terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Bolsa


Foi do que se falou hoje. Não da de valores mas de avaliadores externos. A Paula vinha impressionada, falando da colega cuja aula ia ser assistida, sem conhecer a professora que a iria avaliar, e perguntando se alguém a conhecia. Foi então que falou na Bolsa, a Bolsa de Avaliadores Externos, que encontro definida na internet do seguinte modo:

« Informa-se que de acordo com a legislação em vigor (Despacho n.º 13981/2012. D.R. n.º 208, Série II de 2012-10-26 e Despacho normativo n.º 24/2012. D.R. n.º 208, Série II de 2012-10-26) se encontra em fase de constituição a Bolsa de Avaliadores responsáveis pela avaliação externa da dimensão científica e pedagógica do processo de avaliação de desempenho docente.

A bolsa de avaliadores externos será composta por docentes de todos os grupos de recrutamento que reúnam cumulativamente os seguintes requisitos: a) Estar integrado no 4.º escalão ou superior da carreira docente; b) Ser titular do grau de doutor ou mestre em avaliação do desempenho docente ou supervisão pedagógica ou de ter formação especializada naquelas áreas ou possuir experiência profissional no exercício de funções de supervisão pedagógica que integrem observação de aulas.»

               - “A professora que ia ser observada estava “à rasca” – disse a Paula - sem conhecer a colega que a iria observar. Se já era mau, agora é pior, pôr pessoas a avaliar, vindas de outros aglomerados educativos, com severidade ou complacência, sem orientação de espécie alguma… A B., que é de português e francês, vai assistir a uma aula de espanhol, numa outra escola e diz que não está para lixar ninguém. Mas a minha colega “à rasca” tinha razão para temer a professora que a ia observar É uma pessoa de quem se contam anedotas de reivindicações de prestígio, mais do que exposição de saberes.
              A minha amiga falou em absurdo, ir assistir a uma aula sem ser da especialidade, no caso da B., eu conhecia a professora temida, na insignificância empolada dos seus discursos subjectivos, achando que a professora assistida tinha razão em a temer, já que sempre a arrogância mesquinha ilude a falta do conhecimento.
               E uma vez mais se falou em falta de seriedade nestas avaliações que não resultam de um acompanhamento sério, mas de um despachar de “casos”, para se subir na carreira, tal como as “Novas Oportunidades” do anterior governo despacharam diplomas dignificantes, sem custos de ensino, apenas de uma orientaçãozinha, para inglês ver.
               E falámos em Nuno Crato que, com a visão que parecia ter de um ensino sério, não julgaríamos capaz de cair numa insensatez – vigarice - destas.
- Já não caem estrelas do céu, disse eu muito céptica. Só meteoritos a estilhaçar janelas com o impacto da sua passagem.
               Mas a Paula está muito feliz no curso que frequenta em Lisboa, onde encontrou pessoas competentes e uma orientação didáctica e pedagógica de excelente nível, a aplicar nas suas aulas de literatura.
               E a minha amiga, para variar, concluiu que felizmente ainda caem estrelas do céu. Mas eu preferia que fossem sob a forma do euro milhões, em bolsa que se visse.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Constituição, a quanto obrigas


Do blog “A Bem da Nação”, extraio o seguinte texto de João César das Neves, colhido no DESTAK de 9/I/2013:

 

«Em Portugal apenas um partido costuma habitualmente invocar a Constituição: o PCP. Mais ninguém cita a lei fundamental, excepto nas tentativas sempre falhadas de a rever. A razão é evidente: o texto concebido em 1976 é estruturalmente comunista. Apesar de sete revisões (1982, 1989, 1992, 1997, 2001, 2004 e 2005) no século XXI ela continua a pretender «abrir caminho para uma sociedade socialista» (preâmbulo) e quer o «planeamento democrático do desenvolvimento económico e social» (art. 80 e). Por isso os marxistas são os únicos satisfeitos com ela. Todos os outros a querem mudar mas, como nenhum deixa que os outros a mudem, ficamos na situação caricata de ter uma lei básica a que afinal ninguém liga.

Prova disso é a (falta de) atenção dada ao Tribunal Constitucional. Desde que começou a trabalhar, a 31 de Maio de 1983, essa meritíssima instituição já emitiu 17 609 acórdãos, uma média de quase 2 por dia (incluindo domingos e feriados). Praticamente nenhum interessou ao país, que ignora alegremente esta frenética actividade jurisprudencial.

Tudo mudou a 5 de Julho de 2012, abrindo-se uma nova era na democracia. Com o Acórdão n.º 353/12 o referido Tribunal surgiu como uma força decisiva da República, intervindo politicamente para modificar o Orçamento de Estado. A partir de então todos os que anseiam bloquear as reformas estruturais centram aí as suas esperanças. E, como a Constituição é marxista, as hipóteses de paralisar o país são excelentes. Assim a nossa lei básica, que não resolve nenhum problema, ainda pode estragar tudo.»


          Um texto que, na singeleza objectiva dos dados, resume bem a orientação no nosso sistema de governação. Nele apus o comentário: “Aí se prova o artifício de uma governação de todos, sempre uns vendo entravadas quaisquer tentativas de conserto pelas tentativas de aniquilamento dos outros que a Constituição protege, em que o "A Bem da Nação" deixou de fazer sentido, substituído pelo slogan "O povo é quem mais ordena" das palhaçadas dos vitoriosos.”  

Com efeito, há muito que se fala no entrave que a Constituição de 1976, elaborada segundo os moldes marxistas, e tendo sofrido já várias revisões, constitui não um elemento propício ao desenvolvimento equilibrado de reformas institucionais, mas um factor de entrave, pela razão fulcral de que qualquer medida terá que passar pelo cadinho da óptica socialista que, visando a igualdade de oportunidades democrática, estabelece como direito fundamental o direito à greve, à paralisação, e à consequente destruição da economia que isso implica.

Manipulado pelos partidos de esquerda e respectivos sindicatos, o povo, sabendo que é ele quem mais ordena na nossa Grândola de trazer por casa, julga defender melhor os seus direitos saciando os seus instintos de protesto nas ruas, as mais das vezes parco em ideias e pródigo em insultos e grosserias vãs.

Cavilosamente, todos os governos fingem reconhecer esses direitos, por dever de ideologia imposta em 74, deixando passar a onda protestante, sabendo que no dia seguinte ela já não volta – até nova ordem sindical – e recomeçam o trabalho governativo na mesma linha de orientação que é a sua - os governos anteriores recolhendo o naco que entenderam que lhes pertencia e aos amigos, dentro da mesma ideologia democrática, e antes que se exaurisse de vez o depósito dos empréstimos exteriores, o governo actual, exaurido o depósito, tentando atamancar a sua governação, impondo normas e restrições e fazendo pagar o mesmo povo, que é sempre quem paga, enquanto a economia se vai arruinando estrondosamente, com o alastrar do desemprego, das falências, da “gente a passar fome”

Mas, como afirma João César das Neves, os marxistas são os únicos a quem agrada a Constituição bloqueadora dos adeptos do capitalismo, e nem a dança dos acórdãos do Tribunal Constitucional consegue fazer engrenar as rodas dentadas de uma economia doente, apesar das alavancas desses empréstimos mal geridos, que a imposição de pagar faz sacrificar, neste momento, sem esperança.

Mas em greve sempre.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

É o nosso fauno


Escreveu o Dr. Salles da Fonseca, em Outubro de 2005 um extenso texto - «Os Lobos e os Faunos» - retrato bem expressivo da indignação que sentiu ao longo de um processo de destruição pátria, só equiparável ao anedotário de situações e ditos de um povo pouco sadio, como esse sobre a extinção dos ricos no nosso país, perante pessoas de um outro mundo de inteligência e conforto generalizados. Mas enganou-se o tal que disse isso, pois ao que consta, os ricos aumentaram no seu país, provavelmente esse tal sendo um deles, que lutou com cravos na botoeira, exclusivamente para esse efeito – o de enriquecer com truques.
Destruição, eis o lema seguido: territorial, primeiro, económica a seguir, destruição dos valores morais e cívicos anteriores para demolição da camada social futura – a maioria dos “homens e mulheres de amanhã” criada na indiferença e no desmazelo de uma massificação para a inércia - destruição da própria língua, na sua escrita vária, como cúmulo de tanta “infância” mental, para não dizer infâmia – eis alguns dos parâmetros desse lema demolidor, que tantos homens e mulheres evidenciou ao longo destes 39 anos, como borbulhas fazendo erupção na pele, na perversidade e na hediondez de uma desvergonha que se generalizou.
Um texto suficientemente esclarecedor, sobre a riqueza e a pobreza das nações, que, naturalmente, resultam do trabalho e estudo ou da sua ausência, condicionados, segundo a tese citada do professor americano, pelo clima –o frio convidando ao esforço físico e mental, o calor à diversão.
O certo é que dificilmente nos ergueremos, com tanta ausência de estrutura mental no nosso país, de papagaios debitando sentenças, de graciosos troçando de quem governa, sem respeito e sem educação, da falta de unidade segundo o lema “Um por todos, todos por um” que não nos pertence.
E os lobos vão alastrando, cada vez mais vorazes. Quanto aos faunos, lembro, n’ “Os Maias”, a referência a dois desses espécimes, tocando flauta, figuras de um armário de talha, da colecção da “Toca” que Carlos comprou a Craft e que Eça descreveu como símbolo de fealdade dos amores incestuosos narrados no seu romance.
          Além disso, já não há faunos que protejam os nossos campos, destruídos pelas hordas sucessivas dos que foram aniquilando a Nação Portuguesa. Mas há, certamente, ainda muitos que assobiam para o lado, de mãos nos bolsos, cantando o fado.


«OS LOBOS E OS FAUNOS»

«Fauno, rei do Lácio, ficou na mitologia romana como divindade campestre assobiando em conjunto com centenas de melros a melodia que nos campos ouvimos das flautas mágicas em protecção da fecundidade dos rebanhos. Mas a esta bucólica melodia contrapõe-se o uivo de vorazes lobos.
Mais prosaicamente, conta-se a história de que um dos “heróis” do 25 de Abril foi à Suécia explicar àqueles “pacóvios” do que tratava a revolução portuguesa e que a certo momento de brilhante sessão de esclarecimento e dinamização cultural afirmou qualquer coisa do género de que “em Portugal já acabámos com os ricos”. Com alguma timidez perante tanta glória, terá um dos atónitos escutantes balbuciado qualquer vago pensamento de que “na Suécia já acabámos com os pobres”.
Eis um diálogo do maior interesse para todos os que nos dedicamos às questões do desenvolvimento.
E a pergunta que logo nos assoma: - Por que é que há países tão ricos e outros tão pobres?
Já Wilhelm Schaumburg Lippe (1724-1777), como Marechal General do Exército Português a convite do Marquês de Pombal, ao redigir o nosso primeiro Regulamento de Disciplina Militar, determinou que “o Sargento deve saber ler e escrever pois o Oficial, sendo nobre, pode não saber”.
Se isto se passava no Exército, pilar essencial do Estado, podemos imaginar por onde andava o nível médio cultural por esse Portugal além.
David S. Landes, Professor (emeritus) de Harvard, escreveu um artigo de jornal a que deu a forma de livro com 603 páginas de texto, 51 de notas, 81 de bibliografia e apenas 19 de índice remissivo a que deu o sugestivo título algo smithiano de “A riqueza e a pobreza das Nações”. A tese fundamental deste americano é a de que um céu radioso conduz ao folguedo e à hilaridade de quem sob ele se passeia enquanto um céu plúmbeo induz à introspecção, à falta de humor, ao trabalho árduo. Se a isso juntarmos aos do Sol o dogmatismo católico e o latim como arma de distanciamento dos fiéis mantidos iletrados como instrumento de docilidade relativamente aos Santos Mistérios e aos das nuvens a promoção pelos protestantes da interpretação da Bíblia devidamente traduzida nas várias línguas vernáculas, temos naqueles o temeroso analfabetismo e nestes a racionalidade, o método e a já citada ausência de humor.
Assim nos conduz o Professor Landes ao Carnaval carioca dos favelados e ao maior nível mundial de patentes per capita na Finlândia enquanto, pela nossa parte, contamos com o nobre Oficial português mas também com o Marechal austríaco.
Creio que o autor desta tese ainda hoje não conhece a história do militar português na Suécia mas quase aposto que o militar português também ainda hoje não sabe da existência do Professor Landes.  
Aceitemos ou não o valor histórico-científico da tese de Landes, ela pode, mesmo assim, ser percebida empiricamente; a iliteracia do militar português que em 1974 foi à Suécia carece de análise mais subtil do que a simples percepção empírica ou mais leviano tratamento jocoso. O meu Avô, Tomás da Fonseca (1877-1968), quando quis estudar mais do que os rudimentos que se ensinavam nas aldeias serranas da Beira Alta, teve que ir para o Seminário de Coimbra pois não havia escolas públicas ou privadas na região. Uns anos mais tarde e pela mesma razão, o Doutor Salazar teve que ir para o Seminário de Viseu. Assim foi que chegámos ao 5 de Outubro de 1910 com uma taxa de analfabetismo adulto que rondava os 90%. As campanhas de alfabetização de adultos dos anos 50 e 60 sofreram enorme resistência com base no argumento de que o povo era muito mais feliz na ignorância e que não tinha interesse nenhum em saber escrever. E eis que chegámos ao 25 de Abril de 1974 com 25% de adultos analfabetos. Formidável: nessa época revolucionária, um em cada quatro adultos portugueses não sabia ler e muito menos escrever.
Começamos deste modo a compreender que o tal militar que viajou até à Suécia não estava assim tão longe da clarividência média nacional. A massificação da educação tem sido uma obra ciclópica nestes últimos 30 anos e se numa geração estamos a querer fazer o que não foi feito em 850 anos de História pátria, fácil é compreender que vivamos hoje num turbilhão de inadaptação dos que se encontram em lugares de chefia sem terem bebido o imprescindível chá nas tenras idades e dos que, nascidos em berço de oiro, não compreenderam que a hora não era de ócio, hilaridade e folguedo, se deixaram embalar por vulgaridades mundanas e quando acordaram para a realidade se viram comandados pelos netos dos servos dos seus próprios avós. E bramam – não sem razão – que se assiste a uma inversão de valores.
Aconselha a sabedoria popular que “não sirvas a quem serviu nem peças a quem pediu”. E de quem é a culpa? Nossa, dos que há várias gerações comemos sentados à mesa, dos que devíamos ter dado o exemplo, dos que tínhamos todas as condições de fortuna para constituir a elite nacional. Não quiseram estudar, preferiram viver dos rendimentos e quando a erosão monetária lhes mostrou que as despesas já eram superiores às receitas, venderam o património e tiveram que aceitar empregos menores para poderem continuar a almoçar e jantar. Mais do que frustrados, sabem que estão falidos. Dos que estudaram, houve quem vingasse num cenário competitivo como nunca existira em Portugal. Sentem-se vitoriosos, têm orgulho no que conseguiram à sua própria custa. Usam colarinho branco, deram um salto formidável dos campos em que labutavam os avós de Sol a Sol e do colarinho azul que os pais usavam no trabalho. Ninguém os agarra e quem se lhes atravessar no caminho é de imediato cilindrado. Não olham a meios para atingirem os seus próprios fins.
E assim vem à tona o rancor por quem lhes possa fazer sombra. Demolir, demolir, demolir para que só eles fiquem no topo que tanto lhes custou conquistar. É também a vingança contra o passado que não tiveram e que invejam a quem o teve. É vê-los por essas Autarquias além a financiarem os Partidos que os usam como bandeiras locais e a tomarem as vezes de Condes e Marqueses na verdadeira acepção etimológica dos termos. É vê-los nos telejornais a dizerem que tudo está mal, que todos são gatunos e que tudo são escândalos pois é disso que a massa informe de lustrosos colarinhos brancos se alimenta. É vê-los nos hipermercados a preferirem o estrangeiro porque o que é lá de fora é que é bom e o que é nacional não presta. Quanto mais não seja porque é chique esticar o braço para etiqueta exótica em vez das saloiadas de que ainda têm vergonha.
É vê-los, é vê-los, é vê-los . . .
Lembra-nos a sabedoria popular que “se queres ver o vilão, põe-lhe o chicote na mão”.
Bem maçados andamos os que sabemos ler e escrever e que há várias gerações comemos de garfo e faca. E perguntamos: onde está a elite nacional? É isto? A resposta é evidente: é pouco, é mau e ao processo de massificação da cultura tem que suceder imediatamente o da construção de uma elite nacional.
Na mitologia do Embaixador Soares de Oliveira, os búfalos devem comandar as ovelhas; na minha, os vorazes lobos devem dar lugar aos faunos.
Lisboa, Outubro de 2005 »