sexta-feira, 3 de junho de 2016

Voltemos à vaca fria



Um artigo de Pedro Sousa Carvalho que historia, de forma simples e rigorosa, o definhamento progressivo em que a economia portuguesa está mergulhada, segundo os vários indicadores informam, contrariando as ficções em que andamos envolvidos pelos representantes pátrios, que, quais meninos brincalhões, mostram as armas não da sua fantasia, que lhes não é, naturalmente aceite, passada a idade de a sustentar, mas antes armas da sua grosseria e do seu desprezo por uma nação que naturalmente só pode pôr em causa o seu patriotismo e a sua eficiência, tanta a insolência e o mau gosto com que as aplicam. O assunto é grave demais para merecer essa chuchadeira de um brinquedo tosco a simbolizar as infinitas capacidades que um qualquer milagre poderia, mais delicadamente, demonstrar, por igual atoarda que fosse. De toda a maneira, a demonstração de António Costa não convence ninguém, mesmo que nos abismemos com a sua superioridade no conhecimento e manejamento  de vacas.

O animal spirits e a vaca voadora
Pedro Sousa Carvalho de Pedro Sousa Carvalho
Público, 02/06/2016
Quando chegou, António Costa prometeu um tempo novo. “Um tempo novo que traga crescimento e prosperidade, um tempo novo para as famílias e um tempo novo também para as empresas.” Esta semana começaram a chegar as primeiras estatísticas do INE sobre o “tempo novo” e não é que esse “tempo novo” é muito parecido com o tempo antigo?
As estatísticas do INE mostram a economia a desacelerar nos primeiros três meses do ano, com o PIB a crescer 0,9%, o que constitui um abrandamento face aos 1,3% registados no quarto trimestre de 2015. O que explica esta travagem? Portugal está a perder investimento a um ritmo expressivo. Este indicador, que no quarto trimestre de 2015 tinha registado uma variação homóloga de 4,4%, apresentou agora uma queda de 0,6%. Nos últimos 30 meses, o investimento aumentou sempre.
Sem investimento não há economia que aguente. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, costuma comparar a economia a um avião com quatro motores: as exportações, o consumo público, o investimento e o consumo privado. As exportações, ainda segundo o INE, abrandaram no arranque do ano para 2,8%, quando há um ano as vendas para o exterior cresciam 7,1%. O consumo público há muito estagnou e o investimento está a desaparecer. O consumo privado, graças à reposição de rendimentos, é o único que vai aguentando o avião no ar. É fácil perceber que com tantos problemas nos motores este avião não há-de suster-se muito tempo no ar.
Claro que há muitos que não percebem esta analogia dos aviões. Por isso falemos de vacas voadoras. Uma vaca voadora tem duas asas para se suster no ar. De um lado a procura externa (exportações – importações) e do outro lado a procura interna (consumo + investimento). Como as exportações estão a crescer pouco (2,8%) e menos do que as importações (4,6%), a asa direita da vaca voadora começa a tremelicar. E como a quebra do investimento, com o tempo, vai provocando uma erosão no consumo, a asa do lado esquerdo já começa a tremer. E quem acredita que existem vacas voadoras também tem de acreditar que há vacas que caem do céu.
Uma economia que dependa excessivamente ou quase exclusivamente da dinâmica do consumo privado está condenada a definhar com o passar do tempo. O consumo privado só estimula a economia no curto prazo e, quando não é acompanhado de investimento (que gera emprego e rendimento), rapidamente descamba em mais endividamento, no aumento das importações (que vai desequilibrar mais a balança comercial) e numa reduzida taxa de poupança que retira capacidade às famílias para ajudar a financiar as empresas (o que vai aumentar o défice externo). A taxa de poupança em Portugal ronda hoje os 4%, contra uma média de 12,4% na zona euro.
Com estes números, a previsão do Governo para um crescimento da economia de 1,8% já começa a parecer desajustada. É o próprio Mário Centeno que esta semana veio dizer que a concretização desse valor “está dependente da retoma do investimento". Já se percebeu que será uma questão de semanas até termos um orçamento rectificativo.
O Banco de Portugal também está a antecipar uma travagem a fundo do investimento este ano, cuja previsão passou de 4,1% para 0,7%. A OCDE é ainda mais pessimista, já que em Novembro previa que o investimento em Portugal crescesse 3% em 2016 e esta semana veio dizer que antecipa uma quebra de 1,5%. Os números do Governo apontam para um crescimento de 4,9%.
E por que razão é que os investidores deixaram de querer investir em Portugal? Quer os neoclássicos, quer a teoria keynesiana fazem depender o nível de investimento do produto marginal do capital e da taxa de juro. John Maynard Keynes, no seu livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, acrescenta um outro factor que influencia e de que maneira as decisões de investir dos empresários – o chamado "animal spirits”, ou seja, um impulso psicológico que está para além da análise quantitativa dos juros e da rentabilidade do capital que faz com que um empresário decida não investir num determinado momento. Essa decisão faz travar o emprego e a procura, conduzindo a um ciclo de recessão. Ao contrário dos neoclássicos que acreditavam na auto-regulação dos mercados, os keynesianos defendem a intervenção do Estado na economia, através do aumento dos gastos públicos, para inverter o ciclo.
Este "animal spirits” ("estados de ânimo") não tem nada que ver com vacas voadoras. É Keynes a introduzir na equação do investimento uma componente emocional ou de impulso que pode determinar ciclos económicos e gerar incertezas na evolução da economia. Por isso é que o economista e ex-governador do Banco de Portugal Jacinto Nunes descrevia a economia de Keynes como "a economia da incerteza".
É a incerteza que afasta o investimento. Ainda esta semana a OCDE veio dizer que “o investimento caiu de forma brusca e continua a ser um entrave para o crescimento, devido ao elevado endividamento das empresas, aos balanços frágeis dos bancos, à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto na execução de reformas”. Em relação aos dois primeiros pontos, os problemas não são de agora e são de difícil resolução – apesar de os bancos continuarem a dizer que têm dinheiro para emprestar aos bons projectos.
Já quanto à incerteza nas políticas e ao menor ímpeto nas reformas depende de o Governo desfazer essa imagem que tanto assusta os empresários e prejudica a economia. A OCDE não deixa de criticar, por exemplo, a suspensão da descida do IRC que “poderia dar um empurrão ao investimento e ao crescimento”, uma suspensão à revelia de um acordo alargado feito no passado recente entre PS, PSD e CDS. António Costa veio esta semana, perante uma plateia de empresários, pedir-lhes o seu envolvimento para a construção de "uma imagem e uma percepção de um país moderno, de um país de confiança. Só com confiança se conseguirá atrair mais investimento”. Mas a confiança não se decreta. Constrói-se.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

É só mais um



Respigo num Público já antigo mais um artigo sobre o sacramental AO da nossa impotência “apátrida”, que é como sinto que são tratados todos os que sentem quanto os “barões assinalados” com as “armas” que venceram Neptuno e Marte, figuras de retórica para embelezamento de um Canto clássico, deram lugar preferencial a um Mercúrio finório, deus mensageiro e ardiloso, do comércio e dos ladrões e outras trapaças que nunca chegaram a passar de moda, ainda que para isso, cá entre nós, que somos toscos, fosse necessário deturpar arbitrariamente a própria língua, coisa que não lembraria ao diabo, mas que lembrou aos nossos mercúrios de trazer por casa.
Não aquenta nem arrefenta, o artigo de Guilherme Valente, que os nossos mercúrios de trazer por casa são pecos no compreender, ao contrário do outro, que era vivo e ágil. Mas fica registado no meu blog, como de mais um “barão assinalado” pela sua coragem. E inteligência, naturalmente, embora apátrida na sua impotência transformadora da pequice.

A negligência na língua e na escrita é princípio da decadência dum país
Guilherme Valente
Público, 13/05/2016

A escrita não é uma arbitrariedade. Tem uma lógica, uma história, uma função, valor e importância inestimáveis.

"Patriotismo é o amor pela nossa Terra. Nacionalismo é o ódio à Terra dos outros"
Romain Gary
"É sempre um défice de pátria que atiça o nacionalismo, nunca um excesso"
Pascal Bruckner

1. A escrita não é “uma mera representação do idioma” (1). Nem é uma arbitrariedade. Tem uma lógica, uma história, uma função, valor e importância inestimáveis.
A gramática, a sua nomenclatura e terminologia também não podem ser o tricot com que os nossos linguistas alteraram recorrentemente os programas de Português. Talvez para fazerem passar por avanços de ciência o que na realidade não o é.
Mas a gramática e a sua nomenclatura têm também uma lógica e uma história.
Do mesmo modo que os Jerónimos ou a Batalha também não são a construção de lego com que uma criança possa brincar, ou mamarrachos que se possam alterar ou destruir à vontade. Nem a obra Os Maias pode ser trocada por uma versão facilitista, idiota dela. De facilitismo em facilitismo, de simplificação em simplificação, é inteligência que se atrofia e que matam.
A língua, organismo vivo, enriquecível pela interacção inevitável das culturas, não deixa de ser por isso a herança matricial que é, que tem de ser cuidada, ensinada e amada - escola é, sempre, a palavra-chave.
Por isso, a escrita, que reflecte essa natureza da língua, pode e deve ser actualizada. Mas no seu tempo e com critério, tocando-se nela com precisão cirúrgica, Porque tal sem ferir a sua lógica, sem quebrar o fio agregador da sua origem e da sua história. Como todos os outros elementos que referi, tal como a História, é constitutiva e constituinte duma identidade humana, que é, na sua universalidade, singular. Porque tudo o que somos, pensamos ou fazemos é resultado duma cultura, isto é, "duma compreensão do mundo historicamente adquirida". Que devemos assumir e de nos devemos orgulhar.

2. Se tivermos presentes os inúmeros exemplos da aberração, mais do que documentada, do Acordo Ortográfico, estas rápidas considerações que fiz deviam bastar para se ter consciência da monstruosidade que foi fabricada, decidida e tão célere e surdamente imposta.
Tão célere e surdamente que se impõe a pergunta metódica que deve ser colocada quando, entre nós, algo é decidido e imposto tão célere e surdamente: que interesses beneficiou este AO?
Devo declarar que muito boa gente lutou por este AO por muito boas razões, sobretudo de política cultural e mesmo económica, designadamente as relações, de vária natureza, com o Brasil, e a valorização da língua portuguesa na comunidade internacional. Na minha opinião, contudo, que os factos confirmam, não era correcta a avaliação que fizeram. E essas bem-intencionadas razões não deviam ter ignorado o desiderato que acima formulei.

3. Na verdade, depois de tudo o que recorrentemente foi sendo imposto na Educação, este AO era, e continua a ser na escola, a bomba atómica que faltava. Que ainda faltava, depois da mediocrização dos programas de Português, da liquidação da História e dos seus protagonistas, da ignorância das datas, do desaparecimento da Geografia, da estigmatização da literatura, da desvalorização do conhecimento substantivo e da cultura (colocaram a palavra entre aspas e estigmatizaram-na chamando-lhe "erudita"), depois da dissolução ou relativização de tudo o que nos torna Portugueses e, sem contradição, cidadãos do mundo.
Cidadãos do mundo, porque amar a nossa Terra não é incompatível, bem pelo contrário, com o sonho empolgante de podermos contribuir, com a oferta do que conseguirmos ser, da nossa diferença, para o progresso de todas as nações,
Argumentou Henrique Monteiro, no Expresso, que muitos milhares de miúdos já aprenderam as novas regras. Diz isso porque não tem reparado como escrevem hoje os alunos e... muitos professores. E está a esquecer os milhões de portugueses que não as aprenderam e nunca aprenderão. E se muitos miúdos as aprenderam, estão na idade perfeita para aprenderem o que deve ser ensinado.
Um dos danos mais profundos e irreversíveis deste AO, tal como acontecera com as sucessivas alterações absolutamente gratuitas na nomenclatura e na terminologia da gramática, foi separar os pais dos filhos, foi impedir que os apoiassem no estudo do Português. Como me aconteceu a mim há trinta e tal anos.
4. Não há Nação sem língua, sem escrita, sem escola. Sem memória, sem História, sem afectos. Que só o conhecimento pode gerar. Sem herança imaterial e material, que se ensine e se aprenda a reconhecer, a compreender, a valorizar criticamente, a continuar. A amar.
Não se “nasce” português, ou francês, ou chinês, qualquer um de nós, ser biológico, poderia ter nascido num lugar qualquer. E seria desse lugar. É-se verdadeiramente português, mais português, por se querer ser Português. Wenceslau de Moraes, por exemplo, escolheu ser japonês, e foi tão japonês, mais japonês, seguramente, do que muitos japoneses. Portugueses de Macau, como eu os conheci, mesmo sem nunca terem vindo a Portugal, são mais portugueses do que inúmeros cidadãos portugueses que aqui nasceram, cujos antepassados viveram desde sempre em Portugal.
Apagamento da História que foi fazendo com que as gerações que começam hoje a chegar aos 50 anos vivam, na generalidade, sem dimensão do passado, por isso sem sentimento do futuro. Num eterno presente em que só o egoísmo pode dominar.

5. Atente-se na língua e na escrita que cada vez mais frequentemente se ouve e se lê, em que tantas vezes se diz e se escreve exactamente o contrário do que se queria transmitir, na comunicação social ou nas universidades.
"A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu Pessoa. Neste sentido parece estarmos a tornar-nos rapidamente apátridas.
A negligência e a arbitrariedade com que se trata a língua e a escrita são o primeiro sinal da decadência de uma cultura e de uma nação.
Mas tudo depende da inteligência e da vontade dos homens. Por isso estou certo que Portugal será esse País por tantos de tantas gerações sonhado. Por isso combati persistentemente contra as ideias e os actos que livre e convictamente considerei adiarem esse desígnio, bem ao alcance dos Portugueses, não tenho dúvidas. Para que também nós, Portugueses, participemos de novo no destino de conhecimento e solidariedade que tem de ser o destino do Homem.
(1) Henrique Monteiro, Expresso, 7/5/16.
P.S.: Gosto muito de me ver representado pelo actual PR. O que não impede, naturalmente, que não subscreva a sua decisão de só intervir na questão do AO se este não obtiver a aprovação dos países que o não aprovaram.
Editor da Gradiva

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Aos oitenta…




Com o antetítulo «Fraco Consolo», a crónica de Pedro Mexia sobre a ficcionista e ensaísta inglesa (filha de emigrantes judeus) Jenny Diski, pretende ser de homenagem sentida – póstuma – a alguém que conheceu através dos seus ensaios que qualifica de “inteligentes, honestos e sarcásticos”. Leio o historial que a Internet apresenta sobre a escritora, “enfant terrible” dos anos sessenta, cujo ensaio “The Sixties  Pedro Mexia analisa de forma magistral. Ensaio sobre essa juventude febril e contestatária dos anos sessenta que revolucionou o mundo do sexo, das liberdades e direitos, das drogas com conceitos orientais disfarçadores, “como tentativa civilizacional de prolongar a vida”, que, aos sessenta anos, se encarou com mais rigor e objectividade, no falhanço dessas ilusões, que em nada mudaram a “bête humaine” de tradições literárias anteriores, talvez mais justiceiras ainda e mais comedidas, no primitivismo dos instintos básicos, do que essas outras do século XX da incontinência, da perversão, da provocação sem pudor, em espalhafatos de afirmação utópica, apesar da justeza de alguns conceitos. (O certo é que, perdidos os valores espirituais que ao longo dos tempos sublinharam os princípios da ética e da razão humanas, assistimos a uma revolução, sim, no sentido de uma desenfreada valorização pessoal na conquista do poder económico, quantas vezes fraudulento, por esses mesmos da contestação e da conquista sem esforço, com o espezinhamento das normas e dos que não têm igual pedalada evolutiva, que engloba tanto os que pretendem vencer por mérito próprio como os que desistiram de acreditar, por formas várias de actuação, que inclui o próprio mergulho na droga). Mas é pessoal, este meu discurso, condenatório na sua revivescência, como já o fora na sua vivência preocupada, em função de um cada vez maior desequilíbrio e insegurança das gerações seguintes, intuitos condenatórios que não figuram na intelectualidade do rigor analítico de Pedro Mexia, que transcrevo com muito prazer:

Os sessenta aos sessenta
Pedro Mexia
E, 21.05.2016                                                                                                
Lia com frequência os ensaios inteligentes, honestos e sarcásticos de Jenny Diski (1947-2016) na “London Review of Books”. Quando soube a notícia da sua morte tirei da estante um livrinho que é a cara dela: “The Sixties” (2009), memórias pessoais de uma década. Tinha a certeza de que não seria um manual de mistificações e nostalgias, nem o “mea culpa” de uma arrependida, mas antes uma análise sincera e desarmante de uma experiência, de um tempo: “Vivi em Londres nessa época, lamentando os Beats, comprando roupa, indo ao cinema, desistindo da escola, lendo, consumindo drogas, passando umas temporadas em hospitais psiquiátricos, manifestando-me, fazendo sexo, dando aulas».
Para Diski, os sixties tornaram-se “uma ideia”, ou sempre foram sobretudo uma ideia. Entendemos as épocas passadas de acordo com os testemunhos, os grandes eventos, uma certa narrativa que empresta coerência ao caos dos factos; mas os factos só contam metade da história. Diski prefere ater-se a uma grande “ideia, a ideia de que a década de sessenta consistiu numa tentativa civilizacional de prolongar indefinidamente a juventude; havia uma espécie de complexo de Peter Pan que conduzia à recusa de tudo o que fosse identificado com a maturidade, o conformismo, a reverência, o bom-senso.
Os jovens da década de sessenta queriam o hedonismo e a liberdade. E por isso defenderam como ponto de partida uma reconfiguração mental da realidade quotidiana através das drogas, as quais, protesta Diski, não eram uma aventura lúdica mas uma investigação filosófica. O guru Timothy Leary explicou: «A causa dos conflitos sociais é geralmente neurológica. A cura é bioquímica.” Segundo a escritora, as drogas representavam uma revolução mental, uma tentativa de abrir as portas da percepção a novas ligações e a novas dimensões, com laivos de espiritualidade oriental ou pseudo-oriental. As drogas funcionavam como uma experiência interior (como em Huxley). E a “expansão da mente” concretizava-se na excelente música que então se fazia, muita da qual “psicadélica”, dos Doors aos Jefferson Airplane e aos Love. Quanto ao sexo, Diski é bem mais céptica. Certamente que os anos sessenta fizeram muito pela autonomia  das mulheres ou pela aceitação da homossexualidade; mas a “libertação, na sua forma sexual, era uma nova forma de moralidade imposta”, escreve a ensaísta, tão estrita e tão repressiva como aquela que nós acusávamos os nossos pais de patrocinar”. O sexo é que era a verdadeira experiência lúdica: a “permissividade” consistia na  absoluta naturalidade do desejo sexual, sem pudores nem entraves, mesmo nos casos em que a vontade não fosse muita. Diski comenta, e isto traduzido não tem tanta graça: «It was difficult not to fuck someone who wanted to fuck you without feeling you were being very rude”.
O aspecto mais interessante do ensaio consiste aliás numa colecção de paradoxos. O paradoxo do colectivo por exemplo. A vivência típica da década atingiu sobretudo as pessoas de um meio burguês e urbano, geralmente com certo desafogo económico, e nesse sentido não foi uma experiência representativa: «Nem toda a gente em França estava a fomentar a revolução em 1789; só uma pequena parte da nova geração dos Anos Vinte pertencia aos “Bright Young Things”, e assim por diante. Nos concertos e nas manifestações, o sentimento colectivo prevalecia, mas as experiências de vida “comunais” falharam quase sempre, porque nunca foram ultrapassadas as noções de propriedade, privacidade, ciúme, sejam essas noções naturais ou não.
O segundo paradoxo é a permissividade. Por um lado, os fundamentos legais da sociedade permissiva foram instituídos por um ministro mainstream de meia idade, o liberal de esquerda  Roy Jenkins, que de 1965 a 1967 mudou diversas leis em matérias de costumes; por outro lado, o culto do indivíduo dos sixties transformou-se, uns anos depois, no individualismo radical do thatcherismo, de longe o legado que Diski considera mais nefasto.
O terceiro paradoxo tem a ver com a glorificação da juventude, quando a juventude é por natureza fugaz: “ser jovem é uma fase por que os velhos passam”. Nos anos 60, lutou-se por uma “civilização de jovens”, mas não se imaginou esses jovens com sessenta anos.