sexta-feira, 27 de maio de 2016

Democracia sem familiaridades



O título é intencional. Traz pezinhos de lã, aparenta simpatia por aqueles oriundos de um Moçambique gracioso, na saudade de espaços e recantos que também percorremos e amámos e revimos, quer em filme, quer na Internet, em imagens de grande beleza  arquitectónica onde a Catedral impera, no meio do esquadriado do traçado urbano, de amplos edifícios. Um texto apelativo de emoção, na referência a tantos belos lugares da nossa lembrança, (com exclusão da praia da Polana, sítio de menor intelectualidade, e dos prazeres saudáveis de uma infância de piqueniques ao domingo, no convívio com os macacos, que comiam das nossas bananas e bebiam da água das torneiras, lá perto do Pavilhão, onde não faltavam as árvores antigas, ao longo da estrada, donde eles desciam). A intelectualidade fixara-se predominantemente, nos anos sessenta, nos espaços da Baixa, de teatros e cafés – o Continental – ah! O Continental! – da confluência de advogados e doutores e tantos mestres na arte da coscuvilhice espirituosa, ou do desabafo dramático, ou dos temas da seriedade política ou cultural, que ali punham em dia o que se ia fabricando em termos de “país dos outros” nas costas dos incautos, que éramos a maioria. Foi lá, no Continental, que encontrei um dia Zeca Afonso, de que ouvira falar em Coimbra, desterrado pela Pide para o Liceu António Enes, onde eu trabalhara dois anos, casado em segundas núpcias com uma mocinha que não tirava os olhos dele, num cuidado e atenção que fixei com ternura, não sei bem se já conhecedora do seu “Menino do Bairro Negro” do meu encanto e comoção da boa formação moral, ignorante ainda do que isso escondia de traição pátria.
A verdade é que, quando acordámos para a realidade do significado do País desses Outros, já vivíamos mais para a “Alta”, para os lados da Massano de Amorim, onde outros cafés preenchiam o nosso convívio, de outros amores e amizades. “O País dos Outros”, tínhamo-lo recebido de Rui Knopfli, ainda em Coimbra, em 59, e logo me enamorei de uma poesia rebelde e madura, com tanta maleabilidade expressiva de um pensamento de angústia predominante, demonstrativa das relações conflituosas com os outros e consigo próprio, de vez em quando pintalgada de sensibilidade para com esses outros da fraternidade de encomenda, que Marx aconselhava e a intelectualidade impunha nessa Lourenço Marques da saudade de tantos.  Aos sábados à noite, durante os primeiros tempos da nossa vida de trabalho em África, era com Rui Knopfli, Eugénio Lisboa, o jornalista Vieira Simões e respectivas mulheres, muitas vezes também com Manuel Luís Pombal, jornalista de bastante humor, que costumávamos, após o cinema, reunir-nos, na esplanada da Praça 7 de Março, onde a ironia e o muito saber dos dois primeiros abundavam em demonstrações que, prudentemente, ou por ignorância, mal acompanhava, percebendo, no seu show que destacava leituras e filmes, o quanto era rica de prazeres intelectuais a sua vida em África, que nós outros interrompemos para completarmos os estudos na Metrópole. E Rui Knopfli não perdia ocasião de salientar quantos graus estava acima de nós, tímidos ou incultos, ou de leituras mais centradas nos universos livrescos dos respectivos interesses culturais adquiridos nos cursos próprios da nossa alienação. Essa marca de despeito, por não ter saído de África e submeter-se, como os outros, à canga do estudo obrigatório, proporcionador do título académico que ditaria um percurso profissional diferente, não descurava de a fazer sentir, até mesmo nos seus versos, ele que fora sempre reconhecido, já no liceu, pela excelência da sua escrita que o tornara de todos admirado. Rui knopfli justificou com o seu profundo amor por África a sua desistência de partir  em ”Carta para um amor” - «… Quebrou-se esse velho espanto //  e nossos companheiros tiveram a coragem // de partir para outras cidades // com história, do mundo // (Para eles a tua lembrança é // fugitiva mágoa). // Só, // eu fiquei abraçado a este amor anónimo.»
E Knopfli continuou escrevendo e publicando versos com uma mestria que talvez tenha atingido em “Mangas Verdes com Sal” a cúpula do seu edifício poético.
Pedro Mexia consegue, pois, sensibilizar-nos para o nosso “outrora” em vários andamentos, e foi com espanto e emoção que li o seu artigo, sobre a visita que fez a Lourenço Marques, previamente informado dos sítios da bela cidade de outrora, e através dos escritores que admira – Rui Knopfli e Eugénio Lisboa. Bem haja por isso.
É claro que a escolha do título para a sua crónica tem o seu quê de contundente - “macio”, em todo o caso - contra os que ingenuamente continuam cuidando que tudo poderia ter sido diferente, não fora o crescendo de sensibilites que atribuem as nações aos primitivos habitantes, esquecidas essas sensibilites das viagens dos hominídios africanos pelos continentes alheios, espalhando-se por tudo quanto foi canto, além dos exemplos bem posteriores dos gregos, romanos, godos, alanos, árabes e os vikings, que praticaram idêntica vilegiatura, e mais tarde ingleses, espanhóis, portugueses, que se estabeleceram definitivamente nessas terras em lutas de independência, nos variados nomes que deram aos seus países, depois de exterminados – ou quase – os seus habitantes,  índios nas Américas. A pátria pluricontinental não foi mais possível para os portugueses, mas também o não foram as pátrias da colonização branca independentes – África do Sul e Rodésias – que os ventos da história - ou a manipulação dos cínicos povos americanos e russos, injustamente fizeram expulsar, facilitadores de armas e ideologias.
Grande poeta, Rui Knopfli. Que tratou, nos seus livros, também da negritude, sendo “O País dos Outros” a porta de entrada do seu sucesso literário. E no entanto, nunca, nos cafés de sábado à noite, na esplanada da 7 de Março, o ouvi falar de descolonização, nem de compaixão pelos casos de injustiça social, de que fez matéria poética. Na esplanada discutia-se literatura e cinema e diziam-se graças. Afinal, Rui Knopfli tão dividido, como poeta, era apenas um poeta europeu, não um qualquer Craveirinha, ou Rui de Noronha tão repetitivos nos seus temas de raiva e apelo à mudança, sendo deste último o seu grito no final de um soneto “África! Surge et ambula”. Por isso, Knopfli, como quase todos nós,  veio para cá, sempre desenraizado, ao que se conta, deixando aos outros o “país dos outros”, sem coragem para acamaradar com eles, em novo status.


Por cá, também se passa o mesmo: democratas, sim, mas cada macaco (/ca) no seu galho, que o respeitinho é muito bonito e todos gostamos.



O País dos Outros
Pedro Mexia
E, 14/5/16
O que sei da África ou o que dela imagino, em especial desta África antigamente portuguesa? Pouco ou nada, verbetes de enciclopédia, fotografias a sépia, histórias truncadas, a mensagem de uma amiga dos meus pais que diz “traz-me o cheiro dos frangipanis”, e os poemas de Rui Knopfli, veementes e melancólicos, irónicos e sofridos.
 Uns dias antes da viagem, comprei em Lisboa, por graça, dois livrinhos turísticos do tempo da outra senhora, dois livros de propaganda, e ambos fazem de Moçambique um Portugal que correu bem, uma nação ultramarina tropical, e de Lourenço Marques uma metrópole estupenda, com avenidas largas bordejadas de “acácias rubras”, edifícios Art déco e modernistas com longos corredores e quebra-luzes, o “Stiloguedes” do colossal   Pancho,, a bela estação de comboios verde-pistacho, a catedral branca que parece a igreja da avenida de Berna, o mítico hotel Polana que até é citado num romance de  Graham Greene, a Praça da Independência quando ainda  não se chamava assim e tinha um Mouzinho a cavalo em vez de Samora Machel, o espantoso e imponente Prédio Rubi, o Rádio Clube, a Livraria Minerva Central,, o cinema Scala, o Cine África, o café Continental, o Salão Cristal. Lugares que quis ver ao vivo, se ainda existissem, pedaços de vidas das quais não tenho uma nostalgia biográfica ou política mas, digamos, po´wtica uma nostalgia que vem igualmente dos ensaios de Eugénio Lisboa, das memórias de Luís Amorim de Sousa, do testemunho duma geração excepcional de intelectuais portugueses moçambicanos, nativos ou adoptivos, nenhum deles aliás “colonialista.”
Gente como Knopfli, de quem eu gostava de ter sido amigo, ou de ter tentado, e que morreu entristecido como uma árvore transplantada em Londres ou Lisboa. Gente para quem Moçambique era a terra onde tinham nascido, ainda que vivessem no “país dos outros” e soubessem isso, gente que, ao contrário do que diziam os livrinhos que comprei, não entendia Moçambique imperialmente como “a segunda parcela do território nacional” mas como uma espécie de casa, uma casa precária, condenada, uma invenção tardia, oitocentista, depois de séculos de fraca ocupação, de febres de ouro, de surtos desenvolvimentistas, da “dolce vita” para uns e da iniquidade para outros, da guerra. Ou gente com a condição ambígua de “colono”, gente que carregou culpas históricas mas que sente um afecto genuíno e que defende umas lembranças idílicas, tocantes mesmo quando inverosímeis.
Penso nesta cidade de Maputo como uma quase ficção, reconstruída na minha cabeça, a partir de autobiografias de terceiros e de capítulos de livros, não conheci nada disto, nada sei dos colonos e dos africanos, mas também nunca duvidei do aviso atempado de um conservador inglês no ano de 1960: “o vento da mudança sopra neste continente”. Conheço muita gente que viveu aqui antes da independência e que diz sempre “Lourenço Marques”, quando converso com moçambicanos procuro evitar gafes, mas não julgo ninguém, tudo o que tenho são histórias esparsas de portugueses que conheço, e de portugueses moçambicanos, alguns ainda obcecados com a ideia (que me é inacessível) de uma pátria em vários continentes, outros que dizem de uma forma mais moderna que têm duas pátrias, e é verdade que vi gente portuguesa emocionada quando cantava, um a seguir ao outro, os dois hinos, o moçambicano e o nosso, e uma vez um coro feminino cantou os versos todos de “A Portuguesa” e os portugueses entreolharam-se e sorriram ao de leve porque não sabiam acompanhar as estrofes adicionais com que nos homenageavam.
Os moçambicanos são doces, tinham-me dito, mas o que quer isso dizer “os moçambicanos”, e serão todos “doces”, todos isto ou aquilo? Além de que podemos também perguntar: e os “portugueses” como são? Como fomos nós para eles quando eles e nós éramos compatriotas? Há tantas versões, opostas embora compatíveis, é possível acreditar em todas? Em conversa, os moçambicanos, quer dizer, um punhado deles, pareceram-me pessoas bem-educadas, ao estilo anglo-saxónico de understatement e cordialidade contida, pessoas não confrontacionais, suaves, e ouvi com frequência frases amáveis sobre os portugueses, talvez autênticas, talvez da boca para fora, talvez porque já passou muito tempo.
Chei a Maputo com um punhado de imagens desbotadas, mesmo quando espantosas, imagens de outros num país dos outros. Mas esta capital já não ostenta o nome eufónico do comerciante de marfim do tempo de D. João III, tem uma designação devidamente africana, agora é a Moçambique dos Moçambicanos, a História seguiu o seu curso. Porém, os poemas de Knopfli que trouxe na bagagem comovem-me, um “eu” individual esmagado pelos acontecimentos colectivos, em versos como este, sobre um “fatídico mês de Março” no aeroporto: “Não voltas mais? Digo-lhe só que não, // Não voltarei, mas ficarei sempre, // algures em pequenos sinais elegíveis, // a salvo de todas as futurologias indiscretas, // preservado apenas na exclusividade da memória”.
Com fingimento e sofrimento, o poeta garante: “Não quero lembrar-me de nada”. Mas não é isso, não é bem isso, é esta outra coisa talvez: “só me importa esquecer(…) / o impossível de esquecer”.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Mr. President, go on



Sabendo embora da vanidade destas afirmações bombásticas de quem deseja a todos agradar – eu também ouvi o PR em Moçambique lançando a atoarda de que o assunto do AO1990 lhe estava nos propósitos - provavelmente para o eliminar, se não na íntegra, pelo menos parcialmente – e com isso agradar aos Moçambicanos que ainda o não ratificaram, que nisso mostram, tal como os Angolanos, uma superioridade de desprezo pelas decisões de um país minúsculo, que esfarrapa abjectamente a sua própria língua, por imposição grave da saloiice pseudo intelectual de uns tantos, como, suponho, jamais se viu em países que se respeitam) – conhecendo, pois, quão frágeis são essas afirmações não ditas com seriedade e rigor, vou vivendo na esperança destes artigos sérios que apontam o erro e desmascaram intenções, embora sem força para destruir, ou de encaminhar.
E este artigo de um jovem – Francisco Miguel Valada - foi mais um a querer destruir ou encaminhar: sério, sereno, educado, envergonhado. Por isso o transcrevo, enquanto daqui imploro – ciente da inanidade do pedido minúsculo - às nações Angola e Moçambique, muito maiores do que esta, e onde se falou bem o Português, que aguentem firmes no seu critério de não ratificação  de um AO absurdo.
 Afinal, rastejando em torno da língua brasileira, que há muito evoluiu por vias divergentes do português, esquecemos que Angola e Moçambique foram bem posteriores nesses caminhos de transformação, e têm todo o direito de não se acobardarem, como nós, a uma escrita que há muito seguiu os seus próprios trâmites, coniventes com a sua fonética, morfologia e sintaxe.
 Seria uma obra de misericórdia para com esta nação, que foi pátria delas, e que tão malbaratada é por tantos de nós,  nos seus princípios… para não sei que fins.
Sr. Presidente, faça isso que prometeu! Escute os velhos e escute estes novos que nos dão o exemplo, e os tais países que deram ao mundo gente que falou e escreveu bem, na nossa língua.

Marcelo Rebelo de Sousa e o Acordo Ortográfico de 1990
Francisco Miguel Valada
Público, 18/05/2016
Há algumas semanas, soube que Marcelo Rebelo de Sousa, pouco depois de ter tomado posse como Presidente da República, decidira reabrir o debate sobre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). De facto, a confirmar-se tal informação, tratar-se-ia de atitude, além de merecedora de várias ovações de pé, em absoluta harmonia com um artigo publicado no Expresso, dias antes da tomada de posse, no qual Rebelo de Sousa não adoptara o AO90. Entretanto, notícias na comunicação social têm confirmado essa vontade de reavaliar o ponto da situação ortográfica.
Contudo, neste contexto, “reabrir o debate” não será a opção mais feliz, pois existe um prefixo a mais. Salvo iniciativas pontuais (uns colóquios aqui, umas audições ali, umas audiências acolá), o debate sobre o AO90 nunca foi aberto, por isso é um erro mencionar-se uma reabertura. Aquilo que houve foi uma imposição. Aliás, a consequência imediata da escassez de sessões de esclarecimento e da abundância de propaganda é uma maior permeabilidade de leitores de português europeu em relação a opiniões, digamos, peculiares.
Por exemplo, há quem afirme publicamente que “se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’”; há quem divulgue a ideia de a “dupla grafia” ser “recorrente na história da língua portuguesa” e apresente exemplos tão sui generis como “regime”/“regímen”, “areia”/“arena”, “imprimido”/“impresso” ou “olho”/“óculo”; há igualmente quem escreva agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)”. Convém ter bastante cautela com estas opiniões e só um debate esclarecedor dará a possibilidade de explicar o que está em causa — além de permitir aos autores destas opiniões virem a terreiro defender-se ou retractar-se.
Convém igualmente que haja, por fim, um órgão de soberania a pôr os pontos nos ii em relação a esta matéria e a tomar uma atitude responsável, sendo muito provavelmente o Presidente da República o mais indicado, porque se sente obrigado a praticar algo que não prega. Isto é, adopta uma grafia para inglês ver. Depois da confidência de Cavaco Silva (com a agravante de ter culpas no cartório) – "Todos os meus discursos saem com o acordo ortográfico mas eu, quando estou a escrever em casa, tenho alguma dificuldade e mantenho aquilo que aprendi na escola” –, temos agora Rebelo de Sousa a afirmar: "o Presidente da República, nos documentos oficiais, tem de seguir o Acordo Ortográfico. Mas o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa escrevia tal como escrevem os moçambicanos, que não é de acordo com o Acordo Ortográfico” .
Em peça da RTP, é perceptível que esta afirmação de Rebelo de Sousa provocou o riso de um dos interlocutores. Não percebi a piada. Isto é, o riso foi perceptível, mas a piada não foi: porque existe uma relação entre perceptível e perceber, porque perceptível é aquilo que pode ser percebido e percebido é o que se percebeu e perceber é ter a percepção de algo. O mesmo acontece com o que pode ser recebido, pois pode receber-se e receber é dar recepção. O mesmo acontece com concebido, conceber e concepção. Por isso existe aquele ‘p’, de -pç-, em concepção, percepção e recepção .
Por isso e não só. Aquele ‘p’ também permite que se evite a vulgarização de desastres, como a recente tradução portuguesa “a recessão de luz sobre os painéis solares” do original francês “la réception de la lumière sur les panneaux solaires”. Vindo ‘perceptível’ a talhe de foice, recordemos um factor importante: com o AO90, no Brasil, ‘perceptível’ mantém-se; com o AO90, em Portugal, ‘perceptível’ passa a ‘percetível’. Há quem lhe chame “unificação ortográfica” ou “ortografia comum”.
Como é sabido, a Assembleia da República não tem percebido – ou não tem querido perceber: nesta matéria, como noutras, a doutrina diverge – as provas apresentadas sobre a supremacia dos defeitos do AO90 em relação às suas hipotéticas virtudes e as gritantes diferenças entre a quimera de um acordo ortográfico em abstracto e o desastre AO90 em concreto. Aliás, os actos e omissões deste órgão de soberania em relação a esta matéria podem ser apresentados como um excelente exemplo de assimetria entre a vontade do eleitor e a atitude do eleito.
O Governo, pela voz do primeiro-ministro, não toma “a iniciativa de desfazer o acordo ortográfico” e, garante o ministro dos Negócios Estrangeiros, "aguarda serenamente" a ratificação do AO90 pelos restantes membros da CPLP. Isto é, "aguarda serenamente" que outros tomem iniciativas, em vez de se preocupar com as vítimas portuguesas que o desastre vai produzindo. Por exemplo, no Diário da República de 4/5/2016, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, nos “parâmetros preferenciais” para a contratação de um professor associado, determina o seguinte: “Ser titular do grau de Doutor em Estratégia ou História dos Fatos Sociais” (12). Exactamente: História dos Fatos.
Aguardando serenamente que outros ratifiquem aquilo que, atempadamente, membros da comunidade científica portuguesa recomendaram que não fosse ratificado por Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros vai permitindo que, no Diário da República, além de continuarem a adoptar grafias inadmissíveis em português europeu, também deturpem a língua inglesa. Um excelente exemplo aparece na edição de 6/5/2016, com “questões relacionadas com fatores [sic] humanos” traduzido da seguinte forma: “human fator issues” . Fator issues? Efectivamente: fator issues. Esperemos que nenhum inglês veja.
Seria extremamente importante que a louvável iniciativa do Presidente da República produzisse resultados palpáveis, ou seja, que a Assembleia da República e o Governo abandonassem a gestão desta matéria nos termos actuais, prestando atenção aos pareceres emitidos pela comunidade científica e à vontade manifestada por diversos sectores da sociedade. Caso contrário, existe sempre aquela alternativa que não nos agrada, mas da qual não devemos abdicar, em caso de urgência: os representantes devolverem a palavra aos representados, através de um referendo. Esperemos que não seja necessário. Esperemos que Rebelo de Sousa resolva.
Versão ligeiramente modificada de texto originalmente publicado no portal da comunidade portuguesa na Bélgica

quarta-feira, 25 de maio de 2016

«Trappola per topi»



Já falámos nisto várias vezes. Mas hoje veio a propósito da queda minha filha, que nitidamente “voou” e se estatelou, espalhando os livros, pisando os olhos e o nariz e os joelhos, e ficando com as costas sem quase se poder mexer, ao tropeçar num paralelepípedo solto da calçada à portuguesa, quando descia a calçada.
A nossa amiga também já tropeçara, eu própria, várias amigas, sem esquecer o colo do fémur, das quedas na nossa idade.
Por isso eu vou olhando para o chão, de cada vez que me desloco, de buraco escancarado ou pedra solta, que dificilmente é reposta, não sei se por falta de verba ou por um proverbial desrespeito pelo cidadão que preferia o passeio cimentado.
- A calçada à portuguesa foi uma herança diabólica – começa a nossa amiga, nos exageros expressivos a que nos acostumou.
- Mas é muito bonita, refuta a minha irmã, liricamente recordada das imagens dos seus livros de arte e das suas passeatas por Lisboa.
- Bonita mas malvada, responde com gana a nossa amiga. Cai gente todos os dias que vai parar ao hospital. Cai-se no país inteiro.
- A mim, - fui eu que falei - o que mais me custa é não poder ver tão frequentemente, os sapatos de saltos em agulha numas pernas elegantes das raparigas bonitas, como se vêem nos pavimentos lisos, mas ainda há dias encontrei, lá na minha rua, uma moça alta e arrojada, de tacão afilado, que me encheu os olhos de espanto e encanto, pela coragem. Mas a contemplação foi curta, porque tive que desviar os olhos para o chão que pisava, no meu sapato baixo, mas não isento de tropeçar.
-Veja lá donde é que veio esta maldita ideia – repete a minha amiga, que falou na calçada romana, creio que já tínhamos procurado em tempos.
Transcrevo, pois, da Internet, embora sem os exemplos nem as imagens, que ali se podem ver:

CALÇADA PORTUGUESA
A pavimentação do espaço público em território luso remonta à colonização romana, altura em que se construíram inúmeras vias empedradas. Entretanto, passaram-se vários séculos até que a pavimentação das ruas fosse retomada e ainda assim, de forma muito pontual e limitada.
O Calceteiro
Foi durante o período pombalino, mais precisamente com a reconstrução pós Terramoto de 1755, que se retomou o hábito de “calçar” as ruas com paralelepípedos.
A primeira Calçada Portuguesa nasceu apenas em 1842 e foi mandada fazer por Eusébio Furtado, um engenheiro que era simultaneamente tenente general e governador de armas do castelo de São Jorge, em Lisboa. A obra foi feita por presidiários que pavimentaram a parada, até então de terra batida, com pedras de calcário branco e basalto negro a formar um ziguezague.
O resultado foi de tal forma surpreendente, que segundo relatam cronistas da época, as pessoas se deslocavam propositadamente ao Castelo para verem a Calçada.
Depois deste sucesso, Eusébio Furtado foi incumbido de pavimentar o Rossio, tarefa que empreendeu mais uma vez com os “grilhetas”, nome que os alfacinhas davam aos prisioneiros. O desenho adotado para o rossio seguiu um padrão de listas onduladas que ficou conhecido por “mar largo”.
Hoje, a Calçada Portuguesa faz parte da imagem de marca do nosso país e constitui um dos encantos das nossas cidades.
2º Texto:
Apesar de os pavimentos calcetados terem surgido no reino por volta de 1500, a calçada à portuguesa, tal como a entendemos hoje, foi iniciada em meados do séc. XIX. A chamada "calçada à portuguesa", em calcário branco e negro, caracteriza-se pela forma irregular de aplicação das pedras. Todavia, o tipo de aplicação mais utilizado hoje, desde meados do séc. XX, designado por "calçada portuguesa", é aplicado com cubos, e tem um enquadramento diagonal. Calçada À portuguesa, e calçada portuguesa são coisas distintas.
A calçada começou em Portugal de forma diferente da que hoje é, mais desordenada. São as cartas régias de 20 de Agosto de 1498 e de 8 de Maio de 1500, assinadas pelo rei D. Manuel I de Portugal, que marcam o início do calcetamento das ruas de Lisboa, mais notavelmente o da Rua Nova dos Mercadores (antes Rua Nova dos Ferros). Nessa época, foi determinado que o material a utilizar deveria ser o granito da região do Porto, que, pelo transporte implicado, tornou a obra muito dispendiosa. O objetivo seria que a Ganga, um rinoceronte branco, ricamente ornamentada, não sujasse de lama com o calcar das suas pesadas patas, o numeroso e longo cortejo, com figurantes aparatosamente engalanados com as novas riquezas e adornos vindas do oriente, que saía à rua em pleno inverno, aquando do seu aniversário a 21 de Janeiro. A comitiva ficava manifestamente suja, daí a decisão de calcetar as ruas do percurso como forma de dar resposta ao problema. Sendo a única vez no ano em que o rei se mostrava à população vem daí a expressão: "Quando o rei faz anos..."
O terramoto de 1755, a consequente destruição e reconstrução da cidade lisboeta, em moldes racionais mas de custos contidos, tornou a calçada algo improvável à época. Contudo, já no século seguinte, foi feita em Lisboa no ano de 1842, uma calçada calcária, muito mais próxima da que hoje mais conhecemos e continua a ser utilizada. O trabalho foi realizado por presidiários (chamados "grilhetas" na época), a mando do Governador de armas do Castelo de São Jorge, o tenente-general Eusébio Pinheiro Furtado. O desenho utilizado nesse pavimento foi de um traçado simples (tipo zig-zag) mas, para a época, a obra foi de certa forma insólita, tendo motivado cronistas portugueses a escrever sobre o assunto. Em O Arco de Sant'Ana, romance de Almeida Garrett, também essa calçada na encosta do mesmo castelo seria referida, tal como em Cristalizações, poema de Cesário Verde.
Após este primeiro acontecimento, foram concedidas verbas a Eusébio Furtado para que os seus homens pavimentassem toda a área da Praça do Rossio, uma das zonas mais conhecidas e mais centrais de Lisboa, numa extensão de 8 712 .
A calçada portuguesa rapidamente se espalhou por todo o país e pelas colónias, subjacente a um ideal de moda e de bom gosto, tendo-se apurado o sentido artístico, que foi aliado a um conceito de funcionalidade, originando autênticas obras-primas nas zonas pedonais. Daqui, bastou somente mais um passo, para que esta arte ultrapassasse fronteiras, sendo solicitados mestres calceteiros portugueses para executar e ensinar estes trabalhos no estrangeiro.
Em 1986, foi criada uma escola para calceteiros (a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa), situada na Quinta do Conde dos Arcos. Da autoria de Sérgio Stichini, em Dezembro de 2006, foi inaugurado também um monumento ao calceteiro, sito na Rua da Vitória (baixa Pombalina), entre as Rua da Prata e Rua dos Douradores.
A técnica
Vários tipos de aplicação de calçada.
Os calceteiros tiram partido do sistema de diaclases do calcário para, com o auxílio de um martelo, fazerem pequenos ajustes na forma da pedra, e utilizam moldes para marcar as zonas de diferentes cores, de forma a que repetem os motivos em sequência linear (frisos) ou nas duas dimensões do plano (padrões). A geometria do século XX demonstrou que há um número limitado de simetrias possíveis no plano: 7 para os frisos e 17 para os padrões. Um trabalho de jovens estudantes portugueses registou, nas calçadas de Lisboa, 5 frisos e 11 padrões, atestando a sua riqueza em simetrias.
Destacam-se as técnicas de aplicação de calçada mais comuns: a antiga calçada à portuguesa, que se caracteriza pela forma irregular de aplicação das pedras; o malhete, semelhante mas com mais espaço entre as pedras; a calçada portuguesa clássica, que tem uma aplicação em diagonal, segundo um alinhamento de 45 graus com os muros ou lancis; a calçada à fiada, com as pedras alinhadas em filas paralelas; a calçada circular; a calçada sextavada; a calçada artística, que se caracteriza pela aplicação de pedras com formatos específicos e/ou pelo contraste de cores; o Mar Largo; o leque segmentado; o leque florentino; e o rabo de pavão

Mas tanta beleza construída pelos calceteiros, merece uma conclusão de homenagem a esses. De um extraordinário “calceteiro” do verbo descritivo, que, nos seus apontamentos “poliédricos” ordena impressões, e sensações, e sentimentos, e reacções, em quadros humanos de extraordinário impacto, através de uma poesia de profundas sugestões de uma realidade visualizada através das várias facetas dos sentidos, na junção de sinestesias e aliterações, e animismo e comparações e metáforas e contrastes, num jogo profuso entre um olhar atento ao real e reflectindo o mundo próprio da sensibilidade à injustiça, no burilamento sequente das suas frases cristalinas: Cesário Verde.

Cristalizações

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de ar, como em chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente flores,
Fundeiam, como a esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente! -
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferrugem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal-encarado e negro, um pára enquanto eu passo,
Dois assobiam, altas marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na sanguínea, brutalmente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas. entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!