terça-feira, 5 de março de 2019

Homo homini lupus



Um texto poderoso de Clara Ferreira Alves que, sem rodeios nem qualquer propósito literato de confronto fabular, se serve de exemplos reais de análises do comportamento animal para o equiparar à actual conjuntura política estabelecida por um orgulhoso “Brexit”, mascarado inicialmente de oposições internas entre conservadores e trabalhistas ingleses, mas que há muito são denúncia do velho desdém de superioridade insular por um continente espartilhado hoje em múltiplos remendos, de nacionalismos colidindo com as generosas intenções iniciais dos fautores da U E, de que, provavelmente o UK desejará eximir-se a participar. Mas é um pensamento leigo, este meu, que nada tem a ver com a formidável diatribe de CFA contra um “Brexit” egoísta e pedante, de imprevisíveis consequências no seguimento da política unionista europeia. Ou mesmo da paz mundial, que, segundo CFA traz um tédio”. Daí que a ideia de uma guerra “tribal” não seja despicienda entre os “primatas” “humanos” neste impasse de expectativas e receios, ou, para muitos outros, apenas de apreciada “ponte de passagem para outras margens”, dos seus gozos pessoais.

Os Grandes Primatas
E, 02.02.2019
Há uns anos, fui ver um combate de muay thai, em Banguecoque. Muay thai é a arte marcial da Tailândia e conhecida como “a arte dos oito membros” porque faz uso dos ombros, pulsos, joelhos e pernas. Os combatentes são pequenos e ágeis, musculados, a força bruta parece excluída do combate. A ilusão desfaz-se em segundos. Cada round é violentíssimo e dura três minutos com dois minutos de descanso. O treino dos atletas é intenso e nem um músculo do corpo é desvalorizado. O golpe de pés é virtuoso. Tem tudo para ser um desporto que os espectadores apreciam e mobiliza as paixões e as apostas. Os combates e as técnicas de muay thai, com origem no século XVIII, dissolveram-se nas artes marciais mistas e nesses circuitos e campeonatos MMA. Na Tailândia, o muay thai é muito popular e os estádios estão cheios. Numa noite, vários combates seguem-se uns aos outros a alta velocidade. Fora das cordas, os apostadores berram e torcem pelos seus atletas e o barulho e a intensidade do desporto só podem ser comparados ao futebol. Não existe neutralidade no meio da gritaria.
No combate a que fui, nocturno, havia quatro ocidentais em milhares de espectadores. Três americanos e eu. Não participávamos da paixão colectiva, não conhecíamos os combatentes e as apostas, os favoritos e os ídolos. Nem conhecíamos as regras. O que nos interessava era o jogo acrobático. Não tínhamos por quem torcer. Não tínhamos tribo, equipa, grupo ou lutador. E sem ter por quem torcer, a coisa tornava-se monótona. Não se distinguia um combate do outro. Em qualquer jogo humano necessitamos de competição e sentido de presença. A tribo faz parte da sobrevivência e a paz traz um tédio. O problema do tribalismo, mesmo para individualistas que desconfiam do grupo e do colectivo, é que é mantido em controlo por mecanismos sociais que falham e quando falham a violência gerada é destrambelhada.
O espectáculo do debate parlamentar britânico sobre as emendas ao acordo do “Brexit” foi um combate marcial com golpes rápidos em curtos rounds. As tribos manifestaram-se e toda a discussão se manifestou em nós contra eles. Porque a primeira e negativa consequência do” Brexit” é que somos nós, os europeus, contra eles, os ingleses, e são eles, os ingleses, contra nós, os europeus. Já se ultrapassou a fase de conservadores contra trabalhistas, passámos para a hierarquia superior da disputa da supremacia territorial, e neste combate começa a não haver regras. Basta ler os comentários dos jornais e das redes. Estamos irremediavelmente divididos, zangados e hostis. A nossa tribo quer ganhar à outra tribo e toda a racionalidade se esvai na violência do combate. Estamos todos furiosos como convém. Entrámos em guerra.
A primatologista Jane Goodall estudou os chimpanzés a vida toda, deu-lhes nomes em vez de números, e durante muito tempo teve a ilusão de que eram muito parecidos connosco mas mais afáveis e decentes. Possuíam emoções, a capacidade de construir e utilizar ferramentas, o aue indica planeamento, e agiam socialmente de forma semelhante à nossa. Riam e choravam como nós, amavam os filhos. Até ao dia em que Jane Goodall viu uma tribo de chimpanzés lutar contra outra tribo e se apercebeu de que os mesmos macacos com quem trocava gestos afectuosos se convertiam em assassinos e torturadores. Até ao dia em que assistiu a uma guerra civil e os macacos que antes eram vizinhos e cúmplices se mataram uns aos outros sem piedade. Goodall perdeu as ilusões sobre a bondade do reino animal e deve ter perdido as ilusões sobre a condição humana.
O que os grandes primatas fazem, e nós somos grandes primatas, é matar assim que a oportunidade aparece e os mecanismos de contenção desaparecem. Os desportos de competição são, como o circo romano, uma forma aceitável de aliviar a violência que mora em nós. E a política deve ser uma forma de conter e canalizar as baixas paixões que destroem a vida em sociedade.
A Europa, que sobreviveu a guerras tribais e mundiais, foi construída em comum para evitar a guerra. E foi bem construída, como um projecto generoso. Apesar dos erros e da monotonia da paz, o projecto mantém-se. O que os ingleses estão a fazer, com o tribalismo e o ressentimento a disfarçarem um imperial complexo de superioridade, é destruir o tecido europeu e erigir um monumento à solidão e à insularidade. Sabemos no que resulta. Sabemos também que precisamos de hierarquias nas nossas vidas (Jordan Peterson tem nisto razão, mas tem sido ridicularizado e combatido pela esquerda que o pretende colar aos neonazis) e que a igualdade é uma axiologia que o marxismo incorporou como filosofia  política económica. Somos desiguais e a maneira de combater a injustiça gerada pela desigualdade e controlar a hierarquia é pelo altruísmo. Mesmo o altruísmo imposto pela norma de convivência e o que designamos como Estado. Ou imposto pela religião. Ou pela consciência moral. A linha que separa a civilização da barbárie, e a coexistência tribal da guerra civil, é ténue. Qualquer resultado do “Brexit” não reparará o que aquele referendo já destruiu. Somos obrigados a tomar partido, a torcer por um lado, a apostar num combate marcial. E eles, os outros, serão os primeiros a morrer.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Não, Miguel Esteves Cardoso não deve considerar-se “touché”


No caso do encerramento da SÁ DA COSTA, o motivo da minha tristeza – que ainda perdura, como profanação de um monumento pátrio a que deveríamos estar gratos sempre – foi mesmo a saudade de uma velha amiga que publicara a colectânea de tantos clássicos portugueses, em preços acessíveis, mesmo para estudantes, que sem ela talvez nunca tivéssemos oportunidade de conhecer. Não compreendi por que motivo nenhum representante dos que governam, do Ministério da Educação, lançou mão de qualquer estratagema para salvar a SÁ DA COSTA, como aconteceu com o CHIADO, depois do incêndio. Isso justifica também o encerramento da TEMA, dos requintes culturais de Miguel Esteves Cardoso, e compreendo a sua pena. Os seus comentadores que falam ironicamente em ordenados médios pátrios de baixo calibre, não têm, realmente, razão, pois que não é disso que se trata – como um outro comentador informa, e a gente vê nas ruas, há sempre belos carros pousados ou a rodar, no nosso espaço pátrio, o que traduz um bem-estar que permitisse manter esses espaços de venda de livros, fôssemos nós inclinados para o “revestimento” mental tanto quanto o somos para a aparência física. É mesmo um “Escândalo cultural” isso de que MEC tratou na sua crónica - a questão do encerramento da «única loja séria da imprensa estrangeira que Lisboa tem» e as razões que evoca. E apesar da graça de alguns comentadores, a tristeza permanece, por conta do desmazelo que nos define.

OPINIÃO
Escândalo cultural
A Tema é a única loja séria da imprensa estrangeira que Lisboa tem. Como é que se quer fazer passar por uma cidade cosmopolita se nem sequer há um sítio onde se pode escolher e comprar revistas estrangeiras especializadas?
JOSÉ ESTEVES CARDOSO
PÚBLICO, 27 de Fevereiro de 2019
Entristeceu-me saber que amanhã, quinta-feira, vai fechar a Tema: a única loja de jornais e revistas em Lisboa onde se encontra uma boa selecção da imprensa inglesa, americana, italiana e francesa.
reportagem, escrita por Kátia Catulo, está no Corvo. A loja dos Restauradores é considerada "a mais importante loja de revistas e jornais internacionais em Lisboa". O pior é não haver outra que possa substitui-la - nem mesmo parcialmente.
Lembro-me da alegria da abertura da loja onde eu ia todas as semanas encher os braços de revistas. Acabava-se o inferno das assinaturas e dos números atrasados. Os jornais estavam todos ali à vista, podendo-se decidir se valia a pena comprá-los. Havia revistas académicas e tudo - a selecção era inteligente, não era ao calhas ou conforme o gosto do distribuidor.
As revistas estavam muito bem arrumadas - quem conhecesse as secções podia fazer raids-relâmpago, colhendo as publicações desejadas em menos de um minuto.
Ainda o ano passado fui lá fazer uma visita e fiquei contente de verificar que não tinha perdido qualidade. Saí com material para uma semana de leituras. Não há nada como ter uma pilha de revistas e jornais novinhos em folha ao nosso lado. Qual é que vou ler primeiro?
A Tema é a única loja séria da imprensa estrangeira que Lisboa tem. Como é que se quer fazer passar por uma cidade cosmopolita se nem sequer há um sítio onde se pode escolher e comprar revistas estrangeiras especializadas?
Lisboa está cada vez mais pitoresca e parola. É um vergonha e uma miséria.
COMENTÁRIOS:
Leitor Registado, Ando por aí 27.02.2019: Pois é Miguelito....não podemos ter tudo! Em Fevereiro andavas muito contente com a a Press Reader e com o que poupavas com essa app: " Viva a Press Reader. Ando muito contente com a Press Reader. Tem bons jornais e boas revistas portuguesas, brasileiras, inglesas, francesas, americanas e de muitas outras nacionalidades. Ando muito contente com uma aplicação chamada Press Reader. Custa quarenta euros por mês e tem bons jornais e boas revistas portuguesas, brasileiras, inglesas, francesas, americanas e de muitas outras nacionalidades. Fiz as contas das minhas assinaturas existentes e vi logo que poupava vinte euros ...."...em Novembro....não em Fevereiro
Sandra, Lisboa 27.02.2019:  Pois... é o que diz o Leitor Registado. Mais palavras para quê?
Miguel Esteves Cardoso, Colares27.02.2019: Touché.
Raul Silva, Agualva-Cacém 27.02.2019: Tenham calma porque o Presidente da República já passa pela Tema antes desta fechar, como fez na Pastelaria Suíça. Pelo menos, uma selfie recordará a Tema, no futuro.
nelsonfari, Portela-Loures 27.02.2019: The sign of the times...As mudanças culturais. Para nós, os da periferia, é uma perda. Ainda passo por lá para comprar jornais, nomeadamente o "Le Monde". Falando no caso dos grandes jornais eles sobrevivem bem, como é o caso do referido "Le Monde" e dos grandes jornais da América. O diário francês tem uma tiragem diária de 200.000 exemplares em papel e, repare-se, 300.000 assinaturas no digital. Sobrevivem porque são bons e o que vendem não é efémero, tem qualidade e serve a novos e velhos. Basta querer saber como vai o mundo. Quanto às revistas a questão conjuga-se da mesma forma. Mas, estou convencido que no caso português em geral e de Lisboa em particular tem a ver com as difíceis condições de vida da população. Perceba-se que estamos num país com 890 euros/mês de salário médio.
rosab: Lisboa 27.02.2019: Pois é difícil, é. Tem-se visto com o aumento das despesas em compras de Natal como se verificou e muito se comentou em 2018, são os carros caros a saírem em ritmo vertiginoso dos stands, são os equipamentos (telemóveis por exemplo) do último modelo que se vendem como pão, - ridículos e parolos, sim senhor!!
RUI MACHADO DE FRIAS, BUCELAS27.02.2019: E verdade...! Estamos num país que sobrevive com 890 euros por mês, como salário médio. Mas para se chegar a esta média, quantos não estarão abaixo disso ? Também, da produtividade e do investimento, estamos muito abaixo do que seria normal...!
nelsonfari, Portela-Loures 27.02.2019: Por isso não informam o valor do desvio-padrão e, como tal, não sabemos o valor do coeficiente de variação, ou seja, a dispersão. Quais os valores mínimo e máximo. Qual é o valor da mediana. Qual o valor da moda. E, então, que tipo de distribuição temos, se enviesada à direita ou à esquerda do valor da média. E qual o valor do coeficiente de concentração de Gini. E a curva de Lorenz.
Artenzen: 27.02.2019: Se calhar é por parolos como eu preferirem a comodidade e a economia da Zinio. Venham de lá os bons novos tempos.


Recapitulando, enquanto a voz doa



António Barreto, como sempre certeiro e brilhantemente arguto, em desmascarar o “faz de conta” de um país de malabaristas centrados nos interesses pessoais de, actualmente, um governo aperreado por orientações de companheiros de estrada a quem são indiferentes os estragos na carcaça desse país, no qual forcejam por penetrar, sem responsabilidade e sem tento. Os Comentadores igualmente penetrantes de observação experiente. Um exemplo do “faz de conta” desse governo de mentirinha, na síntese de Salles da Fonseca, directo e sem papas na língua. “Ai do Lusíada, Coitado!” (“SÓ”)
I - OPINIÃO: Regiões. Outra vez!
O debate eleitoral sobre a regionalização agrada aos pequenos partidos porque incomoda os grandes. Estes preferem adiar. Ou descentralizar à socapa. Ou desconcentrar, coisa que ninguém sabe bem o que é.
ANTÓNIO BARRETO     PÚBLICO, 3 de Março de 2019,
É um velho hábito, uma solução para grandes e difíceis indecisões. “Não sabes o que fazer? Regionaliza!” Há algumas semanas, uns ministros ainda fizeram um ensaio e anunciaram iniciativas de regionalização. Rapidamente embrulharam a matéria. Afinal, não seria regionalização, era mais descentralização. Recomeçaram os debates técnicos sobre o assunto, incluindo as diferenças conceptuais entre esses temas, a desconcentração e outras variantes. Depressa se percebeu que nada seria feito a breve prazo. Os motivos eram evidentes. O tema é polémico. É obrigatório realizar um referendo. Há parecenças entre partidos rivais, nomeadamente entre PS e PSD. Uma grande parte da população é contra. Dentro da aliança do Governo há enormes diferenças de conceito e de conteúdo. Finalmente, é ano de eleições. A conclusão é clara: não haverá regionalização, não haverá referendo.
Mas as coisas não são assim tão simples. Autarcas, estruturas locais dos partidos, tecnocratas e alguns governantes não abandonam. Lentamente, vão descobrindo soluções para as suas fantasias. Graças à necessidade de “descentralizar” e “desconcentrar”, assim como de “agilizar” e “simplificar”, vão-se criando dispositivos aparentemente inocentes para fazer o que aprenderam com os livros dos fundadores da integração europeia: regionalizar furtivamente! Parece ser o que pretendem agora alguns dirigentes partidários e membros do Governo. O momento é difícil. Há regionalistas na esquerda e na direita. O debate eleitoral sobre o tema agrada aos pequenos partidos, porque incomoda os grandes. Estes preferem adiar. Ou descentralizar à socapa. Ou desconcentrar, coisa que ninguém sabe bem o que é. Mas que pode, de repente, transformar-se em princípio de regionalização sem que ninguém tenha dado conta.
A verdade é que estas ideias de regionalização encobrem a vacuidade do pensamento político e são substituto de programas exigentes de modernização administrativa. Como é sabido, todos os partidos, com os grandes à cabeça, prometem a “reforma do Estado”, com a qual a política ficaria mais próxima dos cidadãos, que assim veriam os seus direitos mais bem defendidos. Esta grande reforma aprofundaria a democracia, evitaria o despovoamento do interior, aumentaria a participação cívica e diminuiria as desigualdades. É tão rica em efeitos que quase não se percebe por que razão esta virtuosa reforma não foi já decretada e realizada. Certo é que todos os governos das últimas décadas falharam neste propósito.
É verdade que a reforma do Estado é essencial. Mas não necessariamente aquela que se limita a satisfazer necessidades do pessoal partidário local e reivindicações dos autarcas com dificuldades de acesso ao Governo. Importante é a descentralização do sistema educativo e a autonomia das escolas. Decisiva é a capacidade de regulação e administração das instituições locais como as “regiões demarcadas de vinhos”, cuja realidade nada tem que ver com as regiões administrativas. Indispensável é a clarificação das relações entre público e privado, nas escolas, nas universidades e nos hospitais. Importante é a limpeza das portas giratórias e da promiscuidade nas parcerias público-privadas. Essencial é a reorganização das freguesias e dos concelhos, em particular a fusão e a diversificação de estatutos e funções. Crucial é a criação de um novo enquadramento financeiro e fiscal, garantindo a durabilidade dos compromissos de Estado. De capital importância é a revisão do sistema eleitoral com o objectivo de aumentar o poder e a identidade dos cidadãos individuais. Relevante é a clarificação das relações entre o Estado e a sociedade civil, com o reforço dos direitos e da autonomia desta última. Mas estas não são as reformas necessárias para os regionalistas.
Sabe-se que a destruição das identidades nacionais é um dos grandes programas actuais das tecnocracias, do grande capital e dos juristas esclarecidos, assim como de grupos de “reformistas” e “reformadores” que não se sentem à vontade com os quadros tradicionais da Europa. A Europa federal é o grande objectivo, o desígnio último, cumprido “furtivamente” durante décadas, mais às claras no presente. Esta é uma das hastes da tenaz antidemocrática. A outra haste é a da regionalização, que poderá mesmo ir até à criação de regiões multinacionais ou transfronteiriças. Esta é uma construção perigosa. A democracia tem uma geografia e uma história. Não há democracia sem comunidade, sem delimitação das instituições e dos poderes, sem conhecimento das responsabilidades, sem identificação dos titulares do poder, sem capacidade de nomear, censurar, demitir e substituir. Sem geografia e sem identidade, não há democracia. A cidadania exige comunidade, identidade e cidade. Os cidadãos europeus não existem, dificilmente existirão antes de séculos. A função essencial das eleições europeias é a de mascarar a definitiva ausência de democracia e a de disfarçar o embuste da cidadania europeia.
As identidades culturais, na história europeia, são sobretudo nacionais. Ou deixaram-se enquadrar pelas nações. Tal, aliás, como em grande parte dos países e Estados do mundo. O poder político nacional, por vezes com a colaboração de tradições religiosas, interpretou as identidades nacionais, nem sempre pelos bons motivos, mas o resultado foi o fortalecimento das nações e dos Estados como comunidades democráticas.
Muitas foram as tentativas de destruição das identidades culturais. Tentaram os impérios, as grandes potências conquistadoras, o grande capital e o internacionalismo comunista. Todas foram travadas ou combatidas pela democracia e pela independência dos povos. As últimas tentativas em data são as da regionalização e da construção europeia, na versão que tem triunfado nos últimos anos. Assim a Europa (Comunidade e a União), com início promissor e de inspiração valiosa, derivou, derrapou e foi longe de mais. Tão longe que acabou por se pôr em risco, como é a situação em que vivemos. Tão longe e tão fora das capacidades de controlo e de participação que é bem possível que caminhe para a sua própria destruição. E de mais nada servirá dizer o que tanto se tem dito: “Crise na Europa? O que é preciso é mais Europa!” E mais regiões!
A regionalização é a resposta errada. Trata-se de diversão burocrática e tecnocrática, na tentativa de encobrir as reais reformas difíceis e decisivas. A regionalização furtiva é ainda pior, pois pretende o mesmo, com menos clareza, sem referendo, sem participação popular.
COMENTÁRIOS
cisteina, Porto: AB diz quase tudo sobre'regionalização', o que deveria ser: e concorda, o país, tal como está, não está bem porque o império já foi, e a região Lisboa continua com a maior parte do bolo com prejuízo do resto do país, dele não abdica, este o busílis da questão e razão por que vai ser difícil Lisboa largar mão das mordomias que tem e teve durante séculos, repito, em prejuízo dos outros: mais funcionalismo público/político, desnecessário e inútil, em detrimento das outras regiões. Problema que demorará 10 anos a resolver com aposentações de gorduras para que dívida pública possa descer. Tanto a fazer, eliminar (mais) freguesias e concelhos e outras entidades públicas, reestruturar/redistribuir serviços. Sim, a regionalização arejará e melhorará serviços, o garrote financeiro, sufoca-nos! 
Mário Orlando Moura Pinto, Setúbal : Está mesmo convencido de que, com a regionalização, o "bolo" vai ser distribuído de forma equitativa? Que não continuará a haver "filhos e enteados"? Acredite que eu gostaria de acreditar que viesse a ser assim, mas não creio. Caciquismo por caciquismo, prefiro o do governo, que é apenas "um".
AndradeQB, Porto 03.03.2019: Todos os políticos, ou pelo menos a grande maioria, saberão não só que a reforma do Estado é necessária, como ela deveria ser feita com vista ao desenvolvimento do país. Só que também sabem que, se essa reforma fosse feita, a vida deles ficaria bem mais difícil. Não é de estranhar que vão mexendo para ficar tudo na mesma.
Eu Sou Portugal, Lisboa 03.03.2019: Ideia estúpida. Já temos gente suficiente a roubar. Uma eventual regionalização seria o fim do país!!
Nuno Silva, 03.03.2019: Mas para quê regionalizar agora, se não há dinheiro nem para lavar as janelas de S. Bento!??? Esperem até 2042... porque as próximas gerações também têm direito a marcar golos, e não somente pagar dívidas...
 HENRIQUE SALLES DA FONSECA           A BEM DA NAÇÃO 03.03.19
DIZ A DIRECÇÃO GERAL DO ORÇAMENTO QUE: Em Janeiro de 2019, a Execução Orçamental revela que o saldo global das Administrações Públicas apresenta um valor de 1.542,1 milhões de euros, o que compara com 791,1 milhões de euros no período homólogo.
E DIGO EU QUE: Já vi bem pior do que isto mas se não fossem as cativações «centenárias», estaríamos bem «à pega» com o Orçamento que a Geringonça engendrou.