quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Le reproche de la folie



A O PS passou-se?” de João Miguel Tavares, de 22/10, segue-se, na mesma linha temática, o artigo de Vasco Pulido Valente “A loucura estabelecida de 23/10. Duas pessoas razoavelmente sensatas que se mortificam à ideia de um governo de esquerda, e sobretudo da maneira como foi forjado, governo de garotos brincando aos governos, como se estes fossem bonecos de uma infância descuidada e fantasiosa. Ambos os comentaristas apontam o inverosímil do procedimento de António Costa, cabeça oca de sorriso alvar, na satisfação do piparote com que julga dirigir os destinos de uma pátria que provavelmente despreza, como os seus congéneres de última hora, senão não se envolveria isoladamente num pretensioso e sinistro caminho de destruição, de que os ditos cronistas apontam as incongruências e os resultados negativos a esperar.
João Miguel Tavares concede, todavia, razões a Costa - o que não admira, pessoa que pretende ser honestamente e inteligentemente isenta, sentado que fica a uma mesma mesa de humor destrutivo e brincalhão num programa que Ricardo Araújo Pereira pontua com a sua irreverência de enormidades de salão. Não creio que Miguel Tavares tenha razão nessas razões que atribui a Costa, e que são ditadas apenas por cinismo e má fé deste.
Em “A loucura estabelecida”, Vasco Pulido Valente historia os factos com a sabedoria e ironia do costume, lançando críticas ao Dr. Cavaco pela sua inércia, desculpável, julgo, por o artigo ser anterior à comunicação do PR de indigitação do governo à coligação PAF. Um artigo que se lê na delícia da desmistificação de uma pobre pretensiosa só possível neste pedaço de “jardim” que espreita o mar dos nossos bronzeados. Na realidade, depois de ter ouvido Marcelo Rebelo de Sousa, e a sua simpatia à esquerda, talvez para comer da mesma gamela quando for presidente, o desprezo acentuou-se em mim, por um mesquinho ser, nem carne nem peixe – mais um neste nosso tablado do bronze – atrevidamente irresponsável agora que deixou de ser farfalhudamente decifrador dos enigmas pátrios. E a admiração por Cavaco, que Pulido Valente despreza, manteve-se, em mim, inabalável, pequeno gigante corajoso e altivo, a contrastar com os muitos anões, na inquebrável firmeza, embora aparentando debilidade (julgo que por timidez), do seu amor pátrio.

O texto de João Miguel Tavares
O PS passou-se?
Para não ser logo muito bruto, deixem-me começar pelas questões em que António Costa tem razão, ainda que alguma direita tenha dificuldade em admiti-lo.
Costa tem razão na legitimidade de um Governo à esquerda, se Passos e Portas caírem no Parlamento e o PS conseguir um acordo sólido com Bloco e PCP – eu não alinho nas conversas de golpe de Estado. Costa tem razão quando diz que foi claro durante a campanha eleitoral na rejeição do Bloco Central (o facto de ninguém o ter levado a sério não é culpa sua). Costa também tem razão quando acredita que a maior parte do PS está do seu lado. E Costa tem ainda razão quando intui que a possibilidade de uma fragmentação do PS pode ser maior em caso de acordo com a direita do que no caso de um acordo com a esquerda.
Costa até tem razão em tentar prosseguir o seu caminho: quando olhamos para a sondagem da passada segunda-feira na TVI, ela não disse o que muitos gostariam que dissesse. Se os números do PS não mexem, isso significa que a quase totalidade do seu eleitorado engoliu a patranha antiausteridade e deseja, em primeiro lugar, que a coligação seja impedida de formar Governo. Quatro anos de sacrifícios racharam o país ao meio – António Costa tinha um tubo de cola na mão direita e martelo e escopro na mão esquerda. Optou pelo martelo e escopro. Está no seu direito. E até combina melhor com a bandeira do PCP.
Mas, como imaginam, tudo o que atrás ficou dito, todas as razões que atribuí a António Costa, têm como premissa duas pequenas palavrinhas: “acordo sólido”. “Acordo”, no sentido de “documento assinado”. E “sólido”, no sentido de “aceitável dentro das metas do Tratado Orçamental”. É que, sem acordo, não há nada. Sem acordo, há apenas um grupo de socialistas desesperados a rodopiar por aí. Sem acordo, resta António Costa travestido de um Martim Moniz com défice democrático, procurando com a bojuda perna esquerda impedir que a porta de São Bento se feche na sua cara.
Deixem-me, então, recorrer à brutidade: a figura que o PS fez na terça-feira, primeiro pela voz do líder do PS, à saída do Palácio de Belém, e depois, à noite, na SIC e na TVI, pelas vozes de Carlos César e de Pedro Nuno Santos, é das coisas mais irresponsáveis e vergonhosas que me foram dadas a assistir na política portuguesa. Quando questionado sobre os termos do acordo, Carlos César respondeu: “Não lhe posso detalhar o acordo. Em primeiro lugar, ele não está subscrito pelos seus parceiros. E, em segundo lugar, a sua divulgação só tem interesse por ocasião da indigitação.” Está tudo doido?
Uma resposta destas merecia nova manifestação na Fonte Luminosa. António Costa tinha jurado na sexta-feira, em entrevista à TVI, que não iria chumbar um Governo da coligação se não tivesse uma alternativa. Mas, na terça-feira, embora essa alternativa não existisse nem se soubesse se iria existir, ele já estava a pedir ao Presidente da República a indigitação para liderar o país. Não há acordo, ninguém o viu, o PS acha que não tem de o mostrar, mas o Governo só pode ser dele. Confirma-se: está mesmo tudo doido.
O DN resumia o caso exemplarmente na sua manchete de ontem: “Governo à esquerda – só falta que Costa, Catarina e Jerónimo assinem acordo.” No campeonato do wishful thinking, é das melhores coisas que li até hoje. Dentro desse mesmo espírito, posso já revelar aqui o título do meu próximo artigo: “João Miguel Tavares casa-se com Monica Bellucci, Charlize Theron e Scarlett Johansson – só falta elas aceitarem”.
O texto de Vasco Pulido Valente:
A loucura estabelecida
O dr. Passos Coelho pediu “celeridade” a Cavaco. O dr. António Costa também pediu a Cavaco “celeridade”. Cavaco não deu sinais de ter percebido esta extravagante coincidência. Perceber nunca foi o forte dele. Mas, para uma pessoa normal, a coisa é fácil. Passos Coelho quer ser indigitado primeiro, para obrigar o PS e o seu séquito ao odioso de correr com ele em plena Assembleia da República. Costa quer que o odioso de humilhar a direita fique para o Presidente. Se Cavaco acordar a tempo, indigita Passos Coelho. Se por acaso se embrulhar na intriga da “esquerda”, indigita Costa. Para fazer coro, Catarina Martins vai dizendo pelos cantos que não se deve perder tempo com os deputados e prefere designar directamente Costa. Ninguém a ouve, coitada, e, se ela não se achasse tão importante, era capaz de chorar.
Na tese de Costa e de Catarina há um minúsculo defeito: a escolha de Costa ignora com entusiasmo a Assembleia da República. Os deputados são um rol de roupa suja que os chefes trazem na carteira. Ganha o rol maior e o Presidente com toda a humildade põe o carimbo. Pior ainda: o Presidente nem sequer pode examinar o rol e apreciar o que lhe servem. Nem ele, nem nós. As negociações do PS com o PC e o Bloco decorrem à revelia dos respectivos partidos, dos deputados, de Cavaco e do público. A “esquerda” sempre gostou muito de conversas secretas, em que se combina o que se combina, sem interferência da ralé e sem espécie alguma de responsabilidade. Felizmente, a proverbial mansidão do povo português permite esta política de corte como no século XVII ou no século XVIII.
Convém, por isso, que a “opinião” não se inquiete. Estamos nas mãos de António, Catarina e Jerónimo e mais duas dúzias de ajudantes? Estamos com certeza em boas mãos. E, quando chegar o dia miraculoso da revelação, na Assembleia da República e já com Costa a primeiro-ministro, o país responderá sem dúvida com cantos de alegria. Claro que, ao princípio, muito pouca gente perceberá o que se prepara. Não interessa: em Bruxelas vivem uns senhores com uns papéis, a quem não escapa nada; e são eles que dispensam o caldo do convento. Os peritos deste indispensável ingrediente não concordam com a data em que ele irá acabar. Seis meses? Provavelmente um ano? Com sorte um ano e meio? Essas contas não deixam de ser muito divertidas. E seriam mais, se não acabassem por nos sair do pêlo.
Nota: este artigo foi escrito antes da comunicação do Presidente da República, ontem à noite.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Um intervencionismo às avessas



Nos tempos de Salazar, houve uma literatura de resistência ao regime chamado de ditadura, que punha a nu, persistentemente, os contrastes sociais, numa absurda dicotomia entre o Bem e o Mal, entre os do bem-estar e da exploração e os que os serviam na humilhação da ignorância, da servilidade e da sua miséria de explorados. Uma literatura de pesadelo, desses ledores – ou não (a moda conta muito também)– de Marx, em que a virtude se punha do lado dos tristes, por vezes revoltados, os maus no seu papel prepotente, sendo os juízos de valor, condenatórios do regime, sempre subjacentes às suas intrigas ficcionais, de natural escassez de criatividade e originalidade. E, afinal, de honestidade crítica, numa generalização de ataque, que ignorou tanto das realizações dos tempos de Salazar, quer no desenvolvimento material, quer na própria elevação das classes sociais, pela instrução libertadora, embora dentro de princípios de rigidez e convenção que, aliás, eram conceitos da época, dado que a liberalização dos costumes viria com o progresso, em toda a parte. Quanto ao nosso analfabetismo, ele é mais antigo do que a Sé de Braga, Salazar tinha costas largas, coitado, para abarcar mais essa responsabilidade de ter votado o povo à incultura.
A democracia libertária, virando do avesso os princípios de contenção e educação, trouxe o ruído, o espalhafato, o despudor, o vale-tudo da indisciplina sem as normas de respeito a valores que dantes eram sagrados – entre os quais o do aforismo “o seu a seu dono”, que escandalosamente quebramos para alcançarmos o que não obteríamos a não ser usurpando.
O PC e compadrio vão poder agora pôr em prática aquilo em que há tanto tempo fazem finca-pé – a defesa dos direitos dos trabalhadores – que são quem conta para eles, nesse seu governo de usurpação, que Passos Coelho não vai conseguir vencer, tendo vencido. A nossa sociedade mais p’r’ó vermelho, segundo fizeram constar, apesar da abstenção ser ainda superior à participação eleitoral, entende que num país de touradas o vermelho assenta a matar e escolheu o vermelho.
É Alberto Gonçalves que, de espada em riste, aponta essa comédia vermelha de aparente defesa de liberdades e direitos populares dos tempos do fascismo, traduzida por uma ânsia real de ditadura repressiva que os nossos próprios comunistas manifestaram, quando aqui governaram no pós Abril, e que tantos por esse mundo exploraram e exploram em brutalidade repressiva.
Um texto intervencionista, este de Alberto Gonçalves, corajoso, inteligente, de uma psicologia humorística e penetrante e de um conhecimento real dos cordelinhos da nossa perspicácia e malícia. Espécie de intervencionismo às avessas, desmascarando os reais propósitos e ambições desses e dessas figuras de santidade da nossa veneração pacóvia, que muito mergulha na mesquinhez da inveja.
Uma comédia vermelha
Alberto Gonçalves
DN, 25/10/15
Entre as misérias que o salazarismo nos legou, uma das piores foi o mito de que o PCP combateu a ditadura em nome da liberdade. No mundo real, o PCP lutava por uma ditadura mais repressiva, da qual aliás se espreitou o grotesco rosto em 1975. Em 2015, é ridículo - e sobretudo triste - ter de o lembrar. Mas a lenda da "generosidade" comunista resistiu ao 25 de Novembro, à queda do Muro e à enésima divulgação das carnificinas pedagógicas inspiradas por Marx. Em países sem tradição autocrática recente, o comunismo, em qualquer das sangrentas variantes, é o tique nervoso de uns poucos excêntricos, geralmente confinados à universidade ou ao manicómio. Graças ao Estado Novo, os comunistas nativos chegam a 20% no Parlamento. E, em estimativa moderada, a uns 50% nos media.
É por isso que, por cá, cada avanço da "extrema-direita" no "estrangeiro" equivale às trombetas do Apocalipse, enquanto a ascensão caseira de PCP e BE é a abertura necessária a forças e eleitores injustamente marginalizados. Nestes dias, não faltam idiotas úteis e inúteis a celebrar o fim do "arco da governação". Embora feiinha, a expressão não é absurda: convém limitar o governo de uma democracia a partidos cujo desígnio não consista na aniquilação da dita. Isto para dizer que Cavaco Silva esteve bem.
Imagine-se uma história alternativa. Imagine-se que o PS ganhava as eleições sem maioria nem indícios de apoio parlamentar. Imagine-se que o PSD e o CDS ensandeciam e namoravam os deputados do PNR e do recém--legalizado MIRN para estabelecer uma frente de direita e formar governo. Imagine-se que o presidente António Guterres rejeitava a possibilidade sob o argumento de que a frágil situação nacional não deveria ser comprometida por forças avessas aos, cito, "grandes compromissos", do euro à NATO, do Tratado Orçamental à UE. Quantos dos que agora berram contra a "parcialidade" de Cavaco Silva berrariam nesse dia contra a "parcialidade" de Guterres?
Desconfio que poucos: para a esquerda, a parcialidade naturalmente só incomoda quando não a beneficia. Os ataques desenfreados de Soares às maiorias de Cavaco (ambas sem o MIRN e o PNR) foram uma espectacular manifestação de consciência cívica. Os truques de Sampaio para despachar a maioria absoluta da "direita" (de novo sem o MIRN e o PNR) e consagrar Sócrates foram a prova de que tínhamos estadista. A aparente rejeição de Cavaco a qualquer "solução" que envolva a extrema-esquerda é, a acreditar no berreiro que por aí vai, uma vingança inconstitucional.
Apenas um pormenor: não é. A Sagrada Constituição permite que o PR faça o que ameaçou fazer e, face ao avanço de radicais perigosos e derrotados, prefira um governo dito de "gestão". A esquerda não gosta? A "direita", por acaso a "direita" que elegeu Cavaco Silva, sim. Legalidade por legalidade, legitimidade por legitimidade, é tudo questão de gosto.
Eu limito-me a achar que as consequências de um governo limitado na decisão são menos nefastas do que as consequências de um governo ilimitado na alucinação. Haverá quem ache o contrário e julgue que o PR escolheu o partido em lugar do país. Por acaso, é evidente que escolheu o país em lugar do partido: para o PSD (e a coligação), oito meses de oposição a um bando de nulidades chantageadas por fanáticos seria uma mina eleitoral. Seria porém uma calamidade talvez definitiva para Portugal.
Se, como é plausível, Passos Coelho e Portas recusarem o arranjo da "gestão", assistirão na plateia à comédia da "muralha de aço" (este PS demente já adoptou a expressão) e, lá para Julho, garantem maioria nunca vista. O problema é que, entretanto, o hilariante espectáculo terá tornado anacrónica a proverbial comparação com a Grécia: a curto prazo, habilitamo-nos a ser a Venezuela. E não sobrará ninguém para rir.
Sexta-feira, 23 de Outubro
Bonequinhos de corda
"A gente já sabe que o governo vai cair, pá", afirmou Jorge Coelho na Quadratura do Círculo. E o sorriso dele resumia todo um mundo. Um mundo em que os mesmos deputados em que a esquerda fundamenta o discurso de vitória valem exactamente zero.
Já antes da "comunicação" de Cavaco Silva, a esquerda achava que indigitar Passos Coelho seria "perda de tempo". Depois da "comunicação", a impaciência converteu-se em típica indignação, mas manteve-se a certeza de que não valeria a pena acreditar na individualidade de uma única das cabecinhas que enfeitam a Assembleia da República. E se, porque nunca fizeram outra coisa na vida, não admira que os serviçais de PCP e BE se prestem a tamanho vexame, há certa melancolia em suspeitar que os parlamentares socialistas se satisfazem com o papel de bonequinhos aos quais o chefe dá corda para aprovar ou vetar o que o chefe decide.
Ao apostar tudo, ou quase tudo, na vontade própria dos bonequinhos, Cavaco Silva exagerou no optimismo. Ou me engano bastante ou os "espíritos livres" do PS esgotaram-se nos três ou quatro casos de independência revelados desde 4 de Outubro. Não consta que nos próximos dias se multipliquem as rebeliões: por muito que abominem a abdicação perante os partidos comunistas, a ambição de partilhar um pedacinho do poder é grande, e o medo de arriscar a carreira é maior ainda. À esquerda e não só à esquerda, a vasta maioria dos "representantes do povo" não representa nada, excepto a fraude a que o regime desceu. E que abre caminho a regimes piores.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Os filmes da nossa guerra intestina






Casablanca”, sempre. De vez em quando, a «TV Memória» lembra-se de nos bafejar com esse brinde, que não perdemos. Para além de toda a beleza de desempenho e figuras, emoção e nobreza de sentimentos, o momento empolgante em que o líder da resistência tcheca, Victor Lazlo, faz sobrepor ao hino alemão, tocado e entoado no café do Rick, o hino francês que electriza os frequentadores do café, com as naturais consequências de encerramento daquele, ordenadas pelo governo alemão sito em Casablanca. Bem posso lembrar que o mesmo fizemos em Lourenço Marques, sem tanto brilho e mais emoção, não condicionados pela arte coreográfica, num levantamento popular em frente à Câmara Municipal, em 1974, ao lado da linda catedral de Nossa Senhora da Conceição, cantando, em lágrimas, o Hino Nacional, com a bandeira hasteada, a lembrar o protesto contra os destruidores da nação.
Vem a referência a propósito do «Eixo do Mal» que resolvi ouvir hoje, em reposição, há muito desligada das leviandades desses comentadores que, arrogando-se de fina flor da intelectualidade nacional, mais não demonstram que vileza de pensamento nas suas risadas ou comentários tantas vezes sem classe ou sequer ética. Mas talvez o asco não fosse tão sentido como quando vejo e ouço duas moças - uma dengosa, fazendo mímicas de simpatia determinada, mesmo quando é atrevida e malcriada com os indigitados para o governo – anteriormente governantes a sério - outra serenamente superior, querendo aparentar bons sentimentos também, relativamente ao povo que as serviu com o seu voto, assim arrancado no deslumbramento por esse par de donzelas ou donas como as do tempo de outrora, Orianas que já seduziam os Amadises das cavalarias medievais, e seduziram agora os peões, ciclistas, motards, automobilistas ou mesmo apenas os que se fazem transportar de carroça, conquanto esta em vias de extinção.
O certo é que também o “Eixo do Mal” continua mais ou menos intragável, pequeno grupo a pretender discutir da pátria e dos patriotas, com uma pequena sabedoria que esconde tanto de chacota pelos sentimentos alheios, daqueles que escutam comovidamente o momento mágico de uma “Marseillaise” sobrepondo-se entusiasticamente ao hino de um povo malignamente opressor.
Não, os nossos palradores de política, não vibram com momentos desses, de hinos nacionais traduzindo um qualquer orgulho ou respeito pelo seu país, conquanto não duvide que no caso do filme norte-americano, eles não ficam indiferentes à magia do episódio. A displicência é comum, e um elemento como Pedro Marques Lopes, o das insinuações, da coscuvilhice sem nível, arrancada à experiência de vida, parece-me, ou de fura-vidas, mais do que a estudo ou arte, o qual, dizendo-se PSD, há muito segue no rasto da simpatia pelos camaradas mais cultos, em rebaixamento vil, de quem se sente que finge ser duma cor e não tardará a mudá-la, para sua própria sobrevivência.
Cavaco foi o visado, pelo seu discurso “extremista e revolucionário”, condenado pelos três protagonistas, à excepção de Luís Pedro Nunes, trapalhão mas de pensamento mais nobre, o único, por vezes, que repõe uma certa sensatez na grosseria ou excitação gerais.
Nobreza para os três da esquerda (considerando entre estes o dito Lopes), é a da esquerda – (que, todavia, tudo faz para destruir o país e qualquer projecto de governação que nos tire do lodaçal). Cavaco, porque conhece bem essa esquerda e a desprezou sem vitupérios no seu discurso, como homem honrado, no pesadelo que vive dessa viragem da nação a uma esquerda há muito dirigida por rancores e ódios e má criação, Cavaco foi chamado de ignóbil e outros epítetos de teor semelhante.
É, aliás, isso, pecha comum, excluindo as opiniões que nos confortam, pela sua sensatez e indignação de gente que sente. Tal a de Maria João Avilez. E a de muitos outros que às vezes acerto em pegar, sobretudo por indicação do meu marido.
Mas, para todos os efeitos, a esperança de sobrevivência desapareceu, num pobre país à deriva, por muita risada escarninha que o conceito mereça na praça. Se chegar à praça.