terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Sabedoria


Considerandos de Paulo de Almeida Sande / que penso não serem da sua avó / embora seja dela a radicalidade / que ao neto transmitiu com punhos renda / sobre a sociedade / e a bastante dose de  ironia / que Sande emprega com cortesia / e saber feito de experiência / e julgo que também de livros da vária ciência / que o seu espírito enriqueceram, / para nos transmitir em catadupa / um chorrilho de pensamentos / dos contactos que a vida e o estudo / lhe proporcionaram / e não se enganaram, / nem mesmo no sentimento de frustração / e algum sarcasmo nele envolto / tanto no início, no meio, como na conclusão / do seu texto de sentenças cheio / com bastante delicadeza mas destreza / repito, em primeira mão, / com parabéns à ditosa avó / que tal neto teve, / barão assinalado agora / não como os de outrora, embora.

Crónica de Natal: Acantologia da minha avó
OBSERVADOR, 26/12/2017

Hoje escrevo baboseiras. Palavras vulgares. Lugares-comuns. Hoje, meus queridos leitores, proponho um artigo contra os cânones e em nome dos sentimentos nobres que já quase não valorizamos, da vida que vivemos, dos dias de alegria ou de angústia ou de medo.
São epigramas da minha avó, elevação das mentes jovens: lembrei-me deles neste tempo de Natal, fruição disponível a quem deles queira fruir. A semelhança de alguns dos epigramas com personagens e factos reais é provavelmente apenas semelhança; provavelmente.
1- Se segues pelo centro meu amigo / irás sozinho e ninguém vai contigo
2- O bom senso tem limites/ditados pelo bom senso / já o mau senso é bom que evites / porque esse, não tem limites
3- Uma mulher conhecida / e um filósofo afamado / são parelha desvalida / dão um exemplo desgraçado
4- Nunca sirvas quem serviu / diz o popular ditado / mas raríssima se viu / num mais do que esperado assado
5- Juízo tem finalmente / aquele idoso senhor / que deixou galhardamente / jovem sem o seu calor / e a trocou recentemente / por um mais provecto amor
6-  Quem de seu dá o que não tem / sem querer a demasia /acabará sem vintém / milionário de alegria / mas quem só por caridade /der de sobras o que tem / acabará por vaidade / mais pobre do que ninguém
7- Um juiz douto e sabedor / não sabe nada do amor
8- Fica a imagem do mal / a arder este país / ardeu-nos Portugal / mas não foi Deus que o quis / pois Deus sendo real / não é o que se diz / Deus é menor que o ser / que em Deus se quer rever
9- Não choveu / choro eu
10 – Futebol / é meu sol /minha vida / vitriol
11- Por cada erro crasso/por cada aberração/a força de um abraço/o orgulho da nação
12 - Em cada dia o Mundo termina / para quem a vida se fina
13- Quem leu de Dostoiévski o Idiota / e na sua candura encontra Cristo / que tente descalçar agora a bota / de tantos idiotas que andam nisto
14- Um homem abusa da sua mulher /reiteradamente com ademanes vis / reencarnará, mas não como quer /em vez de xy trará dois xx
15- Escuta / o que te digo / cumpre o teu destino / eleva-te e brilha
16- Da sua voz surde / tanta coisa bela / gente que age e urde / jurando por ela / Nessa imensa mole / há milagres há /promessas, joelhos / esfolados / E crianças à disposição / ou não?
17- Se eu digo não / eu digo tudo / e sem senão / sequer de um surdo
18- Não morras ainda / tenho tanta coisa / para te dizer / ah o tempo que perdemos / nos nossos momentos de silêncio
19-  O Mundo mudou / a bola de cristal partiu-se / caminhamos alegremente / em direcção a um ocaso qualquer
20- Mais um plástico a nadar / e um peixe vai-se afogar
21- Um afecto é um toque de mão mágica / no coração dilacerado da Humanidade
22- Amar / é viver / estimar / e saber / Amar
23- Envelhecer ao lado de alguém / continua a ser envelhecer / mas é melhor envelhecer com quem / nos quer bem
24- A política é a arte do possível / alguns dizem / outros dizem/ a política é a arte do impossível / entendam-se por favor
25- Juntei os meus amigos no Natal / Comemos e bebemos e falámos / saímos era quase madrugada / com a pressa um sem abrigo atropelámos / mas não faz mal/era Natal

Orgulho neste pequeno país, neste povo que, entre poucos, sabe quem é e se identifica com o todo nacional. Somos invejosos, chico-espertos, estrangeirófilos, somos de brandos costumes, timoratos, dados a excessos e ao remorso deles, somos simpáticos, acolhedores, imaginativos, desenrascados. Temos em tese auto-estima a mais que resulta, na prática, em falta de auto-estima. Somos do fado, formais, doutores e engenheiros. O elevador social, entre nós, funciona, com soluços. Somos do café, do vinho e da gastronomia mais diversa do Mundo per capita. Acreditamos ser os melhores do mundo em tudo se outros, estrangeiros, o disserem.
São muitas as receitas que trocamos nesta quadra festiva, desejando-nos coisas boas. E é fácil, afinal: potenciar as qualidades, superar os defeitos. Conhecermo-nos. Dar mais do que receber. Acreditar que somos capazes. Não confundir pessoas com instituições, perdoar os pecados alheios quando eles espelham os nossos. Ser, não parecer, boas pessoas.

Como diria a minha avó, chegou a tua vez, ó português. Talvez avó, talvez.



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Concordo com Paulo de Almeida Sande


Um texto de Paulo Almeida Sande que condena os muitos defeitos deste povo português que o envergonha, para seguidamente lhe exaltar as virtudes que o fazem amá-lo. Creio que todos sentimos esse misto de repulsa e simpatia relativamente a tantas marcas que nos têm desvalorizado como seres humanos, e simultaneamente a outras que nos elevaram, mesmo em termos de heroicidade, que ditou a expressão “portuguesinho valente”. Reporto-me, é claro, aos tempos da formação e defesa pátrias, como igualmente aos tempos do pioneirismo descobridor das novas terras e dos mares ainda desconhecidos, sendo, contudo, tão débeis em recursos económicos e humanos, e de governos dum modo geral muito pouco interessados em elevar espiritualmente o povo que os servia, bem como às demais classes, submisso a uma condição escravizante à qual humildemente se acomodou. Tudo isso é sabido.
Quando ouço e vejo – televisivamente - os grandes filmes, os grandes palácios estrangeiros, as grandes salas de espectáculos onde brilha o esplendor da beleza e da arte, que por vezes a RTP, sobretudo, nos fornece, sinto pena de que aqui não tenhamos acesso a espectáculos tão solenes, a não ser por essa via do empréstimo. A solenidade e a compostura que se verificam nesses palcos tem a ver com uma educação certamente que assente em normas rígidas de valorização humana, que ditaram comportamentos menos desleixados que os nossos. No entanto, na sequência do apreço descrito por Almeida Sande, saúdo o recente programa das “Vozes de Portugal” que mostrou como se pode ser brincalhão e competente e simultaneamente esbanjador de carinho, como era o caso dos dois elementos masculinos componentes do júri e simultaneamente mentores – Mickel Carreira e Anselmo Ralph, disputando-se agarotadamente os cantores para as suas aulas de preparação técnica. As próprias Áurea e Marisa Liz, revelaram-se pessoas de grande capacidade vocal e técnica, além de jovens sensíveis num júri bem-disposto. (A propósito, embora tivesse gostado do cantor treinado pela Marisa, Tomás Adrião, mau grado o seu excesso de requebros acompanhantes, não pude deixar de lamentar que a extraordinária voz da moça Ana Paula, da equipa da Áurea, não tivesse ganho). Espectáculo igualmente aprazível, pelo desempenho, pela criatividade, pelas caracterizações, é o dos actuais DDT. Por isso, e algumas coisas mais, entre as quais tanta gente de vulto e pensamento, dispersa ao longo da nossa história, nos faz manter ainda a cabeça erguida--- quando tantos outros casos contemporâneos, sobretudo, tal como Almeida Sande refere, nos entristecem e indignam.
Mas é dia de Natal, dia do Deus Menino. Regozijemo-nos, hoje.

Um raríssimo Portugal
12/12/2017,
Somos o povo acomodado, que exprime a angústia latente da bondade resignada, convencido de estar destinado à subalternidade, um povo submisso, que emula o estrangeiro e desdenha o nacional.
Há dias de ter orgulho, de nos sentirmos honrados por ser portugueses.
Tenho orgulho em ver escolhidos compatriotas meus para cargos notáveis, cobiçados por muitos, ocupados por poucos; e mais, confesso, quando de fora ecoa a surpresa alheia, pois como bom português sou sensível, talvez demasiado, à opinião que chega do estrangeiro, chamem-lhe xenofilia.
“Primeiro foi o campeonato da Europa, em Janeiro chegou a ONU, em Maio a Eurovisão e este dezembro o Eurogrupo. Portugal enche os títulos da comunicação social para incredulidade dos peritos. (…)” (El Pais). Até os espanhóis, senhor! E ainda houve Ronaldo…
Longe vai o tempo das vitórias morais, dos zero pontos no eurofestival e do ostracismo internacional, em que aos nossos compatriotas não era permitido sonhar mais alto do que o rés-do-chão das organizações internacionais. Presunção e água benta? Chamem-lhe o que quiserem, mas eu reivindico o direito de ter orgulho na escolha de portugueses para funções globais. Sim, na simples escolha, mas mais, naturalmente, muito mais, se por ela e nela se elevarem.
Há dias de ter vergonha, de nos sentirmos envergonhados por ser portugueses.
A reportagem sobre as “Raríssimas” diz bem de um certo modo de estar português que não pode senão envergonhar-nos. É o país da chica-espertice, da arrogância dos “pequenos chefes”, da saloiice que se auto-cumprimenta. E quantas “raríssimas” haverá por esse país fora, quantos casos mal explicados, quanta pesporrência maquilhada de lantejoulas? Quanta apropriação ilícitos de recursos gerados por outros?
Há dias de ter orgulho, de nos sentirmos orgulhosos por ser portugueses.
Portugal foi designado pelo World Travel Awards melhor destino turístico do Mundo. Considerando as alternativas, comecei por achar exagero. Mas depois pensei que Lisboa é das cidades mais belas que já vi, e já vi muitas; que os Açores deslumbram de bruma e mar, donde emana o calor das entranhas da terra e a natureza explode em lápis lazúli e verde, cor de laranja e castanho e cor-de-rosa; que o Porto cresce em sedução e o Algarve quente, e o Alentejo seco e vivo, e a Madeira, farol de cruzeiros. Trás-os-Montes-do-Mundo. Tanta beleza.
Tenho orgulho em ti, Portugal, orgulho em vós, portugueses. Na vossa, nossa, língua única. O grande Torga assinalou o povo mais enamorado da Europa, inventor do amor puro: o português morre de amor como ninguém. E a saudade, que Garrett definiu. Coexiste a nacional melancolia, pessimismo masoquista, com o pendor sebastianista, inevitável regresso do encoberto, esperança perene de um povo. Lusitanos, de antigo.
E contudo há dias de vergonha, de nos sentirmos envergonhados por ser portugueses.
Somos o povo acomodado, que exprime a angústia latente da bondade resignada, convencido de estar destinado à subalternidade, como explicou Eduardo Lourenço, um povo submisso, que emula o estrangeiro e desdenha o nacional. E às vezes reage, abrupto, desproporcionado, expressa o orgulho pátrio em rivalidades pessoais, invejas viciosas, maledicências insensatas.
Será o escusado complexo de inferioridade, ou antes um devastador sentimento de superioridade? Explica bem a diferença Eduardo Lourenço: superioridade em recusar-se a ser a pequena nação cristã que somos, inferioridade em desacreditar da possibilidade de alguma vez sermos grandes. Nem uma nem outra são Portugal, pois Portugal é o que é, diversamente; simplesmente.
Vergonha: a pequena vigarice, o pé sempre a fugir para a chinela, a submissão às modas alheias – só nós para inventar os estrangeirados -, a inveja, que condena os espíritos elevados a procurar além-fronteiras o sucesso que a Pátria nega. Tenho vergonha.
Mas também tenho cada vez mais orgulho, orgulho em ser português.
Não por acaso citei Miguel Torga: o seu “Portugal” é o bilhete de identidade de um povo, tão singular na sua singularidade que poucos há que o cotejem. O lirismo occitânico misturou-se com o anterior romantismo primitivo galaico-português e criou uma lírica focada no sofrimento do enamorado, sempre incorrespondido. O português morre de amor, tem saudade, angustiado e alegre, melancólico e folião, por vezes excessivo, quase sempre generoso.
Somos poucos, periféricos, pobres? Fomos e somo-lo. Depois, num depois de antes, sem mais queixumes inventámos a nossa própria estratégia, lançámo-nos ao mar Oceano, misturámo-nos com outros povos, fizemo-nos mais do que os menos que eramos; gastámos acima da conta, foi sempre assim. E chegámos ao topo: “Entre gregos e troianos, é melhor um português. … Nem do Norte nem do Sul, nem muito vermelho nem muito azul, … nem – importantíssimo – primeira opção. A diplomacia portuguesa joga tradicionalmente o trunfo da segunda opção”, explica o El País no artigo citado: emergimos no deserto dos outros, aproveitámos a justa dos grandes, somos o orgulhoso povo da alternativa, o que não deixa ninguém ficar mal. Orgulho, claro.
Embora haja dias de vergonha, de nos sentirmos tristes portugueses quando as televisões regurgitam do futebol falado, rio de insultos no mar do fanatismo; da incapacidade de nos protegermos, porque o Estado que mandatámos (para o fazer) não é capaz; da intrigazinha, da caluniazinha, do acintezinho. Dias de vergonha, quando facínoras, sejam eles banqueiros, directoras de IPSS com financiamentos garantidos ou ex-primeiros-ministros, roubam o que é de todos, se locupletam com riqueza que não lhes pertence. Vergonha.
Orgulho. Sermos afáveis com os visitantes. Humanidade e universalidade, “não há povo mais global do que tu, ó português; é contigo que falo, não te escondas, não tens razões para isso”. Até dos defeitos fizemos virtudes, escreveu Torga.
Uma frase que caiu no meu facebook, de um anónimo estrangeiro, rezava assim: “I am constantly impressed by the leaders Portugal produces (…). Must be that global outlook set by the early explorers!”.
Tenho orgulho, tanto orgulho, até da vergonha que por vezes sinto em ser português. Este povo insignificante do cabo da Europa ainda não deixou de espantar o Mundo.



domingo, 24 de dezembro de 2017

Sem luz ao fundo do túnel, o tonel da preferência


Ao texto agressivo, de arremesso sem tréguas e sem preciosismos verbais, de Alberto Gonçalves, responde o politicamente correcto e brilhantemente argumentado de António Barreto. Ambos claros e justos, o de Alberto Gonçalves sobre a linguagem torpe dos comentadores de esquerda, que do alto da sua novel superioridade de ganhadores de batota, refutam as análises da ponderação, num desmancho de impotência verbal, reduzida a apelos de incitamento alvar, sem argumento válido, aconselhando intervenção da farmacopeia para limpeza do estômago, como AG desmascara, ao seu modo aguerrido, de um realismo impiedoso e esclarecidamente irónico sobre a chateza intelectual e a despreocupação de ignorância assim traduzidas. O de António Barreto acentuando a prosápia portuguesa, exaltadora de feitos de aparência valorosa e na realidade reduzidos a indignas mistificações de trapaça e dolo. Um texto, este, ao ritmo compassado do pesquisador eficiente e arguto, que oferece ainda, mais uma bela foto  com um comentário de apreço.


Os portugueses não precisam de Rennie
23/12/2017
Houve um tempo, não muito remoto, em que os broncos disfarçavam. Pelo menos tentavam. Agora os senhores no poder desistiram de mascarar o primitivismo. A brutalidade é servida sem filtros nem vergonha.
É absurdo falar-se em censura do humor. Um deputado chamado João Galamba costuma fazer graçolas alusivas às vítimas dos incêndios e não há quem o impeça. Há dias, a jovem promessa socialista respondeu no Facebook a alguém que discordava da cartilha oficial acerca do tema: “Isso deve ser mesmo difícil de digerir. Olhe, vá à farmácia e compre uns medicamentos para a ansiedade”. Depois de um argumento assim, a sofisticação está garantida, e a conversa pode saltar das “redes sociais” para o Parlamento e as televisões que albergam o portentoso raciocínio do sr. Galamba.
Convém notar que aconselhar a compra de medicamentos para a ansiedade com o objectivo de ajudar à digestão é clinicamente discutível. É também uma ligeira variação das recomendações de Rennie ou Kompensan, populares remédios para a azia e, hoje, popularíssimos instrumentos retóricos. Num estudo superficial, apurei que cerca de 87,3% das críticas às minhas crónicas se resumem a preocupações com a hipotética acidez do meu estômago.
Afirmo que o PS é um refúgio de trapaceiros sem paralelo no hemisfério Norte? Tomo Rennie e, juram-me, isso passa. Opino que o “caso” do Montepio é uma golpada inscrita numa longa tradição de golpadas similares? Ingiro Kompensan que a coisa vai ao sítio. Sugiro que ambos os candidatos à liderança do PSD representam a abdicação da alegada “direita” ao sistema que nos arruína e enxovalha? Dissolvo um Alka-Seltzer e curo-me. Arrisco que a dona Catarina Martins (para quem, aliás, os resmungos da oposição representam a “azia da direita”), em décadas de relativa existência, nunca produziu a sombra de uma ideia sequer discutível? Atafulho-me de Gaviscon e tudo se resolve. Por algum motivo, inúmeros portugueses convenceram-se de que mostrar cuidados com o refluxo gástrico dos restantes constitui uma maneira infalível de encerrar, e vencer, qualquer discussão.
Será conspiração das farmacêuticas? Duvido. Do que tenho a certeza é da eloquência vigente nas classes dirigentes e nos seus acólitos não estar exactamente ao nível de um Lincoln ou de um Disraeli. Mas está, sem tirar nem pôr, ao nível de dois, ou três, Antónios Costa. Ou quatro. Ou cinco. Ou tantos quantos os sujeitos que tomaram conta disto e, entre arrotos e gargalhadas, desceram o debate público aos abismos dos debates de futebol. Não me refiro, evidentemente, aos coitados que soltam atoardas na taberna a pretexto da bola: refiro-me aos furiosos que o taberneiro põe na rua e arranjam poiso na CMTV ou nos gabinetes de “comunicação”. A “azia” omnipresente nas considerações dos maluquinhos dos clubes, grau zero do pensamento e recurso estilístico que um orangotango se embaraçaria de usar, contaminou os maluquinhos dos partidos. No fundo, trata-se de um símbolo da indigência mental em curso e a confissão de que se é bronco e não se disfarça.
Houve um tempo, não muito remoto, em que os broncos disfarçavam. Ou pelo menos tentavam. O “eng.” Sócrates, por exemplo, ainda procurava dissimular as suas extraordinárias deficiências com os tiques que, na inocência dele, julgava próprios das pessoas ilustres: passear cursos (que não frequentou), citar livros (que não leu) e assinar livros (que não escreveu). Agora, os carrocei…, perdão, os senhores no poder desistiram de mascarar o primitivismo. A brutalidade é servida sem filtros nem vergonha. E é por isso que o maior perigo da subjugação do regime à esquerda não é a ameaça à liberdade de expressão: é a ameaça à expressão propriamente dita. E falada. E, Deus os perdoe, escrita.
O problema, porém, não é a franqueza. A franqueza com que essa gente desatou a exibir os seus trágicos limites é apenas um sintoma, sintoma de despreocupação, de arrogância, de impunidade. Já não é necessário simular polimento, ou um vestígio de regras civilizacionais, porque a falta de civilidade deixou de ser escrutinada. Provavelmente, até passou a ser valorizada. Conhecíamos o estilo de ditaduras descaradas, ou de organizações totalitárias como o PCP e BE, onde o estilo é um programa. Percebe-se que dois anos de convívio bastaram para contagiar o PS, enfim livre para cumprir a sua natureza. A “azia” é a versão actualizada do “‘tou-me cagando”, do rudimentar dr. Ferro. Desobrigados, os que se sentem donos do país cruzam as pernas em cima da mesa, puxam do palito, aliviam o cinto e esfregam a barriga: estão à vontade. Mérito deles? Mérito do povo, ou da parte do povo cuja tolerância é imensa e inversamente proporcional à dos respectivos proprietários. A julgar pelas sondagens e pela apatia quase geral, o povo engole a propaganda, os mortos, os bancos, os sindicatos, as raríssimas, os insultos, o desprezo, o nepotismo e o que calha. Infelizmente, não precisa de Rennie.

Sem Emenda
Um paradoxo português
António Barreto
DN, 24/12/17
O paradoxo português actual resume-se em poucas palavras: aconteça o que acontecer, em 2018 ganharemos sempre. Se o governo não durar mais um ano, é uma boa notícia. É sinal de que o PS entende estar à altura de governar em maioria ou de refazer as suas alianças ao centro. Quer dizer que o PCP ou o BE, ou os dois, sentem que assim perdem mais do que ganham e que é preferível tentar o veredicto eleitoral democrático. É sinal de que o PS quer despertar o seu legado democrático e que as aventuras iluminadas vão cessar rapidamente.
Todavia, se o governo durar mais um ano, ou dois, será também boa notícia. Haverá estabilidade e até serenidade, o que, com os comunistas no poder, não é pouca coisa. Será sinal de que a luta das classes e a competição partidária não dão cabo de tudo. Haverá tempo para o PSD se reorganizar; para o PS se reavaliar e repensar; para o PCP saborear um pouco mais as virtudes da democracia; e para o BE decidir entre a praxis democrática e a insurreição permanente. Um ano sem eleições nem demagogia permitirá lamber as feridas dos incêndios, de Tancos e de tantos outros desastres deste último ano tão estranho.
Este paradoxo português não deve assustar ninguém. Estamos há muito habituados. Os portugueses deram ao mundo novos mundos, construíram um império multirracial, mas cá dentro, no continente europeu, no século XX, até aos anos 1970, a sociedade era de uma só cor, de uma só religião, quase só havia brancos.
Em 1974, os portugueses fizeram uma revolução limpa, pacífica, inesquecível, moderna, à frente do mundo e da história e com a mais avançada das constituições. Na verdade, fizeram a última e mais atrasada revolução dos séculos XIX e XX e aprovaram a Constituição mais absurda do seu tempo.
Também nessa altura, levaram a cabo uma descolonização exemplar, cujos modelos, objectivos e processos alegadamente causaram a inveja do mundo. Na verdade, foi a mais desastrada de todas, estando na origem de três guerras civis, durante mais de vinte anos e com centenas de milhares de vítimas.
Mais tarde, Portugal deu novos exemplos ao mundo, a ponto de se ter transformado no melhor aluno da Europa, segundo os dizeres dos dirigentes europeus e portugueses. Mas rapidamente se revelou a desgraça das políticas que levaram a três resgates internacionais em cerca de trinta anos, a uma bancarrota e ao mais elevado endividamento da história.
A verdade é que estamos habituados a paradoxos. Ao de um país moderno e muito bem equipado, na vanguarda da tecnologia e da ciência, com méritos reconhecidos na saúde, na engenharia, na construção, na arquitectura, no vinho e no futebol, mas que combina com o país atrasado na educação, na justiça, nos espaços públicos, nas florestas, nos direitos dos cidadãos, na transparência e na corrupção. Ao de um governo pragmático e racional, com resultados políticos e financeiros visíveis, mas com incapacidade para reagir a tempo e horas, com eficácia e humanidade, a qualquer emergência, dos incêndios aos roubos e ao crime. A de uma administração pública ultramoderna, mas com uma organização parasitária e politicamente enviesada. A de uma Protecção Civil com meios tecnológicos, equipamento, aviões, helicópteros, produtos químicos e veículos de vanguarda, mas com uma coordenação política e humana incompetente e uma desastrada capacidade de organização. A de um sistema judicial moderno, de uma legislação avançada, de processos de grande humanidade e de códigos inovadores, mas também de uma justiça atrasada, ineficiente, desigual e preconceituosa. A de um governo com claro equilíbrio político à esquerda, mas com greves a crescer todos os dias e o regresso iminente da luta das classes e das corporações.
Nada seria particularmente grave se não fosse uma tradição portuguesa: a de responder sempre tardiamente aos grandes problemas. A ditadura, a guerra em África, a revolução, a primeira Constituição, a bancarrota de 2010 e as florestas de sempre estão aí para o demonstrar.

  AS MINHAS FOTOGRAFIAS - ANTÓNIO BARRETO
A Vinha Maria Teresa, da Quinta do Crasto, no Douro. No primeiro plano, quase se vê o rio do mesmo nome, o Doiro, como dizia Miguel Torga e como dizem ainda hoje muitos durienses. A quinta leva talvez cinco séculos a produzir bom vinho. Tem marco pombalino, pois já fez parte da primeira demarcação feita no tempo do marquês de Pombal, em 1756. Fica na margem norte, ou margem direita do rio, entre a Régua e o Pinhão, na freguesia de Gouvinhas, concelho de Sabrosa. Tem apeadeiro de comboio ali perto, o Ferrão. Nesta quinta produzem-se vinhos tintos e brancos de excepcional qualidade, assim como vinhos do Porto. Esta Vinha Maria Teresa, responsável pelos vinhos com o mesmo nome, é de uma beleza inesquecível, pela suave ondulação das vinhas e dos socalcos e pela coexistência de dezenas de castas de uvas que formam uma autêntica vinha velha. Tão inesquecível quanto um copo de vinho tinto com o nome desta senhora.