um a um, a bufar, desde a entrada da quinta, num velhinho carro de mão.

O meu Alentejo é por isso, como dizia no início, tão meu como o meu braço direito. Não porque a província me pertença, ou seja mais minha do que de quaisquer outros, mas porque tantas das memórias que fazem da pessoa que fui ontem aquele que sou hoje estão misturadas com um conceito mental, meu, que, para mim, é o Alentejo, no meu caso particular, o Sudoeste alentejano. É, nessa medida, nesse espaço abstracto onde residem os conceitos que organizam os sentidos e oferecem os significados das nossas histórias de vida particulares, meu, e apenas meu, tão apenas meu quanto as minhas memórias, mesmo aquelas que, espalhadas no tempo e partilhadas por tanta gente, não deixam ainda de serem memórias minhas e de mais ninguém.

No final, foi assim mesmo que o meu Alentejo me nasceu: em família, em paz e infantil felicidade, em sucessivos verões passados no Verdemar, sempre acampado lá fora, no jardim, atrás de um muro, para não estorvar os quartos destinados aos clientes, mas com direito a uma extensão, sempre a mesma, que me permitia usar um pequeno candeeiro e ligar um rádio. Era assim que, à noite, já depois de todos se terem recolhido, após lidos dois ou três capítulos de um livro policial, ouvia música baixinho enquanto, deitado num velho colchão de espuma, com a cabeça do lado de fora da tenda, acompanhado pelo canto dos grilos, olhava as estrelas e sonhava com o futuro que o tempo haveria de trazer.

N. do A – O presente conto auto-biográfico é uma versão revista, modificada, melhorada, originalmente publicada aqui no Observador, e que volto a publicar como homenagem ao meu irmão Nunão, que a semana passada nos deixou.

N. do A (2) – O Verdemar ainda lá está, agora nas mãos da minha cunhada, Christine, e dos meus sobrinhos, Tomás e Duarte.

COMENTÁRIOS

Paulo Rosário

Lembro-me perfeitamente da crónica original, escrita extraordinária e relato fascinante. Os meus sinceros sentimentos, para si e toda família.

João Sá

Um texto magnífico e tocante.

Felizmente ainda hoje os nossos sentidos são homenageados nas Casas Novas.

Os campos a perder de vista inspiram paz e estimulam a meditação sobre o sentido da Vida das questões complexas da nossa existência.

Ainda existe poeira nos caminhos.

De manhã ouve-se o canto de (pelo menos) oito aves diferentes.

E o jerico dá prova de vida do nascer ao por do Sol.

A nossa existência é transitória, um ponto quase invisível na história da Humanidade. Passamos velozmente por uma terra bela, fantástica, cuja perenidade desejamos.

Carlos Carvalho

Muitos parabéns e fico com muita pena do Nunão

António Costa e Silva

À nossa terra calhou uma parte muito grande da beleza que há e que NL tão bem conta.

JM Azevedo

Muito bonita homenagem e o conto, realmente melhorado face ao anterior. Esse Sudoeste...

Miguel Macedo

Muito boa crónica! Lembro-me da anterior!

Humilde Servo

Linda homenagem. Recordo-me de ter lido este texto na versão anterior. Também passei longos verões no sudoeste alentejano, no meio de amigos locais, camones e lisboetas, em tardes infindas de ociosidade e leituras. Um abraço de consolo pela morte do seu irmão. Que Deus o acolha junto de Si.

Pedro Rocha

Texto incrível, e ainda melhor do que tinha sido publicado antes (como é possível?!). O Nunão onde quer que esteja, está certamente muitíssimo orgulhoso. Um forte abraço

graça Dias

Um texto brilhante e lindooo.

Obrigada NL.

Notung Notung

Um texto excelente, que se lê com agrado. Parabéns pelo artigo, mesmo tratando-se de in memoriam.

Maria Carreira

Lindo!!