quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Escola de Vendetta


Quando há dias me referi ao caso das praxes no Meco, em que transcrevi dois artigos expondo sobre a temática das praxes académicas – de Vasco Pulido Valente e de João Miguel Tavares – esqueci-me de acrescentar uma observação do” ex-dux veteranorum” da Universidade Lusófona, defensor do actual dux, que me tinha chocado, entre os diversos elementos chocantes do seu discurso de um raquitismo intelectual e moral totalmente indigno da espécie humana, e mais ainda com a responsabilidade do grau académico que pretende obter, cursando uma universidade. Referiu ele que os maus tratos e humilhações a que submetem os caloiros é explicado a estes como prática que lhes dará preparação para futura actuação como “duxes” dos caloiros que lhes caberão, numa actuação ainda mais feroz e vindicativa. Julguei que tão acéfala afirmação só poderia provir de um ser totalmente destituído da mais elementar consciência de reflexão e pundonor e assustei-me, na perspectiva de uma sociedade política e social futura de chefes ou doutores de tal calibre.
Mas o artigo de José Pacheco Pereira, saído no Público de 25/1, no desprezo da sua absoluta indignação, e no requinte do seu discurso de um referencial histórico decisivo, é página esclarecedora da ignomínia que se arrasta pelos séculos fora, culminando em tragédia por um mar castigador da absoluta falta de senso, não só dos que praticam as praxes como dos que permitem que elas se pratiquem.

Mais uma “vox clamantis in deserto”, que não acorda consciências apesar de suscitar admirações, pela frontalidade e saber:

A abjecção das praxes

É-me pessoalmente repugnante o espectáculo que se pode ver nas imediações das escolas universitárias e um pouco por todo o lado nas cidades que têm população escolar, de cortejos de jovens pastoreados por um ou dois mais velhos, vestidos de padres, ou seja, de “traje académico”, em posturas de submissão, ou fazendo todo o género de humilhações em público, não se sabe muito bem em nome de quê.

Há índios com pinturas de guerra, meninas a arrastarem-se pelo chão, gente vestida de orelhas de burro, prostrações, derrame de líquidos obscuros pela cabeça abaixo, e uma miríade de signos sexuais, e gestos de carácter escatológico ou coprológico, que mostram bem a fixação dos rituais da praxe numa idade erótica que o dr. Freud descreveu muito bem.

Talvez pelas alegrias de ser vexado, o objectivo do coma alcoólico é muito desejado e o mais depressa possível. De um modo geral está quase tudo em adiantado estado de embriaguez, arrastando-se ao fim do dia pelos sítios mais improváveis, bebendo aquelas bebidas como os shots que são o atestado de que não se sabe beber, um álcool forte seja ele qual for, absinto, vodka ou cachaça e um licor ou sumo ultradoce para ajudar a engolir. Os nomes dos shots, do popular “esperma” ao “orgasmo”, passando pelo B-52, “bomba atómica”, "vulcão”, “bomba”, “Singapura”, “broche”, “inferno”, “chupa no grelo”, "Kalashnikov”, “levanta-mortos” ao “vácuo” (muito apropriado), fazem parte da cultura estudantil da Queima e da praxe. Por cima disso tudo, hectolitros de cerveja, a bebida que o nosso diligente ministro da Economia conseguiu retirar da proibição de servir bebidas alcoólicas a menores, um exemplo do que valem as ligações políticas de um gestor no seu sucesso como empreendedor.

A praxe mata, já tem matado, violado e agredido, enquanto todos fecham os olhos, autoridades académicas, autoridades, pais, famílias e outros jovens que aceitam participar na mesma abjecção. Já nem sequer é preciso saber se os jovens que morreram na praia do Meco morreram nalguma patetice da praxe, tanto mais que parece terem andado a seguir uma colher de pau gigante, fazendo várias momices, uma das quais pode ter-lhes custado a vida. Eu escreveria, como já escrevi noutras alturas, o mesmo, houvesse ou não houvesse o caso do Meco. (Aliás, é absurdo e insultuoso para a dignidade de quem morreu o espectáculo de filmes de telemóvel e entrevistas que as televisões têm passado, mas isso é outro rosário, da nossa estupidificação colectiva…)

Tenho contra a praxe todos os preconceitos, chamemos-lhe assim, para não estar a perder tempo, da minha geração. A praxe quando estava na faculdade era vista como uma coisa de Coimbra, um pouco antiquada e parola, de que, felizmente, no Porto e em Lisboa não havia tradição. No Porto, onde estudava, havia um cortejo da Queima das Fitas e a percentagem de estudantes vestidos de padres com capa e batina aumentava por uma semana, mas durante o ano era raro ver tal vestimenta. A situação era variável de escola para escola, mas a participação em actividades ligadas com a praxe era quase nula. Aliás, qualquer ideia de andar a “praxar” os estudantes do primeiro ano era tão exótica como a aparição de um disco voador na Praça dos Leões. Infelizmente muitos anos depois, apareceu uma verdadeira flotilha. Em Lisboa, muito menos, nada. Depois, outro enxame de discos voadores com padres de capa e batina.

Quando se deu a crise em Coimbra em 1969, a contestação à praxe acentuou-se, embora algumas “autoridades” da praxe, como o dux veteranorum, tenham apoiado a luta estudantil. Se em Coimbra a Queima das Fitas foi contestada, porque violava o “luto académico”, no Porto, as tentativas de a manter acabaram em cenas de pancadaria com grelados e fitados até que progressivamente desaparecerem do mapa. Tornava-se então evidente que o nascente conflito sobre a Queima no Porto se tinha tornado politizado entre uma universidade que as autoridades da ditadura cada vez menos controlavam e a tentativa de encontrar, por via da praxe, uma forma de resistência ao movimento associativo e estudantil. As últimas lutas mais importantes no Porto, como a contestação do Festival dos Coros, com as suas prisões em massa, tinham colocado as praxes e a Queima das Fitas do lado do regime e provocaram um longo ocaso das suas manifestações. Até um dia.

Eu participei nessas escaramuças políticas, mas também culturais, e escrevi alguns panfletos, incluindo um, Queimar a Queima, que circulou pelas três universidades em cvárias versões e edições. Mas, na luta contra a praxe, tornava-se cada vez mais evidente já nessa altura que estava em causa não apenas a conjuntura desses anos de brasa estudantis, mas também uma recusa da visão lúdica e irresponsável da juventude, e que, se se tratava de um rito de passagem, era para a disciplina da ordem e da apatia política. Rallies, touradas, bailes de gala, beija-mão ao bispo na bênção das pastas – tudo acompanhado pelas autoridades académicas muito contentes com a “irreverência” dos “seus” jovens, quando ela se manifestava naquelas formas – eram muito mais uma introdução à disciplina do que o despertar de qualquer consciência crítica. No fundo, o que se pretendia era que houvesse uma “explosão” de inanidades, a que depois se seguiria a disciplina da vida adulta, casamento, emprego, família e filhos, ordem social e hierarquia.

Ao institucionalizar a obediência aos mais absurdos comandos, a humilhação dos caloiros perante os veteranos, a promessa era a do exercício futuro do mesmo poder de vexame, mostrando como o único conteúdo da praxe é o da ordem e do respeito pela ordem, assente na hierarquia do ano do curso. Mas quem respeita uma hierarquia ao ponto da abjecção está a fazer o tirocínio para respeitar todas as hierarquias. Se fores obediente e lamberes o chão, podes vir a mandar, quando for a tua vez, e, nessa altura, podes escolher um chão ainda mais sujo, do alto da tua colher de pau. És humilhado, mas depois vingas-te. 

Nos dias de hoje continua para mim evidente o papel deste tipo de rituais na consolidação de uma vida essencialmente amorfa e conservadora, desprovida de solidariedade e intervenção social e política, subordinada a todos egoísmos e disponível para todas as manipulações. Aliás, a evidente ausência do movimento associativo estudantil da conflitualidade dos dias de hoje e a fácil proliferação das “jotas” nessas estruturas, tanto mais eficaz quanto diminui a participação dos estudantes em qualquer actividade que não seja lúdica (numa recente eleição na Universidade do Porto para um universo de 32000 estudantes participaram 2000, em contraste com uma muito maior mobilização dos professores num processo eleitoral do mesmo tipo), acompanham a generalização da submissão à praxe. De facto, a praxe mata, às vezes o corpo, mas sempre a cabeça.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

As vidas e as voltas de Isabel do Carmo


Isabel do Carmo foi, para mim, referência de escândalo e animosidade aquando do 25 de Abril. Soube que estivera presa pela Pide, (o que, para todos os efeitos lhe trouxera, como aos demais, a aura própria para a projecção seguinte), que fora revolucionária ferrenha, partidária de um governo revolucionário que virasse de vez a burguesia para espalhar a sua justiça, alcandorando o povo ao lugar cimeiro que lhe pertencia, provavelmente na redução e humilhação burguesa, pois que, para ela, na sua juventude, só existiria o povo, longo tempo humilhado e sacrificado. Era disso que falavam as baladas do Zeca Afonso, no “menino sem condição, irmão de todos os nus” convidando-o a tirar “os olhos do chão”, a vir “ver a luz”, e os doestos contra os “eles” que “comem tudo e não deixam nada”. Além de idêntica matéria nobremente defendida pelos escritores neo realistas, segundo intriga de contraste entre os ostracismos dos poderosos e as desventuras dos impotentes. Tudo boa gente, que desejava o bem dos pobres, já o próprio Guerra Junqueiro se fartara de o declarar mas mais liricamente, tal como o António Nobre e o Augusto Gil, só o Cesário se revoltava com as penúrias que observava, que, ao que parece, foram estigma da nossa condição, embora ainda há pouco uma rapariga do leste europeu com olhos lacrimosos me tenha mamado 50 cêntimos, como nós sem vergonha de pedir, provavelmente também educada nos registos de permissividade mendicante, que não há quem combata tais desvios da dignidade humana, se é que me é permitido fazer juízos de valor. Mas uma sociedade que se permite espoliar sem vergonha pode bem permitir-se o direito de pedir sem vergonha, que afinal tudo isso faz parte da natureza humana, já dentro dos preceitos bíblicos, onde até há bons ladrões que merecem o céu e bons samaritanos que salvam os assaltados, dentro da máxima de Cristo de que é preciso amar o próximo.
Mas o próximo para Isabel do Carmo e compinchas limitou-se naquela época apenas aos oprimidos e esqueceu todos os outros, mesmo que não tivessem sido opressores e apenas gente que lutava pela vida com o suor do seu rosto, como era seu dever, preceito igualmente bíblico, da etapa seguinte à dos tempos edénicos.
A Isabel do Carmo pós revolucionária, que certamente a vida própria tornou mais comedida, apesar de manter as ideias feitas, como, aliás, quase todos nós, sobre as vantagens das descolonizações, por exemplo, desinteressada das consequências fatais para tanta gente que aquelas provocaram, embora não se tratasse da gente que ela defendeu, e por isso inexistente para ela, como para quase todos nós, vem a terreiro atacar uma certa direita que se dispôs a inviabilizar a formação de um partido “3 D”, partido que pretende modernizar o conceito de esquerda, considerando esta já sediça e sensaborona, sem ideologia a não ser a mesma de sempre, visando os mesmos parâmetros de ataque à falibilidade dos que governam, os quais não defendem “os interesses dos trabalhadores” como deve ser. É um artigo que historia a acção da esquerda ao longo dos tempos, na conquista de direitos, suponho que incluindo o de co-adopção por casais homossexuais, (embora estes não venham nas parábolas bíblicas), mas não se coibindo de condenar a esquerda estalinista, esquecendo os crimes anteriores, do assassínio do czar Nicolau e toda a família, continuando por Lenine... Pateticamente, Isabel do Carmo reserva-se a exclusividade dos bons sentimentos, atribuindo à direita a urgência de extermínio dos velhotes e outras vilezas.
Saiu no Público de 19/1, intitula-se «Manifesto 3D, a esquerda e uma certa política»:
«O manifesto 3D tem incomodado muita gente e nomeadamente uma certa direita. Uma direita cínica, displicente, dizendo-se pragmática, que não é conservadora no sentido tradicional, que não acredita em nada nem nela própria. Contraditoriamente é muito firme sob o ponto de vista ideológico, sendo que essa ideologia é a base estrutural na qual se baseia o sistema financeiro económico que nos domina.
Perturbando-se com o Manifesto 3D, o que só o dignifica, resolveu denegrir toda a esquerda, no sentido actual e no sentido histórico, dando-a por morta e enterrada. Em relação a Portugal, a porta de responsabilidade dos consideráveis só a abre ao PS se este entrar em compromisso com a direita, isto é, se em próximas eleições legislativas o PS ficar numa posição que o leve a acordos governamentais ou parlamentares com o PSD/CDS. Esta seria uma grande desgraça para o nosso país. Teríamos a continuação da mesma política actual um pouco mais adocicada, mantendo o emaranhado de compromissos na Europa e em Portugal. Ou seja, o “statu quo”.
Historicamente, a esquerda ou tal como se designava tem de facto páginas muito negras no seu passado. E muito mau será se aqueles que hoje se consideram de esquerda não proclamem tantas vezes quantas são necessárias que repudiam e denunciam as várias formas de estalinismo, para usar uma designação genérica que abrange muito mais do que uma só criatura. Tal como se passa com a Inquisição e os seus continuadores na Igreja Católica, não há “contexto histórico” que os absolva. Podemos pois falar claro sobre o presente e o passado. E poderemos então ver de que lado funcionou de facto a esquerda depois de se sentar desse lado na assembleia durante o período da Revolução Francesa.
Foi a esquerda que lutou contra a escravatura foi a esquerda (as mulheres e alguns homens) que lutou pelos direitos das mulheres, foi a esquerda que descreveu as condições miseráveis dos trabalhadores durante a Revolução Industrial (Flora Tristan em França e em Inglaterra, Engels em Inglaterra.), foi a esquerda que pôs em romance as diferenças de classes e a revolta (Victor Hugo e tantos outros), foi a esquerda que lutou pelas 8 horas de trabalho e depois pelo “weekend”. Foi a esquerda (partido Trabalhista na Grã Bretanha) que criou o primeiro Serviço Nacional de Saúde (a lei de Bismark era apenas de “caixas” para quem trabalhava), foi a esquerda que organizou a resistência apo nazismo nos países ocupados, foi a esquerda que lutou contra o apartheid (só agora é que são todos admiradores de Mandela). Foi a esquerda que lutou contra a ditadura em Portugal, foi a esquerda que derrubou as ditaduras da América Latina.
Quando hoje alguns de nós nos sentimos motivados para apelar à unidade da esquerda é antes uma questão ética.
Não somos nós que inventamos, são números oficiais que nos mostram que um quarto da população portuguesa está em estado de pobreza e que trezentos mil portugueses da população activa não têm trabalho, não virão a ter, não têm subsídio de desemprego ou não virão a ter. o que é que lhes querem fazer? Exterminá-los? Pô-los em fila à porta das instituições de solidariedade? No fundo fazem sentir-lhes que são inúteis, tal como os  reformados. Se não existissem era melhor.  Nas prática procedem como se eles estivessem a mais na vida. Ou achem que eles podem ser todos “empreendedores” e “subir por mérito”? ou então que têm todos um QI baixo como disse a 27 de Novembro o presidente da Câmara de Londres? Estamos num alto (será o máximo?) do desprezo da direita pelos seres humanos.
O momento é de urgência. Por isso a esquerda tem que se deixar de eleitoralismos, de protagonismos, de protagonismos identitários. Tem que engolir elefantes ou mesmo dinossauros. O povo cujo coração bate à esquerda, como é próprio dos corações, é muito mais amplo do que as direcções (estimáveis) do BE, do Livre, do PC, do PS e dos interesses individuais e/ou colectivos.
 
  Quando o grupo ad hoc que promoveu o Manifesto 3D se formou, e depois cresceu para 5000, foi exactamente para unir a Esquerda correspondente ao povo da Esquerda, não foi para sermos o “rés-do-chão esquerdo” ou o “oitavo esquerdo”. Para nós, que já tivemos tantas vidas seria mais cómodo ficar a ver a banda passar.
 
A alternativa tem que passar por uma grande volta! E ou a esquerda dá essa volta ou vamos caminhando para barbárie.»
 
 
Ainda bem que Isabel do Carmo revela conceito tão optimista sobre a repressão da barbárie como proveniente da “volta” da “esquerda”! O certo é que esta, não sei por que carga de água, se chamou “sinistra” em latim.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

“Falso moralismo”


Foi a designação que captei há dias, numa “mesa redonda” presidida por José Gomes Ferreira, e onde se discutia a questão das praxes académicas e das intenções de Nuno Crato a respeito da problemática criminal que as envolve. Creio que a designação de  “falso moralismo” de um defensor das praxes pretendia atingir Daniel de Oliveira que, julgo, (comecei a ver o programa já no seu final, com pena de o ter perdido), se revelara antipraxista, certamente com argumentação da sua lucidez habitual, o que não foi atendido – nem entendido – pelo pró-praxista, que entende que as praxes académicas servem de escola de solidariedades e interapoios não sei se para a vida, o que me parece piegas, falso e utópico.
Ontem ouvi também a reportagem de uma entrevistadora da Sic, com um “ex-dux” a defender o “dux praxis” da noite assassina no Meco, mostrando a inocência do dux, o azar dos praxados, as boas intenções de todos de se divertirem como manda a praxe, não falando, todavia, nas lautas comezainas que prepararam para o efeito, como fora revelado antes. Mas os telejornais transmitiram igualmente as denúncias de uma mãe, cujo filho morrera anos antes, supunha ela que por efeitos de maus tratos de extrema gravidade a que fora submetido pelo condutor-mor da praxe.

A pessoa que utilizou a expressão “falso moralismo” dos antipraxistas defendia, pois, liricamente, a escola da solidariedade segundo a que implicavam as praxes de Coimbra, que, todavia, já a “Geração de Setenta” atacava no seu ensino universitário bolorento e Verney, no século XVIII, condenava como atentatórias da dignidade dos iniciantes nos cursos, e como processo de os veteranos poderem abastecer os seus estômagos a coberto das regras praxistas que os autorizavam a chantagear e a impor a sua autoridade sobre os tais.

Uma sociedade, pois, miserabilista sempre a nossa, quer se tratasse das classes iletradas quer das que se iam ilustrando por meio de truques sórdidos que Verney denuncia no seu epistolográfico “O Verdadeiro Método de Estudar”. Embora hoje não se trate disso, já que hoje vivemos inquestionavelmente mais opulentos. As praxes que na Coimbra dos meus tempos impunham regras de comedimento caloiral, com proibição de saídas nocturnas à Baixa, ou as cabeças rapadas à escovinha, pouco afectariam os que se lhes sujeitavam, o que não foi o meu caso, sempre independente a imposições que repugnassem ao meu conceito de liberdade. Sabia dos sacrifícios dos meus pais para me proporcionarem o curso, achava que a minha função como estudante era estudar, embora não me tenha eximido a participar nas tarefas de solidariedade, como a de fazer flores de papel para o carro da Queima das Fitas e outras próprias da mundanal vivência.

Às praxes académicas, desinteressantes para mim, já nesses tempos, me referi em texto que publiquei em livro, de que transcrevo excertos, por me parecer que denunciam em parte a mediocridade da condição social portuguesa que, devido a factores evolutivos propícios, descambaram em práticas de infâmia e crime, a que pretendemos fechar os olhos, imbecilmente preferindo acusar de “falso moralismo” a atitude dos que entendem de forma diversa e desejariam eliminar tais práticas, como índice de atraso grotesco e mândria, além de sintoma grosseiro e cobarde de domínio de alguns adeptos sobre os mais fracos:

 

«Variações sobre o mesmo tema»

«….. Somos, em suma, um povo espirituoso, que manifesta o seu espírito de variadas maneiras. ….

Também são muito engraçadas aquelas praxes académicas usadas lá por Coimbra, do domínio dos veteranos sobre os caloiros. Acho que elas contribuem utilmente para controlar os meninos da mamã num necessário sentido de humildade e de perda de rebeldias.

Mas ainda não há como as “touradas” académicas para mostrarem todo o nosso sentido de humor! A primeira lição dada por um ilustre catedrático após o seu doutoramento é assistida por um público cheio de espírito, revelado nas perguntas e imposições claramente demonstrativas de enorme inteligência e a que o catedrático tem forçosamente de se submeter.

Sempre me intrigou este nome de “tourada”, mas só depois de ter assistido no corredor à passagem do pobre professor pálido e aterrado para a sua sala de aula e ter ouvido depois os urros lá dentro pelos tais indivíduos assistentes e espirituosos que a coberto da impunidade da praxe se permitem todas as liberdades cobardemente ofensivas, compreendi a razão do termo.

Ainda e “já que estamos nas covas do mar” diria um Vieira elegante, ou “com a mão na massa” digo eu com idêntico “à propos”, um outro aspecto que sempre estranhei lá pela douta Coimbra, foi a facilidade com que os estudantes saíam da sala de uma conferência, em meio desta, deslizando subrepticiamente para o exterior. Se assim faziam é porque sabiam mais do que o professor conferencista, era a minha imediata dedução e admirava-lhes a elegância de atitude demonstrativa de um adiantadíssimo estado de civilização. De facto só as pessoas civilizadas se podem permitir gestos destes, soberanos e desdenhosos.

É isso com certeza que explica igualmente o sentido de oportunidade com que nos cinemas sabemos lançar a chalaça ou a gargalhada, comentando as andanças do filme.

Quanto me orgulho, pois, da nossa vibratilidade, pronta reacção e expressividade vocabular e de actuação em todos os campos!» (Prosas Alegres e Não”, 1973)

 
Mas outros artigos mais precisos de indignação e referências pontuais merecem a atenção e não resisto a transcrever os dois que colho no Público. O primeiro é de 25/1, de Vasco Pulido Valente:

«Igual à Máfia?»
«Os seis mortos da praia do Meco (e o único sobrevivente dessa excursão nocturna) frequentavam a Universidade Lusófona. Todo o mal vem daí.


As dúzias de instituições que se declararam “universidades” não tinham qualquer espécie de semelhança com a verdadeira coisa. Os professores eram, de maneira geral, pequenas personagens do antigo regime, muitas sem qualificação bastante e quase todas para além da idade de aprender e mudar. A maioria do chamado “corpo estudantil” fora antes rejeitado pelo Estado e pagava uma exorbitância pelo “ensino” que recebia. Cada “universidade privada”, fosse de que forma fosse, acabava por se tornar um negócio, a favor de obscuras direcções que não dependiam de nenhuma autoridade idónea. Mas, no meio disto, precisavam de prestígio.

 Para o “prestígio” escolheram eventualmente três caminhos: grandes cerimónias, imitadas de universidades medievais; trajos de professores, de grande pompa e circunstância; e uma total liberdade para as praxes. Numa altura em que pelo Ocidente inteiro se abandonavam as “praxes” pela sua brutalidade e pela sua absoluta falta de sentido no mundo contemporâneo, Portugal adoptou com entusiasmo essa aberração. Tanto as direcções como os professores não abriram a boca e menos puniram os delinquentes, que de resto não se escondiam e até se gabavam. Do Minho ao Algarve nasceu assim uma nova cultura, cada vez mais sádica e tirânica, que variava na proporção inversa da qualidade académica da instituição em que se criara. Nas cidades chegou ao seu pior.

 Parece (não garanto) que a PJ descobriu que os mortos do Meco estavam a cumprir um ritual “praxístico” sob a direcção de um dux (um nome roubado a Coimbra), quando foram arrastados por uma onda. Parece também que nenhum deles trazia consigo um telemóvel, provavelmente para impedir que pedissem protecção, se o dux ultrapassasse as marcas. Entretanto, corre por aí que essa personagem sofre de uma “amnésica selectiva” e que nenhum aluno da Lusófona revelou ainda à polícia as regras secretas da “praxe” local (“Grande Conselho” incluído). Pior do que isso, na Internet já apareceram ameaças a quem “falar” tal e qual como na máfia. O sr. ministro da Educação, depois de tantas trapalhadas, devia agora tratar da sua enegrecida reputação com um gesto limpo: fechar a Lusófona e punir os responsáveis que deixaram crescer a barbaridade das “praxes”».

 O segundo artigo, de 28/1, é de João Miguel Tavares:

«A casa dos animais»

«Parece-me muito bem que universidades e ministro estejam preocupados com a violência das praxes, mas talvez comece a ser altura de envolver as famílias no assunto. É que os estudantes universitários são adultos, mas não são independentes, e diferente seria se os pais tomassem consciência das figuras tristes que os seus filhos andam a fazer, em vez de se comoverem de cada vez que os vêem de capa e batina.

 Deixemo-nos de paninhos quentes: nenhum jovem bem formado aceita participar na humilhação organizada de alguém que é mais fraco do que ele. Ponto final. E em relação às tretas da “tradição” e da “integração”, os “dux” e as “papisas” que criem os seus próprios grupinhos fetichistas e deixem os desgraçados dos caloiros em paz.

 Aliás, confesso a minha dificuldade em continuar a escutar a palavra “integração” saída da boca dos defensores das praxes, como se eles fossem os filantropos do excremento e da roupa interior. Se só querem estender os braços aos novos alunos e promover um momento divertido, organizem um beberete. Parece-me uma forma mais higiénica de ajudar jovens de 18 anos a conhecerem-se, até porque eles costumam ter muitas dificuldades nisso. Portanto, caros praxistas, tentem arranjar uma desculpa menos parva para aquilo que verdadeiramente vos põe a adrenalina a correr – aquela sensação, velha como o mundo, de exercer um poder discricionário sobre um grupo de miúdos indefesos e assustados. Sim, há aqui uma antiquíssima tradução. Bárbara e repugnante, mas uma tradição, ainda assim.

 Claro que o assunto das praxes é como os fogos de verão; vai e vem consoante os anos, e aquilo que arde e morre em cada a estação. Nada irá mudar por causa das mortes do Meco, porque as praxes – lá está – existem desde que alguns seres humanos descobriram ser divertido humilhar outros seres humanos. E isso foi há muito tempo. Mas a investigação de Ana Leal, na TVI, teve o mérito de revelar algumas práticas dos membros do Conselho de Praxe da Lusófona, cuja descrição me parece aproximá-las mais dos rituais das famosas “fraternities” com nome de letras gregas das universidades da Ivy League do que propriamente de alguma coisa portuguesa. Portanto, neste caso, a tradição é, além de bárbara e repugnante, americana e muito queque.

 Isto não é uma coisa de universidades fajutas e mal frequentadas. Os excessos das repúblicas da Ivy League, cujas práticas fazem muitas vezes parecer as da Lusófana uma brincadeira de crianças, também ocupam espaço nos jornais americanos, até porque todos os anos costuma morrer alguém. John Landis já fez o favor de retratar tais ambientes há 35 anos, num filme de culto de 1978 sobre a “fraternity” Delta Tau Chi, sintomaticamente intitulado “Animal House”. Em Portugal ele chamou-se (ainda mais sintomaticamente) “A República dos Cucos”, uma tradução pueril para um filme cuja máxima nada tinha de inocente: “We can do anything we want . We’re college students!”

 A irresponsabilidade do universitário que aprecia a praxe tem muitos anos e uma razão de ser: a perpetuação de um espírito de casta. Essa espécie de gente começa a praticar a humilhação ao próximo na universidade para depois poder continuar a praticá-la nas Goldman Sachs desta vida, onde a lei do mais forte invariavelmente impera, e é preciso baixar a cabeça para os que estão em cima e pisar o pescoço dos que estão em baixo. Porque isto, de facto, anda tudo ligado. Como é da tradição.»



Nos tempos antigos, a importação das modernidades culturais provinha dos países europeus, com especial relevo para a França, de que já Eça afirmava que a bebíamos desde a infância, e até nos chegava aos pacotes pelos caminhos de ferro que cruzavam os Pirenéus. Agora– banido o estudo do francês dos nossos bancos escolares, é antes a filmografia americana ou outra que nos fornece os saberes – filmes forjados, filmes reais para que, aliás, a internet, nos possibilita de imediato a informação das nossas parcas necessidades formativas que descambam em rituais ou nas solicitações do nosso “carpe diem”.