segunda-feira, 1 de junho de 2020

Um prazer de leitura



Enviada por email por João Sena. Extraída do blog A-bigorna de David Martelo. Gente rija do passado, mostrando que, em questão de estratégias e de estratagemas pouco mudámos. Realmente, falámos, na História, na “Guerra do Peloponeso” com Alcibíades, sem, contudo, nenhuma leitura de historiadores clássicos. Ficamos, por isso, gratos a David Martelo, por estes nacos de prosa clássica grega, que ele traduziu.
ALCIBÍADES E A EXPEDIÇÃO À SICÍLIA (415 a.C.) por Tucídides
Nesta passagem da Guerra do Peloponeso, Tucídides recria a intervenção de Alcibíades para contrariar a anterior intervenção de Nícias desfavorável à ideia da expedição militar contra a Sicília. No nosso tempo, o debate realizado em Atenas nessa ocasião foi comparado ao que antecedeu a invasão do Iraque, em 2003, aparecendo a figura de Ronald Rumsfeld, secretário da Defesa de George Bush, como comparável, na sua falta de visão, à do jovem Alcibíades.

A maior parte dos Atenienses que pediram para usar da palavra falaram a favor da expedição, mostrando-se contrários à anulação da votação anterior. Alguns, porém, manifestaram opinião oposta. No entanto, o mais inflamado apoiante da expedição foi, de longe, Alcibíades, filho de Clínias, o qual pretendeu contrariar Nícias, não só na qualidade de seu opositor político mas também por causa do ataque que ele lhe dirigira enquanto discursava. Além disso, porque estava extremamente ansioso pelo comando de uma operação, através da qual esperava submeter a Sicília e Cartago, delas saindo a ganhar pessoalmente, em riquezas e fama, como fruto das suas vitórias. A posição que detinha no conceito dos cidadãos levara-o a refinar os seus hábitos para além dos recursos de que dispunha, tanto no que respeita à manutenção dos cavalos como ao resto dos seus gastos. Estas circunstâncias, no futuro imediato, teriam não pouco que ver com a ruína do estado ateniense. Alarmados com a dimensão da licenciosidade da sua vida e dos seus hábitos e com a ambição que denotava em todas as empresas em que se envolvia, a grande massa do povo tinha-o na conta de pretendente à tirania, elegendo-o como inimigo. E embora publicamente a sua conduta da guerra fosse tão boa como podia desejar-se, individualmente, os seus hábitos ofendiam toda a gente, fazendo com que confiassem missões a outras mãos, e, deste modo, em pouco tempo causando a ruína da cidade. Nestas condições, Alcibíades pediu a palavra e deu aos Atenienses o seguinte conselho:

“Atenienses! Tenho mais direito a exercer o comando do que outros – vejo-me forçado a começar por aqui, face ao ataque que Nícias me dirigiu – e, ao mesmo tempo, creio sinceramente ser merecedor de o fazer. As coisas pelas quais sou injuriado trazem fama aos meus antepassados e a mim próprio e, além disso, vantagens para a cidade. Os Helenos, depois de terem esperado ver a nossa cidade arruinada pela guerra, concluíram que ela era ainda mais poderosa do que realmente é, devido à magnificência com que eu a representei nos Jogos Olímpicos, quando fiz concorrer sete carros, um número jamais apresentado por nenhuma entidade privada, e ganhei o primeiro prémio, conquistando, ainda, o segundo e o quarto lugares, e tendo o cuidado de apresentar tudo o mais num estilo compatível com a minha vitóri (1). A tradição impõe que se olhem estas demonstrações como honrosas e que não podem ser feitas sem deixar atrás delas uma forte impressão de poder. Apesar disso, qualquer nota de esplendor que eu possa ter exibido por cá, ao custear coros ou outras actividades, é naturalmente invejada pelos meus concidadãos, mas aos olhos dos forasteiros confere um ar de poderio, tal como no exemplo anterior. E tudo isto não se trata de um desvario inútil, quando um homem, à sua própria custa, beneficia não apenas a si próprio mas também a sua cidade. Tão-pouco é uma injustiça que quem se orgulha da sua posição recuse ver-se colocado em pé de igualdade com os demais. Quem se encontra empobrecido sofre sozinho a sua infelicidade, pois ninguém é cortejado na adversidade. Aplicando o mesmo princípio, percebe-se que se tem de aceitar a insolência da prosperidade, ou, então, é preciso começar a conceder aos outros essa igualdade de tratamento que reclamamos na desdita. O que eu sei é que pessoas desta espécie e todas as outras que alcançaram alguma distinção, embora possam ser impopulares durante a sua vida, no que concerne ao relacionamento com os seus semelhantes e, especialmente, com os seus iguais, deixam para os que lhes sobrevivem o desejo de reivindicar uma qualquer ligação com eles, mesmo quando inexiste razão para tal, e são glorificados pelo país a que pertenceram, não como estrangeiros ou malfeitores, mas como compatriotas e heróis. São essas as minhas aspirações, e, apesar de por causa delas me injuriarem em privado, a questão é saber se alguém trata dos assuntos públicos de forma melhor do que eu faço. Tendo unido os mais poderosos estados do Peloponeso, sem grande perigo ou despesa vossa, compeli os Espartanos a arriscar tudo por tudo, num só dia, em Mantineia, e, apesar de vitoriosos na batalha, não conseguiram, desde então, recuperar completamente a confiança em si próprios.”
1 Sublinhe-se que esta vitória de Alcibíades lhe trouxe uma popularidade ímpar perante o povo ateniense, perfeitamente comparável à que, nos dias de hoje, envolve as grandes estrelas do futebol mundial. A questão que importa reter é que Alcibíades usou essa popularidade para fins políticos.

 “Foi deste modo, com a verdura dos meus anos e aquilo a que chamam a minha monstruosa insensatez, que encontrei os adequados argumentos para lidar com o poder dos Peloponésios, sendo graças ao ardor das minhas maneiras que conquistei a sua confiança e os levei a seguir os meus conselhos. E não tenhais, agora, receio da minha juventude. Enquanto estou na plenitude do meu vigor e Nícias parece bafejado pela fortuna, tirai o máximo partido dos serviços de ambos. Não aceiteis rescindir a vossa decisão sobre a expedição à Sicília com o argumento de que iríeis atacar uma grande potência. As cidades da Sicília são povoadas por multidões heterogéneas que facilmente mudam as suas instituições e adoptam outras em seu lugar. Consequentemente, os habitantes, não sentindo nada de semelhante ao patriotismo, não se encontram providos de armas pessoais nem se estabeleceram regularmente na terra. Cada homem pensa que, através de lindas palavras ou das lutas partidárias, pode obter algo de bom a expensas do erário público, pelo que, na hipótese desse plano fracassar, pensam ir para outro país, opção para a qual se preparam atempadamente. Duma massa de gente como esta não precisais de procurar unanimidade no conselho ou acordo na acção. Mas o mais provável é que venham para o nosso lado, um por um, à medida que lhes seja feita uma oferta razoável, especialmente se se encontrarem envolvidos numa guerra civil, como nos têm dito. Além do mais, os Siciliotas não possuem tantos hoplitas como se gabam de ter. Passa-se com eles o mesmo que com o resto dos Helenos. Os números reais nunca batem certo com as estimativas que cada estado faz das suas próprias forças, e é difícil dizer que chegaram a ter, durante esta guerra, uma força de hoplitas digna desse nome. Os estados da Sicília, consequentemente, de tudo quanto me foi dado ouvir, serão encontrados nas condições que descrevi. E notai que não referi todas as nossas vantagens, porque teremos ao nosso dispor a ajuda de muitos bárbaros, os quais, devido ao ódio que nutrem pelos Siracusanos, se juntarão a nós para os atacarmos. Por outro lado, se pensardes bem, compreendereis que as potências nossas vizinhas não constituirão qualquer obstáculo para nós. Os nossos pais, com estes mesmos adversários – que agora foram referidos como ficando nas nossas costas quando partirmos – e os Medas como inimigos, foram capazes de ganhar um império, graças, unicamente, à sua superioridade no mar. Os Peloponésios nunca tiveram tão pouca esperança num confronto connosco como nos dias de hoje. E ainda que estivessem no máximo da sua confiança e com força suficiente para invadir o nosso território, mesmo na hipótese de nos mantermos por cá, nunca poderão causar-nos danos com a sua marinha, uma vez que deixamos cá ficar uma armada que constitui um adversário plenamente à sua altura.” “Neste estado de coisas, que razões podemos dar a nós próprios para nos contermos ou que desculpas podemos oferecer aos nossos aliados na Sicília para não irmos em seu auxílio? Tratam-se de confederados nossos e somos obrigados a prestar-lhes ajuda, sem objectar que eles nos não ajudaram anteriormente. Nós não os aceitámos como aliados para que eles nos viessem auxiliar na Grécia, mas para que pudessem fixar os nossos inimigos na Sicília, de modo a impedir que cá viessem atacar-nos. Foi desta maneira que o império foi construído, tanto por nós próprios como por outros que o seguraram, por uma constante prontidão para prestar apoio a todos quantos, bárbaros ou Helenos, solicitassem ajuda. Se todos resolvessem manter-se quietos ou fazer uma escolha de quem iriam auxiliar, teríamos feito muito poucas novas conquistas e teríamos posto em perigo aquelas que já estavam em nosso poder. Os homens não ficam satisfeitos por se esquivarem ao ataque de um inimigo superior, mas muitas vezes optam por desferir o primeiro golpe para evitar que o ataque se concretize. Além disso, não podemos determinar o ponto exacto onde o nosso império se deterá. Alcançámos uma posição em que não podemos contentar-nos em reter o que temos, sendo nosso dever a sua ampliação, porque, se pararmos de governar os outros, corremos o risco de nos virem governar. Tão-pouco podeis encarar a inacção do mesmo ponto de vista dos outros, a menos que estejais preparados para modificar os vossos hábitos, assemelhando-os aos dos outros.” “Convencei-vos, portanto, de que aumentaremos o nosso poder aqui através desta aventura no exterior e façamos a expedição para abater o orgulho dos Peloponésios. Indo para a Sicília, far-lhes-emos ver como pouco nos importa a paz de que agora gozamos, e, ao mesmo tempo, ou nos tornaremos senhores – como muito facilmente somos capazes – de todo o espaço helénico, através do domínio dos Sicilianos de origem helénica, ou, de qualquer modo, causaremos a ruína dos Siracusanos, o que será de não pequena vantagem para nós próprios e para os nossos aliados. A faculdade de permanecermos, em caso de sucesso, ou de retornarmos será assegurada pela nossa marinha, uma vez que disporemos de superioridade no mar, mesmo contra todos os Siciliotas juntos. E não permitais que a política de não-intervenção advogada por Nícias ou a sua tentativa de abrir uma brecha entre jovens e anciãos vos demova do vosso propósito. No bom velho estilo dos nossos pais – que, com velhos e jovens em comunhão e através da convergência dos seus conselhos, levaram a nossa prosperidade aos altos patamares do presente –, esforçar-vos-eis por ainda os superar, compreendendo que nem os jovens nem os anciãos podem fazer nada, sozinhos, sem a colaboração dos outros, porque a leviandade, a sobriedade e o julgamento ponderado são mais fortes quando unidos e que o mergulhar a cidade na inacção, como em tudo na vida, acabará por a embotar, daí resultando que todas as suas aptidões entrarão em decadência. Pelo contrário, cada novo combate será fonte de novas experiências, tornando-a mais capaz de se defender, não por palavras, mas através de acções. Em suma, é minha convicção que uma cidade não-inactiva por natureza não pode escolher um caminho mais rápido para se autodestruir do que, subitamente, adoptar uma política de lassidão e que a forma mais segura de estar na vida é aceitar o carácter das instituições que temos, para o melhor e para o pior, seguindo os seus ditames o mais estritamente que pudermos.”

Foram estas as palavras de Alcibíades. História da Guerra do Peloponeso – Livro Sexto – Capítulo XVIII Tradução de David Martelo

Money



Retrato da nossa condição. Não se fala em trabalho, para desenvolver, mas em maná para o nosso deserto. Um texto de João Marques de Almeida, talvez de verdades, mas, sobretudo, do nosso constante andar- à- nora, insensível à vergonha da dependência económica. Nous voilà.
Você depositava o seu dinheiro num banco chamado PS? /premium
Três dos países frugais, Dinamarca, Suécia e Finlândia, são governados por coligações de esquerda e os sindicatos das funções públicas fazem perguntas sobre a menoridade da reforma nos países do sul.
OBSERVADOR, 01 JUN 2020
Caro leitor, se tivesse que depositar as suas poupanças num banco, seria capaz de o fazer num banco que gere o dinheiro do mesmo modo que o PS o faz? Isto vem a propósito do plano de recuperação económica proposto pela Comissão Europeia, de cerca de 750 mil milhões de Euros, com 26 mil milhões previstos para Portugal. Um dos órgãos oficiais do governo, o Público, dizia na sexta feira na sua capa, “plano anticrise da UE dá 19 milhões por dia a Portugal.“ Uma coisa é certa: esta crise derrubou as máscaras de muitos europeístas portugueses. Para eles, a UE é boa se der dinheiro; e é má, se não der. Ponto final. O resto são tretas. A sacrossanta palavra “solidariedade” significa dinheiro. Como dizia o pistoleiro no velho Oeste, “show me the green [dollars], and I like you.”
Vamos por partes. Antes de mais, o pacote financeiro de 750 mil milhões ainda não está aprovado. A Comissão fez uma proposta, agora cabe aos Estados membros e ao Parlamento Europeu aprovarem. Os maiores problemas serão levantados por alguns Estados membros, e não pelo Parlamento Europeu. O apoio da Alemanha e da França aumenta consideravelmente as possibilidades de um acordo final, mas é provável que haja mudanças em relação à proposta inicial da Comissão. Julgo que as alterações serão mais em relação ao equilíbrio entre doações e empréstimos, ou seja haverá mais empréstimos e menos doações, do que em relação ao valor total do pacote financeiro.
O acordo final também levará algum tempo a ser alcançado. Dificilmente, haverá um acordo no Conselho Europeu de 19 de Junho. Provavelmente, haverá um Conselho Europeu extraordinário em Julho para se chegar ao acordo. Dependendo da data de Julho, o Parlamento Europeu confirmará o acordo no início de Agosto ou apenas em Setembro.
Depois começará o mais difícil: as ratificações por alguns parlamentos nacionais, nomeadamente o holandês, o finlandês e, possivelmente, o dinamarquês e o sueco. Estas ratificações serão decisivas e levarão tempo. Para se aprovar o pacote extraordinário de 750 mil milhões de euros, a Comissão foi obrigada a propor um aumento do limite do financiamento da União de 1,2% para 2% do PIB europeu. Esta é a questão mais complicada para alguns dos chamados contribuintes líquidos da União. Sobretudo, quando esses países são simultaneamente democracias com parlamentos fortes e governos de coligação, o que aumenta ainda mais os poderes parlamentares.
Antes que as almas de esquerda mais sensíveis se comecem a indignar, e a usar termos como “repugnante”, convém dizer que três dos países frugais, a Dinamarca, a Suécia e a Finlândia, são governados por coligações de esquerda, com PMs da família política do PS. Só a Holanda é que tem uma coligação de centro direita no governo. E os argumentos dos sindicatos das funções públicas desses países explicam a sua oposição a estes pacotes financeiros, dizendo que nos seus países os trabalhadores reformam-se mais tarde do que os trabalhadores em muitos países do sul. Que tal fazer uma cimeira entre os sindicatos dos países do norte e do sul da Europa para ver se chegam a um acordo sobre reformas laborais?
Parece que na melhor das hipóteses, o dinheiro começará a chegar a Portugal no fim do ano, início do próximo ano. Mas muito mais importante do que receber dinheiro, é gastá-lo bem. Ou seja, o dinheiro deve ser investido para beneficiar a economia portuguesa. A Comissão Europeia sabe isso, e propôs algumas condições. O dinheiro será enviado para Portugal de acordo com planos de investimento, que serão aprovados e fiscalizados por Bruxelas, e será desembolsado de um modo faseado.
Quando se chega à questão sobre investir de um modo correcto os fundos recebidos de Bruxelas, regressamos ao PS. Entre 1995 e 2020, o PS esteve no governo cerca de 19 anos, e apenas seis anos na oposição a governos do PSD e do CDS. Desses seis anos, a direita governou quatro sob o peso da troika e a tirar o país da falência socialista.
O que aconteceu nos 19 dos 25 anos de governos socialistas? Portugal recebeu cerca de 100 mil milhões de fundos europeus – ou seja, dinheiro oferecido pela UE. Mesmo assim, os governos socialistas não evitaram uma falência, em 2011, que obrigou a um empréstimo da UE e do FMI de mais cerca de 70 mil milhões de euros. Durante esse período, agravou-se o atraso económico de Portugal em relação à maioria dos países da UE, e os novos Estados membros, que entraram em 2004, aproximaram-se de Portugal, com alguns como a República Checa e a Eslovénia a ultrapassarem o nosso país em termos de PIB per capita. Ou seja, nos 19 anos socialistas recebemos muito dinheiro de Bruxelas, mas não nos tornámos um país mais rico e mais desenvolvido em termos relativos aos outros europeus. Não chega receber dinheiro, é preciso saber gastá-lo.
Além do investimento correcto do dinheiro, a natureza do sistema económico é fundamental. Em particular, a liberdade económica é a questão essencial para o enriquecimento. Um país com um nível elevado de liberdade económica tem um Estado regulador e um sector privado forte, o qual constitui o motor da economia. Na classificação da liberdade económica da Fundação Heritage, reconhecida pelo Eurostat, os países com mais liberdade económica são a Alemanha, a Áustria, a Dinamarca, a Finlândia, a Irlanda, a Holanda e a Suécia. São os mais ricos. Os países com menos liberdade económica são a Grécia, a Croácia, a Itália e Portugal. Até a Hungria do maldito Orban goza de mais liberdade económica do que o Portugal socialista. Tragicamente, a tendência em Portugal não é para reforçar a liberdade económica.
Regresso à questão inicial: confia no PS para gerir o seu dinheiro? Tendo em vista a história recente, eu não confio. A capacidade de fiscalização de Bruxelas também será limitada. Compete à oposição, sobretudo ao PSD, fazer um escrutínio forte sobre o modo como se gasta o dinheiro que aí vem. Também seria muito bom ouvir o Presidente da República dizer alto e em bom som que os 26 mil milhões de euros são para os portugueses, não são para o PS e para os seus amigos e sócios de negócios. Se não for pedir muito ao inquilino de Belém, que tal defender mais liberdade económica usando como exemplos os países mais desenvolvidos e com maior justiça social da Europa? Podia irritar o governo, mas os portugueses agradeciam.


Nem todos aceitam



Alguns comentadores não aceitam o discurso aprumado de António Barreto, que, afinal, tenta ilustrar um pensamento claro e justo, ao não admitir as velhas soluções de reivindicações que irão recomeçar, nos seus radicalismos indiferentes a uma crise sanitária e económica que exige, de facto, um recomeço de construção, objectiva e sem demagogia. Parece correcto o pensamento de A. Barreto, mas há sempre quem se indigne, com tais, aparentemente, falinhas mansas, de pessoa que, acima de tudo, entende que a reconstrução deve ser orientada num sentido democrático, sim, tendo em conta o bem comum, sem alarido e com humanismo de solidariedade. Mas poucos saberão o que isso é.
OPINIÃO CORONAVÍRUS
O vírus é injusto
São as soluções práticas, reformistas, discutidas e debatidas, que asseguram mais eficácia. Podem por vezes conter o veneno da desigualdade, com certeza, mas a liberdade e a democracia estão aí para permitir a denúncia e a correcção.
ANTÓNIO BARRETO
PÚBLICO, 31 de Maio de 2020
A democracia tem sido, desde o início desta pandemia, uma questão permanente. É natural que assim seja. Conhecemos quem a queira arranhar e quem entenda que é necessário defendê-la. Há toda a espécie de ideias contraditórias. A democracia ajuda a resolver a crise sanitária, afirmam uns. Com democracia, não se pode tratar da saúde das pessoas, garantem outros. Os mais pragmáticos declararam que não se deve curar a saúde sem tratar da democracia. Os mais cépticos advertem que só com uma revolução é possível cuidar ao mesmo tempo da saúde e da democracia. Estes últimos dividem-se, evidentemente, em dois grandes grupos, os que entendem que só a Europa integrada e una consegue tal proeza e os que estão convencidos de que só o regresso ao Estado nacional é capaz de proteger a democracia e a saúde.
Não vale a pena tratar de estúpidos ou ignorantes os que pensam diferente de nós. Nem de dizer que os que não têm as mesmas ideias que nós são hipócritas e corruptos. O debate tem sido, infelizmente, um pouco esse. Mas podemos pelo menos ter a certeza de que as divergências e as contradições são reais e merecem ser ouvidas: só assim se poderá encontrar um caminho.
Continuam vigorosas as ideias radicais, sempre formuladas em tom exclusivo. Só uma revolução socialista poderá dar saúde a toda a população. Só uma mudança de modelos de consumo e de produção será eficiente. Só uma transformação do modelo de sociedade garantirá saúde e liberdade para todos. Só a globalização e as economias competitivas podem garantir tal desígnio. Só as nações proteccionistas podem defender e proteger a liberdade de todos. Só um Estado com muita autoridade pode levar à prática uma estratégia de saúde para o seu povo.
Todos estes pontos de vista traduzem convicções. Todas estas crenças têm direito à vida e correspondem a ideais de sociedade. Mas o que realmente poderá vingar e o que, em última análise, vencerá a luta política é o que dá tanta importância à democracia quanto à saúde. Ora, nada disso se obterá com o Estado nacionalista ou com a revolução socialista; nem com globalização capitalista ou alternativa; muito menos com novos e abstractos modelos de sociedade. E ainda menos com a necessidade de aproveitar a oportunidade para resolver também a pobreza, o racismo, a corrupção, o terrorismo e a imigração ilegal.
Todos aqueles combates globais e revolucionários têm o seu tempo, menos agora, em cima da doença e da emergência. Apesar de terem direito à existência, nunca ou quase nunca tais ideias totais e globais superam as soluções reformistas, discutidas, justas e graduais. O inventário das soluções radicais e globais dos últimos séculos é de tal modo trágico que já poderíamos estar ao abrigo dessas fantasias. Infelizmente, não. Mas as fantasias também têm direito à vida. É bom que assim seja.
São as soluções práticas, reformistas, discutidas e debatidas, que asseguram mais eficácia. Podem por vezes conter o veneno da desigualdade, com certeza, mas a liberdade e a democracia estão aí para permitir a denúncia e a correcção. São as reformas que permitirão resolver as formas de tratamento igualitário, a descoberta e a generalização das vacinas e as medidas de prevenção. São as soluções empíricas que permitem consolidar um serviço nacional de saúde prestigiado e devidamente equipado. Como são as políticas práticas que permitem a coexistência entre o sector público e o privado, indispensáveis a uma eficiente política de saúde para todos.
Como são as soluções práticas que permitem encontrar um destino rápido e eficiente para o Bairro da Jamaica e para todos os equiparados e similares, nódoas da nossa sociedade. Faz mais pela democracia quem resolve o Jamaica, quem destrói aqueles pardieiros, quem constrói alojamentos decentes em poucos meses e quem realoja os seus habitantes, do que quem passa os seus dias a rosnar contra os fascistas e os patrões. A desigualdade é veneno. Como disse Susana Peralta, há dias, aqui no PÚBLICO: “ … aguentar o confinamento depende muito da qualidade do sofá, da velocidade da Internet e da variedade do que há no frigorífico”! É difícil, em tão poucas palavras, ser mais certeira! O que diz é comovedor, sem ser piegas. E põe nos devidos termos muitas das polémicas actuais.
É a democracia prática, quotidiana, que permitirá tratar igualmente os pobres e os desempregados brancos, amarelos e negros, muito melhor do que quem vocifera pelos comícios chiques ou vingativos contra o racismo. Faz mais pela liberdade quem procura controlar os fluxos de imigração e a legalização dos trabalhadores e suas famílias, do que quem gasta o seu tempo e a nossa paciência a exigir portas abertas a todos, liberdade total de imigração e legalização imediata de todos os candidatos. É o controlo dos fluxos de imigração e o esforço para dominar a demagogia da sociedade aberta que permitem combater e condenar os negreiros que garantem o transporte de refugiados e estimulam as aventuras quase suicidárias de candidatos à emigração.
É a democracia prática e são as instituições livres que permitirão julgar os corruptos, capitalistas ou políticos, muito melhor do que alinhando teses sobre a globalização democrática e socialista, numa narcisista viagem de satisfação de egos enormes disfarçados de solidariedade palavrosa.
É a democracia prática e a liberdade sem reticências que permitirá julgar os adultos que batem nos velhos e nas crianças, os homens que agridem e matam mulheres e filhos, não são os esforços tonitruantes de quem pretende elaborar planos totalitários anticapitalistas de igualdade de género que não têm qualquer efeito.
A pandemia faz mal a milhões de contaminados. A milhares que morrem. E a centenas de milhões que vivem em condições de vulnerabilidade. Mas também tem danos colaterais. E não são poucos. Dos governantes que se exibem e fazem propaganda. Dos directores gerais que se enganam e não reconhecem o erro. Dos jornalistas que vão na onda e não corrigem. Dos comentadores que sabem mais do que enciclopédias. De todos os que cultivam a demagogia fácil e dos que procuram o lucro indevido.
É tão fácil incriminar os demónios de todos os males! Acusar os fascistas. Denunciar os brancos. Culpar os pretos. Pendurar os comunistas. Castigar os patrões. Mas a melhor solução ainda parece ser a da liberdade individual e das instituições democráticas. Com a ajuda da ciência!
Sociólogo
COMENTÁRIOS:
rafael.guerra
EXPERIENTE:
Há também vírus justos que ameaçam eternos especialistas de porr@ nenhuma, que exalam já um certo odor a bafio e que se agarram como lapas aos tachos, porque a sopa é boa. Infelizmente para alguns, o vírus justiceiro é a única forma de largarem o rochedo... 31.05.2020
Jose INICIANTE: Depois da grande amálgama, da velha solução única de salvar tudo punindo, condenando, memorizando..., lá vem o remate radical e definitivo "Mas a melhor solução ainda parece ser a da liberdade individual e das instituições democráticas. Com a ajuda da ciência!" O que quererá dizer liberdade individual? Ser receptador e distribuidor de toda a riqueza ou ser criador de riqueza e empobrecer criando-a e obedecendo resignado ao poder absoluto da hierarquia do Patrão? Liberdade das instituições democráticas será o quê? A Incrível Almadense sobreviver apesar da subsídio-dependência ou os Passarinhos da Ribeira viveram das quotizações voluntárias? Ou ainda o Estado, com o exclusivo de todo o poder repressivo em nome da lei, estar só às ordens do tal Patrão que recepta a riqueza e a distribui ou não.  31.05.2020
Mario Coimbra EXPERIENTE: Caro António Barreto, não querendo ser piegas nem exagerar no cumprimento, a sua crónica está muito muito boa. E nada disto é situacionismo ou conformismo. É usando o que temos que vamos conseguir vencer. Não podia estar mais de acordo. A melhoria constante e progressiva vence a perfeição (utópica). 31.05.2020