domingo, 25 de março de 2012

“Não cabe cá dentro”


- Aquele Seguro anda a fazer umas tristes figuras. Mas o que é que aquele gajo tinha de diferente para dar? E pode vir a ser primeiro ministro! Uma figura daquelas que não sabe o que diz! Mas também ainda não ouvi ninguém dizer bem dele!

Discordei da minha amiga nessa questão da empatia com Seguro, achando que os ares arrumados deste, de comissuras dos lábios sempre próximas, os lábios em O, na garantia dos bons sentimentos expressos num raciocínio sempre justo, alguns partidários lhe haviam de merecer, dos de sentimentos e de raciocínio coincidentes, mesmo que não tenham os lábios em O.

- Não, ele tem a sua comandita, que o escuta com a mesma unção que têm os de todos os outros partidos, perante os seus chefes! Vivemos em democracia.

Mas a minha amiga, qual “malagueña salerosa, que los pobres disprecia”, nem sequer escuta a minha sentida interrupção, lançada que está na sua inflamada diatribe:

- Estes agora encontraram o tacho rapado. Estes não vão lá para roubar porque não têm aonde ir buscá-lo. Antes, foi um forrobodó de todo o tamanho, nas negociatas, nas almoçaradas, nos peculatos, nas ilegalidades. E os políticos depois têm que fazer as leis à sua medida. E depois têm que pôr o dinheiro lá fora. Não cabe cá dentro.

Só discordei na questão do tacho. Achei que, mesmo que estivesse mais cheio, os governantes de hoje teriam mais vergonha na cara, pertencentes que eram a uma geração mais cordata e corajosa e amante da sua Pátria.

Assim fosse, saecula saeculorum.

sábado, 24 de março de 2012

Fia-te na Virgem…


A história que aqui se conta
Com alguns arrebiques
Não é do tempo dos Titanics,
Nem dos cruzeiros de agora
Que também encalham
Quando os homens
Ou os motores falham.
É uma história de Esopo
Que viveu no tempo
Em que as embarcações
Eram muito inferiores
Em potência e dimensões:

«Atenas e o náufrago»
«Um rico Ateniense navegava
Com outros passageiros.
Uma rajada de vento estalou
Que o navio virou,
O qual naufragou.
A nado, todos os companheiros
Tentaram salvar-se.
Todavia,
A cada instante o Ateniense,
Invocando Atena,
Mil e mil oferendas lhe prometia
Se com vida escapasse
Do pesadelo.
Um dos náufragos
Que a seu lado nadava
Disse com zelo:
“Reza a Atena,
Mas não te esqueças de nadar
Se do naufrágio
Quiseres escapar!”
O mesmo de nós direi:
Se devemos aos deuses rogar,
A nossa causa em particular
Deveremos servir.
Mais valerá os deuses
À  nossa causa, com boas acções,
Saber concitar
Do que a nossa salvação
Negligenciar
Contando só com aqueles.
Quando na desgraça caímos
É necessário
Trabalhar em nos safarmos
E então só depois
A divindade
Em nosso socorro apelarmos.»

Eu  creio que o nosso país
E sobretudo o nosso governo
São bem a imagem,
Da muita coragem
Mas também devoção
Que é preciso demonstrar
Para da perdição
Poderem escapar.
O governo vai nadando
À custa dos sacrifícios
Do povo que vai pagando
E ao mesmo tempo rezando
Para obter mais benefícios
Do governo que os promete
Só para o ano e entretanto
Vai nadando, vai nadando
Tentando
À praia chegar,
E o povo orando e chorando,
Sem parar,
E sem grande esperança
Na prometida bonança.
Mas aqui vamos pagando
À custa dessa promessa,
Embora haja excepções.
Que os batoteiros
São mais que as mães.












sexta-feira, 23 de março de 2012

“Ele foi à Maia”


Dei à minha amiga a informação que me tinha abismado quando a ouvi da boca séria do ministro Gaspar das Finanças: que a recuperação económica portuguesa se iniciaria num dia exacto de setembro, não me lembra (parafraseando Garrett) bem se a 13 de 2013. Até comentei que 13 é uma data portuguesa célebre, pelo menos o de Maio e o de Outubro, em que a Nossa Senhora apareceu a três pastorinhos nuns ramos de azinheira de  Fátima, e que talvez por isso ele falou no 13, sem esclarecer as contas, ou então fui eu que não as percebi, que de contas só vejo os cortes no vencimento que me arrasam a vida.

Mas a minha amiga entendeu que não devia ser por analogia com as datas da Aparição, e logo disparou, sempre rápida a tirar conclusões, nem sei se fruto das suas experiências de vida:

- Se calhar, ele foi à Maia.

            Mas logo a seguir pôs-se a troçar dessa precisão do ministro Victor Gaspar a respeito do início da escalada económica, quando o que por aí vai são mais falências, despedimentos, desemprego às catadupas, gente a precisar da sopa dos pobres, como antigamente, com os pobrezinhos que sempre foram cultivados com amor no nosso país, e não sou eu que o digo, embora os novos pobres de agora sejam muitos dos novos ricos de há pouco, que se tinham empenhado, favorecidos pelas promessas dos bancos que emprestavam para a casa e para o carro e a pequena empresa e que agora vão buscar a casa e o resto,  cuja prestação já não vai ser paga, na senda dos despedimentos…

Eu até confirmei, nos meus magros conhecimentos obtidos da boca dos críticos da situação, que quanto mais se afunda a economia em impostos incomportáveis, que fazem fechar as empresas, atirando para a rua tantos milhares de trabalhadores, mais dificilmente, se pode emergir da imersão.

Então, resolvi vir para casa esclarecer-me melhor na Internet sobre aquilo que o ministro disse, pois não gosto de fazer observações levianas e muito menos a respeito da exactidão das datas – o 5 de Outubro sendo sempre o 5 de Outubro, assim  como o 1º de Dezembro sendo esse e não outro  - e colhi o seguinte:

«Portugal tem de reembolsar 10 mil milhões de euros de dívida pública, que vencem a 23 de setembro de 2013. O atual programa de ajustamento acordado com o FMI e os parceiros europeus prevê que uma parte desse valor deve ser refinanciado junto do setor privado, ou seja, por essa altura, Portugal devia estar de volta aos mercados da dívida. Mas os analistas têm dúvidas se isso será possível ou se Portugal precisará de um segundo resgate para evitar o incumprimento. «Nós não vamos, por nossa conta, pedir mais tempo nem mais dinheiro», disse Gaspar. «Mas conforta-nos o facto de os nossos parceiros internacionais terem indicado que se nós enfrentarmos dificuldades imprevistas no regresso aos mercados em condições normais, eles nos dariam mais ajuda financeira, com a condição de nós cumprirmos os termos e condições do programa», acrescentou. Exportações vão ajudar à retoma…»

E então vi a razão por que o ministro Victor Gaspar falou na retoma. O reembolso dos dez mil milhões simultâneo de imediata retoma, não propriamente com enriquecimento pelo trabalho, mas com novos empréstimos, dada a confiança que mereceremos a quem nos vai conceder mais crédito, pois saldámos essa dívida. Já podemos fazer outra que nós ou outros pagarão. Hábitos antigos não se perdem de imediato.

Lembrei-me do D. Enguiço do António Nobre:

“Farto de dores com que o matavam,

Foi em viagens por esse Mundo:

Mas os comboios descarrilavam,

Mas os paquetes iam ao fundo!”

Não, não foi só ele o D. Enguiço. É nosso retrato. É nossa sina que transportamos às costas desde sempre. Com menos arte. Mas com idêntica dor, causada pelas discrepâncias de sempre, entre os que se safam e os que não. Vejamos:

«O bom Amigo que vou cantando,

Neto de Santos, irmão de Aflitos,

Nasceu chorando, nasceu gritando,

Nasceu aos gritos! Nasceu aos gritos!



Já pressentia, menino estranho,

O que no Mundo cá o esperava,

E assim pedia, num dó tamanho,

Não no tirassem lá donde estava…”


“Olá, Senhoras, que ides na frota,

Que ides às Ásias, enquanto eu fico,

- Boa viagem!... E tomai nota,

Dai lá saudades ao compatriota…

Meu pobre Chico! Meu pobre Chico!» ("SÓ" - Paris, 1893)