quarta-feira, 3 de julho de 2024

Argumentos


Com conta, peso e medida q.b. Texto enviado pelo Luís, colhido nas suas buscas democráticas.

OS DARLINGS DO PCP

O PCP apoia o regime cubano. É natural, sendo uma ditadura, com a repressão associada, Cuba tenta implementar um regime comunista, com algumas qualidades, mas sobretudo com algumas limitações e muita coerção.

O PCP apoia o regime norte-coreano. Na Coreia do Norte existe, de forma não constitucional, um regime monárquico dinástico, que passa de pais para filhos. Muito mais do que caracterizar-se pela procura do comunismo, o regime norte-coreano caracteriza-se pela arbitrariedade, pela violência e por um superior grau de loucura.

O PCP apoia o regime chinês que, dizendo-se comunista, pratica o capitalismo mais feroz. Embora nem sempre de forma explícita, o PCP apoia os regimes da Bielorrússia e de Moscovo, ditaduras parasitadas por riquíssimos oligarcas, que mais facilmente podem ser considerados de direita do que de esquerda.

Com a queda do muro, o critério de proximidade com o partido comunista deixou de ser a procura do marxismo-leninismo. Actualmente o critério define-se por oposição. O PCP sente-se próximo de todos que se opõem ao mundo livre, às chamadas “democracias burguesas” que são as nossas, e a qualquer forma de amizade com os Estados Unidos.

Várias vezes, especialmente em alturas próximas do 25 de Abril, se diz que o PCP lutou pela liberdade. Pois é claríssimo que não. O PCP que lutou de forma aguerrida e tenaz contra o Estado Novo, nunca o fez com ensejos de liberdade, mas sim com vontade de impor uma ditadura que seria muito pior.

Ideologias como o comunismo, ou o fascismo, são incompatíveis com a liberdade. Tal é facílimo de compreender, mesmo pelos charlatões que se gabavam de ter derrubado o muro que separava os comunistas dos outros partidos.

E a inteligência artificial

 

Nem sequer contou, com q b da natural para a conquista do espaço próprio, sem o “a salto” vexatório nem a mala de cartão das nossas tradições desertoras.

A vitória de António Costa

O que têm em comum António Costa, António Guterres e José Manuel Durão Barroso? Há qualquer coisa de fado em os nossos governantes não gostarem de nos governar.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 02 jul. 2024, 00:2067

Devemos ficar contentes quando um compatriota tem sucesso fora de portas. E, por isso, a escolha de António Costa para Presidente do Conselho Europeu (PCE) merece ser elogiada, como a de José Manuel Durão Barroso e António Guterres, todos eles ex-primeiro-ministros. Não sendo correlação causalidade, é interessante verificar que todos eles pertencem igualmente ao grupo dos líderes de Governo que menos bem fizeram ao país. Podia dizer-se que parece ser o curriculum necessário para se ser escolhido pelas instituições internacionais, deixar o país natal cheio de problemas, sem capacidade para os resolver. E todos eles a parecerem que se sentiram aliviados por nos deixarem.

António Costa ganhou a maioria absoluta a 30 de Janeiro de 2022 e tomou posse a 30 de Março. Pouco menos de um ano e meio depois o Governo de maioria absoluta, do qual se esperava que finalmente adoptasse medidas estruturais, acumulava a saída de 13 ministros e secretários de Estado.

De Março de 2022 a 7 de Novembro de 2023, o ex-primeiro-ministro e agora Presidente do Conselho Europeu pareceu em geral ter desistido de governar. Chamou a si os assuntos europeus, pasta que costumava pertencer aos Negócios Estrangeiros, e de início estava mais fora do país do que dentro. Uma das viagens que ficou na história foi a que fez à Hungria em Junho de 23, onde assistiu à final da Liga Europa ao lado do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e que agora votou a favor da sua nomeação para PCE. Na altura quer o PSD como a Iniciativa Liberal perguntavam se António Costa estava em campanha.

Com todo o trabalho que teve na frente europeia e que, infelizmente para nós, não teve em Portugal, foi protegido pela sorte – que dá muito trabalho – e viu o seu sonho ser concretizado por causa da Operação Influencer, usando o parágrafo do comunicado do Ministério Público para se demitir. Sim, depois de tudo o que já tinha acontecido com o seu Governo e com a descoberta de pouco mais de 75 mil euros na estante do seu chefe de gabinete, ficaria muito fragilizado, mas podia não se ter demitido até porque tinha uma maioria absoluta. E escusava, quer o ex-primeiro-ministro como algumas pessoas do PS, de transformarem o Presidente da República num alvo.

Durante o tempo da sua governação, não fez uma única reforma estrutural, não decidiu um único investimento estruturante como o novo aeroporto ou a alta velocidade. Foi uma governação sempre atrás do prejuízo, que teve justificações no caso da pandemia e da inflação, mas que não se percebe noutras áreas. Deixou o seu Governo ao Deus dará e deixou-nos com uma imigração descontrolada, sem respeito pelos direitos humanos, serviços públicos degradados, como a educação, a saúde e a justiça, por exemplo, assim como um problema grave na habitação. E deixou-nos uma sociedade radicalizada, com os eleitores a serem chamados a eleições a meio de um caso de suspeitas de corrupção que conduziu o Chega aos 50 deputados.

Ah, sim, deixou-nos as “contas certas”. Só que esse equilíbrio orçamental foi conseguido à custa da míngua dos serviços públicos e, por isso mesmo, de sustentabilidade difícil. As poucas reformas que começou a fazer foram ditadas por Bruxelas, como condição para se ter acesso às verbas do PRR.

É com este curriculum na governação de Portugal que António Costa chega a Presidente do Conselho Europeu. Sim, é verdade que o perfil exigido para aquela função ajusta-se completamente ao que o ex-primeiro-ministro sabe fazer melhor: a negociação política, os jogos políticos. Quando o deseja ou quando lhe é útil porque sabemos bem como é implacável com quem o critica ou se coloca no seu caminho. Foi assim com António José Seguro, foi assim com Assunção Cristas, ex-líder do CDS, foi até assim e de alguma forma com o Bloco de Esquerda e foi assim com André Ventura que agora, ironicamente, quer pertencer ao grupo político de que Viktor Orbán é fundador.

As escolhas da União Europeia para as lideranças dos principais órgãos europeus são aliás incompreensíveis, como bem notou a primeira-ministra italiana Georgia Meloni. Na prática, foram os derrotados, o chanceler alemão Olaf Scholz nas eleições europeias e agora como se viu na primeira volta das legislativas o presidente francês Emmanuel Macron, que decidiram quem iria dirigir os destinos da Europa da União nos próximos cinco anos, indiferentes aos resultados eleitorais e ignorando a Itália. São estes mesmos líderes, tal como António Costa, que depois estranham o sucesso dos populismos, quando os alimentam.

Nós portugueses começamos a estar habituados a ser trocados, pelos nossos líderes, por cargos internacionais que os satisfazem mais. António Costa consegue sair sem que nos sintamos abandonados, apesar de tudo em melhor posição do que António Guterres, mas ao contrário do que aconteceu com José Manuel Durão Barroso, que deixou de ser primeiro-ministro para ser presidente da Comissão Europeia. Há qualquer coisa de fado neste nosso destino de não sermos capazes que os nossos governantes gostem de nos governar.

ANTÓNIO COSTA     POLÍTICA     PARLAMENTO EUROPEU     UNIÃO EUROPEIA     EUROPA     MUNDO     GOVERNO

COMENTÁRIOS (de 67)

bento guerra: "Vitória"? Encomenda da Internacional Socialista. Vitória do Diogo Costa   Alfaiate Tuga: Alguém sabe dizer se os 40.000,00€ mensais vão pagar IRS em Portugal ou noutro país qualquer? Já agora, a pensão de 95% do último vencimento a que terá direito quando terminar o mandato, vai ser paga por quem? Bruxelas? Segurança social portuguesa? Obrigado              J G: Eu não fico contente quando um "compatriota" corrupto e medíocre consegue ter acesso a cargos de poder. Uma pessoa que já várias vezes provou ser de mau carácter e incompetente num cargo de poder consegue (e conseguiu, os resultados negativos falam por si) prejudicar a vida de muitas outras pessoas que realmente trabalham e contribuem para a sociedade. Sou a favor do mérito e de pessoas que mostram resultados positivos, não sou a favor da mediocridade premiada e carregada ao colo pela cunha e compadrio. Ao se premiar uma pessoa medíocre a nível profissional e ainda para mais a contas com a justiça como António Costa estão a passar uma mensagem muito errada aos mais novos, estão a dizer a eles que eles também devem ser aldrabões e destituídos de moral para conseguirem subir na vida.             Maria Tubucci: Triste país, muito triste mesmo, Sra. HG, que tolera ser abusado, como referiu, para ser usado como rampa de lançamento para um incompetente adquirir um emprego na Europa. A vitória do Costa significa a nossa derrota, empobrecimento e subjugação a interesses exteriores que nos querem aniquilar como nação.               Joaquim Silva: Costa apesar de ser uma nulidade a nível de gestão e governação, foi um excelente estratega para ele próprio, até conseguiu que seus rivais votassem nele e atingiu o seus objectivos, dele não se pode esperar outra coisa senão egoísmo e arrogância basta ser um pouco pressionado, o mau carácter vem logo ao de cima.                Carlos Chaves: Caríssima Helena Garrido, meter dois execráveis socialistas que praticamente nos deixaram na miséria, no mesmo saco onde meteu o Durão Barroso, CONVIDADO pelo Conselho Europeu para presidir à Comissão Europeia, só pode ser má-fé! Os dois socialistas abandonaram Portugal e os Portugueses, ambos se demitiram das suas funções quando perceberam o pântano (palavras de Guterres) que nos tinham enfiado, e venderam-se para os altos cargos que ocupam (um ainda vai ocupar). O Durão Barroso foi convidado, não se andou a vender para o lugar e foi o único até agora, a fazer duas Presidências da Comissão Europeia, uma digna representação Portuguesa na política internacional! Ao contrário destes dois socialistas, um apoiante do terrorismo do Hamas, e o outro nem é precisa que descreva o resultado das suas políticas, pois todos nós as sofremos na pele!                             GateKeeper: HG voltou ao seu "normal". E mais não digo. A minha esmerada e pontualíssima educação dos Alpes Suíços não me permite continuar. Só vos digo que colocar no mesmo tacho o tonyC e o Durão B ... Só passa, mesmo, no "estreito" da "rataria do Largo"!              Ricardo Ribeiro: Falta só agora eleger o Eng. Socas para director do Fmi e o ramalhete fica composto...              Ludovicus: Pobre Povo. Resta-nos o Fado, o Futebol… Lembro-me dos finais do Estado Novo, nos meios universitários em Lisboa. Estes estudantes acusavam o regime de alienar o Povo com os futebóis, os folclores, as touradas, Fátima, etc. Essa geração utilizou com maior sofisticação outras ferramentas para alienar. Mantiveram o futebol e Fátima, mas criaram as telenovelas baratas, os Big Brothers, etc. Triste ver os jovens a emigrar.                Joaquim Rodrigues: Resta saber se, o célebre "parágrafo", não foi afinal uma última reivindicação do Costa, a sua última reivindicação, junto daquela que tinha sido a sua escolha "cirúrgica" para exercer o cargo de Procuradora Geral da República. Esgotada "a sua" capacidade de "influência" na paróquia, ao Costa qualquer pretexto servia para se pôr a andar e para tentar agora, a partir de lá de fora, continuar a exercer a sua "influência", na persecução dos seus propósitos, cá na paróquia. Ouçam bem: o Costa nunca serviu o PS nem o País. O Costa apenas se serviu e continuará a servir do PS (e agora vai servir-se também do País) para cumprir a sua agenda pessoal. Agenda pessoal que é a do Portugal Colonial, do Portugal Imperial, do Portugal do Costa, o Portugal ali da esquina do Rossio com a Praça da Figueira, mas não o Portugal real, de Norte a Sul, de Valença a V.R. de S.to António.           João Floriano: “contas certas” Deixou-nos as contas certas que afinal já não estão assim tão certas e como Helena Garrido escreve justamente à conta da inexistência de reformas ou qualidade de serviços. Deixa o SNS, a Educação, os serviços Públicos, a Habitação em cacos. Deixa-nos o legado de quase 10 anos de imobilidade, deixa-nos também a honra de estarmos nos lugares finais da UE e da Europa. Não vou ser de forma alguma hipócrita para afirmar o meu contentamento por portugueses como António Costa, Durão Barroso e Guterres ocuparem altos cargos. Provavelmente em comum e sem honra partilham a qualidade de serem muito fofos (António Costa exteriormente parece muito dialogante e fofo mas a nível interno foi extremamente áspero, indelicado e sem qualquer empatia genuína). Em comum os três têm a característica de não fazer ondas e escudarem-se no politicamente correcto. Quanto a Orban, limita-se a jogar em dois tabuleiros: continua a ser amigo do peito de Putin e a exasperar os wokes de Bruxelas, mas simultaneamente tornou António Costa seu devedor por ter votado favoravelmente a ocupação de um cargo de sonho. À sua maneira Orban e Costa são parecidos: dois chicos espertos oportunistas.                JOSÉ MANUEL: Creio ser justo colocar na mesma jarra também o Vitor Constâncio na nulidade e o Sem Tino, que, de governar, só percebem a parte que lhes toca            Maria Fernanda Louro > Carlos Chaves: Andamos a fazer o mesmo que faz a Coreia do Norte, a despejar o nosso lixo para casa dos vizinhos.....               Americo Magalhaes: Mais uma ode à mediocridade...... HG quando começa a promover o "Sr. Inginheiro" Sócrates para PR? Depois admiram-se que ninguém dá qualquer crédito ao jornalismo e à CS...        Rui Lima: Dos que fizeram mal ao país só falta um alto cargo para José Sócrates.                António Soares: Todos eles gostam muito de se governarem...!               José B Dias: Todos eles foram votados pelos cidadãos portugueses ... que claramente têm muito pouco jeito para escolher lideranças.

 

terça-feira, 2 de julho de 2024

LAGARDE


Discurso claro e oportuno, para quem, como nós, os da praia ocidental lusitana, vivemos hoje dependentes disso a que se chama BCE, sem bem nos darmos conta dos esforços que geramos, atinentes apenas às nossas lutas próprias contra inflações e outros desvios.

Resta-nos agradecer o esforço do BCE, e da sua Presidente CHRISTINE LAGARDE.

Mas, no meu caso pessoal , de duplicada gratidão (onomástica, neste caso), ao pretender prestar homenagem, a outros LAGARDE – da COLLECTION LITTÉRAIRE LAGARDE & MICHARD, companheiros sedutores, que ainda hoje retomo frequentemente, em revivescência passadista que tanto prazer e perspectiva literária forneceram, no meu sintético percurso educativo.

As entrelinhas do auto-elogio de Lagarde em Sintra: BCE fez trabalho "assinalável" na luta contra a inflação

"Os primeiros 90 minutos são os mais importantes". Foi citando Bobby Robson que a líder do BCE se congratulou pelo trabalho "assinalável" do banco central. O discurso de Lagarde nas entrelinhas.

Discurso de Lagarde no Fórum BCE, em Sintra O que Lagarde quis dizer, nas entrelinhas Anotações

EDGAR CAETANO

OBSERVADOR, 01 jul. 2024, 22:25

O nosso trabalho não terminou. E precisamos de continuar vigilantes. Mas os progressos que já realizámos permitem-nos olhar para trás e reflectir sobre o caminho que fizemos.”

Logo no início do discurso em Sintra, Christine Lagarde sublinhou a ideia que não poderia deixar de sublinhar. O “trabalho [do BCE]ainda não terminou” e há que continuar “vigilante” face aos riscos de a inflação voltar a subir. Sem estas palavras, o discurso da presidente do BCE correria o risco de parecer displicente. Isso, em si, seria algo que não lhe seria muito favorável porque poderia, desde logo, levar a uma desvalorização do euro face ao dólar (o que gera inflação porque significa gastar mais euros para comprar a mesma quantidade de produtos negociados em dólares, como a generalidade dos produtos petrolíferos e energéticos). Mas a referência à “reflexão” sobre “os progressos que já realizámos” foi o mote para um discurso em que a francesa enveredou pelo auto-elogio mais do que alguma vez tinha feito.

A política monetária tomou decisões no calor do momento. Foi preciso enviar um sinal forte, um sinal de que valores permanentemente mais elevados na inflação não seriam tolerados.”

Foram decisões tomadas “no calor do momento“, afirmou Christine Lagarde, numa das várias vezes que, no seu discurso, fugiu ao guião oficial que tinha sido distribuído aos jornalistas. Recordando o aperto monetário historicamente rápido que aconteceu entre julho de 2022 e setembro de 2023, a presidente do BCE quis sensibilizar a sua audiência para a tarefa difícil que foi liderar a autoridade monetária neste momento crucial. O surto inflacionista, que surgiu no final de uma pandemia mundial e se agravou com uma guerra na Europa, tinha características “pouco usuais” – o que tornava a tomada de decisões um desafio ainda maior do que o habitual. Lagarde deu a entender que o BCE podia falhar em tudo menos na missão de garantir aos agentes económicos que a inflação estava em níveis elevados (mais de 10%, a dada altura) mas o banco central não iria deixar de a combater com todos os meios ao seu alcance.

Se não tivéssemos intervindo, o risco de uma desancoragem [das expectativas de inflação] teria sido superior a 30% tanto em 2023 como em 2024. Mesmo que tivéssemos tido uma resposta apenas moderada, como se tivéssemos parado de subir os juros aos 2%, o risco de desancoragem ainda teria sido próximo de 24%.”

Na análise feita pelos economistas do BCE que estão, nesta fase, a autopsiar o surto inflacionista, a zona euro esteve muito perto de uma situação potencialmente explosiva: o pior pesadelo de um banqueiro central, que é a “desancoragem” das expectativas de inflação. Quando falam em “desancoragem”, os bancos centrais referem-se ao risco de se gerar uma espiral de inflação indomável que coloca em perigo a credibilidade do banco central e, em última análise, a própria divisa. No caso da zona euro, isso poderia significar que o projecto da moeda única estaria em risco. Criticada por ter, na opinião de alguns, reagido demasiado tarde à subida da inflação, Lagarde também foi criticada, noutra fase, por estar a levar longe demais o aumento dos juros, para níveis acima de 3%. Mas Lagarde usou estas conclusões académicas – que não são, apesar de tudo, totalmente independentes – para se defender dessas críticas.

“As nossas decisões de política monetária foram bem sucedidas em manter as expectativas de inflação ancoradas. Tendo em conta a gravidade do choque inflacionista que existiu, esta correcção é assinalável. Sei que parece arrogante falar assim mas, afinal de contas, eu sou francesa…”

Num improviso (ou num comentário estudado mas bem preparado), Christine Lagarde reconheceu que poderia soar a “arrogância” ler a passagem do discurso onde se dizia que a correcção da inflação elevada, sem grande prejuízo para a economia, foi algo de “assinalável“. “Sei que isto pode parecer arrogância mas, afinal de contas, eu sou francesa…”, atirou a presidente do BCE, arrancando sonoras gargalhadas da audiência. Mesmo tendo dito que “ainda é cedo para baixar a guarda”, terá ficado claro na cabeça de todos os presentes que Christine Lagarde quis usar este discurso em Sintra para cantar vitória – tanto quanto é possível – no combate à inflação.

Tendo em conta a magnitude do choque inflacionista, uma aterragem suave ainda não é um dado adquirido. Só 15% das aterragens suaves bem sucedidas tinham tido choques nos preços da energia.”

As conferências de imprensa regulares do BCE, a partir de Frankfurt, não são o cenário ideal para contextualizações históricas. Nessas conferências, espera-se de um banqueiro central que comunique e justifique as decisões tomadas com clareza e assertividade. É por isso que Christine Lagarde costuma aproveitar discursos em conferências como o Fórum BCE, em Sintra, para se alongar um pouco mais no enquadramento da crise inflacionista e na comparação com outros episódios da História. “Se olharmos para os ciclos de subida de taxas de juro desde os anos 70, podemos ver que quando os bancos centrais aumentaram os juros num contexto de elevados preços da energia, os custos para a economia foram, por regra, muito pesados”, disse Christine Lagarde, salientando novamente quão “assinalável” foi a resposta do BCE, que apesar de ter sido brusca acabou por gerar uma “aterragem suave”, ou seja, evitando-se uma recessão ou uma grande deterioração das condições no mercado de trabalho.

Vamos precisar de tempo para reunir dados suficientes para ter a certeza de que foram ultrapassados os riscos de uma inflação acima do objectivo. O mercado de trabalho robusto dá-nos alguma margem para esperar por essa nova informação, mas temos de ter presente que as perspetivas de crescimento continuam envoltas em incerteza”

Christine Lagarde salientou que, apesar do abrandamento do crescimento económico, há mais 2,6 milhões de pessoas a trabalhar do que havia em 2022. E isso dá a um banco central como o BCE alguma margem para esperar pelo maior conjunto de dados económicos, para tomar as decisões o mais sustentadas que for possível. Por outras palavras, estando as taxas de juro num nível que se pode considerar muito restritivo (3,75%), o facto de não estarem a soar os alarmes no mercado de trabalho permite ao BCE gerir de forma mais tranquila a fase de descida das taxas de juro – se o desemprego estivesse a subir rapidamente, a pressão sobre o BCE seria, certamente, outra. Assim, Lagarde dá a entender que a economia (e, em particular, o emprego) não se estão a ressentir em demasia do actual nível de juros: o que pode significar que não é muito provável que haja uma nova descida dos juros em julho.

Mesmo com milhões de empresas e trabalhadores a lutarem, cada um do seu lado, para proteger os seus lucros e os seus rendimentos, o nosso objectivo de uma inflação de 2% continuou a ser credível.”

Sempre que há um surto inflacionista, gera-se uma espécie de jogo das cadeiras em que cada agente económico tenta passar a maior parte possível da perda de valor (gerada pela inflação): as empresas tentam passar os custos mais elevados para o consumidor e o trabalhador tenta aumentar os seus rendimentos para recuperar o mais possível do poder de compra perdido. Ora, Lagarde congratulou-se pelo facto de o BCE ter conseguido manter as expectativas de inflação “ancoradas” – ou seja, mesmo quando a inflação estava acima de 10%, as previsões para o futuro, em cada momento, nunca apontaram para um descontrolo. Se nos primeiros meses do surto inflacionista vários membros do BCE (incluindo Mário Centeno) alertavam para as subidas de preços promovidas pelas empresas (que queriam proteger as suas margens), noutra fase o maior perigo para a inflação vinha dos aumentos salariais que, quando não são absorvidos pelas margens das empresas e quando superam o ritmo de crescimento da produtividade, podem fomentar a rápida subida dos preços – isto é, a inflação. Mas, sem querer parecer “arrogante”, Lagarde quis salientar que o BCE interveio na economia da forma adequada, respondendo ao desafio inflacionista corretamente, nas diferentes fases.

Não iremos baixar os braços no nosso compromisso de trazer a inflação de volta para o objectivo, em benefício de todos os europeus.“

Embora tenha apenas uma missão, o controlo da inflação, o BCE tem a difícil missão de gerir a política monetária numa zona económica muito heterogénea e onde as transferências entre os vários membros são proibidas pelos tratados europeus (o que contrasta, por exemplo, com os Estados Unidos da América). Cabe ao BCE tomar decisões que, do ponto de vista do controlo dos preços (e da estabilidade financeira), sirvam a países mais ricos e mais pobres, países mais industrializados ou mais dependentes de actividades como o turismo, países onde as empresas dependem mais ou menos do crédito bancário, países onde há mais crédito à habitação e onde há menos, e países onde esse crédito mais frequentemente tem associado uma taxa fixa ou uma taxa variável. Assim, ciente de que facilmente se lhe pode colar uma imagem de insensibilidade perante as dificuldades sentidas por muitas pessoas, Christine Lagarde reforçou que é para “benefício de todos os europeus” garantir que a zona euro é um bloco económico e monetário onde os preços sobem a um ritmo lento e controlado. Caso contrário, como tanto Lagarde como o norte-americano Jerome (Jay) Powell já várias vezes sublinharam, são os cidadãos com menos recursos que sofrem mais com os surtos inflacionistas.

Os primeiros 90 minutos são os mais importantes” (Bobby Robson)

Se um bom discurso deve começar ou acabar com uma citação, em pleno campeonato europeu de futebol, na conclusão Lagarde decidiu lembrar o lendário treinador Bobby Robson, que passou parte da sua longa carreira em Portugal: “Os primeiros 90 minutos são os mais importantes“, dizia Robson, com a fina ironia que lhe era reconhecida. A presidente do BCE acrescentou ao discurso escrito uma explicação para aqueles que “não suportam futebol”: “um jogo de futebol tem duas parte de 45 minutos”. No caso do controlo da inflação, tal como no jogo de Portugal esta segunda-feira, “poderá levar um pouco mais de 90 minutos, mas chegaremos ao objectivo em termo oportuno”, garantiu Christine Lagarde.

BCE    BANCA    ECONOMIA    MERCADOS FINANCEIROS    CRÉDITO    CRÉDITO À HABITAÇÃO