domingo, 4 de outubro de 2009

A Junta

A minha amiga hoje estava imparável nos casos, mas temerosa das consequências que o seu Deus de vinganças, segundo ela repete, lhe pespega a seguir às suas manifestações de revolta: “Hás-de pagar!”, é o Senhor que manda.
Eu ainda argumentei que o Senhor não era da mesma natureza do Jeová, que nos percalços das rapaziadas mal sucedidas, instituiu que o danoso “pagará vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” e por aí fora, depois de ter entregado a Moisés os Dez Mandamentos em que se revela um “Deus cioso que pune a iniquidade dos pais nos filhos, etc”, bem ao contrário das intenções cordatas de um Deus de Amor, segundo Jesus, que apenas ordena que amemos o próximo e a Deus como a nós, sem ameaçar punir.
Mas a minha amiga não se deixou influenciar:
- Veja a fome, veja os sismos, o homem da Indonésia que disse ter perdido quatro gerações de familiares, maior sofrimento não é possível! A Natureza está em fúria. Mas quando a gente pensa nestas Igrejas indiferentes...
-Pois! Os Estados Unidos são sempre dos primeiros a colaborar nas ajudas...
- Os dinheiros de Fátima estavam no Banco dos ladrões, mas já saiu a notícia de que a questão já está sanada e o dinheiro entregue. Porque a Igreja tem que ser rica. Quanto custa um Vaticano? Mas aquilo tem que existir. E a fome continua.
Mudámos para o Isaltino:
- Isaltinos e Perestelos atacaram-se no meio da rua. Só faltou uma bomba!
- Uma vergonha! Quem é que escolheria para Presidente da República?
- Eu? Nenhum!
– Mas ressalvou: - Escolhia Obama!
- Eu acho o Jorge Sampaio um vaidoso soturno. Muito convencido da sua importância e dos seus mandamentos morais...
- Isto é tão miserável que vão repescá-lo. Se não for o Manuel Alegre!
- Credo! Esse ainda é pior! As partes gagas que faz, a fingir-se melhor do que os outros, atraiçoando o partido, sempre naquele tom soturno e triste de quem continua a perguntar ao vento as notícias do seu país para continuar a resistir e a dizer não até que lhe chegue a vez... Porque é que o PSD não propõe a Manuela Ferreira Leite para Presidente da República, já que a vão destituir de Presidente do Partido? Essa não nos envergonharia, sensata e inteligente como é, a pensar com a cabeça e não com o falso sentimento. Até parece que teve um papel relevante na questão dos submarinos, para que o “afundamento” fosse menor...
E logo a minha amiga:
- Até pode acontecer que o Portas não esteja implicado. Mas eu ontem ouvi um senhor – parece que é alemão - dizer mais ou menos isto, que parece tão grave: “Há dez anos, nenhum governo português foi capaz de levar avante as contrapartidas nas negociatas com o estrangeiro. Portugal só tem perdido.” Não sei porquê, não se consegue fazer esse trabalho e perdem-se milhões. Os Portugueses não conseguem realizar contrapartidas.
Eu ainda alvitrei gentilmente, creico que por ignorância, que os ministros eram presa fácil dos empresários negociantes, porque apenas, talvez, assinassem os papéis, desligando-se a seguir, para os seus trabalhos em prol da nação. Esta tese desculpabilizava Portas, como Sócrates, e tutti quanti... Mas a minha amiga não prestou atenção, preocupada com o nosso presente e com o futuro da Nação.
- Porque é que aquele homem alemão, não se junta? É rico! Os Alemães são inteligentes! Pensam com a cabeça... Isto talvez só vá com uma Junta de Salvação Nacional! Mas era preciso haver uma guerra civil... Eles agora atiram com a crise! Mas a gente não precisava! Em crise andámos sempre! Ah! Eu devia estar calada! O Omnipresente está a ouvir: “Hás-de pagar!”.

sábado, 3 de outubro de 2009

Convergência

Estávamos no café das compras, a comentar sobre os poemas do e-mail contidos no texto anterior, onde a minha amiga detectou marcas de conversas anteriores, em que explorámos a nossa impotência perante os desmandos, e o nosso refúgio no encolher de ombros da nossa aparente resignação.
- Não há volta a dar. O ser humano é como é. Cada um vive na sua ilha sem istmos a pegar nas outras...
De vez em quando a minha amiga sai-se com estas metáforas de grande efeito sobre a inferioridade do meu discurso despretensioso.
De repente, uma voz estrídula cortou a manhã da esplanada tranquila, com gente silenciosa ou apenas sussurrante, de acordo com as boas maneiras da nossa polida educação.
A minha amiga sorriu feliz:
- Olha, aqui à esquina de S. João já se ouvem várias línguas. Aquela deve ser russa. Eu gosto de ouvir. Já temos uma série de nacionalidades. Já há muitas, muitas. Gosto deste cosmopolitismo.
Discordei da nacionalidade – mais habituada ao estridor das marchas guerreiras soviéticas, que não das suas vozes descomandadas - e repliquei que as minhas experiências cosmopolitas se reduziam às esmolas extorquidas pelos novos pedintes – os da raça cigana, já que os de África se arrogavam habitualmente dos seus direitos de conquistadores armados. Quanto aos Brasileiros, eles impunham-se com a sua simpatia, deitando a mão aos trabalhos e até ensinando boas maneiras aos nossos donos dos cafés, sérios, na preocupação de pagar vencimentos além da habitual tributação ao Estado usurpador.
Indiferente aos sorrisos que provocava com a sua voz estridente – ilha altiva e desdenhosa - a moça estrangeira - russa na opinião avaliadora da minha amiga – continuava a sua conversa, de pé, no telefone público, de costas voltadas para a esplanada atenta, por falta de motivações dialogantes.
Mas os deveres da domus chamavam, erguemos armas e bagagens, deixámo-la falando alto.
E já no carro, a minha amiga voltou ao tema dos ilhéus sem istmos comunicantes, metáfora da minha embirração, mas que partilhei, devido ao meu “saber de experiências feito”, no capítulo dos truques justificadores da desatenção.
Contou a história referida por uma sua amiga sobre outra amiga desta, que, porque esta entrou em depressão económica e de saúde, também apresenta indícios de depressão, para se esquivar a partilhar, falando na sua própria angústia e no seu desejo de isolamento. Mas a verdade é que vive bem, passeia quando quer, é estimada pela família e amigos, que muitos tem. E a amiga da minha amiga sofre, por uma amizade em que acreditara, quando era rica e feliz, e que perdeu, quando mais precisava de solidariedade e compreensão.
E eu, velho do Restelo, logo rematei, ciente dos casos da minha experiência vivida:
- É um bom truque do nosso egoísmo esse da angústia, da depressão – psicológica ou material, que também há - como refúgio para o não envolvimento. Já o Maiakovski e os outros o disseram: Não nos importamos com os outros. Só que, de repente...
Reconquistámos o optimismo, que a esperança é sempre a última que morre.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A Grande Marcha

Recebi hoje um e-mail com textos em verso que não resisto a transcrever. Todos eles focam a forma subreptícia com que nos vamos deixando enrolar, graças ao nosso medo e ao nosso egoísmo, pelos tentáculos, inicialmente débeis, mas gradualmente mais poderosos dos que contribuem, com as suas políticas da prepotência e da desumanidade – quando não da monstruosidade – para semear a destruição, com os favoritos da sua viagem.
Eis o texto do e-mail:

1º: «- De Maiakovski (poeta russo “ suicidado” após a revolução de Lenine... escreveu ainda no início do século XX):

“Na primeira noite eles aproximam-se
E colhem uma flor do nosso jardim.
E não dissemos nada.

Na segunda noite já não se escondem
Pisam as flores, matam o nosso cão
E não dissemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
Sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
E conhecendo o nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.”

Depois de Maiakovski:

2º - De Bertold Brecht (1898-1956):

“Primeiro levaram os negros,
Mas não me importei com isso,
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas não me importei com isso,
Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados,
Mas como tenho o meu emprego,
Também não me importei.

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

3º De Martin Niemoller, 1933 – símbolo da resistência aos nazistas:

“Um dia vieram e levaram o meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram o meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram o meu vizinho católico.
Como não sou católico não me incomodei.

No quarto dia vieram e levaram-me;
Já não havia mais ninguém para reclamar...”

4º- De Cláudio Humberto, em 9/2/2007
“Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui vítima;
Depois incendiaram os autocarros, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito;
Em seguida arrastaram até à morte uma criança, que não era meu filho...”

5º- Texto (anónimo):

Sócrates logo no dia da posse atacou os farmacêuticos.
Eu não disse nada porque não sou farmacêutico.

A seguir atacou os magistrados, também nada disse porque não sou magistrado.

Depois foi aos médicos e enfermeiros. Também nada disso é comigo.

A seguir congelou as carreiras dos funcionários públicos,
Quero lá saber, eu não sou manga de alpaca.

Maltratou os polícias, os militares, os professores... os padres também não escaparam.

Aumentou os impostos,
Aumentou a idade da reforma, a insegurança nas ruas, nas escolas e até nas nossas casas.

Ah! Mas criou as “Novas Oportunidades”, o “divórcio”,
A insegurança, o crime, a violência, os “canudos”
Facilmente obtidos, de férias e domingos.

Hoje bateu à minha porta com a Lei da Imobilidade
E atirou-me para o desemprego. Já gritei e ninguém me ouve, até parece que a coisa só me afecta a mim.

O que os outros disseram foi, depois de ler Maiakovski:
“Incrível é que, após mais de cem anos, ainda nos encontremos tão desamparados, inertes, e submetidos aos caprichos da ruína moral dos poderes governantes, que vampirizam o erário, aniquilam as instituições, e deixam aos cidadãos os ossos roídos e o direito ao silêncio: porque a palavra, há muito se tornou inútil...
Até quando?»

Como afirmam, pois, os textos, relativamente recentes, é à nossa inércia, tantas vezes, que se deve o evoluir dos povos, inércia em oposição com as ambições, mascaradas sob a capa da solidariedade, dos vampiros conquistadores que derrubam governos ou as estruturas dos próprios governos.
Mas o que está na origem psicológica dos activismos desmoronadores, já os clássicos o explicaram.
Do poema herói-cómico “O Hissope”, a que já me referi, de António Diniz da Cruz e Silva - Elpino Nonacriense na sua designação como Árcade - lemos um excerto do diálogo travado entre o deão Lara e um douto Reverendo que, ao conduzir aquele pelo jardim do convento de Elvas, lhe vai explicando, entre outros temas de sátira, o significado das estátuas da mitologia clássica, entre elas a de Páris, filho de Príamo e de Hécuba que, ao atribuir a Vénus o pomo de ouro da beleza, seria o causador fatal da destruição de Tróia, ao raptar a grega Helena, por desígnio da gratidão de Vénus. Vejamos, pois, a estrofe:

“- Já nesse pleito ouvi, (se bem me lembro)
E no pomo falar: (lhe volve o Lara)
Mas o tal monsieur Páris foi um asno;
(Perdoe a sua ausência). Se na causa
De ser juiz a sorte me coubera,
Daria mal, ou bem minha sentença,
Conforme o meu bestunto me ajudasse,
Sem em nada gravar a consciência:
Mas a maçã havia de eu papá-la,
Pelas custas, por certo; e quando muito,
Daria à Vencedora, dela as cascas.”

Sim, todos esses de quem se tratou nos textos, condutores – por vezes carrascos - que vitimizam tantos dos rebanhos que se propuseram guardar, levados pelo brilho do “pomo de ouro” da sua liderança, fazem como o bom Lara: papam a maçã e vão lançando as cascas aos incautos inertes.