sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Que não falte a galinha



Do blog “A Bem das Nação” extraio o texto da jornalista Ana Sá Lopes que Henrique Salles da Fonseca transcreveu no seu artigo “DIZ-SE QUE HERR SCHÄUBLE É MAU!” tecendo em seguida considerações que, aceitando o repto que Ana Sá Lopes usa em tom crítico a respeito do discurso optimista de reconstrução europeia pronunciado pelo ministro alemão das Finanças, o desconstrói em sentido inverso ao da jornalista portuguesa, com o seu habitual sentido crítico de moderação e coragem em arrostar contra as demagogias dos que, estimulados na luxúria dos bons sentimentos, têm uma visão unilateral de enfado contra os “ricos” causadores da pobreza dos “explorados”, sem consentir na constatação de que as políticas de “largueza económica” a todos beneficiou, mas estavam erradas porque eram dinheiros de factura alheia que teríamos necessariamente que saldar com lágrimas.

Salles da Fonseca inverte as premissas derrotistas de ataque ao discurso de Herr Schäuble escritas por Ana Lopes e usa os considerandos daquele para provar que o seu optimismo é positivo e está certo. E sobretudo defende as políticas dos governantes actuais, que tentam corrigir o muito que se errou, na avalanche de serviços que foram distribuídos, na acomodação às incompetências e faltas de profissionalismo de grande parte, em que éramos useiros e vezeiros.

Talvez que se crie, de facto, uma consciência de que é necessário ser-se sério no trabalho, embora o desemprego atinja desbragadamente tantos  que são competentes e sem culpa.

Mas o texto crítico de Salles da Fonseca aponta um caminho de confiança e de esperança, contrariamente ao dos “profetas da desgraça”. A verdade é que o Governo tenta atamancar a crise do desemprego com os subsídios temporários, na mira de uma mudança positiva, o que mostra que não é – nem podia ser -  insensível às aflições que causa, não por vontade própria mas a isso forçado.

Um texto, como sempre, temerário, o de Salles da Fonseca, que sabe quanto este tipo de comentários está fora do âmbito dos habituais esclarecedores da verdade.

«Diz-se que

«O ministro alemão das Finanças ignora de modo grotesco a crise social europeia»;

Herr Schäuble afirma: “Ignorem os profetas da desgraça. A Europa está a ser consertada.”

E mais se diz que

«O mundo, visto de Berlim, é quase perfeito: “A receita está a funcionar, para desgosto dos numerosos críticos nos media, nas universidades e nas organizações políticas internacionais. O ajustamento era ambicioso e, por vezes, doloroso, mas a sua implementação é flexível e adaptável. As redes de segurança europeias providenciaram uma mistura bem calibrada de incentivos e solidariedade para amortecer o sofrimento.

O texto de Herr Schäuble é assustador porque é um dogma de fé. As “organizações internacionais” e as “universidades” bem podem produzir estudos – que, entretanto, se têm vindo a comprovar – sobre os riscos da política económica seguida pela Alemanha que, do alto do seu poder e da sua religiosidade intrínsecas, Schäuble ignora-os. A crise social nos países do Sul, os 27,8% da população grega sem emprego, os 16,5% de portugueses sem emprego, os 26,3% de espanhóis sem emprego e os 17,3% de cipriotas sem emprego não entram nas contas de Herr Schäuble.

O ministro alemão das Finanças ignora, de um modo grotesco, a mais grave crise social depois do fim da Segunda Guerra, afirmando que, “em apenas três anos, os custos unitários de trabalho e a competitividade estão rapidamente a ajustar-se (...) e os défices a desaparecerem”. A recessão na zona euro acabou.

O mais traumático no texto de Herr Schäuble, mesmo que tenha sido escrito na semana decisiva de uma campanha eleitoral onde o seu posto está a votos, é que ele despreza ostensivamente a realidade e, nomeadamente, os números. O final do texto é particularmente esclarecedor da arrepiante mistura de fé com bruxaria: “Os sistemas adaptam-se, as tendências mudam. Por outras palavras, o que foi partido pode ser reparado. A Europa de hoje é a prova.”

É extremamente grave o delírio de Herr Schäuble. Mas o mais grave ainda é que ele se pega.»

Ana Sá Lopes



E, contudo, sou da opinião de que Schäuble está dentro da razão.

Porquê?

Porque:

  • A Europa do Sul foi tomada por uma classe de políticos que não hesitou em «comprar» votos usando a demagogia paga com dinheiros públicos e daí surgiram os défices públicos;
  • A Europa do Sul sempre gostou muito mais de folgar nas belas praias (o famoso licenciado em «5º ano de praia») do que estudar nos livros, daí a grande deficiência na instrução e formação e, daí, a pobreza estrutural dos PIB's com inerente dependência económica externa e consequentes dívidas privadas;
  • Os políticos da Europa do Sul convenceram as suas populações de que é aos ricos que cumpre pagar a crise travestindo esse conceito marxista na famosa «solidariedade europeia»;
  • A Europa do Sul contou com todos esses ovos na cloaca da galinha e agora diz que os culpados são os ricos que não querem pagar a factura dos seus dislates, da sua «dolce vita»;
  • O escol de cada povo da Europa do Sul (não confundir com Governos nem com políticos demagogos) já percebeu que a mudança era inevitável e urgente;
  • O escol de cada povo da Europa do Sul rapidamente se apercebeu de que ele próprio teria que ser o agente dessa mudança não esperando pelas medidas de política sempre emperradas por Tribunais Constitucionais e organizações quejandas;
  • O escol de cada povo da Europa do Sul não perguntou aos Governos o que deveria fazer: fez!

Schäuble tem razão: a Europa do Sul está a safar-se, a modificar estruturalmente os «modelos de desenvolvimento» que a atiraram para o abismo acabando com as actividades que se revelaram perniciosas e a desenvolver as que são efectivamente virtuosas, a substituir inaptos profissionais por gente profissionalmente competente, a exportar em vez de chorar sobre a ruína dos respectivos mercados domésticos.

O que os Governos forem fazendo sempre há-de ajudar alguma coisa mas o escol de cada povo da Europa do Sul não conta com esse tipo de ovos na cloaca das galinhas.
 
E, se necessário, há-de-se inventar galinha sem cloaca!

Setembro de 2013»

 

Nenhum comentário: