quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Um certo descarrilamento

- Eu só acho que o Portas tudo o que apresenta como importante para ele é também o que a gente queria para nós. Só que, ouvindo-os a todos, achamos que todos os políticos dizem coisas bem ditas.
Isto foi um comentário da minha amiga sobre a actuação dos dois entrevistados por Constança Cunha e Sá na TVI – José Sócrates e Paulo Portas.
Eu redargui, um tanto abespinhada, que não achava que fosse tudo bonito, porque se fartavam de atirar à cara uns dos outros coisas às vezes muito negativas, além de que havia em alguns uma certa falta de fundamentação política, social e até filosófica, limitados aos seus percursos governativos ou aos dos rivais, com dados pontuais, muitas vezes sem correspondência com a realidade nua e crua.
Nisso, parece-me que Portas é mais elástico no pensamento e até na expressão, com frases de boa marca filosofal, quando aponta, no exemplo da degradação do Ensino, às bombásticas referências de sucesso do PM, que “o Ensino mudou de aparência, não mudou de essência”.
Todavia, frase ampla ou não, de sentido filosófico - podemos incluí-la dentro do burilado frásico sedutor a que Paulo Portas nos habituou - eu acho que este se enganou: a mim parece-me que o alcance da mudança no Ensino de Sócrates e de Maria de Lurdes Rodrigues, foi um volte-face total, tanto na sua aparência como na sua essência e que dificilmente haverá possibilidade de recuperação.
Cada vez mais se notará o desprestígio no Ensino, com o tal “facilitismo” nos conteúdos exigíveis, muito conveniente para um povo, na sua maioria, pouco habituado a prezar os valores culturais dentro de um sentido de responsabilização, seriedade e real interesse, ressalvada, é claro, a minoria elitista, que não chega para nos equiparar aos outros povos adultos.
E é pena, porque os nomes dos nossos valores reais – que os temos, bem reais e até bem extraordinários – mereciam um maior zelo e um amor maior da nossa parte. Além de que é necessária toda uma participação de competência nas profissões que viermos a desempenhar, e não nos parece que com tal apatia e desinteresse da maioria dos alunos que educamos, nos faça atingir outros índices de valor e de progresso que os governos deveriam estimular e não desprezar, como se tem visto.
Para Paulo Portas, a avaliação dos professores – e dos alunos me parece que também - funda-se no esforço, no mérito, no trabalho, na assiduidade, e certamente que as escolas têm mecanismos para avaliar tais parâmetros – desde que o Ministério da Educação os proponha como fundamentais.
Mas o Governo pretendeu antes criar conflitos, boicotando as normas do bom senso, duma penada apagando a tal essência da didáctica educativa que só pode gerar a nulidade social.
Quanto aos outros temas focados, o frente-a-frente decorreu com os ataques e contra-ataques do costume, numa certa surdez ministerial a que já nos habituámos no Parlamento, mas nitidamente o Primeiro Ministro chegou a perder as estribeiras na questão penal, em que, atacado por Portas, fez sentir quanto este estava, pouco desportivamente e até demagogicamente, a atacar uma coisa que, tempos antes, votara favoravelmente. E à defesa de Portas, inutilmente repetida, Sócrates repetia, a instâncias, monocordicamente, sem querer ouvir justificações: “Mas votou ou não votou as leis penais”?
Como um comboio descarrilado, cujas rodas rodassem no ar incontidamente, Sócrates pareceu ter perdido, de repente, o controle do discurso, ao frisar, incontidamente, a glória da sua referência: “Votou ou não as leis penais?”
Creio que Portas se defendeu bem.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quase só tecemos elogios

Nós não éramos socráticas. Mas a entrevista de ontem com a Judite de Sousa, no Canal 1 deixou-nos meio hesitantes. Sobretudo a minha amiga, que tem mais tendência para valorizar os modelos, embora eu também não seja refractária às figuras bonitas que me transportam aos tempos da adolescência e dos livros da Max du Veuzit, que nos faziam aspirar a idênticos registos de amor, de bons sentimentos e de beleza nas nossas vidas futuras e até da altura.
- Ele desembaraça-se perfeitamente. - Foi o comentário decisivo da minha amiga.
Concordei:
- Pois, ele não tem medo de ser confrontado com os outros. Diz que conhece os dossiers.
Falámos na bonita figura de “Prince Charmant”, na bonita gravata, no modo muito decente de estar à mesa com a Judite, no ar aconchegado com que ora agora, já sem as modulações exasperadas dos tempos em que orava outrora. Mas ficou-nos a dúvida se retomará as modulações de outrora, se for eleito por ora.
A minha amiga continuou:
-Tem a sorte de não ser considerado arguido, assunto arrumado. Ele não tem nada, portanto, que acelerar a justiça, foi o que ele disse.
Voltei a concordar:
- A Justiça para mais esteve de férias, não sei se ainda está, mas há casos em que costuma permanecer. Não sei se é o dele.
- Como ele está de consciência tranquila, não nos devemos preocupar.
- Pois, há inúmeros casos de pessoas com a consciência tranquila no nosso país, é por isso que vivemos todos em bem-aventurança.
- Eu não concordo de maneira nenhuma que se gaste quando não há.
– Isto foi um comentário negativo da minha amiga a respeito do TGV, aeroporto e mais umas estradas para nos dar bons percursos.
Por mim, que tenho sempre esse pecado do gasto excessivo a roer-me a consciência, toda a vida endividada com as prestações das minhas limitações e das minhas ambições legítimas, porque gosto de emparelhar nos confortos dos mais abonados, ainda recalcitrei que podíamos sempre esperar por uns arroubos de sorte, até das lotarias ou até de algum poço petrolífero, e que talvez fosse por isso que o nosso “Prince” insistia tanto nas grandes obras dos confortos deles, dos mais abonados. Mas a minha amiga ponderou que era melhor usar os dinheiros – que os contribuintes afinal vêm a pagar - a compor as calçadas, criando o passeio à espanhola, lisinho e não como o nosso, com lombas. Está ressabiada porque mais duas amigas, em Aveiro, foram ao charco, isto é, partiram as pernas ao tropeçarem por lá.
Cá por mim, como ele confessou que lhe faltara delicadeza para com os professores, vi que se sentia arrependido, e desculpei logo a intolerância e desonestidade do seu tratamento anterior aos docentes à conta dessa indelicadeza confessada, esperando que o mesmo façam os professores confiantes, que o vão eleger.
A minha amiga na questão da Educação também hesita:
- Eu não sei se é melhor, porque é que é melhor, embora eu voltasse a insistir em convicções anteriores, de que tal política não passara de fogacho de melhoria, na questão estatística. De resto, tudo fora fraude, só fraude, na educação do sucesso fraudulento.
Quanto aos desaires dos encerramentos e despedimentos, ele soube atribuir isso à crise, e até apontou que estamos na retoma, dito por quem de direito, o que nos aqueceu a alma de esperança.
Ficámos muito enternecidas também com as informações sobre a sua única vaidade: os seus filhos. Por aqui medimos o alcance dos seus sentimentos paternais e até os comparámos com os do nosso Presidente, embora este acentue mais os de cônjuge e de avô. São boas perspectivas para o futuro.
Conosco fica tudo em família.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A bestialidade democratizada

- O Schwarzenegger pediu o estado de calamidade pela segunda vez.
Isto disse a minha amiga em tom profundamente trágico, ao comentar sobre os incêndios na Califórnia. E Schwarzenegger para aqui, Schwarzenegger para ali, eu invejei o à-vontade com que ela se referia ao governador da Califórnia, que parece que já foi actor. Vê-se que a minha amiga tem um trato social que definitivamente nos distancia, ela no seu porte aristocrático, eu na minha timidez bisonha, desde sempre limitada ao trato caseiro, tirando o anterior trato com os alunos e os colegas, marcado este por discrepâncias de maior ou menor solidariedade em ambivalência.
- Uma zona rica aquela área, que arde porque rodeada de muito arvoredo. Apesar de serem muito ricos, perdem ali casaronas enormes. Admira como é que cada dono de cada casarona não limpa a mata, para terem defesas. Até é disparate dizer isto! São dimensões enormes! Só conseguem uma coisa extraordinária: não morre ninguém!
- Nós por cá também temos tido sorte com as mortes. Mas está por aí tudo em alerta vermelho, ontem mostraram o mapa do país. Oxalá cheguem as chuvas, cá como lá e em todo o lado para apagarem os fogos.
A virtude, os bons sentimentos, isso temos em comum. A minha amiga retomou o fio condutor:
- Está a acontecer o mesmo na Austrália, não sei se já melhorou. É o mesmo género: vivem dentro das matas.
- Deve ser por causa do ar puro, longe da poluição.
- É muito arriscado. Eu podia ser podre de rica, não fazia casa no meio do mato.
- Sabe lá o que faria se fosse?
- Sim, uma pessoa muito rica também pode ficar meio maluca. Mas todos os anos se diz a mesma coisa: é preciso limpar matos. Não percebo é como ainda há sítio para incendiar, com tanto chão ardido!
- E já viu que com tanto incêndio, poucos são os responsabilizados nisso! Há dias ouvi a um bombeiro que às vezes os próprios incendiários é que alertam os bombeiros!
- É tudo tão diabólico! A polícia americana também nunca chegou ao monstro que matou prostitutas, nos anos noventa. Até já pediu desculpa!. Agora andam à procura de cadáveres de prostitutas. Nunca descobriram quem era o fulano. Mas supõem agora que é o fulano que sequestrou uma miúda de onze anos, na mesma altura, há dezoito anos Descobriram só agora. Ela tem dois filhos dele, viveu em condições inumanas. Que monstruosidades que o ser humano faz! Coisas mais dramáticas! Que pavor!
- Isto agora também tem a ver com a droga. Mas no passado, quanta crueldade hedionda se praticou! Até em nome do amor.
- E do fanatismo, que é um falso amor!
- É. Hoje é mais chique chamar-se de fundamentalismo. O próprio Hitler foi um fundamentalista racial.
- Mas como ele muitos mais houve. E há.
- Sim, dantes os Dráculas eram condes. Agora, a bestialidade democratizou-se.