quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Uma fábula de médicos

Hoje a minha amiga não quis falar do debate de ontem, já enfastiada com a verborreia que eles, os políticos, de resto, são forçados a debitar, para nos revelarem as suas almas e os seus trabalhos para o comum benefício de todos nós.
Tratou-se do frente-a-frente Sócrates-Louçã, na RTP pontuado por Judite de Sousa, a que eu também não prestei a atenção devida, por já conhecer em parte as doutrinas já expendidas em debates anteriores.
Mas chegou para ver que Sócrates foi o maior, ele, aliás, deu a entender que o seria, com a perfídia acobertando uma falsa doçura, quando, logo de início, embora não quisesse manifestar qualquer desconsideração pelos grupos menos vastos, expôs que as escolhas eram entre PS e PSD, ou seja, entre ele, Sócrates, e Manuela Ferreira Leite. E isto arrumou Francisco Louçã, que não mostrou a mesma garra, no debate, que noutras alturas de maior conflitualidade.
Mas eu não apreciei a atitude arrogante do Engenheiro, senti bem a humilhação de Louçã, que, todavia, se vingou, referindo o seu terceiro lugar nas forças políticas e apontando a quase paridade de Manuel Alegre com o PS, nos votos da nação.
É claro que Sócrates, satisfeito com o “fim da recessão”, com o saldo já positivo da balança – 0,39% - aproveitou para atacar o azedume dos que não admitem esse valor, que atribui à boa política do seu governo e condenar o BE que em vez de o apoiar, como força de ideologias semelhantes, o ataca e destabiliza. E este queixume demonstrou que afinal apelava ao voto útil, que inicialmente pareceu desdenhar.
Falou-se de economia, de nacionalizações, do programa do BE, de que Sócrates leu partes, sem atender a protestos nem justificações. Como já Louçã fizera, quando confrontou Ferreira Leite.
Houve tabus importantes. Eles falaram na pobreza, mas do caso “professores” não ouvi. Não, pelo menos, com a frontalidade requerida. Nem sobre a falta de pudor no desrespeito pelos seres humanos que aqui vivem e os seus direitos. Pouco ou nada sobre fraudes e corrupção.
Daí, eu ter-me voltado para La Fontaine, a quem fui buscar uma fábula de apoio, de que vou atamancar uma tradução, como meio de diversão e um pedido de perdão por qualquer incorrecção: Trata-se da fábula “Les Médecins” (Tant-pis e Tant- mieux):

“O médico Tanto-pior ia ver um doente
Que o compadre Tanto-melhor visitava igualmente.
Este último acreditava na cura
Embora o companheiro
Sustentasse que o moribundo
Iria em breve encontrar
Os parentes no Profundo.
O doente pagou o seu tributo
À Mãe-Natura,
Isto é, faleceu,
Depois que os remédios de Tanto-pior absorveu.
Uma vez mais ambos foram triunfar
Sobre a doença mal gerida.
Dizia um: “Morreu, como eu previra”.
E logo o outro: “Se ele, o meu conselho seguira,
Ainda agora estaria cheio de vida”

É uma fábula de fácil aplicação ao nosso caso de falência previsível. Temos “médicos” bastantes, todos com as suas competências e os seus saberes, mas especialmente confinados a dois, cada um podendo incorporar os da sua especialidade. E cada um dos titulares podendo sempre atribuir culpas ao outro, em caso do desastre da receita daquele, mostrando, simultaneamente, que a sua é que era a boa:
«L’un disait: “Il est mort, je l’avais bien prévu. »
- « S’il m’eût cru, disait l’autre, il serait plein de vie »

terça-feira, 8 de setembro de 2009

“Que coisa horrível um país assim!”

- Eu não quero acreditar no que ouvi ontem ao Paulo Portas sobre o ministro da Agricultura! Como? Como? Como? Não utilizou uma quantidade de milhões de euros da UE na nossa Agricultura?!
- Duzentos mil milhões de euros, leio eu nas minhas notas.
- Isto tem que ter uma explicação! Mas o povo português fica indiferente a esta declaração do Paulo Portas? Eu vou votar nele! Mais ninguém tinha ainda feito referência a isto! Como é que o Jaime Silva pode andar na rua? Será que as pessoas não pensam como eu? Eu quero realmente ver se alguém menciona isso desta entrevista!
- Acho que ninguém mais referiu, pelo menos não ouvi!
- Claro que os ladrões do Banco ele também os apontou e que o Victor Constâncio, moribundo, faria tudo da mesma maneira, segundo contou Portas. Isto quer dizer o quê? Que estão todos inocentes! Pois o Paulo Portas para mim ganhou as eleições! Eu vou votar nele! Que coisa horrível um país assim! Esta coisa do Ministro da Agricultura, acho tão espantosa!
- Mas olhe que não é a primeira vez que acontece! Só talvez não fossem assim tantos milhões!
Retomou, com mais gana ainda:
- Qual é a justificação? A agricultura não merece? Não se deve trabalhar na terra?
- Oh! E então os dinheiros que recebem para isso? Para não trabalharem! Veja lá se fossem comprar maquinarias ou aprender técnicas para nos equipararmos nas hortaliças aos outros países! O trabalho que não daria aprendermos todas essas coisas novas! E com a proibição para as exportarmos, as maquinarias enferrujavam. Como nos hospitais e casas de saúde certos aparelhos sem uso, porque não lhes dão autorização para os usarem.
Não ligou à interrupção:
- O que é certo é que os agricultores dizem que a pior coisa para eles é o vento, a chuva – em excesso, claro – e o Silva. Mas como? Como? Como justifica tal coisa? Unicamente assim: Não levanta o dinheiro: perde o dinheiro. Não é de burro?
A minha amiga aplica expressões das suas iras a que não há meio de me habituar, delicada como sou. Também usou a mesma expressão desprestigiante – os habituados a fazer humor insinuariam que para os burros – em referência ao tardio do “Prós e Contras”, que ouviu a seguir ao frente-a-frente Paulo Portas - Jerónimo de Sousa, na SIC, moderado por Clara de Sousa, de que estávamos a falar:
- Vou escrever à RTP que enquanto houver cabeças burras, que põem no ar programas tão tardios, o país não vai longe. Este programa é feito para a nação? Este programa é caro? Qual o interesse em dá-lo à meia noite? Um país vai levantar-se porquê? O quê!? Fazem o sacrifício de não dormir para os ouvir? Cabeças burras! Mas alguém reclamou? Nunca vi isso escrito em lado nenhum!
Vê-se bem que o sono a apanhou quando estava interessada no debate com o Ministro dos Assuntos Parlamentares e alguns parlamentares a atropelarem-se nas razões, com a Fátima Campos Ferreira ao comando. É, de resto, uma conversa que ela já há muito explora, nas volutas aromáticas do nosso café matinal, e sempre com a mesma indignação, a hora tardia do “Prós e Contras”.
Mas, retomando o tema do frente-a-frente, achámos que se portaram ambos à altura, com mais ênfase sobre a actuação de Paulo Portas, embora a minha amiga pessimista insista na ineficácia dos argumentos, farta de ouvir programas de reabilitação num terreno sem habilitação, e daí a sua inutilidade.
Eu não achei que tivéssemos falta de habilitação, porque nos reconheço até muita habilidade. E assim vamos cozinhando o nosso caldinho verde, que pertence à nossa habilidade caseira, e até nos damos todos bem, interessados no bem de todos.
A direita e a esquerda foram bem representados ontem, pois, por Paulo Portas e por Jerónimo de Sousa, aquele, brilhante nos raciocínios, demasiado rápidos, todavia, por conta da moderação imposta, este muito mais animado do que nos anteriores debates contra os da sua área ideológica.
Desta vez tratava-se de um opositor real, com quem jogavam os seus interesses, ambos mais ou menos empatados nas votações, além de que, para Jerónimo de Sousa convinha acentuar ironicamente as diferenças sociais entre ele, habituado por tradição à carne de vaca do guizado, e o seu opositor, mais afim do lombo do bife, em imagem a propósito das doenças de mais alto gabarito, citadas por Portas - cataratas, ortopedias - tratáveis nas casas de saúde, ignorando o encerramento das maternidades pelo governo de Sócrates.
Mas Paulo Portas revelou ser sensível, como Cesário Verde, à “dor humana” que “busca os amplos horizontes e tem marés de fel, como um sinistro mar”, relatando os seus conhecimentos adquiridos nas feiras das suas andanças eleitorais, e apontando soluções do seu percurso de intelectual estudioso e brilhante.
Quanto a Jerónimo de Sousa, tal como o soubera dizer também ironicamente a José Sócrates, ele falava por experiência própria da sua vida mais sofrida e orientada, intelectualmente, pelo credo marxista, contido na Constituição.
Concluiu mesmo que as divergências entre ambos se centravam no maior ou menor seguidismo da Constituição pós-abrilina.
Ambos estiveram bem. Eu, como a minha amiga, também vou votar em Paulo Portas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Julguei que Manuela Ferreira Leite iria intimidar-se

A verdade é que os olhos coruscantes de Francisco Louçã, a sua pose inflamada de dominador tribunício, com mastigação ardente das frases, entoadas com o arreganho da contundência consciente, poderiam fragilizar-lhe o ânimo, denunciando a tal indecisão de que é acusada, por alguns do seu partido, por todos os dos outros que lhe não querem reconhecer o valor, provavelmente por lhes faltar a eles.
Não aconteceu.
Manuela Ferreira Leite não mastiga nem cospe as suas frases. Responde plácida e serena, sempre sóbria nos gestos e nas palavras decisivas, com que rebate as propostas do opositor, com as suas contrapropostas inteligentes, os exageros da linha esquerdista indiciados na sua ironia, na sua sua sensatez, com que aponta o absurdo, irrealista e, acrescento eu, por vezes desonesto, das frases bombásticas de quem sabe que nunca irá aplicar o programa que proclama, porque não irá governar.
Assim foi no primeiro tema, segundo a moderadora da TVI, Constança Cunha e Sá, sobre a nacionalização dos bens públicos, proposta por Louçã, indignado com os ganhos escandalosos das empresas privadas, ao contrário de Ferreira Leite que propõe a diminuição do peso asfixiante do Estado, com o seu agravamento da carga fiscal, causa de aumento do défice e impeditiva de crescimento económico, além de considerar que uma dezena de empresas bem capitalizadas não só proporciona emprego, como correspondem a uma parte ínfima da nossa economia, o peso das trezentas mil pequenas e médias empresas superior a essas, devendo, pois, ser ajudadas para aumento da competitividade e solução do desemprego.
Não deixou de ironizar também sobre o valor das nacionalizações sucedâneas ao 25 de Abril, ao que Louçã redarguiu com a pré-destruição da economia pela fuga dos grandes capitalistas da época, falseando expressamente dados e exigindo, na sua tese das nacionalizações, mais rigor nas contas do Estado, e maior responsabilidade, como meios fundamentais para o desenvolvimento económico. Pareceu-me utópica tal imposição, e a ele também parecerá, dada a nossa reconhecida incapacidade de fabricar expressamente seres virtuosos e rigorosos nas contas, com vista ao bem comum.
Na questão da Segurança Social, Ferreira Leite fala, com seriedade, na manipulação escandalosa dos dados, negando que alguma vez tivesse proposto a privatização daquela, afirmando ser aquela um ponto que requer uma absoluta estabilidade.
Mas Louçã acusa, em violência profusa de voz, que o programa do PSD se propóe despedir 150000 funcionários, e reduzir 10% dos trabalhadores portugueses.
Como um disco rachado, já que Louçã não lhe permite responder, o tempo de emissão precário, Manuela repete, segura: “Não tenho isso no programa”, contra a irredutibilidade daquele. Também acha vago o programa de Ferreira Leite e esta retorque que a solução de Louçã para o desemprego se esgota ao fim de meia dúzia de meses.
E na questão da Saúde, enquanto Ferreira Leite fala na exequibilidade das suas medidas, Louçã contrapõe condenando as parcerias médico-privadas, já seguidas no governo de Sócrates, exaltando o serviço público como mais bem apetrechado, condenando o privado como meio de negócio. Mas Ferreira Leite considera o sector privado como um complemento do público, em caso de tempos de espera dos doentes, ou urgências, comparticipado pelo Estado. O objectivo da parceria será a universalidade democrática da Saúde.
Seguiram-se os temas fracturantes, dos casamentos homossexuais, defendidos por Louçã, dentro dum conceito de respeito pelas liberdades individuais, Ferreira Leite dentro do respeito pelo factor família no sentido da procriação, embora respeitando igualmente as liberdades individuais, em termos de uniões de facto.
A conclusão Ferreira Leite: “Eu defendo o casamento, mas não imponho o casamento;Louçã não defende o casamento mas impõe o casamento” constitui uma.modelar síntese que revela a pessoa corajosa, frontal e honesta, de modo algum figura de conservadorismo tacanho, mas com a força moral para pretender desviar o ritmo das relações humanas, desnecessariamente destrutivo, na proposta progressista, com implicações graves sobre a formação moral dos que nos vão seguir.
Concordaram ambos na defesa da liberdade de expressão e de responsabilidade individual que o caso Manuela Moura Guedes despoletou.
Contrariamente, pois, aos rumores e opiniões negativas sobre a sua competência política, Manuela Ferreira Leite manteve a sua postura de afabilidade superior, sabendo reconhecer desportivamente as competências do adversário, sem receio de se inferiorizar com isso, mas contrapondo os seus pontos de vista, bastas vezes em desacordo com aquele, em argumentos claros, não marcados por astúcias apelativas do voto, mas segundo uma ponderação de equilíbrio e seriedade inspiradores de confiança.