terça-feira, 2 de julho de 2024

Nunca vi cabana tal!


In “MONÓLOGO DO VAQUEIRO”, ou AUTO DA VISITAÇÃO” primeira peça dramática de GIL VICENTE, de 1502 (expondo o deslumbramento de um vaqueiro que visita os paços aquando do nascimento do futuro rei D. João III), e que escolhi para introdução ao meu respeitoso embasbacamento, perante a síntese nobiliárquica que encontrei na Internet e que a crónica justa de HENRIQUE SALLES DA FONSECA, sobre as nobrezas “de facto”, e “de jure”, me fez ali procurar, em revivescência histórica sintética, e num aprazível reviver também do velho auto que os manuais de literatura dantes por vezes continham, como introdução ao nosso primeiro dramaturgo. O texto da Wikipédia confirma. hélas! – a justeza dos argumentos do Dr. Salles, na questão das discrepâncias entre as tais nobreza e honra, da sua tese, tão actual, mesmo sem ter em conta a tal repristinação da nossa costumeira inconstância, nesse direito ao título real, a nobreza da alma sendo de mais ampla dimensão, embora de menor visibilidade.

DA NOBREZA E DA HONRA

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 30.06.24

Ser nobre pode nada ter a ver com ser titular.

Ao nobre cumpre pugnar pelo bem e rechaçar o mal; tem que ser corajoso na defesa do bem-comum; ser compassivo, magnânimo, mas não esbanjador e justo na equidade; tem que ser discreto e buscar o significado essencial dos conceitos e dos factos.

A honra é o orgulho de ser nobre.

* * *

O forte sentido de responsabilidade social implícito na condição nobre exige uma curiosidade cultural de sereno rigor analítico, estruturante, não errático, de perene congruência quer no tempo quer no espaço.

A oportunidade da nobre intervenção marca agenda do debate contrastando com o oportunismo que procura a diferença para demolir o outro.

A nobreza é, pois, uma atitude, um estado de espírito em que predominam generosidade e cultura; opõem-se-lhe o egoísmo e a boçalidade.

CONCLUSÃO

A nobreza não é essencialmente monárquica nem está necessariamente ligada à condição titular.

Junho de 2024

Henrique Salles da Fonseca

DA NOBREZA E DA HONRA

 

Notas da internet:

NOBREZA DE PORTUGAL

A Marquesa de Pombal, consorte do Marquês de Pombal, era por nascimento Condessa de Daun, por ser filha do Conde de Daun, um titular de uma família nobre austríaca. Já a primeira mulher de Sebastião José de Carvalho e Melo, que morreria em 1739, era sobrinha do Conde dos Arcos.

O Duque de Saldanha, um exemplo de um poderoso nobre Pós-Constituição e, também, nobre em seu próprio direito, isto é, que provinha de uma família nobre, sendo, no caso dele, da alta nobreza portuguesa.

A Marquesa de Alorna, uma mulher nobre em seu próprio direito, isto é, que provinha de uma família nobre, sendo, no caso dela, da alta nobreza portuguesa.

A nobreza portuguesa era um grupo privilegiado do Reino de Portugal (1143–1910) até 5 de outubro de 1910, quando foi implantada a república em Portugal, em decorrência de um golpe de estado organizado pelo Partido Republicano Português, conhecido como a Revolução de 5 de Outubro de 1910.

História da nobreza

A primeira nobreza portuguesa havia-se formado a partir do reinado de D. Afonso VI (1072–1109), rei de Leão, com homens descendentes de fidalgos leoneses estabelecidos no norte de Portugal, em especial entre os rios Douro e Minho. Esta era a região dos solares e dos homens mais poderosos do reino. Eles uniam fidalguia de nascimento à autoridade e ao prestígio de cargos públicos, tendo o título de rico-homem.

Eram seguidos na hierarquia, em ordem decrescente, pelos "infanções", "cavaleiros" e "escudeiros". Denominação de origem espanhola: "filho de alguém", aplicando-se aos funcionários superiores e originando a palavra "fidalgo", que, no século XIV, se generalizou e passou a nomear todos os nobres de linhagem, designando assim a mais alta categoria da nobreza, sem dependência de cargo.

No tempo de D. Manuel I (1495-1521), por exemplo, quando foram designados os capitães da armada de Pedro Álvares Cabral que chegaram ao Brasil em 22 de Abril de 1500, a nobreza portuguesa já registrava essa ordem que datava do século XII. Os nobres integrantes da esquadra de Cabral obedeciam a essa característica, uma vez que a maioria descendia de famílias oriundas de Leão e Castela, radicadas em Portugal, já com numerosas gerações de serviço. As poucas excepções — como Bartolomeu Dias, que recebeu grau e armas transmitidos à sua descendência — demonstram a importância atribuída ao feitos nesse período dos descobrimentos.

A nobreza tomou caráter palaciano e, para receber novos graus, o agraciado precisava comprovar gerações de serviços prestados ao rei.

Foi também no reinado de D. Manuel I que foram estabelecidas regras que definiriam o uso dos graus de nobreza, bem como o uso das armas heráldicas, evitando abusos na adopção de ambos e estabelecendo os direitos da nobreza. Os nobres ficaram sujeitos ao rei e foram organizados em duas ordens, cada uma com três graus:

"ricos -homens" (primeira ordem), que começavam como "moço fidalgo", passavam a "fidalgo-escudeiro" e chegavam a "fidalgo-cavaleiro";

segunda ordem, em que estavam os "escudeiros-fidalgo" e "cavaleiros-fidalgo";

Apesar dos séculos XV e XVI terem sido ricos em actos de bravura e feitos heróicos, os feitos ligados aos descobrimentos não representaram acréscimo aos símbolos, atributos e novas armas no brasonário português. Poucas foram concedidas, e nem todas as mercês heráldicas foram registradas. O mesmo não ocorreu com os envolvidos nos combates, sobretudo por ocasião da ocupação do norte da África, encontrando-se maior número de brasões com atributos próprios, como a "cabeça de mouro".

A heráldica dos Descobrimentos fica restrita aos símbolos herdados de família, ligadas às localidades de origem, como a de Nuno Leitão da Cunha, com nove cunhas simbolizando o senhorio de Cunha-a-Velha, ou aos "falantes", como as cabras, dos Cabral, sem sugerir ou representar os desafios encontrados no mar e sua conquista. O brasão de Nicolau Coelho, que tem o contra-chefe ondado em prata e azul podendo simbolizar o mar conquistado, constitui a única excepção. O brasonário da armada comandada por Pedro Álvares Cabralé um retrato de sua época, com fidalgos, cavaleiros e escudeiros que nos brasões deixaram a marca familiar.

Todos os nobres eram considerados vassalos do rei.

Privilégios

As prerrogativas da nobreza geravam múltiplos litígios, sendo de salientar os abusos relativos às fugas ao fisco e às usurpações de territórios, em que, indevidamente, se proibia a entrada dos fiscais régios, como se, na verdade, se tratasse de «coutos», com imunidade. Evidentemente, isso prejudicava o património da coroa.

Abaixo estão alguns dos privilégios que nobres portugueses detinham, todos mencionados no livro Privilégios da nobreza e fidalguia em Portugal e publicado em 1806.

A mulher

A Marquesa de Belas, um exemplo de uma mulher nobre em seu próprio direito, isto é, que provinha de uma família nobre. Pintado por Nicolas-Antoine Taunay.

A mulher participava da nobreza de seu marido, fazendo-se coigual em qualidade a este. Se ele é duquemarquêscondeviscondebarão ou fidalgo, ela também usa e goza dos mesmos títulos e dignidades.

Se a lei manda dar ao marido o honroso tratamento de "dom", "excelência" ou "senhor", o mesmo é devido à mulher, ainda depois de viúva, enquanto viver honestamente e não passar a segundo matrimónio.

Há que se ressaltar, todavia, que não sendo o cônjuge um nobre por titulação e sim por ter contraído matrimónio, fica sendo barão (ou visconde, duque, etc.) consorte. Também, se a mulher é quem for o nobre titulado, pode não ser capaz de transmitir a seus descendentes alguns títulos e privilégios, seja por preterência numa linha sucessória, seja porque alguns títulos, como o de dom, possuem tal impedimento.

Cargos

A lei fazia que pessoas que viviam à lei da nobreza servissem privativamente alguns cargos de consideração, com uma quase total exclusão dos plebeus. Com muitas excepções documentadas, tais cargos no Reino de Portugal eram por exemplo:

as superintendências da criação dos  cavalos;

os postos de capitães-mores, sargentos-mores e capitães das Companhias de Ordenanças;

os ofícios de juízes, e procuradores das cidades, vilas e concelhos;

os cargos de almoxarife em cidades, vilas, concelhos ou de outra divisão administrativa.

os cargos de almotacés das terras onde há juízes de fora;

os lugares da magistratura, as montarias-mores, as alcaidarias-mores e outros mais;

Nenhum destes cargos, contudo, conferia nobreza hereditária. Note-se que a partir da Carta Constitucional de 1826, a nobreza civil foi abolida e só a nobreza hereditária manteve um estatuto constitucional próprio. As leis republicanas e depois a Constituição de 1911 extinguiram a nobreza como categoria jurídica com um estatuto jurídico próprio.

Isenções

O nobre português estava isento de todos os encargos pessoais que fossem incompatíveis com a Dignidade da Nobreza, não devendo ser constrangido a arrecadar a portagem nem qualquer outro tributo do Rei, nem guardar presos ou levá-los à cadeia.

Outros

Só os nobres podiam caçar no termo de Lisboa;

Quando testemunhas, não precisavam ter o incómodo de descolocarem-se de suas casas a outro lugar para serem questionadas.

Hierarquia da nobreza até ao liberalismo

São muitas as classificações de Nobreza na ordem jurídica portuguesa.

António Manuel Hespanha ensina que, nas Ordenações, ao contrário de fidalguia, a palavra "nobreza" quase não aparecia e esta constituía, antes de mais, um sinónimo de estatuto privilegiado.

Inicialmente, em Portugal não existiam títulos e a nobreza era composta essencialmente por ricos-homens, infanções e cavaleiros.

Depois, especialmente a partir da reforma de D. Sebastião, em 1572, além da atribuição dos títulos nobiliárquicos que vamos referir adiante, a distinção de ser-se nobre era transmissível hereditariamente, mediante mera comprovação da filiação junto do Mordomo-Mor e tinha as seguintes categorias e por ordem descendente:

Fidalgo Cavaleiro com a moradia ordinária de 1600 réis.

Fidalgo Escudeiro— com a moradia ordinária de 1200 réis.

Moços-Fidalgos da Casa Real — com a moradia ordinária de 1000 réis. Quando era concedido com Exercício no Paço era preferido pelos Fidalgos, pois dava acesso directo ao Paço. Note-se também que, a partir do século XVII, só os fidalgos com exercício venciam as suas moradias, sendo as demais meramente honoríficas, sem darem direito à percepção de qualquer rendimento.

Havia ainda na Nobreza, desde a reforma de D. Sebastião, as seguintes categorias:

Cavaleiro Fidalgo; Escudeiro Fidalgo; Moço da Câmara; Escudeiro; Cavaleiro

Títulos nobiliárquicos portugueses

A partir do século XIV-XV começam a formalizar-se, sob tutela régia, as diferentes categorias de nobreza:

A Nobreza Titulada Portuguesa tem os seguintes títulos e graus:

Ducados Reais   Ducados    Marquesados    Condados     Viscondados    Baronatos

Os títulos podem ser:

De juro e herdade (perpétuos), sem dispensa na Lei Mental ou com uma ou duas dispensas de vidas na Lei Mental.

Em vidas. Eram claramente os mais comuns. O título extingue-se com a morte do titular e regressa para a Coroa, que o podia dar ao sucessor, a um parente, a um terceiro sem qualquer ligação com anterior titular ou mesmo não o conceder de novo.

Títulos Privativos da Casa Real Portuguesa

Além de manter os títulos reais, a casa reinante de Portugal criou, às vezes, outros títulos de nobreza, seja através de aquisição antes de ascender ao trono ou por subvenção para o monarca. A seguir, são títulos que foram criados em vários momentos pela Realeza Portuguesa:

Soberano; Senhor de Ceuta; Senhor de Alcácer em África; Senhor da Guiné; Herdeiro da Coroa de Portugal

Estes são os títulos hereditários ou vitalícios do chefe ou representante da Casa Real Portuguesa:

Príncipe Real; Duque de Bragança; Duque de Guimarães; Marquês de Vila Viçosa; Conde de Guimarães; Conde de Arraiolos; Conde de Ourém; Conde de Neiva; Herdeiro do Herdeiro da Coroa de Portugal

Príncipe da Beira; Duque de Barcelos; Conde de Barcelos; Conde de Faria; Infantes Filhos do Soberano; Duque do Porto; Duque de Beja; Membros da Família Real; Duque de Viseu Duque de Coimbra; Duque da Guarda; Hierarquia da nobreza após o liberalismo

Após a guerra civil portuguesa, com a entrada da política liberal, com a entrada em vigor de um parlamento, houve necessidade de uma ligeira reforma. Assim a nobreza passou a formar quatro classes:

Alta Nobreza, que eram os Grandes do Reino. Sendo estes: o Patriarca de Lisboa que tinha as honras de Infante, os duques, os marqueses, os arcebispos, os condes, os bispos, os viscondes com grandeza, e os Pares do Reino.

Titulares: os viscondes sem grandeza e os barões.

Fidalgos, que formavam seis classes: fidalgos do conselho e fidalgos cavaleiros, fidalgos escudeiros e cavaleiros fidalgos, moços fidalgos, cavaleiros fidalgos de moradia ordinária, escudeiros fidalgos e fidalgos de geração.

Nobreza: os cavaleiros das ordens militares, lentes das universidades e de outros estabelecimentos de instrução superior, magistrados, oficiais militares, etc.

Heráldica: Nos brasões cabe o uso de diferentes coroas e elmos heráldicos, indicando assim a condição do nobre. Coroas

Aos Viscondes com Grandeza e aos Pares do Reino cabe o direito ao uso do coronel de Conde e do elmo de Grandeza.

Situação dos titulares sob o regime republicano

Os títulos nobiliárquicos foram abolidos pela lei de 15 de Outubro de 1910 aprovada pelo Governo Provisório constituído após a Revolução de 5 de Outubro de 1910. Contudo esta foi uma medida efémera, pois pela Lei de 2 de Dezembro de 1910 o mesmo Governo Provisório restabeleceu os títulos de nobreza: "aqueles que provarem o seu direito ao uso de títulos nobiliárquicos podem continuar a usá-los; mas nos actos que tenham de produzir direitos ou obrigações, será necessário o emprego do nome civil para que esses actos tenham validade".

A Constituição de 1911 aprovada na I República não admite privilégios de nascimento nem foros de nobreza, declara extintos os títulos nobiliárquicos e as ordens honoríficas, e proíbe os cidadãos portugueses de aceitarem condecorações estrangeiras. Não foram assim concedidos quaisquer novos títulos nobiliárquicos nem ordens honoríficas. Foi, contudo, mantido o uso dos títulos nobiliárquicos segundo a lei de 2 de Dezembro de 1910, sendo os titulares tratados pelos seus títulos inclusive em documentos oficiais, como foi o caso do Visconde da Ribeira Brava, republicano que exerceu diversos cargos oficiais na I República (como o de Governador-Civil), ou do Visconde de Faria, integrado na carreira diplomática. Todas as ordens honoríficas foram extintas, com excepção da Ordem Militar da Torre e Espada. Mais tarde as restantes ordens honoríficas foram restabelecidas, em 1917 a Ordem Militar de Avis e em 1918 a Ordem Militar de Cristo e a Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Revogada a Constituição de 1911, durante a II República é aprovada a Constituição de 1933 que declara a igualdade dos cidadãos perante a lei e nega qualquer privilégio decorrente de nascimento, nobreza ou título nobiliárquico. Esta constituição não faz referência a extinção de títulos nobiliárquicos, apenas a negação de privilégios concedidos por estes, então entende-se, pelo princípio da repristinação (neste caso a lei revogada seria a Constituição anterior), que estes continuariam a existir, porém não dariam nenhum tipo de privilégio ao portador.

Revogada a Constituição de 1933 pela Revolução de 1974, durante a III República é aprovada a Constituição de 1976 que, não fazendo qualquer referência à extinção ou negação dos títulos nobiliárquicos ou dos foros de nobreza, estabelece o princípio da igualdade, no sentido de que todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. Sucede que, tal como nas Repúblicas, o princípio da igualdade está genericamente previsto na maioria dos ordenamentos jurídicos das actuais Monarquias europeias (em geral a actual nobreza presente nas Monarquias europeias não tem mais privilégios que os cidadãos condecorados em repúblicas). Daqui se conclui, pelo princípio da repristinação, que não existe no actual ordenamento jurídico português qualquer previsão legal sobre a extinção, abolição ou negação dos títulos nobiliárquicos ou dos foros de nobreza. Apesar de em Portugal vigorar um regime republicano, os títulos nobiliárquicos são reconhecidos pela justiça portuguesa, sendo-lhes concedida protecção jurídica contra o seu uso abusivo.

 

E ainda:

Repristinação: Instituto pelo qual se restabelece a vigência de uma lei revogada pela revogação da lei que a tinha revogado. Ex: a lei "A" é revogada pela lei "B"; advém a lei "C", que revoga a lei "B" e diz que a lei "A" volta a viger. Deve haver dispositivo expresso, não existindo repristinação automática (nem a Constituição Federal pode repristinar automaticamente uma lei).

 

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Gente má é outra coisa


Esses tais de governantes. Será gente? Gente não é, certamente… e os bichos são mais humanos… e a neve não bate assim… são apenas governantes…com poder para violar… princípios de humanidade… atributos da razão que se diz da humana condição. Com bué senão.


Taghi Rahmani: “O regime iraniano está podre, mas vão massacrar Narges na prisão"

"Tortura Branca" é o livro de Narges Mohammadi sobre a brutalidade do encarceramento de várias mulheres no Irão, ela que também está presa. Falámos com o marido sobre o futuro de Narges e do país.

ANTÓNIO MOURA DOS SANTOS: Texto

OBSERVADOR,30 jun. 2024, 16:184

Tanto Taghi Rahmani como os seus filhos gémeos, Ali e Kiana Rahmani, não vêem Narges Mohammadi — mulher e mãe, respectivamente — há perto de uma década. Podia dar-se o caso de serem desavenças familiares a propiciar esse afastamento, mas é precisamente o oposto. Laureada Nobel da Paz em 2023 pelo seu envolvimento no movimento cívico de oposição ao regime islâmico teocrático do Irão, Mohammadi é reclusa numa das mais infames prisões iranianas há vários anos. Aliás, foi a sua família — a viver no exílio em Paris — a receber o prémio em seu nome em Oslo.

Rahmani esteve em Lisboa precisamente para manter o nome de Narges Mohammadi bem vivo na nossa mente, encontrando-se a promover Tortura Branca, livro da activista que relata a brutal experiência de encarceramento de várias mulheres — e que lhe valeu mais tempo ainda de prisão, como retaliação do regime. O seu título deve-se a uma forma de tortura de índole psicológica que consiste em colocar as pessoas detidas sob confinamento solitário, permanentemente sujeitas à luz e sem quaisquer estímulos presentes dentro da sua diminuta cela.

A dor está na imensidão, capaz de quebrar um ser humano”, contou ao Observador em farsi, numa entrevista feita com recurso ao trabalho de interpretação de Askhan, cidadão iraniano a viver em Portugal há várias décadas. Rahmani, ele próprio um activista contra o regime, sofreu uma experiência semelhante durante os vários períodos de cárcere que viveu até ao momento em que abandonou o país.

No rescaldo dos protestos do movimento “Mulheres, Vida e Liberdade” — propiciados pela pela morte de Mahsa Amini às mãos da polícia da moral iraniana — Rahmani admite que o frémito da oposição foi reprimido pelo regime. No entanto, não só a sua experiência diz-lhe que “os movimentos não são sempre constantes, há alturas em que estão mais fortes e outras em que perdem força”, como afirma que os desenvolvimentos dos últimos anos deixaram marcas e que já há divisões no seio da elite política iraniana.

Para Rahmani, o actual líder supremo do Irão, Ali Khamenei, é um símbolo do “apodrecimento do regime”, que de dia para dia se vai tornando cada vez mais caduco. Tendo esta conversa decorrido antes das eleições presidenciais motivadas pela morte súbita de Ebrahim Raisi — e que vão agora para uma segunda volta depois de um recorde de 40% de abstenção — Rahmani afirmou desde logo quea participação nas eleições não significa que o povo tenha escolhido determinado candidato. Há pessoas que dizem ‘OK, vamos participar e vamos votar, não acreditamos no regime e se as coisas piorarem, voltamos a manifestar-nos’. A isso eu respondo que o melhor então é não participar, mas as pessoas têm medo de perder o seu emprego”.

Perante a realidade actual no Irão, o activista pede duas coisas. A primeira é que a comunidade internacional pare de olhar apenas para os seus interesses e concentre esforços em auxiliar a oposição no Irão, já que “num dia aplicam sanções, noutro negociam com o regime. Isso confunde o povo”. A segunda é que mantenham viva a voz de Narges Mohammadi. Mesmo atrás das grades, ela “vai elevar a sua voz o mais alto possível pelos os direitos das mulheres da região, pela liberdade, pelos direitos humanos, pela democracia, pela paz e desenvolvimento. Vou manter-me também nesse caminho e, para isso, precisamos da vossa ajuda”.

A capa da edição portuguesa de "Tortura Branca", de Narges Mohammadi (Casa das Letras)

Quais são as últimas notícias sobre Narges Mohammadi? A última notícia que tenho é que na semana passada foi feito um julgamento sem a presença de Narges e acrescentaram mais um ano à pena que tem ainda para cumprir. Isso foi fundamentado pelo regime por dois grandes motivos: o primeiro foi o facto de ter divulgado informação sobre os abusos a que Dina Ghalibaf, outra mulher encarcerada, foi sujeita — trataram-se de apalpões nas zonas íntimas, situações deste tipo. E o segundo prende-se com o facto de Narges ter promovido um boicote às eleições parlamentares. Então, o regime disse “estás a agir contra a segurança nacional” e aplicaram-lhe mais um ano de prisão.

Quanto a essa denúncia dos abusos, mesmo com todas as restrições impostas pela prisão de Evin, Narges tem vindo a relatar as condições em que mulheres — como ela — são encarceradas. Foi assim que surgiu Tortura Branca. Como é que ela conseguiu divulgar estas informações a partir da prisão? Esse livro não foi escrito de uma vez só e num único período. Foi o resumo de muitas conversas com outras prisioneiras, sendo que ela foi apontando essas entrevistas. Cada uma delas fez Narges sentir as consequências, porque isto perante o regime iraniano é um crime, é considerada divulgação de fake news. O regime iraniano está podre, mas devido à promoção dessas coisas, vão massacrá-la dentro da prisão.

Supondo que há algum grau de controlo, como é que Narges consegue circunscrever esse controlo e passar essas informações para fora?

Evin é como se fosse um castelo gigante. Quando uma pessoa passa informação para fora, está disposta a pagar o preço, com sentenças de encarceramento. Tal como Narges, foi detido várias vezes por causa do seu activismo, tendo também sido sujeito a confinamento solitário.

Com base na sua experiência, que tipo de estado mental é que as autoridades iranianas tentam criar nos presos políticos?

O regime islâmico encara os seus opositores de várias formas. Para começar, está disponível a pagar e comprar o silêncio. Fizeram-me tal proposta várias vezes, oferecendo bom dinheiro e bom emprego. Se não aceitarmos, ficamos sem possibilidade de exercer qualquer função. Muitos jornalistas, por exemplo, ficaram desempregados. E se uma pessoa, nestas condições, quer voltar a exercer atividade, é detida. Se resistir dentro da prisão, mantêm-na lá o tempo que for necessário até desistir. Mas quando há activistas que vão fazer manifestações armados, esses são logo executados. E se houver manifestações de alguma dimensão, matam algumas pessoas na rua e executam outras tantas dentro das prisões para passar a mensagem para o resto do povo. Isto tem uma razão, porque se baixarem a guarda, se diminuírem a supressão, o povo ganha. Eles não querem isso, por isso a supressão está sempre ao máximo para manter o povo em baixo.

Tendo em conta os métodos usados, como a própria tortura branca, parece haver uma tentativa de condicionamento mental nos próprios activistas.

Quando o prisioneiro chega à prisão, podem deitá-lo e baterem-lhe com cabos eléctricos. Aí, o detido pode dizer “quero confessar”, isto torna-se compreensível para si próprio. Mas a tortura branca é pior do que isso, são os confinamentos solitários onde a dor está na imensidão, capaz de quebrar um ser humano. Nesses dois métodos, aqueles que são espancados ou chicoteados, quando saem da prisão, têm marcas físicas de tortura e confessam. Há um entendimento do estilo “confessaste porque levaste com chicotadas”. Mas na tortura branca, dentro das solitárias, se confessares dizem-se “oh, mas tu não tens nada, porque é que estás a confessar?”

Porque não há nenhum sinal visível de violência. Isso faz com que a própria pessoa chegue ao ponto de querer confessar contra os amigos e contra ele próprio para pôr término àquela situação.

Uma ideia que retive ao ler o livro é que a tortura branca também tem o intuito de fazer da pessoa torturada alguém não confiável, porque já foi quebrado.

Ou seja, tem o intuito de isolá-la também perante o resto da comunidade. Precisamente. Quando lhe dizem que não tem nada e lhe perguntam porque é que confessou, a personalidade e a crença da pessoa vão abaixo. Depois de estar na solitária durante meses, a pessoa acaba por acreditar nas suas confissões. “Eu disse essas coisas… mas porquê?” Esta é uma forma de desacreditar a pessoa junto da sociedade para que a sua palavra deixe de ter sentido ou valor.

Porque é que é um método tão eficaz? Dou-lhe um exemplo: todas as pessoas no mundo vivem actualmente com o seu telemóvel, com notícias, redes sociais. A maior parte da população do mundo está agarrada a este aparelho. Hoje em dia, nenhum de nós consegue passar 10 ou 15 minutos sem olhar para o telemóvel, para ver as notícias, para ver isto e aquilo. Portanto, há uma necessidade de absorver informação. Agora imagine que o levam para uma cela solitária com três metros de comprimento e menos de 1,70 de largura e não tem acesso a jornais nem a notícias nem a absolutamente nada. A única pessoa que consegue ver é o seu carrasco, a pessoa que supostamente vai executá-lo daqui a algum tempo. É bastante mais eficaz do que estar a chicotear ou torturar — e é precisamente por causa disso que Narges escreveu e revelou estas coisas, para parar com estes actos desumanos. Este livro não é apenas uma história, é a realidade a acontecer enquanto o lemos. Está a acontecer precisamente neste momento.

Quero contar-lhe uma experiência, já que eu próprio estive nessa situação. Já tinham passado quatro meses e meio desde que estava numa cela solitária. Passaram-me detergente para a roupa em pó num pequeno pedaço de papel de jornal. Fiquei tão entusiasmado por ver um papel com alguma escrita em cima que perdi a noção e até comecei a comer esse detergente. Depois atirei o resto para o chão só para conseguir ler o pouco que lá estava escrito. Eram uma série de palavras sem qualquer sentido, mas acabei por decorá-las todas. Quando virei o papel ao contrário, estava lá escrito um poema que ainda tenho na minha mente.

[Ashkan usa inteligência artificial para traduzir o poema de farsi para português: “Se desejas beijar o meu desejo, beija a minha face agora mesmo”]

Li isso no verso do papel, num anúncio de alguém que tinha falecido, num obituário. E o guarda lembrou-se que nunca deveria ter dado um pedaço de papel de jornal e abriu logo a porta. Só tive tempo de escondê-lo debaixo de um tapete, enquanto ele gritava “dá-me, dá-me”. Eu respondi-lhe “atirei isso para sanita”. Ele obrigou-me a abri-la para ver, eu disse-lhe “abre tu” e ele acabou por sair. Durante dias tirei esse pedaço de jornal e li esses anúncios dos velórios das pessoas, era a leitura que tinha.

Um retrato de Narges Mohammadi exposto em Oslo a propósito da atribuição do prémio Nobel; o activista e marido de Narges Mohammadi", Taghi Rahmani

GETTY IMAGES

É uma necessidade extrema de estímulo mental? Não há nada na cela. A única coisa que existe é uma lâmpada ligada durante 24 horas. E à noite, quando se pede para desligar esta lâmpada, eles dizem “não, estamos com receio que te suicides, então a lâmpada fica acesa”. Para aguentar dentro da solitária, é preciso caminhar tanto quanto possível para sentir cansaço, e à noite poder dormir. Sempre contra a ideia de deixar apenas passar o tempo, de deixar até chegar ao almoço ou ao jantar, de não nos focarmos no tempo. Porque tiram todos os relógios.

Fica-se sem noção da realidade? Não há noção de tempo. E se o tempo conseguir dominar, é um jogo perdido. A guerra lá dentro é com as paredes: dois passos para um lado, dois passos para o outro. Não conseguir sequer abrir completamente os braços. E há sempre alguém a chegar à porta da cela para dizer “aqui é o fim do mundo, já acabou tudo”. Agora imagine isso, quando vem um jovem activista para uma cela dessas, que passa a vida agarrado a um telemóvel — como seria? Assim, as pessoas conseguiram compreender o que Narges viu que estão a fazer aos prisioneiros quando foi para a prisão, percebeu-se logo que isso é uma ferramenta de tortura para os prisioneiros políticos. Este livro, na verdade, tem uma segunda parte, que é um documentário iraniano de 50 minutos em que as pessoas falam da sua experiência na solitária. O Canal 5 da televisão francesa já o divulgou e tenho grande esperança que a comunicação portuguesa também o exiba. Eu, na qualidade de pessoa que já passou um total de um ano e meio de solitária, em períodos de seis meses, quatro meses, três meses, dois meses, consigo compreender o que está aqui escrito — e isto para as mulheres ainda é muito mais complexo.

Porque existe uma dimensão de violência machista, ligada ao fundamentalismo islâmico? Por isso e porque é ainda pior quando se trata de uma mãe, por exemplo. Qualquer barulho que uma mãe ouça de crianças nas proximidades, pensa que é o seu próprio filho. Os agentes responsáveis por sacar a confissão reprimem ainda mais as mulheres, utilizam palavras num contexto sexual e punitivo. Há um exemplo neste livro de uma senhora à qual um guarda apertava o braço e obrigava-a a relatar as suas relações íntimas com o seu cônjuge. Isto é muito doloroso, ainda mais no contexto da cultura iraniana, onde não temos o hábito de namorar muito publicamente, de dar grandes beijos em público.

Ou seja, demonstrações públicas de afecto e divulgação de pormenores íntimos da vida. Não há esse hábito. A família é uma coisa muito reservada.

De todas as declarações públicas que vemos de Narges, parece que, apesar da violência psicológica, mantém uma certa estabilidade, Cada declaração parece ter uma linguagem precisa e sóbria, sem ceder a argumentos emocionais. Portanto, consegue manter a mesma postura. O que tem a dizer sobre isto? Narges, desde criança, foi testemunha das execuções dos seus primos. Quando chegou à universidade, veio de Zanjan para Qazvin, uma cidade que fica a cerca de 150 quilómetros a norte de Teerão. Nessa altura, eu também estava na universidade e fazia workshops na cave de uma livraria sobre história e cultura iraniana. Não eram aulas oficiais, eram encontros, e durante os mesmos, eu partilhava as minhas experiências de prisão desde 1982 até 1992. Ela tinha estudado jornalismo e, no meio da comunicação social, tinha as suas próprias técnicas de trabalho. Essas duas coisas ajudaram muito a escrever este livro. Aproveitou a sua própria experiência e ainda a de outras pessoas, acabou por ver certas coisas com os seus próprios olhos. Ela quis que as outras senhoras partilhassem as suas histórias consigo para ela poder expô-las.

"Os países ocidentais vão negociando com Khamenei e estão a borrifar-se para a democracia no Irão e os direitos humanos. Preocupam-se mais com os seus próprios benefícios. Quando pedimos ajuda da comunidade internacional ou dos países ocidentais, não queremos que intervenham diretamente no nosso país, queremos que nos ofereçam as condições para termos democracia e liberdade."

As iniciativas de Narges para acabar com a pena de morte ou com o confinamento na solitária são vistas pelas autoridades iranianas não como campanhas pelos direitos humanos, mas como formas subversivas de atacar a segurança nacional Eles dizem que as suas iniciativas são contra o regime e vão contra os pilares fundamentais do islão: ir a Meca, rezar, ramadão, etc… Khamenei ainda há pouco fez um discurso onde acabou por dizer que a nossa justiça não necessita de se nivelar com os direitos humanos internacionais. Isso quer dizer o quê? Que estamos de caras com as organizações de direitos humanos.

Da primeira vez que Narges foi presa, tal deveu-se ao movimento que ela iniciou, precisamente para boicotar as execuções no Irão — e só por isso apanhou 10 anos de prisão. Eles dizem que, na lei islâmica, a execução existe. Alguns dos religiosos dizem que se a execução não tem quaisquer benefícios, não deve ser efectuada, tal como [Hussein-Ali] Montazeri, um político religioso. Ele era suposto suceder a Khomeini e ocupar o lugar que agora é de Khamenei enquanto supremo líder, era um religioso mais democrático [explicar sucintamente o que aconteceu], mas foi afastado. Pelo contrário, Khamenei diz que na lei islâmica existe o acto de execução e que se alguém não ordenar esse acto, na verdade está a atentar contra o Islão.

Nos tempos em que fui interrogado, a pessoa que estava a conduzir o interrogatório disse-me que, no Irão, a taxa de execuções é muito elevada. Por exemplo, quem cometer um homicídio no Irão recebe a pena de morte, estilo olho por olho, dente por dente. E como o nível de execuções é muito elevado, as autoridades vão ter com a família das vítimas para, de certa forma, comprar o seu silêncio, para que não se mate mais ninguém e se baixe os níveis de execuções. E eu perguntava “mas porque é que não alteram a legislação?”. E eles respondiam “não podemos, se o fizermos já não somos muçulmanos”.

Narges tem sido repetidamente sujeita a julgamentos arbitrários e detida em condições ilegais, mesmo tendo em conta a lei da República Islâmica. Todo este trabalho para tentar silenciá-la não será também um sinal de fraqueza do regime? Claro. Os regimes ditatoriais têm muito medo de denúncias porque as denúncias espalham-se e minam os pilares do seu poder. Preferem silenciar imediatamente os opositores antes de deixá-las espalhar-se pela sociedade.

De uma perspectiva portuguesa, as notícias diminuíram após os grandes protestos do movimento “Mulheres, Vida e Liberdade” causados pela morte de Mahsa Amini. Qual é a situação actual no Irão?

O governo conseguiu reprimir os protestos, mas começou a haver uma divisão dentro do próprio regime. Ontem [21 de junho], um dos políticos do regime, o senhor Mostafa Pourmohammadi, um ayatollah e um dos candidatos às presidenciais deste mês, comentou que muitos dos nossos amigos e parceiros desejam que o tema do véu seja tal e qual como era antes do caso de Mahsa Amini. Isso é uma admissão de que a sociedade mudou desde então. Neste momento, o regime diz “ok, se não queres pôr o véu por completo, não interessa, mas tens de colocar pelo menos um lenço, tem de ocupar pelo menos uma parte da cabeça”. No início, o véu era um dos pilares islâmicos iranianos, e neste momento já não tem nada a ver com islamismo e sim com controlo social. Neste momento, se houver um lenço colocado de forma mais casual, a polícia da moral chega e diz “ok, puxa um bocadinho para cima”, já não diz para pôr todo o véu. As jovens mulheres hoje já não querem ir por esse caminho e dizem “não, eu não quero aceitar isso”. A constituição iraniana está fundamentada em pilares de desigualdade, apesar de eles dizerem que não, que temos os mesmos direitos e as mesmas oportunidades para as mulheres.

A própria questão do véu, de colocá-lo nesta versão “faz de conta”, é um simulacro de controlo? Como já não conseguem impor as regras que queriam, estabelecem um padrão mínimo para fingir que ainda têm uma linha vermelha? Hoje apanham as pessoas nas ruas através da polícia da moral. As ruas e as avenidas são os sítios onde o povo vem protestar, dizer se concorda ou não. A polícia da moral impede o ajuntamento das pessoas na rua, como por cá nos tempos de Salazar. O tempo do recolher obrigatório militar já terminou, já não trazem os tanques para as ruas, mas trazem as forças de informação e de repressão. É o que estão a fazer precisamente com essa polícia da moral, que tem oprimido muito o povo. Mas, a meu ver, a resistência irá continuar. Em alguns pontos, o regime já recuou.

É preciso assinalar que os movimentos não são sempre constantes, há alturas em que estão mais fortes e outras em que perdem força. E o regime iraniano reprime porque têm petróleo, há muita gente que em termos financeiros está dependente do Irão, e isto torna as coisas ainda mais difíceis, mas a resistência continua. Todos os regimes que nascem através de uma revolução não são fáceis de pôr de lado, porque começaram como um movimento do povo. A meu ver, os regimes que nascem de uma revolução têm três etapas. A primeira é a parte da revolução em si, quando esta acontece. Depois vem a época da burocracia, criar os ministérios e as leis. E, por fim, se os revolucionários não se transformarem em democratas, é a época do apodrecimento. O próprio povo já não acredita nas acções e que está afastado daquilo que ajudou a criar. A bandeira de Khomeini era matar e assustar. Já a bandeira de Rafsanjani, um antigo presidente iraniano, foi a burocracia, a criação do Estado em si. E agora Khamenei é o símbolo da repressão, de espalhar medo e apodrecimento do regime. A meu ver, um regime nessas condições não tem futuro.

Ali e Kiana Rahmani, filhos de Taghi Rahmani (ao centro) e de Narges Mohammadi, fotografados durante a cerimónia de entrega do prémio Nobel da Paz 2023

ANADOLU VIA GETTY IMAGES

Numa entrevista à BBC, disse que a República Islâmica do Irão, como a conhecemos, “tinha os dias contados”. Isto foi dito no ano passado. Pergunto-lhe: o que vai acontecer? Temos agora eleições iranianas. Há seis candidatos [entretanto dois desistiram] e só um deles é reformista, mas é um reformista muito conservador que diz ter como linha vermelha inultrapassável a palavra de Khamenei. A meu ver, uma pessoa nestas condições nunca poderia vir a ser um reformista. Acredito que a maioria do povo não irá participar nas eleições, apesar de considerar que vá haver mais participação do que nas eleições legislativas. No entanto, a participação nas eleições não significa que o povo tenha escolhido determinado candidato. Há pessoas que dizem “OK, vamos participar e vamos votar, não acreditamos no regime e se as coisas piorarem, voltamos a manifestar-nos”. A isso eu respondo que o melhor então é não participar, mas as pessoas têm medo de perder o seu emprego.

E quanto ao projecto político iraniano? Actualmente, Khamenei está muito focado nas forças que lutam por ele ou com o apoio dele, como o grupo Hezbollah no Líbano, como a Rússia auxiliada pelo envio dos drones iranianos, como o Kata’ib Hizballah no Iraque, como os Houthis no Iémen, como o próprio regime de Bashar al-Assad na Síria e com militares xiitas onde conseguiu criar unidades no Afeganistão e no Paquistão. Na verdade, o Irão é um pequeno estado imperialista, e deste modo controla o governo iraquiano, dá ordens a Assad, pressiona o governo do Líbano através do Hezbollah. envia as tais forças militares afegãs e paquistanesas em prol desses movimentos e tem influência numa boa parte do Curdistão na zona iraquiana — tanto que os EUA e outros países ocidentais negoceiam com Khamenei quanto às posições dessas forças militares. Por exemplo, Biden, quando chegou ao poder, deu permissão a Khamenei para que ele pudesse vender uma quota maior de petróleo à China para, de certa forma, tentar baixar o preço altamente inflacionado do petróleo. Em troca disso, Khamenei prometeu que o Hezbollah não iria expandir as suas forças. Por outras palavras, o que acontece é que os países ocidentais vão negociando com Khamenei e estão a borrifar-se para a democracia no Irão e pelos direitos humanos iranianos.

Tem criticado a forma como o Ocidente intervém no Médio Oriente porque diz que, na maior parte das vezes, deixam vácuos de poder que o Governo iraniano aproveita. Por outro lado, também afirmou que as sanções económicas impostas ao Irão afectam muito mais a população do que o governo. Ou seja, duas formas de actuação que não resultam. O que deve a comunidade internacional fazer?

Eu digo o que vejo, os países ocidentais preocupam-se mais com os seus próprios benefícios. A democracia não pertence aos governos, pertence ao povo — e quando pedimos ajuda da comunidade internacional ou dos países ocidentais, não queremos que intervenham directamente no nosso país, queremos que nos ofereçam as condições para termos democracia e liberdade. Mas não vejo a comunidade internacional a caminhar nesse sentido.

Ajuda em que sentido? Não queremos guerra. A guerra só vai piorar as coisas. Queremos que a comunidade internacional nos apoie na luta pelos direitos humanos, no acesso à banda larga de internet para fazer chegar a nossa voz ao mundo, na promoção e apoio à cultura iraniana. Os iranianos não entendem quais são as políticas dos povos ocidentais — num dia aplicam sanções, noutro negociam com o regime. Isso confunde o povo. Os acontecimentos de cada país, é o povo desse país que os define. A nossa vontade é que o povo possa definir com a sua própria voz o seu caminho e os seus direitos.

"O prémio Nobel pôde levar a voz de Narges para mais longe. Ela vai elevar a sua voz o mais alto possível pelos direitos das mulheres da região, pela liberdade, pelos direitos humanos, pela democracia, pela paz e desenvolvimento. Vou manter-me também nesse caminho e, para isso, precisamos da vossa ajuda."

Mosaddegh. Na verdade, no que toca à implementação de direitos humanos no Irão, os países ocidentais nunca deram grandes apoios. Mesmo neste preciso momento, os países ocidentais, por exemplo, não apoiam as palavras e decisões de António Guterres nas Nações Unidas quanto à guerra em Gaza. Sou um grande admirador de Guterres, ele tem grandes valores humanos.

E quero também dizer isto: neste momento, a extrema-direita está em expansão na Europa. Qual é o seu slogan? Não querer imigrantes na Europa. Mas porque é que os imigrantes vêm para cá? Vêm em busca de emprego, vêm fugir da guerra e das secas. No entanto, o que é que os países ocidentais fazem? Vendem armamento. Num único ano, a Arábia Saudita comprou 54 mil milhões de dólares só em armamento. Porque é que o Ocidente não reduz as vendas de armas? Quanto às alterações climáticas, quem é que destruiu o meio ambiente? Os países desenvolvidos e avançados. Porque é que a comunidade internacional — e os países europeus em particular — não faz pequenos investimentos em países como o Afeganistão, o Paquistão, o Irão, países do norte de África e de toda a região do Médio Oriente, para evitar que essas pessoas imigrem para aqui?

Por fim, veja-se a guerra da Ucrânia. Putin é um violador dos direitos humanos, mas as províncias que a Rússia ocupou era suposto a Ucrânia ter-lhes concedido autonomia em 2014 e não o fez. Se o tivesse feito, tinha acabado com as pretensões do Putin para a tal guerra. Políticas como esta acabam sempre em nosso prejuízo. A guerra na Ucrânia vai contra os nossos interesses [da oposição no Irão], tal como a guerra em Gaza.

Tem havido uma oposição crescente de vários quadrantes políticos à forma como Israel está a conduzir a guerra contra o Hamas em Gaza. Acredita que esta guerra está a ter algum efeito na reabilitação da posição de Teerão no mundo? A estratégia do Irão não é a Palestina, é o Hezbollah. Os palestinianos, pelo facto de serem sunitas, não têm grande proximidade com os iranianos. Os maiores apoiantes do Hamas são o Qatar e a Turquia. Veja-se como, há alguns anos, Netanyahu propôs ao rei do Qatar que apoiasse o Hamas, para que este liderasse e governasse a Palestina. Netanyahu não procura a paz. Quando destrói Gaza desta forma, afecta todo o mundo árabe, e Khamenei tira louros disso. Ele também mata da mesma forma o seu próprio povo, mas vem defender Gaza, tal como grande parte do mundo está a fazer. Dessa forma, Khamenei está a comprar uma cara lavada junto à comunidade internacional, o que também nos prejudica.

É como se colocasse como figura de proa do mundo muçulmano contra o que se está a passar em Gaza? Todos os países em redor de Israel são países árabes que também reprimem os seus próprios povos. A maioria tem regimes ditatoriais, mas aparentam ser democratas junto a Israel, apesar de nunca terem tido grande interesse na Palestina. Nunca foram movidos pela ideia de resolver e ajudar: isso aconteceu com Bashar al-Assad, com o Iraque, com a Arábia Saudita, com o Qatar, com o último presidente parlamentar da Líbia, Muammar Gaddafi, são pessoas que se aparentam democratas junto a Israel.

O Prémio Nobel da Paz pode não conferir muito poder político, mas pode levar a uma mudança de mentalidades e a um foco internacional nas causas defendidas pelos premiados. Acredita que foi esse o caso com a vitória de Narges em 2023? O prémio Nobel pôde levar a voz de Narges para mais longe. Hoje em dia, consegue-se ouvir a palavra de Narges, e se ela não tivesse esse prémio Nobel, a maioria não saberia da sua existência. Ela vai elevar a sua voz o mais alto possível pelos direitos das mulheres da região, pela liberdade, pelos direitos humanos, pela democracia, pela paz e desenvolvimento. Vou manter-me também nesse caminho e, para isso, precisamos da vossa ajuda.

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COMENTÁRIOS (de 14)

pertinaz > Luis Silva: Disparates de um ditadorzinho de pacotilha

pertinaz: As ditaduras têm de ser exterminadas…

As alternâncias


Habituais dos poderes, nas tentativas de consertos dos desconcertos das histórias, ao longo da História...

Os democratas que detestavam a democracia

Na UE imita-se a França e usam-se esquemas para que alguns grupos políticos, apesar dos votos, não tenham os cargos correspondentes. Quem age assim? Os extremistas? Não, os democratas.

HELENA MATOS Colunista do Observador

OBSERVADOR, 30 jun. 2024, 07:3181

Quando este texto for publicado os franceses vivem a primeira volta das eleições que há alguns anos se consideravam impossíveis. Impensáveis, até. Afinal não demorou muito para que o impossível de ontem se tornasse no inevitável de hoje. E o impensável passasse a facto consumado.

E o que é (ou era) o impossível? Que o Rassemblement National (RN) anteriormente Front National (FN) se configure como um dos possíveis vencedores do dia de hoje. E o que é (ou era) impensável? Que trinta e seis anos de cordões sanitários e de frentes republicanas não acabassem com aqueles que se pretendia marginalizar. Mas o impossível e o impensável aconteceram e deixaram a França sem centro político.

Mas sejamos honestos, não foram os extremistas quem destruiu o centro. Foram, sim, aqueles que se apresentaram como donos do centro e que, através duma crescente e obscena contradição entre o declarado e o praticado, acabaram a tornar aceitáveis aqueles a quem chamavam extremistas, populistas, fascistas… porque eles mesmos, os democratas, faziam no presente aquilo que – garantiam eles – os fascistas, os extremistas e os populistas iam fazer no futuro se fossem eleitos.

Desde 1986 que em França o centro se prestou às mais rebuscadas engenharias eleitorais para excluir os ditos fascistas, populistas e extremistas dos cargos de poder. A cada eleição o centro perdia votos, mas quanto mais votos perdia mais crescia a sua empáfica cegueira. Empáfica cegueira que, convém sublinhar, agora mesmo vemos ser replicada pelos dirigentes da UE que optaram por deixar de fora das negociações para as lideranças da UE os Conservadores, por sinal o terceiro grupo com maior representatividade no parlamento. Mais uma vez, com o amargo de boca de quem assiste à repetição de um espectáculo grotesco, vemos a contradição entre o defendido – a verdade das eleições – e a prática – os esquemas para excluir alguns. O dilema que a França vive hoje pode muito bem vir a ser o da UE amanhã.

O debate Biden-Trump é um símbolo do nosso tempo. De alguma forma, e por diferentes razões, somos todos como a elite do partido Democrata que agora se diz em choque após ter levado anos a negar o evidente: Biden está senil. Bastava seguir com alguma regularidade as aparições do ainda presidente dos EUA para o perceber. Estou aliás convicta de que Biden só ganhou as anteriores eleições porque a campanha que as precedeu foi substancialmente reduzida com Biden a fazer pouco mais que umas estridentes aparições de óculos escuros. Mas em 2024 não há já forma de esconder o que em 2020 se conseguira escamotear. Numa opção que certamente alimentará especulações durante anos, os Democratasnum gesto para uns de desespero, para outros de negação, perfídia, arrogância… ou tudo isso e o seu contrário – acabaram a ver o seu candidato e ainda Presidente a atolar-se numa prestação que certamente fez alguns rostos sorrir em Pequim e Zelensky beber mais um golo da taça de fel que a solidariedade ocidental lhe oferece. Quando a grande potência do mundo em que queremos viver acaba a discutir o seu futuro num debate nestes termos todos nos sentimos mais frágeis. Muito frágeis mesmo.

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COMENTÁRIOS (de 81):

João Valente > F. Mendes: Absolutamente de acordo.            Fernando CE: Análise certeira. Muito bem. Muitos democratas não ouvem o povo. Alguns políticos democratas não fazem a vida que o povo faz. Não frequentam os mesmos hospitais, centros de saúde, não andam nos mesmos transportes, nos mesmos bairros e casas, não têm os filhos e netos nos mesmos colégios e escolas , etc..            Mario Figueiredo: Cada vez mais me convenço da inevitabilidade destes ciclos. O poder não é nem nunca foi sustentável. A democracia não parece querer oferecer um mecanismo de transição para evitar essa corrosão. Porque rapidamente se transforma numa oligarquia dissimulada. E já há muitas décadas que andamos a ser governados por gente menor que nós, que existem não ao serviço das populações e do país, mas ao serviço dessa oligarquia. Há muito que perdemos as fortes lideranças do pós-guerra. Andamos a esgravatar políticos do fundo do poço genético. O que assusta é a resposta. Mas a raiva, a frustração e o desejo que se faça justiça sempre alimentaram os extremos. E por toda a Europa começa-se a perceber que vamos entrar num novo ciclo nacionalista e proteccionista. Nós, portugueses e os nossos líderes, pouco soubemos aproveitar o que nos chegou quando a Europa mal ou bem ainda funcionava como um mecanismo de entre-ajuda. E vamos pagar um preço caro quando a Europa começar mais claramente a falar a muitas vozes.              Rui Lima: Em 1978 o partido de le Pen tinha 0,2% nas eleições franceses, a partir de 1980 outro povo chegou em força a França , não explica tudo mas quase tudo sobre actual situação no país .               Pertinaz: Por cá vivemos a mesma vergonha. Gentalha que se julga dona da democracia e da vontade dos outros. “Linhas vermelhas” sobre “linhas vermelhas” e ainda temos a sorte de ter uma “extrema-direita” francamente soft para o que se vê por aí. Para mim… ACABOU…!!!                 João Floriano: Helena Matos, o oráculo da direita como é chamada por Sérgio Sousa Pinto, Traz-nos hoje dois temas que provam que pelo menos no ocidente onde a democracia ainda tem regras, estamos a viver numa aldeia global e o que se decida em França, assim como o debate entre Biden e Trump na passada quinta feira, têm influência na nossa vidinha monótona. A engenharia pós eleitoral no seguimento do dia 9 de junho não vai conseguir salvar os centristas nem na Europa, nem em França, nem em Portugal. Tal como Helena Matos aponta, em França foi mais depressa do que seria de esperar. Macron está em maus lençóis não só em termos económicos mas sobretudo em termos sociais. Attal foi nomeado há apenas 6 meses, o que não evita que Macron tenha convocado novas eleições legislativas. O grande problema de entender a democracia como a entendem figuras como Macron, António Costa ou no extremo Sanchez, é que não hesitam em alianças estratégicas para aceder e manter o poder. Em 2015 António Costa abriu a Caixa de Pandora ao aliar-se a PCP e Bloco. Os resultados estão à vista. Em Espanha Sanchez destrói o país para defender o seu PSOE e a extrema esquerda, cedendo a separatistas e terroristas. Vamos a ver que malabarismos vai fazer Macron para se entender com o governo que sairá do acto eleitoral hoje iniciado. Dantes, sabíamos que o partido que ganhasse as eleições nem que apenas por um voto governaria. Hoje temos de esperar pelas alianças, o que torna os governos muito mais frágeis. Se eu pertencesse ao partido Democrata estaria mesmo muito assustado e não saberia o que fazer. Manter Biden é arriscado tendo em conta a debilidade do actual Presidente americano. Arranjar um novo candidato democrata deve ser uma tarefa quase impossível. O ogre Trump nunca teve um debate tão fácil na vida. Tão simples como roubar a chucha de um bebé. Mas a Europa que não tema porque nos comandos da UE temos o super Costa.                     Pedro Correia: Helena Matos. Sem dúvida, a mais lúcida jornalista do "OBSERVADOR ". A restante redacção e painel de comentadores, também já começa a traçar alguma linhas vermelhas, e a tendencialmente se igualar a outros pasquins alinhados à esquerda. Viu-se ( e vê-se) isso, no acompanhamento das campanhas eleitorais, sejam elas nacionais ou internacionais. O que não é do centrão não presta. Mantenha-se assim isenta e sem medo de dizer de sua justiça, Helena.                   F. Mendes: Belo artigo, como vem sendo habitual. No entanto, a responsabilidade pela situação a que chegámos, reside também nas consequências da migração iniciada nos anos 60 para a Europa, cujas consequências em países como a França são trágicas e potencialmente catastróficas. À cabeça, evidentemente, a segunda e terceira geração de Magrebinos, que tantos problemas causam nos subúrbios de cidades como Bruxelas ou Paris. Mas há mais: a imprensa, que trata quem denuncia os aspectos menos simpáticos da imigração, como uma massa de reaccionários da extrema-direita. Os resultados estão à vista, tendo já causado o Brexit e pondo a própria UE em risco, incluindo no campo da segurança interna e defesa militar. Por aqui, estamos a repetir os mesmos erros, e ainda por cima em escala alargada.                 Maria Tubucci: Nem mais, Sra. HM, o pior cego é o que não quer ver. Vivendo nós tempos de lógica invertida e de verdade relativa, onde os democratas que detestam a democracia nos dizem que se tem de matar a democracia para salvar a democracia, na justificação das cercas sanitárias. Tudo a coberto de gigantescas doses de banha-de-cobra mascarada de opinião pública na comunicação social. Tentam-nos fazer crer que, “guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”, George Orwell topou-os ao longe. O pessoal já começou a topar, e a abrir a pestana, e a ver que a realidade não é como a pintam. Não há ódio bom nem ódio mau, há ódio ponto, qualquer ódio é mau. Aqui vai uma La Palisse, alguém hoje vai ter uma vitória de Pirro!         João Floriano > Fernando Cascais: Bom dia, Fernando Cascais: Hoje não estou em perfeita sintonia consigo e embora os seus comentários sejam como sempre um luxo, não me agradou aquela conversa das lambidelas por parte do xará de AAA em certas partes anatómicas das velhas. Andaram todos ao mesmo, sobretudo o PSD para reconquistar a boa vontade dos eleitores reformados e pensionistas. Mas não falemos disso agora. Biden está muito frágil, sendo que não vou usar o termo senil, que guardo para outro presidente bem mais perto de nós. Se Trump mentiu e não me espanta, Biden não conseguiu desmontar as mentiras ou as inverdades. Mais uma vez repito que não sou apoiante de Trump, mas entendo perfeitamente os motivos que levam os americanos a apoiá-lo. Cansados de wokismo, de imigração descontrolada, é natural que se voltem para Trump, que apesar de não andar muito longe da idade de Biden, não apresenta os mesmos sinais de desgaste pela idade. É prematuro dizer que Trump vai abandonar a NATO. Não será assim até por motivos estratégicos e pelas novas modificações que estão a acontecer com rotas marítimas no Ártico possibilitadas pelas alterações climáticas. Com russos e chineses a passarem cada vez mais a norte, a NATO vai ser mais necessária do que nunca. O que vai certamente acontecer é que Trump vai forçar os países europeus a dividirem «a conta do restaurante», o que não agrada mesmo nada a países entre os quais Portugal, que terão de aumentar as verbas para a defesa. Igualmente não me parece que Trump vá ceder aos chineses em termos de economia. As cedências não se enquadram no MAGA ( Make America Great Again). Quanto à direita e ao que irá fazer, pela minha parte se combater o socialismo e o comunismo, o wokismo, a imigração descontrolada, sobretudo a que ameaça a nossa segurança e o nosso modo de vida, se reintroduzir valores de exigência na educação, já será muito bom. À semelhança de Helena Matos e Durão Barroso, eu também comecei por frequentar reuniões da UDP a seguir ao 25 de Abril. Nada de estranho. O estranho seria se agora aos 72 anos eu andasse a votar nas manas Mortágua. Parece um anátema em relação à direita populista (o Fernando é demasiado inteligente para ir por aí, pelo populista), dizer que está em campo para ganhar votos. Não é isso que se espera de qualquer partido político? Qual o mal de a direita «populista» também o desejar à semelhança de todos os outros partidos, incluindo a IL? Falando de choque com a realidade, é inevitável porque já ninguém aqui é criança ou crédulo a ponto de acreditar em amanhãs que cantam ou que alguém vai modificar o mundo para melhor, o que não deixa de ser uma questão profundamente existencial e filosófica: porque não conseguimos melhorar o mundo mas é tão fácil piorá-lo?                  Carlos Quartel: Muitas nuvens no horizonte, tudo pode ser posto em causa. As democracias parecem estar a esgotar-se, sem mecanismo de resposta para novos problemas. Esta deriva autoritária é a resposta às liberalidades e às cedências ao dito "progressismo de género" que tudo contamina e que fere os sentimentos de decência e rigor moral de muita gente. Não é assunto ligeiro e penso não haver soluções miraculosas. Preocupante, sem dúvida ....        Vitor Batista: Era tão óbvio que Biden está senil, e digo isto sem qualquer desprezo pela pessoa en causa, é que a idade e as vicissitudes da vida não perdoam, sendo assim deveria retirar-se com dignidade.               Ronin: Quando não se pede ID a eleitores nos USA por decisão de juízes STF, então a burla está a caminho, foi o plano com os migrantes aos milhões, por cá o BE defende o mesmo até manda artistas migrantes atacar a oposição. Henrique Nobre: Luís XIII tinha Richelieu e Mazarino, o nosso D. José teve o Marquês de Pombal. As eminências pardas que, de facto, exerciam o poder. Quem, verdadeiramente manda nos EUA? Não é Kamala Harris, de certeza. Preocupante...             Antonio Marques Mendes: A democracia bi-partidária está em causa, mas não a multipartidaria. O centrão acaba anquilosado como acabam as ditaduras - por cansaço.       Carlos Chaves: Caríssima Helena Matos, se me permite acho que se enganou no tempo verbal do título desta crónica. Em vez de “Os democratas que detestavam a democracia”, eu escreveria, “Os democratas que” detestam ”a democracia”. Aqui no nosso país estes “democratas” continuam bem vivos e activos, incluindo neste jornal onde escreve, na rádio onde a ouvimos, e no YouTube onde a vemos e ouvimos! Teimam em ignorar, ostracizar e maltratar milhões, sim milhões, de Portugueses que estão insatisfeitos com os “democratas” que dizem uma coisa e fazem outra, enquanto vamos empobrecendo e embrutecendo! Também aqui chegará a mudança necessária, veremos então se haverão mea-culpa, ou se assistiremos aos cobardes de sempre, a negar os execráveis serviços que andam a fazer!                     bento guerra: A "democracia" começa a revelar-se uma palhaçada, onde a única ligação entre cidadãos e eleitos, são os papelinhos ,que, periodicamente, se metem nas urnas, Os quotidianos ,as realidades das pessoas, já não lhes dizem respeito, são consequência das algazarras parlamentares, (Biden está ali, para safar a família e amigos)              Pedro Manuel Moço Ferreira: Bom dia, alguém a dizer e a ver o óbvio. Acrescento que as democracias estão muito doentes e o centro do poder vai virar-se para a Ásia. Ao longo da história as grandes mudanças de poder fizeram-se sempre com guerras, penso que desta vez volta a ser inevitável.                    Sérgio Cruz: Análise perfeita e bastante profunda. Será o princípio do fim do centrão e das elites políticas.                      Gabriel Madeira > Carlos Chaves: E, já agora, pagantes. Pois, para podermos ler as crónicas e/ou expormos a nossa opinião, subscrevemos a assinatura.                   L Faria: Resta dizer que as eleições que Biden ganhou tiveram alguns pormenores que todos aceitaram porque derrotava o Trump. E aí vale tudo certo? Biden ganhou no voto por correspondência porque no voto das urnas ganhou o Trump. E quem votou? Estaria habilitado a votar? Foi tudo aceite porque derrotava o Trump. No Brasil igual. Valia tudo para tirar o Bolsonaro. O que vemos agora? A implementação de uma ditadura com um corrupto, criminoso que não tem ninguém a na rua e nem consegue andar na rua. Façam isto na Europa e depois admirem-se.            Maria Emília Santos Santos: Muito boa crónica como sempre tudo o que vem da cara Helena Matos! Obrigada Dra Helena por fazer parte dos poucos jornalistas que ainda o são de verdade! Hoje, falar ou escrever verdade é ser: racista, xenófobo, populista, fascista, e de extrema direita! Da extrema esquerda, são todos os que querem virar tudo ao contrário, para fazerem a revolução da "ciência" contra Deus e portanto contra a consciência de cada pessoa! Da direita, são os que desejam viver em democracia cristã, nos valores e ética moral, com justiça deveres e direitos iguais para todos! Da extrema-direita são os que gostavam de voltar ao pior dos tempos antigos. Mas, segundo o maior de todos os Mestres que já existiu na Humanidade por Ele criada, o melhor e mais saudável modo de viver em comunidade, é cumprindo o Código Cristão que Ele mesmo nos deixou! As Bem Aventuranças! Mas, claro, isso para as gananciosas elites financeiras do poder, não serve, porque o problema é que eles querem ser os deuses deles e de nós todos! Eles compram tudo e todos com o excesso de dinheiro que eles acumularam! Eles podem agora ditar as leis, porque têm em seu poder todo o dinheiro do mundo! Eles podiam investir nos países pobres, em infraestruturas, em vez de promoverem a imigração em massa e sem controle, para a Europa e EUA, mas não é isso que eles desejam! Criar desordem e confusão, pobreza e miséria, angústia e desespero, depravação sexual e crime organizado e desorganizado, novas gerações desanexadas e dependentes dos vícios, que elas próprias se tornem dependentes da depravação sexual, que não se interessem por mais nada a não ser a exploração total do seu próprio sexo! Abolir o pecado, e convencê-los de que o diabo não existe e o pecado também não! Depois?!... Ah depois! Depois é só libertinagem e nessa altura já tudo está no papo deles! Este apenas é o caminho para lá chegar! A UE é o caminho para o inferno! Os que se lhe opõem querem conduzir-nos pelo caminho para o Céu!                 Manuel Martins: O agora presidente do Conselho Europeu foi o autor de algumas das frases que vão ficar para a história como as que, em minha opinião, mais prejudicaram a nossa democracia e o nosso país: "à justiça o que é da justiça e à política o que é da política ", " acabou a austeridade", "derrubaram- se os muros à esquerda", " linhas vermelhas com a direita ", etc. As linhas vermelhas, os cordões sanitários, só funcionam enquanto o povo quiser. Como alguém disse com muita razão, não são os políticos nem instituições que normalizam os partidos mas sim o povo com o seu voto. Como se percebe com o que ocorreu em muitos países europeus, se os partidos do centro lançam linhas vermelhas para não ouvir nem considerar alguns partidos, quando eles têm razão, por muito que isso custe ao partidos do centro, o povo percebe que tem de reforçar o voto até que ganhem maioria. Não vai a bem vai à força...                    Luís Rodrigues: O caso dos EUA é particularmente preocupante porque gostaríamos de poder continuar a considerar aquele grande país uma democracia de referência. O que nos dizem de lá, oficial ou oficiosamente, desde 2020, parece esconder partes importantes da realidade. A cegueira assumida dos Democratas perante as óbvias incapacidades de Biden (desde há quatro anos) recorda-me a atitude do nosso "povo socialista" a respeito de Sócrates, cujas excentricidades (palavra delicada mas abrangente) foram ignoradas durante anos. Alguma razão para tanta confiança se desfez ou ficou gravemente prejudicada com o recente debate, e deram-se então conta do sarilho. O controlo dos danos dará muito trabalho.                  João Ramos: Muito bem HM tanto sobre as virgens carpideiras supostamente defensoras da democracia (da delas) e que na realidade apenas a vão destruindo e negando a quem não seja exactamente como elas e no que toca ao drama para todos nós do que se está a passar nas eleições americanas entre um louco irresponsável e perigoso (Trump) e um velho em franca e acentuada decadência (Biden) e isto passa-se no país mais poderoso do mundo e o grande « farol » do Ocidente, se isto não é de arrepiar os cabelos, o que será ???                    L Faria > Filipe Bacelar: E lambem as botas à extrem- esquerda e ao socialismo. Já só falta proibir os partidos de direita. É este o entendimento que tem da democracia? E chama fascistas aos outros certo?             Henrique Nobre: Cara Helena. Biden venceu as últimas eleições, menos pelos seus méritos políticos e mais pela rejeição a Trump. E sim, a sua fragilidade, cognitiva e motora, já era bem visível na altura. Agora, nos últimos dois anos foi o descalabro.