segunda-feira, 2 de novembro de 2015

«Quem faz um filho fá-lo por gosto»!?



Já várias questões tínhamos tocado, toques ligeiros, não direi de puro afloramento, que, para borboletas, já se nos foi a graça por elas emprestada ao seu repasto floral, e nunca, ai de nós, poderíamos equiparar-nos à leveza dos passos da Leonor do Rodrigues Lobo, com poderes de autêntica magia revitalizadora das verduras, pesem embora os exageros retóricos da sua sensibilidade a tender para o barroco:
As flores, por onde passa,
Se o pé lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem cor,
E de vergonha com graça;
Qualquer pegada que faça
Faz florescer a verdura:
Vai formosa, e não segura.
Até para equiparação, porque somos todas dadas aos trabalhos caseiros – a nossa amiga menos - e eu própria jamais poderia aspirar a um prémio dos que sempre distinguiram as mulheres autênticas, no amor do lar - mas a minha irmã em tudo o que toca cria beleza e sabor, coisa que chega para nos abranger às três, daí que, se não poisamos quais borboletas ou pés mágicos de Leonor, não se nos daria de sermos equiparadas a abelhas operosas sugando néctar para a colmeia, que até é mais consistente e generoso do que o que a borboleta absorve em proveito próprio.
Afloráramos a política, esperançadas em Francisco Assis, ao que ouvíramos, decidido a intervir para favorecer a coligação da direita, que é como quem diz, o país, que a Catarina, para obter simpatias a favor da sua, da esquerda, vai repetindo monocordicament - direi mesmo, apatetadamente, o nosso ofício de obreiras não nos favorecendo a expressão oral – que vai repor ordenados, descongelando-os etc., como primeiro passo dos seus acordos com Costa e o outro PC que ela derrotou, mariposa sortuda.
Outra questão que pus na mesa do nosso prândio foi a dos vencimentos dos locutores televisivos, segundo email que recebi, que chegam aos 40.000 euros mensais do vencimento do Goucha, muitos acima dos 30 mil, mas todos eles superiores aos 10 mil, ordenados esplêndidos em programas cujos apresentadores têm de repetir exaustivamente a necessidade do toque telefónico de 6o cêntimos com IVA, para o prémio diário. Mais do que abelha, senti-me no papel de vespa avançando sobre os programadores televisivos que reduzem a sociedade portuguesa a ouvintes cretinos, e os coitados dos locutores a oradores de feira, simples vendedores de banha de cobra, para poderem auferir desses vencimentos obscenos, num país que a Catarina chama de gente com fome e por isso faz questão em repor o que foi tirado, sem explicar onde o vai buscar. Como é possível descer-se tanto de nível, sem qualquer respeito pela formação desse povo, na lorpice de tão cansativos apelos de 60 cêntimos e mais IVA?! E os programas até pretendem ser culturais, mostrando aspectos e empreendimentos das terras, mas sobretudo o esplendor das comidas, das coxas das donzelas dançarinas, e a profusão carinhosa dos beijinhos para as famílias.
Todas nos passámos um pouco com estas referências, mas a conversa desandou, (depois da sobre os migrantes com cenas de arrepelar os cabelos), para os telemóveis, um instrumento que, segundo a nossa amiga, até já serve para pagar as contas,  sem necessidade de cartão multibanco, o que me deixou de boca aberta, momentaneamente livre de libações.
E fez um gesto com as mãos, gesto de quem folheia a caixinha mágica, a marcar o número:
-No futuro, será assim: Quer um filho? Vai ao telemóvel e escolhe.
O Ari e a Simone não passam de uns anjinhos, Santíssimo Sacramento! Como diria a minha mãe...

domingo, 1 de novembro de 2015

Passar a pasta, na conferência



Cada cidadão um actor político, diz Vasco Pulido Valente que disse o filósofo Jürgen Habermas, e que Varoufakis reproduziu por cá, em conferência a respeito da transformação da Europa numa democracia radical. Isto é que são termos sonoros, tais como os de rasgar compromissos, ou da falência portuguesa idêntica à grega, no que eu acredito porque nunca tivemos magnatas como Onassis que sempre trouxe prestígio e um poder de grande calibre à Grécia, embora, é certo, tudo acabe em poeira, a qual se iniciou já depois do Big Bang, nas nebulosas interestelares, de gases e poeiras (e estrelas), há milhares de milhões de anos de nós, que não lhes somos inferiores e por aqui andamos neste giro universal, de poeirada à mistura, pese embora outros sentidos que se lhes possam atribuir como se escreveu na Bíblia, com o seu “pulvis es”, ainda na ignorância do Big Bang.
E agora, para sermos diferentes, segundo nos conta Varoufakis, que não quer ser sozinho a arcar com a tal vileza de usufruir do alheio e não pagar, e porque o mandaram embora do seu governo, onde se fartou de largar “boutades” bastante desonestas, de que naturalmente a Europa discordou, vem cá, a um país que não admira, para passear a sua pose e a sua desonestidade para quem o quiser ouvir, difundir a sua tese da democracia radical, de exploração do suor de quem trabalha, que é quem empresta. Temos por cá muitos como ele. Poseurs, digo. Ou Varoufakis de um glu-glu tão ridículo como esses a quem vem largar os seus saberes. A ver se pega, que somos mansos no perceber, mas bravos num agir que aparente favorecer-nos.
De resto, Vasco Pulido Valente tem a razão toda a respeito das misérias a que vamos assistindo por cá, nesses partidos que tanto grugulejam, em infinito despudor, rãs nada entendendo, mas aspirando ao tamanho do boi.
Leiamo-lo:

E depois do recreio?
Público, 25/10/2015
Depois de terem espremido tudo o que puderem de António Costa, ou seja, do Estado, ou seja, do contribuinte, onde ficarão o Bloco e o PC? Deixaram pelo caminho as causas e os símbolos que os distinguiam (a hostilidade à NATO e à Europa) a troco de alguns ridículos remendos na interminável miséria do país. Fizeram grandes discursos para desabafar. Insultaram o Presidente e a direita. Espalharam um bom saco de calúnias. E o resultado? O resultado não foi nenhuma espécie de libertação e eles, como os portugueses, continuarão presos ao mecanismo que tanto odeiam. A “esquerda” acabará por pagar este recreio que o dr. Costa inventou. Saíram das suas cavernas, respiraram fundo e conseguiram mesmo uma vaga impressão de poder, que de certeza os regalou muito.
Mas, fora isso, não chegaram a parte alguma e, entretanto, produziram um desastre, que imediatamente lhes baterá à porta. Não admira que não ligassem nenhuma a Yanis Varoufakis que por cá apareceu a pretexto de uma conferência. Mais sóbrio e sorridente, Varoufakis disse três coisas que, na sua actual excitação, a “esquerda” não queria ouvir. Primeira: que Portugal estava tão falido como a Grécia e que não se podia salvar com um pequeno conserto. Segunda: que é preciso uma “conversa” séria para eliminar esta “crise” e “acabar a austeridade”. E terceira: que Portugal deve rasgar os “compromissos” que não é capaz de cumprir. Para Varoufakis, o problema, no fundo, só se resolve com uma revolução europeia, mais precisamente com a “democratização” da Europa.
A ideia não é boa, mas não é tão má como a “interpretação inteligente” dos tratados, congeminada por António Costa (o Bloco e o PCP, que se saiba, não pensam). Varoufakis copia nesta matéria um dos gurus da “esquerda” o filósofo Jürgen Habermas. Habermas também acha que a sobrevivência da Europa está numa democracia radical, que transforme cada cidadão num actor político, desde a rua ou aldeia em que vive até aos soleníssimos píncaros do Estado. A privacidade sempre se dissolveu (e o terror prosperou) nessas fantasias, mas não me parece que o filósofo se importe muito. O que lhe falta, e é pena, é um povo europeu para “democratizar”; uma cidadania devota que sustente um “patriotismo constitucional”, como ele julga que sucede na América. De qualquer maneira, Varoufakis e Habermas fazem algum sentido. O Bloco e o PCP não fazem nenhum.

sábado, 31 de outubro de 2015

«Olhe que não! Olhe que não!»



Um artigo de Vasco Pulido Valente mostra preocupação pelo bem-estar do PCP, caso Jerónimo de Sousa continue amarrado aos chavões do seu mestre Cunhal, que exigem a alteração das leis laborais, como já nos tempos do PREC se conseguiu, todos temos isso presente. Julgo que Vasco Pulido Valente não quer a extinção do PCP, que para todos os efeitos tem um herói no seu currículo, cujos amigos de Peniche desses tempos o salvaram da prisão no Forte, dando-lhe possibilidade de voltar anos depois já herói consagrado e criador de novas leis laborais, sobretudo para os trabalhadores do seu conceito, todos os outros não passando de uma cambada de exploradores ou de serventuários do capital.

Um erro sem desculpa
Público, 30/10/2015
Já muito mais tarde, por volta de 1990, conheci pessoas que tinham trabalhado com Álvaro Cunhal durante o PREC e durante os primeiros governos constitucionais. De tudo o que me contaram, o que mais me espantou foi o facto de Cunhal persistir em acreditar que o regime estabelecido era (para usar o calão da seita) uma “democracia avançada” e não uma “democracia burguesa” como em toda a Europa. Ao que parece, Álvaro Cunhal fundava esta inesperada ideia na Constituição, que no preâmbulo falava em “socialismo” e dava por adquiridas as leis laborais de 1975, a reforma agrária, as nacionalizações “irreversíveis” e outras maravilhas. Como considerava a Constituição eterna e a sociedade imutável, não pensou na fragilidade do equilíbrio em que assentava a sua consoladora visão das coisas. Os desgostos não tardariam a chegar. Mas, pensando bem, para quem conhecia a história da ortodoxia comunista desde 1917 as fantasias de um pequeno chefe num país distante tinham, e continuavam a ter, dezenas de precedentes. Para compreender Jerónimo de Sousa, é preciso compreender isto. O PCP não está condenado pela “austeridade” do Governo de Passos Coelho. O PCP está condenado pela sociedade em que hoje vai vivendo, reduzido a uma velha área de influência geográfica, constantemente ameaçada, e aos sindicatos dos transportes, de que o Estado, contra a razão e o bom senso, ainda é proprietário. A aliança de Jerónimo de Sousa com o PS é uma aliança defensiva, um episódio já obscuro da “luta pelas conquistas de Abril”, condenado tarde ou cedo a falhar como sempre sucedeu.
O PC resolveu pagar ao PS com o seu apoio (muito condicionado, de resto) a revogação das leis laborais da coligação, a permanência dos transportes na esfera pública e algum alívio transitório para aqueles a quem Jerónimo quase deixou de chamar “trabalhadores” e trata agora por um eufemismo burguês, particularmente equívoco: “Os mais frágeis”. Volta assim à política de cegueira e de imobilismo que o distinguiu desde Novembro de 1975. Só que desta vez corre um risco muito mais grave. Se por causa do Governo de António Costa as condições gerais da economia piorarem, agravando a pobreza da sociedade e do Estado, o PC perderá o que tem; os benefícios que o PS lhe der; e também na enxurrada o persistente respeito dos portugueses pela sua fidelidade a si próprio: um erro sem desculpa.

Eu até, para animar Jerónimo de Sousa, que poderá responder sempre a Pulido Valente como fez Cunhal a Soares – “Olhe que não!”, mesmo sem ser em duplicado, por reverência ao amo e modéstia própria, respiguei da Internet algumas sentenças de Álvaro Cunhal, que serão música celestial para os adeptos desse ideário que vamos ser obrigados a seguir na nova era que se avizinha, embora faça ainda parte da Cenozóica em que nos situamos, bem aconchegados no período Quaternário, das grandes realizações humanas:

Do seu livro: «Acção Revolucionária, Capitulação e Aventura» (1967)
«A construção de um Portugal democrático será gravemente limitada ou mesmo impedida se os monopólios estrangeiros continuarem sendo reis e senhores de Portugal. A construção de um regime democrático deve significar a libertação do imperialismo estrangeiro e a conquista da real independência nacional. »
«Os imperialistas estrangeiros têm nas suas mãos os principais recursos nacionais, predominam no mercado interno e dominam o comércio externo, vendem-nos caro e compram-nos barato, pilham as nossas riquezas, exploram o nosso trabalho e reduzem Portugal à condição de um país dependente e semicolonial. »
A política de exploração, opressão e terror da ditadura é a política de protecção dos interesses monopolistas. Só eliminando o poder dos monopólios poderão as riquezas nacionais ser aproveitadas em benefício do povo e da nação, poderá ser dado um impulso ao desenvolvimento económico no quadro da liberdade e da democracia, poderá elevar-se o nível de vida das classes trabalhadoras e do povo em geral.
Liberdade
Nem todos quantos estão dispostos a lutar pela liberdade estão dispostos a lutar pelo socialismo, mas todos quantos estão dispostos a lutar pelo socialismo estão prontos a lutar pela liberdade.
Só dogmáticos podem pretender explicar a vida social, na sua extrema riqueza, diversidade e complexa e irregular evolução, com a aplicação de fórmulas imutáveis ou com a citação de textos.

De: «Discurso, Checoslováquia» (1967)
A luta pela paz e a segurança na Europa está também intimamente ligada à luta pela verdadeira independência nacional de todas as nações europeias. Posições económicas dominantes representam meios de influência e de intervenção na política interna de outros Estados e meios de pressão diplomática.
É também uma lição da história e uma evidência da actual situação internacional que as forças agressivas do imperialismo se apoiam sempre, além fronteiras, nos regimes e nas forças mais reaccionárias, apoiando estes por sua vez.
A existência de nações europeias privadas de uma verdadeira independência nacional é um factor prejudicial ao estabelecimento duma paz duradoura, além do mais porque essa situação de subjugação nacional não se revela apenas nos aspectos económicos, mas no domínio político, diplomático e militar.