terça-feira, 24 de agosto de 2010

Também há muitos carros

Foi a propósito do meu texto “Citaristas... há muitos”. A minha amiga concordou que sim, que os há, e avançou:
- O Cavaco está aí caladinho, porque não quer que esta coisa se desmanche, porque quer ser presidente. O outro vai falando do que faz, a gente não sabe se faz, prometeu diminuição do défice e o défice vai progredindo... Os outros lançam críticas e sugestões, todos no mesmo objectivo aparente de salvar a nação, mas fica-se na dúvida a respeito do significado de nação para cada um deles... Não se vê assim uma réstia duma solução. O país ardeu...
- Ainda não ardeu todo, há mais para queimar
– digo, numa de sadismo desesperançado, mas a minha amiga não aproveitou a minha deixa.
- Os portugueses até em Espanha vão matar outras pessoas e vão chocar com aquela desgraçada belga que vinha no seu sítio. Os outros de Burgos todos morreram, foram contra um camião. Não mataram porque era um camião. Chover aqui neste país é um perigo muito grande. Na A 25 foram dois os desastres em cadeia, com mortos, feridos, carros destruídos...
- Somos um povo que quer chegar depressa...
- Deve ser por isso que andamos sempre a marcar passo.
Falei nas nossas glórias descobridoras para nos erguermos do sentimento mesquinho da frustração, mas a minha amiga achou que isso era passado e contou da sua experiência pessoal de taxímetro a contar, ontem, no regresso de Lisboa, com o táxi obrigado a parar por duas vezes na marginal, devido à chuva miudinha, às pessoas miudinhas, ao polícia miudinho interventor, nas paragens forçadas do trânsito, por causa das pressas da gente miudinha, dum modo geral pouco educada ...
- Também há carros a mais, cá - disse eu, na esperança de um bem-estar nacional autêntico.
- Realmente! - disse a minha amiga, mas antes por desesperança.
Um amigo dela passou, e falou de Moçambique, onde estivera de férias, com entusiasmo e saudade. Aquilo agora é que está bom, mas eu admirei-me muito, porque ainda há uns anos Moçambique era dos países mais míseros do mundo. Objectei com o meu conhecimento recente do desastre em Angola, de gente morrendo, agonizando, apodrecendo, em Luanda, de desníveis sociais fabulosos...
- Em Moçambique não é tanto assim, disse ele.
E renascemos para a confiança.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Citaristas ... há muitos

O que eu muito estranho
Quando pela fábula me entranho
- Com prazer tamanho,
Confesso a verdade! -
É verificar
A actualidade
De tantas ocorrências
E o paralelismo
Da moralidade
De ontem com a de hoje,
Caso para exclamar
Sem facciosismo:
Foge!
Ou melhor dizendo: fogo!
Que dum modo geral,
É mais actual,
Para nosso mal.
Assim dizia
Esopo, um dia:

O citarista

Um citarista dotado de talento,
Ou julgando tal,
Com muito pouco tento,
Sem tréguas cantava numa casa
De paredes rebocadas a cal,
Que o eco da sua voz bonita,
Na sua opinião,
- Embora com pouca razão
Para nisso crer -
Lhe reenviavam com muita pinta;
Cuidou assim um belo órgão vocal
Possuir,
E de tal modo a cabeça foi encher
Com a convicção de o ter,
Que achou indispensável
Igualmente pelo teatro
Se repartir
E ali se exibir.
Mas, uma vez em palco,
Cantou tão mal
Que foi expulso à pedrada
Sem complacência
E, pelo contrário,
Com “quanta indecência!
Quanta palavrada”,

Como, aliás, também fizeram
Sem nunca se desculparem
Os mendigos do nosso Cesário
- Se me é permitido um parêntese
Para dar mais ênfase
A estes devaneios efabuladores
Dos fabulistas doutores
Um tanto ou quanto desumanos,
Como inimigos encartados
Dos erros humanos,
Por vezes, é certo, bem tresloucados.
Mas, retomando o citarista
Do grego fabulista
Expondo a sua moral,
De modo tão actual,
Concluamos:

“Assim também, certos oradores
Que durante os seus estudos anteriores
Pareceram bem dotados,
E cujos resultados
Posteriores
São marcados
Pela generalidade
Da nulidade
Quando na carreira política
São lançados.”

Realmente acho piada
Ao exemplo citado
Do citarista
- Do tocador de lira,
Antepassado -
Vivendo na mira
De um outro ordenado,
Convencido
Da muita capacidade
Porque acreditava
Ter uma voz magnífica
Que só ele ouvia.
A mesma fantasia
Grassa hoje na política
Tal como antigamente,
Como Esopo dizia:
É ver os chefes dos partidos
Todos entretidos
Com vozes esplendorosas
Debitando competências
Altissonantes, deslumbrantes,
Palavrosas,
Redundantes,
Com muito destaque
E arte
Teatral
Escondendo o vazio
Programático
Sob o sorriso enfático,
Por vezes pleno de doçura
Na postura ...
É infernal
Um político,
Mesmo quando artificial,
Como é vulgar hoje-em-dia
Com a maioria!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Continuação do capítulo I de “O Ensino do Português”

Para efeitos de comentário aos considerandos de Maria do Carmo Vieira sobre o papel da família na educação dos filhos, começo por transcrever a parte final de uma Exposição que em 11/5/1976 dirigi ao ministro da Educação e Investigação Científica, oito dias depois de ter sido colocada no Liceu Passos Manuel. Tal Exposição está contida na III Parte do Livro “Cravos Roxos – Croniquetas verde-rubras” (1981), que tem por título “Memórias dum Professor do Liceu”, constituindo a sua introdução:

“(...) Senhor Ministro, não tenho veleidades de esperar qualquer resultado positivo desta minha exposição. A partir do momento em que se destituíram os professores da sua autoridade docente e se concederam todas as liberdades aos discentes, o ensino não passa de uma fachada de ilusão neste país, e só lamento os pais – sou um deles – que desejando uma boa formação espiritual e moral para os seus filhos, colhida também na escola, os têm entregues a uma autêntica instituição de degradação moral sem precedentes, e deixando naturalmente prever catastróficas consequências futuras. Lamento igualmente os alunos – os bem formados e os aplicados – que não encontram aí meio para sobreviverem.
O único resultado que talvez venha a obter com a minha intervenção junto de V. Exª, serão inquéritos e novos vexames – as crianças têm sempre razão (de resto os próprios alunos justificaram essa sua razão no meu “julgamento” pelo motivo de estarem em maioria, afirmação que jamais me passou pela cabeça pôr em dúvida, creia-me, Sr. Ministro) – onde os alunos pronunciarão novos dislates e insolências (uma instintiva delicadeza impede-me de usar o termo “bacoradas”) e onde eu não terei medo de me defender, mas tão somente uma pena infinita, por ver o meu país desgraçado em vias de atingir o caos total, onde os jovens não aprendem a tornar-se cidadãos autênticos em que liberdade signifique dignidade e respeito próprio e alheio, mas apenas um descontrolado despudor absoluto.
Como mulher livre que sempre fui, respeitando-me e respeitando por isso os outros, sem alienação de espécie alguma, recuso-me a pactuar com este estado de perversão que a falta de autoridade provocou.
Por isso dirijo a v. Exª este manifesto, como um grito de dor e um apelo ao bom senso dos homens que governam o meu país.”

O objectivo da citação prende-se à pertinência dos avisos de Maria do Carmo Vieira, para significar, todavia, que a família modelo dos nossos dias, talvez não tenha muito a ver com o modelo de família convencional em que fomos educados. E isso nos remete para o movimento de subversão das estruturas morais em que consistiu o da Revolução dos Cravos. Embora nem todas as escolas do país tenham alinhado na permissividade da ignomínia que se viveu nos primeiros anos, a indisciplina foi-se impondo gradualmente, colmatada nos tempos actuais por uma quase total anarquia, que tem a ver com a falta de educação nas casas, com a falta de autoridade nas escolas.
Os pais de agora foram muitos dos que há 35 anos colaboraram gostosamente no massacre dos professores que pretendiam prepará-los para o mundo da cultura, por dever profissional. Muitos desses talvez tenham singrado bem, graças a um qualquer encosto, outros, quem sabe, talvez não tenham conseguido ultrapassar os males de uma mudança tão radical como foi a nossa, abertas as comportas do non-sens, que atingiram o Absurdo de que trata Maria do Carmo Vieira.
Muitos desses jovens, mas igualmente outros, educados dentro dos sãos princípios, são hoje reféns de um status empresarial que, na esteira do que faz a Escola com os seus professores - os explora com uma carga horária excessiva, sem lhes dar tempo ao acompanhamento da família e à sua própria formação. Nós não precisamos de formação, não temos tais interesses formativos, que faz que se retirem milhares de escolas neste país, enquanto em França se fundam clubes de “Questions pour un champion”, ou na Alemanha, em qualquer pequeno burgo, se reunem as gentes em torno de um copo que seja, para falarem de coisas de interesse... E por aí fora, nesse mundo menos deficitário de valores.
Os patrões de cá confiam no desinteresse intelectual do povo de cá, não vale a pena dar-lhes horas para acompanharem os filhos ou se dedicarem a leituras. O melhor mesmo é ocupá-los a trabalhar para eles, o que será duplamente útil: os patrões ganharão mais dinheiro, os empregados não caem nos vícios da desocupação – copos, drogas, facadas extra-conjugais, tudo menos o estudo para que não foram habituados....
Vejamos o expressivo seguinte passo de Maria do Carmo Vieira, com que concluo a referência ao livro que todo ele importa ler, nos seus registos de seriedade e conhecimento de causa, repetindo algumas frases do texto anterior, para melhor integração no tema:

“... A coberto da protecção se vai efectivamente desprotegendo, descurando ao mesmo tempo a instrução e a educação. Na verdade, justifica-se, e com alguma hipocrisia, que desse modo se ajudam os pais, quando afinal os estão a demitir da sua obrigação de educadores, facilitando simultaneamente a existência de trabalhos, quantas vezes sem horário, que lhes negam o tempo livre para a privacidade familiar e parta os seus interesses pessoais. Nesta postura esconde-se a vontade de concretizar o desenvolvimento de uma sociedade de consumo, que aliena e contribui para “enfraquecer o papel da família, como suporte da tradição e da educação». Por sua vez, os filhos, desorientados, porque sujeitos ao abandono e sem experiência de limites e de autoridade, bem como de uma relação ética (o que acontece também na escola), tornam-se presas fáceis de discursos manipuladores, que lhes facultam a satisfação imediata dos seus desejos, deixando-se ingenuamente seduzir por uma falsa liberdade de agir, que os conduz, crendo-se autónomos, a situações de risco num mundo para o qual deveriam ser oportunamente preparados, com vista à sua plena integração e consequente intervenção.”

Vale a pena ler a pequena obra de Maria do Carmo Vieira que desmonta o artifício maquiavélico forjado nestes últimos anos, em torno dos falsos conceitos inovadores da Escola, na realidade com o prejuízo da nação presente e e da nação futura, no desvio propositado do bom senso, do bom gosto, do sério, do respeito humano.
Eu tinha quarenta anos quando fiz a minha exposição a um qualquer ministro da Educação e Investigação Científica de então, que me não permitia ensinar. Os professores hoje protestam, sofrem, creio que bem mais do que eu sofri então. E continuam a ensinar, com maior ou menor adaptação às novidades. Eu adaptei-me, porque gostei do que fiz, gostei das técnicas, gostei das matérias, e soube impor-me, apesar das rebeldias dos alunos, que também se foram adaptando. Recordo a escola, recordo os alunos, recordo as matérias, recordo os casos. Com prazer.
Mas hoje ninguém pode gostar de ser professor, tal a extensão das exigências, das cargas horárias, do desrespeito humano, da animalidade do que se impõe como primordial.
Por isso os professores deverão lutar, o país deverá lutar. Pela mudança.