domingo, 28 de maio de 2017

História contemporânea em três textos



O primeiro, de Alberto Gonçalves, avisa, com o arrojo da sua indignação sem tréguas, sobre a parolice ocidental, revestida de seráfica crença em direitos e igualdades sociais, quando todos sabemos quanto tal nunca existiu, e basta, para o confirmar, a referência de Alberto Gonçalves aos costumes de brutalidades dos machos sobre as fêmeas segundo as práticas religiosas dos povos islâmicos - o que, de resto, não perturba as consciências dos habituais pregoeiros da democracia, ululante sempre, sim, mas contra uma “direita”, segundo esses, única beneficiária nas benesses da vida. «Milhões de mutilações genitais, casamentos forçados, apedrejamentos e o genérico desprezo pela humanidade pouco dizem acerca da realidade islâmica. E as matanças cometidas em nome do profeta ainda dizem menos.» - isso é irrelevante para as mentalidades dos afectos e da inteligência, segundo a cartilha pregoeira da nova moral ocidental. Daí que se finja acreditar no esporádico dos ataques terroristas, com a habitual mobilização policial, hospitalar e psicológica, o sofrimento das famílias, os ramos de flores a complementar as tragédias vividas e o erguer de cabeças orgulhoso dos “Je suis Charlie” cada vez mais esbatido, é certo, e provocando , pelo contrário, o acréscimo dos apoiantes dessas direitas que se julgam com direito ao sossego de um viver eficiente.
Os outros dois textos demonstram que o Islão aí está, cada vez mais avassalador e criminoso - «O terrorismo está a vencer», de José Milhazes, «Há alguma coisa de novo para dizer sobre o terrorismo?» de Rui Ramos.
Para meditarmos, se assim o entendermos.

Entretanto, nós por cá, em rodapé, demonstrando a habitual parolice obsequiadora e delambida, que não escapa à argúcia de Alberto Gonçalves, naturalmente. Assim somos, assim continuaremos. Sem tréguas.

I


O respeitinho é muito bonito, mas pouco eficaz
OBSERVADOR, 27/5/2017
É injusto generalizar? Com certeza. Mas a aversão a generalizações, ou o respeito trémulo pelo islão, não tem corrido bem. Quando o resultado da reverência é este, talvez valha a pena tentar a afronta
Salvador Sobral, o Homem que Salvou a Música, gostaria que não se noticiassem os atentados terroristas. É uma ideia partilhada por muita gente, aquele tipo de gente que, horas antes do atentado de Manchester, marchara em Lisboa e no Porto contra a “cultura de violação”. Ao saber da marcha, que integrou 40 associações e quase tantas outras pessoas, julguei tratar-se de uma denúncia pública, e inédita por cá, da barbárie a que o islão submete as mulheres. Erro meu. Afinal, a coisa fora motivada por uma cretinice a cargo de uns burgessos na Queima das Fitas. Pelos vistos, meia dúzia de burgessos provam que uma sociedade é, toda ela, propensa a abusar de raparigas em autocarros, mas milhões de mutilações genitais, casamentos forçados, apedrejamentos e o genérico desprezo pela humanidade pouco dizem acerca da realidade islâmica. E as matanças cometidas em nome do profeta ainda dizem menos.
De resto, os desejos de Salvador Sobral já estiveram mais longe da realização. Chacina após chacina, as reacções, sentidas ou simuladas, perdem intensidade, e são escassos os “Je Suis…” a enfeitarem páginas do Facebook. Não tardará o dia em que vinte ou trinta criaturas mortas por bomba ou camião desçam às manchetes pequeninas ou sejam embutidas no meio do “telejornal”. E, conforme acontece hoje com episódios “menores” (uma degolaçãozita ou assim), chegará o momento em que o horror não mereça uma linha ou comentário.
É verdade que, face às linhas e comentários que temos, se calhar o silêncio absoluto seria de facto preferível. Aparentemente, não bastam os “jornalistas” que chamam “incidentes” a explosões criminosas. Esta semana, com o regresso do terrorismo em grande escala, regressaram às televisões resmas de indivíduos especializados em comentar o assunto fugindo do assunto a sete pés. Se a primeira rajada de argumentos delirantes se esgota, o que raramente sucede, e os especialistas não conseguem remover o assassino do islão, adoptam com agilidade o Plano B, que consiste em remover o islão do assassino. O essencial, além de não mostrarmos medo (do ridículo, presume-se), é perceber que não se pode confundir os muçulmanos com o terror, embora os comentadores se vejam regularmente desmentidos pela impressionante quantidade de muçulmanos que insiste em confundir-se com o terror e pela quantidade maior que, não praticando o terror, legitima-o pela aprovação tácita ou, no mínimo, pela indiferença. O espectáculo não é desprovido de piada. Porém, o sangue real que procuram esconder sob abstracções modera um bocadinho a vontade de rir.
O método não se distingue do utilizado pelo conhecido Sheik Munir. Instado a explicar Manchester, o homem cujo cavalheirismo nunca inspirou marcha alguma, optou por ignorar as vítimas, reduzir o autor ao maluquinho do costume e, sobretudo, exigir “respeito” pelo islão (Paulo Tunhas dissecou aqui o estilo). Nem de propósito, respeito é justamente aquilo que, da parte do Ocidente, o islão tem tido de sobra – no sentido literal da palavra. A cada novo atentado, dedicam-se desmedidos louvores à “religião de paz”, os quais curiosamente não impedem o atentado seguinte. Nos intervalos, exerce-se rigorosa cautela para não beliscar a vasta susceptibilidade da crença e, de brinde, oferece-se abrigo aos seus desvalidos. Salvador Sobral, através de t-shirt, foi apenas um dos que convidaram os refugiados para sua casa. Não que os refugiados careçam de convite: dois deles vieram da Líbia para a Inglaterra, lá criaram os filhos e, ao que consta, ajudaram um deles a arruinar as vidas de dezenas de inocentes.
É injusto generalizar? Com certeza. Porém, a aversão a generalizações, ou o tal respeito trémulo pelo islão, não tem corrido bem. Quando o resultado da reverência é este, talvez valesse a pena tentar a desconsideração e a afronta. Não temos nada a perder, principalmente se a alternativa é perder tudo.

Nota de rodapé
Madonna andou por Lisboa e não foi recebida pelo presidente da câmara: o sujeito, que sinceramente desconheço, visitou-a no hotel e, à saída, declarou que o hipotético interesse da cançonetista por uma casa em Sintra é – acreditem – “importante para o país”. Mas a coisa, já de si extraordinária, não ficou por aqui. Parece que o ministro da Cultura, que também não sei quem é, requisitou o fecho do Mosteiro dos Jerónimos para que a senhora e os filhos o visitassem, cito um jornal, “sem qualquer incómodo” e sob a orientação especializada da própria directora do monumento. Consta igualmente que Madonna assistiu a uma exibição de cavalos lusitanos, preparada de propósito para a ocasião. E há boatos de que a intérprete de “La Isla Bonita” se terá encontrado com o dr. Costa, em circunstâncias por esclarecer.
Perante isto, a tendência da tradicional má-língua é resmungar contra os privilégios das celebridades, o provincianismo das “elites” (perdão) e uma nação que, pelo menos nas instâncias “oficiais”, atingiu níveis de demência pouco explorados. Infelizmente, a má-língua deixa-se dominar pela inveja e, à semelhança dos que não compreendem as motivações dos “jihadistas”, não consegue colocar-se no lugar do “outro”.
O erro é partir do princípio de que a hospitalidade em causa é uma regalia desejável. Não é. E quem presume o inverso deveria imaginar o que sentiria se, em viagem a uma cidade estrangeira, fosse constantemente importunado por criaturas rústicas e irrelevantes, se visse condicionado a levar crianças a um claustro, tivesse de contemplar uma prova de hipismo e, ao que li algures, aturasse um ex-futebolista do Benfica ao jantar. O único fogacho de sorte de Madonna consistiu em ter escapado miraculosamente ao prof. Marcelo e às divagações em torno de Craveiro Lopes. Mesmo assim, haverá gente a passar férias mais agradáveis no Cazaquistão.
Nada disto é por acaso. Mal se percebeu que o turismo sustenta, quase sozinho, a nossa patética economia, os ponderados indivíduos no poder tomaram de imediato a atitude que se impunha: acabar com ele. Depois de um período dedicado a combater as companhias “low-cost”, a condenar a evolução das cidades e a introduzir taxinhas para financiar o regresso a 1970, o PS lembrou-se há dias de impor a autorização dos condomínios para arrendamentos de curta duração. Na prática, isto visa enxotar metade dos turistas. A metade restante enxota-se mediante a sujeição dos desgraçados a suplícios como o de Madonna. E se ainda resistirem um ou dois incautos, é então que aparece o prof. Marcelo, a propor “selfies” e a resolver o problema de vez.

II
O terrorismo está a vencer
OBSERVADOR, 26/5/2017
Os políticos ocidentais continuam em insistir nas meias-medidas, muitas delas fruto de acordos e apoios duvidosos a grupos e Estados que estão na origem do terrorismo.
É importante homenagear as vítimas dos atentados e prometer, jurar que não temos medo, que não iremos renunciar ao nosso modo de vida, mas estas palavras começam a ficar gastas depois de tanta repetição, perdendo completamente o seu sentido. Sendo assim, por muito difícil e doloroso que seja, temos de constatar que estamos a perder a guerra com o terrorismo islâmico.
O mais estranho é ver que as causas e raízes do terrorismo moderno estão determinadas, as receitas para o combate a essa praga são muitas e variadas, mas os políticos ocidentais continuam em insistir nas meias-medidas, muitas delas fruto de acordos e apoios duvidosos a grupos e Estados que estão na origem do terrorismo. E assim será até que os dirigentes ocidentais continuem a manter políticas ambíguas em relação a determinados regimes políticos, pondo os interesses económicos e financeiros à frente da vida dos cidadãos.
Todos sabem qual o principal país que vive segundo as normas que os terroristas querem impor não só no mundo muçulmano, mas também na Europa: Arábia Saudita. Nesta monarquia medieval espezinham-se os mais elementares direitos humanos, a intolerância contra outras maneiras de pensar, religiões faria inveja à Inquisição. Alguém sabe onde fica nesse país um templo católico, budista ou hinduísta, embora lá trabalhem milhares de estrangeiros? Sobre os direitos das mulheres e das minorias sexuais nem vale a pena falar.
Mas todos os dirigentes mundiais vão “beijar a mão” aos príncipes sauditas na esperança de que lhes caia da mesa algumas migalhas. Há poucos dias atrás, o Presidente norte-americano Donald Trump foi à Arábia Saudita e, segundo a imprensa, conseguiu um milionário contrato de venda de armas, e os restantes dirigentes de países que vendem armas, incluindo Vladimir Putin e alguns dirigentes europeus (Alemanha, França e Grã-Bretanha) ficam apenas com “água na boca”, com inveja de não terem conseguido um contrato igual.
Para que servem armas tão modernas? Para combater Israel? Duvido, pois Israel, com a ajuda norte-americana, tem o armamento, incluindo nuclear, necessário para garantir a sua sobrevivência. O inimigo principal dos sunitas sauditas é o Irão xiita, que também não se queixa de falta de armamentos fornecidos pela Rússia. Como é do conhecimento geral, parte do armamento fornecido a esses e outros países do Médio Oriente vai parar às mãos de grupos como o Estado Islâmico, o Hezbollah, etc.
As redes terroristas também não podem substituir sem meios financeiros, não funcionam apenas com base no fanatismo (embora este factor possa ser importante) e eles chegam dos seus patrocinadores através de brancos ocidentais. Como também é sabido, os familiares dos suicidas podem receber subsídios por terem formado um mártir.
Por conseguinte, sem vontade política de pressionar a sério países que patrocinam o terrorismo e de cortar pela raiz o seu financiamento, nenhuma medida contra o terrorismo islâmico resultará, podendo apenas “remendar” o problema. Não se pode deixar de assinalar que os países ocidentais contribuíram em muito para a desestabilização do Médio Oriente e para a derrocada de regimes que, embora pouco recomendáveis, continham forças ainda mais extremistas.
É sintomático, neste campo, a situação na Síria, onde a fragmentação dos grupos armados torna praticamente impossível a solução política da guerra nesse país e poderá originar forças ainda mais extremistas. Igualmente foi feito muito pouco para apoiar os rebentos democráticos e laicos nessas sociedades, principalmente se compararmos com a tolerância de que gozam os pregadores fundamentalistas islâmicos na Europa. Não nos podemos esquecer que foi a partir de Paris que o ayatollah Khomeini preparou o derrube do Xá do Irão Reza Pahvali, em 1979.
Outro fator importante que está na base do terrorismo islâmico é o sério fracasso da política de integração dos imigrantes dos países islâmicos, ou melhor, da sua quase total inexistência em países como França ou Grã-Bretanha.
A continuar a política de meias medidas, será impossível pôr fim ao Estado Islâmico. Pode-se apenas fazer o mesmo que está a feito com os talibãs no Afeganistão. Não obstante a forte presença militar ocidental nesse país, esse exército terrorista continua a controlar parte dele. Como se trata de uma força “mais moderada” do que o Estado Islâmico e se opõe a este, a China e a Rússia já mantêm conversações com eles com vista a evitar o alargamento do conflito afegão à Ásia Central e ao Nordeste da China, onde as populações são maioritariamente muçulmanas. Se se continuar assim, resta apenas esperar que novos grupos terroristas irão substituir o Estado Islâmico.

III
Há alguma coisa de novo para dizer sobre o terrorismo?
24/5/2017
O terrorismo islâmico pode transformar as sociedades ocidentais, e é uma ilusão pensar que impedir isso é apenas uma questão de boa vontade e abertura de espírito.
Perante cada barbaridade do terrorismo islâmico na Europa e na América, percorremos sempre o mesmo caminho.
Primeiro, há a demora em admitir que se trata de um atentado. A seguir, vem a reserva sobre a identidade do autor. Depois, a incerteza sobre as suas cumplicidades e filiações. Nesta relutância em reconhecer a realidade, não há apenas uma prudência preliminar: há, muito claramente, o desejo desesperado de que não haja a lamentar senão um acidente trágico, a selvajaria de um doido ou, quando muito, o ataque desenquadrado de um “lobo solitário”.
Por fim, quando já não pode haver dúvidas de que se trata de uma atrocidade planeada por um jihadista imigrante ou filho de imigrantes muçulmanos do Médio Oriente ou do Norte de África, com sócios entretanto presos, como aconteceu agora em Manchester, jorram as admoestações do costume: o terrorismo quer-nos dividir, e nós temos de nos manter unidos; o terrorismo contesta o nosso modo de vida, e nós temos de prosseguir as nossas vidas o mais habitualmente possível. Como se tudo dependesse apenas de nós e dos sentimentos que ostentamos nas redes sociais.
Há muitas sociedades, no Médio Oriente ou em África, para quem o horror jihadista é parte do quotidiano. As democracias ocidentais, porém, não estão preparadas para aceitar as bombas como uma nova normalidade. Porque a nossa liberdade requer segurança, mas também porque não é compatível com todas as formas de segurança. É significativo, a esse respeito, que em Manchester, tal como em quase todos os últimos atentados, o perpetrador fosse alguém conhecido da polícia pelas suas ideias ou conexões islamistas. Mas as nossas autoridades não privam ninguém de direitos apenas pelas suas origens ou convicções, antes de provada a conspiração para cometer um crime. Até quando, sob a pressão do terrorismo, será assim?
A tese de que os terroristas nunca vencerão tem o conforto da nossa supremacia tecnológica. Mas não é pelo nivelamento tecnológico que os jihadistas nos ameaçam. É pela aglomeração do nosso mundo com o mundo deles. A Europa, no tempo dos impérios, quando administrava a África e policiava a Ásia, estava separada por longas viagens desses mundos exóticos. Em 1881, houve uma grande revolta jihadista no Sudão, liderada por um auto-denominado Mahdi. O público ocidental seguiu o acontecimento pelos jornais e alguns livros. Hoje, através das migrações e dos meios de transporte e de comunicação, essa distância desapareceu: o Sudão do Mahdi fica actualmente nos subúrbios de Manchester, de Paris ou de Berlim, porque com as pessoas vêm as suas culturas.
Os regimes ocidentais promoveram a circulação, com muitos benefícios. Agora, não têm solução para os seus efeitos secundários. Uns pensam em acabar de ocidentalizar a África e o Médio Oriente, através da intervenção militar; outros esperam integrar os que vão chegando; e outros ainda, exigem o encerramento das fronteiras. Mas, como se tem visto, faltam os consensos e os recursos não só para as intervenções e as assimilações, como também para os distanciamentos.
Por isso, faz-se o que se pode: manter a polícia atenta na Europa e na América, para não deixar a jihad desenvolver “células”, e ajudar aliados no Médio Oriente e na África, de modo a não consentir “santuários”. Mas que acontecerá se um dia os ocidentais se sentirem verdadeiramente fracos e inseguros, como é objectivo dos terroristas? Conseguiremos não nos tornar noutra coisa, por exemplo, em comunidades exclusivistas determinadas a retaliar brutalmente? Talvez pouca gente deseje isso, mas é uma ilusão pensar que é apenas uma questão de boa vontade e abertura de espírito.
No fundo, a única coisa que falta dizer sobre o terrorismo é evidente: pode mesmo mudar a maneira como vivemos, e também a maneira como pensamos. Por enquanto, no Reino Unido já há tropa na rua, como em França, e até Morrissey começar a estar farto do “politicamente correcto”.

sábado, 27 de maio de 2017

Mas no entanto



Chegou por email. Do jornal “Vanguardia”, breve sátira à nossa maneira de ser, de, aparentemente, fraco apego ao todo nacional, olhos postos numa distância territorial, talvez em fuga de um solo de aspereza consabida, e da muita divergência de tratamento, para os que nasceram em berço mais polido e os que nasceram em colchão de palha, ansiosos de equiparação pela fortuna. Mas, nos trambolhões sofridos ao longo da história, alguns heróis houve que pegaram nas rédeas da nação, dentro das contingências que muitos escritores satirizaram, tentando corrigir. E aqui estamos, sem correcção, com defeitos e virtudes, a lembrar Pessoa, sugestão do autor do artigo espanhol, e a pensar nele como um dos grandes génios literários do mundo, que este pequeno país pariu e que por isso não tem a dimensão mundial de outros génios, de países de universalidade superior. E, num contributo para a sua divulgação, cito, da  sua «Mensagem», o poema “D. Tareja”, a que pertence a referência espanhola, pelo seu tom cabalístico de apelo a mudança, e ainda o de justificação da nossa irracionalidade - “D. Sebastião”, revelador de tanta dessa incúria que Pessoa exalta e não condena, mas que é condenável, quando même, como o dá a perceber o autor espanhol:
De «Mensagem», Primeira Parte - Brasão - II Os Castelos:
QUARTO: / D. TAREJA
As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios.
Vela por nós!
Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!
Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.
Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!
24-9-1928
De «Mensagem», Primeira Parte - Brasão, III - As QUINAS :
Quinta: / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL 
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
20-2-1933

«A los españoles se les olvida Portugal. Claro que saben qué es y dónde está, pero se les olvida. A los portugueses a veces también se les olvida España, pero no tanto. Cuando se construye una nacionalidad, hay que desconocer un poco los demás países, sobre todo los más cercanos. Pessoa lo dijo muy bien: "Todas las naciones son misterios. Cada una es el mundo entero a solas". Los pocos textos que los diarios españoles dedicarán a las elecciones legislativas portuguesas del 27 de septiembre no cambiarán esta situación. Los nombres de los políticos lusitanos sonarán rarísimos a los pocos lectores que no se salten la noticia. Y todo volverá al olvido de siempre.
No obstante, cada vez más españoles se enamoran de Portugal y se adentran en el misterio portugués. Lo primero que comprenden es que se trata de un país apasionado por las distancias. Cuando se está en Portugal no se está en Portugal, sino más bien en el prólogo de algo que se continúa en América, en África, en Asia y en el más lejano Oriente. El destino del país vecino es el viaje: se trata de una cultura que se busca a sí misma en el más allá. La consecuencia es que Portugal se descentra, se transfiere para su periferia. Y después pasa que uno se encuentra en Lisboa con una ciudad que es un hueco de nostalgias.
Este culto de la distancia se refleja también en pequeños detalles de la vida cotidiana. Al portugués no le gusta, por lo general, convivir en la calle. Lo hace en la lejanía de las casas particulares. El primer contacto entre las personas adultas casi nunca empieza por el tú, sino por el usted. Hay amigos de muchos años y de férreas solidaridades que jamás se han tuteado. Siempre la distancia, aunque sea la distancia social de un tratamiento. Y en las cafeterías las mesas individuales se imponen a la barra multitudinaria.
Quizás por todo esto al portugués, cuando llega a España, le parece que las personas están hablando a voces y que las cosas se han acercado peligrosamente a su cuerpo. Para los lusitanos, que son seres soñadores y muy virtuales, visitar España es como darse un buen masaje de realidades. Entretenido con esta dimensión erótica de la hispanidad, el portugués suele olvidar el laberinto de culturas y nacionalidades que constituye una de las riquezas y uno de los problemas de España.
Piensan muchos españoles que Portugal es un país de pobres y se equivocan redondamente. Portugal es un país de ricos pobres, lo que es muy distinto. La nación vecina tiene, para quien la conoce bien, ese encanto polvoriento de las familias aristocráticas venidas a menos. Aunque su exterior pueda ser menesteroso, la mentalidad portuguesa es la de un rico. Pocos países habrán despilfarrado tanto. Pocos países se han relacionado con su economía, a lo largo de los siglos, de un modo tan perdulario. El rey Juan V, monarca de la primera mitad del siglo XVIII, envió al papa Clemente XI una embajada memorable, cuyos carruajes increíblemente lujosos se pueden visitar aún hoy en día en el Museu Nacional dos Coches. Al monasterio de Mafra, obra millonaria que fue uno de los símbolos de su reinado, le puso dos carillones porque uno le pareció barato.
Quizás el origen de todo esto sea la época espléndida de la expansión marítima y del imperio, los siglos XV y XVI, en que Portugal, entrando en contacto con otros mundos del mundo, se perfiló como una novela de ensueño, inventando el realismo mágico antes de que fuera inventado. Lisboa se transformó en una ciudad muy rica: una "orgía de mercaderes", en palabras del historiador Oliveira Martins. En El burlador de Sevilla,se cuenta que existían comerciantes lisboetas que medían el dinero en fanegas, como se medía el trigo, porque no había tiempo ni paciencia para contar monedas. En los pisos bajos del Palacio Real se situaba la Casa de la India, que controlaba el comercio imperial. Y en el estuario del Tajo podían verse más de 500 naves ancladas, venidas del mundo entero. Lisboa era en aquella época lo que Nueva York está dejando de ser para que Shangai empiece a serlo.
Al español le cuesta entender que el indigente portugués tenga una mentalidad tan aristocrática, pero así es, más por timidez que por orgullo. Resulta curioso comprobar que los lusitanos han sustituido los títulos nobiliarios por títulos académicos. A los licenciados se les trata socialmente de doctor y a los doctorados de profesor doctor, y en estas palabras hay como un eco de antiguos tratamientos de señor conde o señor marqués.
Por lo demás, el portugués es muy barroco. Le gustan los detalles, no las estructuras. Aprecia, en todo, el talento decorativo. En un restaurante, el filete de ternera se sirve con patatas, arroz y verduras: el filete es pequeño, pero notable su séquito gastronómico. En España, los filetes de ternera son grandes y vienen con patatas fritas. Amante de las distancias y de los ensueños, perdulario y barroco, el lusitano es además muy individualista, lo que conlleva una cierta desorganización. Portugal transmite una suave impresión de caos, parecida a la que uno siente en una tienda de antigüedades. En España reina una mentalidad más geométrica, más germánica, quizás recuerdo del esplendor alemán de los Austrias.
La historia no basta para explicar esta manera de ser tan encantadora cuanto, a veces, exasperante. Portugal nació en el siglo XII, fruto de la ambición de una familia francesa (el primer rey portugués, Alfonso Henríquez, es hijo de un aristócrata borgoñés), que se apoyó en la nobleza que existía entre los ríos Duero y Miño. En el remolino político de la reconquista nació este pequeño Estado, que en un principio intentó crecer hacia el norte, hacia territorio gallego, formando la unión lógica del noroeste peninsular. Pero la historia no es lógica, aunque pueda ser comprensible: fracasando en su aventura gallega, la expansión del nuevo reino se hará hacia el sur. Galicia y Portugal, que básicamente son lo mismo en lo que respecta a sus raíces, se separaron para siempre, y la especificidad portuguesa se desarrolló a partir de la fusión de su raíz galaica con las culturas árabes y semíticas meridionales.
En 1385, con la victoria de Aljubarrota sobre los ejércitos castellanos, Portugal se aleja de la unión peninsular y, pocos años después, con la conquista de Ceuta, en 1415, se lanza a su aventura marítima. En menos de cien años, este país construye el primer imperio de dimensión mundial, con posesiones en América, África, Asia y Extremo Oriente. En realidad, es el primer imperio global, muy frágil por supuesto, pero el imperio español y el francés, el glorioso imperio británico y el actual imperio virtual norteamericano son una continuación de este primer boceto portugués. A partir de aquí, Portugal vive en la esquizofrenia de ser una pequeña nación que ha llevado a cabo grandes cosas: el portugués actual es un enano cuyos abuelos resulta que eran unos colosos.
Desde el siglo XVIII hasta la actualidad, la cultura portuguesa, consciente de su decadencia, ha vivido marcada por la obsesión mimética de lograr parecerse a los grandes países occidentales: la misma obsesión que existió en España, pero en el caso español esta manía imitadora se equilibraba con el amor hacia la pandereta y hacia todo lo castizo. En Portugal, casi no existe este orgullo nacional. El portugués ama demasiado lo extranjero. Las películas en otros idiomas siempre se han subtitulado. Por el contrario, España no es país de subtítulos, sino de doblajes.
¿Cuáles son los retos actuales de la portugalidad? El lector ya se ha dado cuenta de que, en realidad, Portugal es un país inviable. Siempre lo ha sido. No posee una individualidad geográfica; sus raíces más profundas las comparte con Galicia; su propio idioma es una evolución, una mundialización del gallego. La independencia portuguesa hay que crearla todos los días. Por eso, ser portugués cansa muchísimo. Se puede ser alemán, británico o francés tranquilamente, pero sólo se puede ser portugués en la intranquilidad. Sin personalidad geográfica específica, los portugueses tuvieron que labrarse un territorio propio en la mar. Es con prodigios de este tipo que la portugalidad se ha ido construyendo. Cuando una pequeña nación se decide por un destino separado, rápidamente descubre que tiene que reinventar su independencia en cada nuevo día de su historia.
La identidad portuguesa se fragua en este estado espiritual de vivir en la perpetua invención de su individualidad. Esto lo explicó muy bien Fernando Pessoa en Mensagem: el portugués es un militante de la imposibilidad. De su imposibilidad. Ser portugués constituye, en el fondo, una forma de heroísmo. En un occidente laico y hedonista, la sociedad portuguesa tiene alguna dificultad en aceptar el extraño sacrificio que conlleva la identidad lusitana. Y aquí se abre una paradoja: uno de los problemas del Portugal del último siglo ha sido su exceso de felicidad. La última invasión extranjera ocurrió en 1807; la última guerra civil se concluyó en 1834. Después de esto, las grandes catástrofes han ocurrido a lo lejos, como si fueran sueños. A lo largo del siglo XX, Portugal fue un país lunar. Y la nación se ha dormido.
El Portugal actual no sabe por dónde tirar. No sabe cómo despertar. Pero este problema, que parecía ser específicamente portugués, se ha visto que, al final, es de todo el mundo occidental. Quizás a causa de la fragilidad de su economía, Portugal sintió primero los síntomas de una crisis que es de todos. Efectivamente, la Península Ibérica constituye un lugar profético. Profética fue nuestra relación con el mundo árabe, a partir del 711: un anuncio de la tensión que marca, aún en la actualidad, las relaciones entre las naciones occidentales y el islam. Profética fue también nuestra expansión colonial: un bosquejo de la actual globalización. Profética fue en fin la guerra civil de España. Quizás esta capacidad de profecía ocurra porque llegan aquí primero las pateras de la historia. En el callejón sin salida que es el presente de Occidente, Portugal se siente, por decirlo de alguna manera, en su ambiente. El futuro que no tenemos hoy los occidentales es el futuro que Portugal siempre ha tenido. Y puede que la capacidad de inventar y de inventarse de los lusitanos sea una de las llaves del porvenir.
Publicado por La Vanguardia-k argitaratua

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Preparação para o teste de Português



 O amor e a amizade
 «O amor é um sentimento
Que se revela no olhar
É feito de ternura,
De muita cumplicidade
E faz-nos viver
Em felicidade
Enquanto durar.
A amizade é muito bela
Pois, ao contrário do amor,
Ela pode envolver
Muita gente: para brincar,
E ajudar
Compartilhar
Tirar selfies e rir,
Trocar tarefas, segredos
Ou brinquedos…
E mesmo asneiras
Quando se é mais crescido.
Eu gosto dos meus amigos
A valer.»

Foi desta maneira
Que o Bruno e eu
Construímos uma poesia
Sobre um tema
Que o Bruno escolheu,
Dando informações
Que eu transcrevi
Ou que acrescentei
Para lhe mostrar que se pode
Fazer uma rima
Sobre qualquer tema
Na vida.
O que eu vejo é que o Bruno
Ao escolher 
Um tema de reflexão
Tão compungente,
Vai despertando
Devagarinho
No seu caminho
De menino só,
A querer dar-se,
Franco e bonzinho
Numa sensibilidade
De adolescente
Num mundo nem sempre
Pertinente…