sábado, 29 de agosto de 2020

Uma sensaboria mistificatória

Este livro que o meu filho Artur me ofereceu pelos anos, que, naturalmente agradeço, para ir podendo aperceber-me do que vai sendo publicado uma ou outra vez, ciente, todavia, das limitações da idade, que me vai garantindo que não devo acumular mais poeira à poeira dos livros já acumulados ao longo da vida, livros que não deixarão senão trabalhos aos que vierem depois de mim e tiverem que deles se desfazer, na frieza da indiferença que apunhala de antemão quem toda a vida os amou, e neles se apoiou, seus companheiros de prazer. Mas tal apenas significa o que significa para todos, o apego à vida e aos afectos e a antevisão do nada em que nos tornamos, pese embora a nossa incapacidade de o exprimir, apenas aptos a prostrarmo-nos diante da monumental construção artística pessoana, que continuamente o salienta, nas suas obras de dispersa patronímia, quais pirâmides da sua eternidade.

Mas fui lendo escrupulosamente este livro de João Céu e Silva, publicado no mês de Julho passado, em volume, de antemão reproduzido em fascículos de doze episódios no “DIÁRIO DE NOTÍCIAS” e que, naturalmente, receberá o galardão da sua originalidade. «A segunda vida de Fernando Pessoa», - assim se chama, título que logo atrai as atenções, por ser Fernando Pessoa quem nós sabemos - génio literário que experimentou facetas inúmeras de uma criação sem precedentes, de que o seu “Livro do Desassossego” é pura magia verbal acompanhando um pensamento de complexidade ampla em torno do eu - a acrescentar às suas criações em verso, ficcionadas segundo a sua própria mistificação de diferentes géneses criativas, outros “alter egos” de uma heteronímia correspondente a diferentes personagens das suas realidades forjadas em situações específicas, conforme explica na longa carta de 13 de Janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro.

 

Trata-se de um romance, aparentemente, este “A segunda vida de Fernando Pessoa”, de João Céu e Silva, pretendendo repor o heterónimo inicial responsável ficcionalmente pela autoria de «Livro do Desassossego, de nome Vicente Guedes, fazendo-o retomar uma vida que se esvaiu imperceptivelmente no “Livro do Desassossego”, substituído pelo de Bernardo Soares. Mas, para iniciar o próprio processo mistificatório, de professor a ser gradualmente transferido para a personagem Vicente Guedes, o próprio escritor João Céu e Silva antepõe ao início da sua ficção, excertos de apresentação que o próprio “Livro do Desassossego” traz em “Apêndice”, retirado dos escritos de Pessoa:

… «Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida. De Vicente Guedes não se sabe nem quem era nem o que fazia. Este livro não é dele: é ele”….”Ele viveu definitivamente a anestesia interior, aquela atitude de alma que mais se parece com a própria atitude de corpo de um aristocrata completo”…

Todavia, JCS deixa de parte, entre outras referências, um outro escrito de Pessoa sobre Vicente Guedes, que reflecte o seu próprio complexo de ser um simples empregado comercial, peso que acompanhou Pessoa, pela injustiça imerecida de génio que assim se sabia e que não era reconhecido ainda, como merecia:

«Tout notaire a rêvé des sultanes…

Tenho um prazer íntimo, da ironia do ridículo imerecido, quando, sem que alguém estranhe, declaro, nos actos oficiais, em que é preciso dizer a profissão: empregado no comércio. Não sei como inserto o meu nome vem assim no anuário comercial.

Epígrafe ao Diário:

Guedes (Vicente), empregado no comércio, Rua dos Retroseiros, 17-4º, Anuário Comercial de Portugal»

(Em parêntese, aponto que tal atitude, de resto, nem é de estranhar, tive ocasião de o notar em colegas, excelentes alunos do liceu, como o poeta Rui Knopfli fora, que, por razões próprias não vieram para Portugal tirar um curso superior, e quando regressámos com os nossos cursos, o repúdio irónico era uma constante na sua relação para com os “doutores”, afinal, limitados ao seu labor de sustento, mas de capacidades criativas nitidamente inferiores às suas.)

 

Mas, se nos parece original – ou nem tanto assim – a ideia desconcertante de fazer ressurgir um dos heterónimos de Pessoa, com o fito – generoso, embora - de lembrar ao mundo uma atribuição póstuma de um Prémio Nobel a um génio literário - que, de resto, se sabia dele merecedor, como ele-próprio o afirma na Carta a Adolfo Casais Monteiro – e se o livro de João Céu e Silva nos parece uma recriação vivencial que, combinando registos de variadas experiências pessoais do seu autor (literárias, artísticas, comezinhas, por vezes puramente grotescas) se nos afigura de pura profanação – que nos revolta - ao pretender transformar em criatura real, através de uma absurda mistificação, por muito engenhosa que se queira revelar, alguém que, pela sua obra, permanece como um extraordinário espírito criador, que a si próprio se reconhece “emissário de um rei desconhecido” – no que acreditamos piamente.

É certo que João Céu e Silva nos traz à memória inspirações miméticas de intertextualidade – que de resto não esconde – como a Divina Comédia, como inspiradora da visionação de um mundo irreal a que o próprio nome da heroína – Beatriz – surgido tardiamente no enredo (sem quaisquer laivos de semelhança, todavia, com a heroína dantesca), pretende dar mais credibilidade – mas a sua trama nem de longe nem de perto se equipara à irrealidade do encontro de Dante com Virgílio, e mais adiante com Beatriz, nem no sentido crítico que impregna o percurso dos dois poetas sobre os desmandos da época. Mas a fantasia criadora de mitos é coisa antiga e o encontro de vivos e mortos já o próprio Virgílio o desenhara na sua Eneida, certamente inspiradora da Divina Comédia, para não referirmos as práticas do cristianismo sobre a ressurreição de Cristo, ou mesmo o mundo sobrenatural explícito nos autos do nosso Gil Vicente, sem falar, é claro, nas visões apocalípticas do Apóstolo João, e as “Visões da Revelação”…

Aliás, por muito engenhoso que pretenda apresentar-se - nesta construção arrastada, de contínuo suspense, a lembrar os percursos detectivescos da novelística policial –no caso presente de um professor em licença sabática que, por contrato com um misterioso Sena que lhe paga bem, vai seguindo pistas contínuas de leituras e ordens por aquele propostas, num enredo que envolve um aparente suicídio muito anterior, de uma “Besta” na Boca do Inferno, onde Sena também se suicidará, desaparecida a sua razão de existir, e o professor, igualmente se sentirá atraído para o mesmo destino de que será salvo e conduzido pela misteriosa figura de mulher que desde o início Sena lhe destinara – a tal Beatriz - transformado gradualmente em Vicente Guedes, dados os seus traços de semelhança com Pessoa, e objectivo final do agente inicial da trama – Sena – enfim, tanto engenho que mistura pedantemente alhos com bugalhos, numa caldeirada pretensiosa, de revelações literárias frequentes ou outros registos de movimentação fílmica, de alusões literárias descabidas, por vezes de referências fúteis a necessidades básicas, a lembrar a arte realista da actualidade, apesar do clima de mistério da trama, não propícia a pornografias ou sexualidades – haverá quem aprecie o livro, não sei. Eu por mim, vou arrumá-lo, julgo que para sempre.

Julgo que “Livro do Desassossego composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa”, conforme se lê na capa, esquecido Vicente Guedes como seu inicial fautor, não passa de mais uma mistificação “à Fernando Pessoa” que só esse poderia formalizar, sem necessitar de esclarecimentos. Apesar da carta a Adolfo Casais Monteiro, com informações sobre a génese da sua heteronímia mais conhecida.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Justa Homenagem

                                                                                                         

A alguém que deu cor e diversão à vida: NIKYAS SKAPINAKIS. Por Salles da Fonseca, que foi seu aluno. Mas na Internet foi uma profusão de imagens de quadros e serigrafias e murais seus. De uma entrevista curiosa, transcrita na Internet, extraio também o final, que nos mostra um pouco a sua dimensão humana no conceito sobre a arte.

NIKYAS SKAPINAKIS

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

OBSERVADOR, 27.08.20

Português de ascendência grega, nasceu em Lisboa em 1931 e morreu ontem, 26 de Agosto de 2020, também em Lisboa.

Seria muita presunção minha vir aqui apresentá-lo – é suficientemente conhecido para que careça de apresentações e fica seguramente na Galeria da Cultura Portuguesa como o artista que procurava a essência das coisas pela pureza da pintura. A epifania das coisas através da pintura à semelhança de James Joyce e a epifania dos lugares através da escrita. A epifania joyceana e – proponho agora – a epifania skapinakiana.

Professor na década de 50 do século XX no liceu francês de Lisboa, tive-o como mestre de pintura durante um ou dois semestres. Teríamos, os meus colegas e eu, cerca de 14-15 anos mas ficou nas nossas memórias e ontem mesmo recebi alguns contactos a referirem a sua morte.

Alto, magro, dando-se naturalmente ao respeito, ensinava sobretudo as técnicas da pintura. O dom artístico não se ensina - ou se tem ou não. E da nossa classe mista não saiu nenhum Van Gogh nem nenhuma Josefa de Óbidos. Mas todos ficámos a saber distinguir as boas pinturas das outras.

Morando na zona da Estrela, cruzávamo-nos de vez em quando e até se deu o caso de nos termos encontrado a tomar café ao balcão da «Cristal». E, cumprimentando-o, disse-lhe que fora meu professor havia então já mais de 50 anos. Obviamente, não me reconheceu mas fingiu e isso apenas confirmou que era muito civilizado.

Daqui sugiro à Câmara de Lisboa que dê o seu nome a uma rua ou parque da cidade.

A Wikipédia apresenta-o bastante bem.

27 de Agosto de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

COMENTÁRIOS

Anónimo, 27.08.2020: Uma memória sentida e justa.

Adriano Lima 27.08.2020: Homenagem justa a um artista de mérito.

 

Nikias Skapinakis

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Nikias Ribeiro Skapinakis GOSE (Lisboa, 1931-26 de agosto de 2020) foi um pintor português de ascendência grega.

Faleceu a 26 de Agosto de 2020[1].

Biografia[editar| editar código-fonte]

Frequentou o curso de arquitectura, que abandonou para se dedicar à pintura, actividade que manteve regularmente até ao presente.

Começou por expor em 1948, nas Exposições Gerais de Artes Plásticas e, desde então, realizou inúmeras exposições individuais e participou em diversas exposições colectivas, em Portugal e no estrangeiro.

Além da pintura a óleo (a sua actividade dominante), dedicou-se à litografia, serigrafia e ilustração de livros. Entre outras obras, ilustrou Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro (Bertrand, 1958 e Andamento Holandês, de Vitorino Nemésio (Imprensa Nacional,1983). Executou litografias para o Congresso de Psicanálise de Línguas Românicas (1968) e para o cinquentenário do Banco Português do Atlântico (1969). Executou serigrafias para a Galeria Kompass (1973).

É autor de um dos painéis do café A Brasileira do Chiado (1971) e participou na execução do painel comemorativo do dia 10 de Junho de 1974.

Em 1963, obteve a Bolsa Malhoa da Sociedade Nacional de Belas-Artes e em 1976 foi-lhe concedido um subsídio para investigação pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 1976 foi-lhe atribuído o grau de Comendador da Ordem do Rio Grande do Sul, da República do Brasil.

Em 1981 foi-lhe atribuído o grau de Comendador da Ordem da Fénix, da Republica da Grécia.

Em 1985, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, mostrou uma exposição antológica da sua pintura, completada com uma retrospectiva da sua obra gráfica e guaches na Sociedade Nacional de Belas-Artes, no mesmo ano.

Em 1990 foi-lhe atribuído o prémio Aica/Sec, instituído pela Associação Internacional de Críticos de Arte e a Secretaria de Estado da Cultura.

Em 1993, apresentou no Palácio Galveias (Biblioteca Municipal de Lisboa da Câmara Municipal de Lisboa), uma antologia de desenhos realizados entre 1985 e 1993.

Em 1996, o Museu do Chiado organizou a exposição intitulada "Para o Estudo da Melancolia em Portugal, Retrospectiva de Retratos, 1955-1974".

Em 2000, o Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves, apresentou a exposição antológica "Prospectiva 1966-2000".

Em 2005 foi-lhe atribuído o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, instituído pela Câmara Municipal de Amarante, e realizou um painel em cerâmica para o Metropolitano de Lisboa.

Em 2006, a Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva apresentou a série de pinturas "Quartos Imaginários", baseada nos quartos de dormir e ateliês de diversos pintores e poetas e foi-lhe atribuído o Prémio de Arte do Casino da Póvoa. A 9 de Junho de 2006 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

Em 2007, foi realizado para a televisão, "Nikias Skapinakis: O Teatro dos Outros", um documentário realizado por Jorge Silva Melo sobre o conjunto da sua obra.

Em 2009, realizou no Centro Cultural de Cascais a exposição "Desenho a preto e branco e a cores", abrangendo a sua obra gráfica entre 1958 e 2009. Realizou também a pintura "Paisagem-Bandeira Portuguesa" alusiva à Bandeira Nacional e integrada nas Comemorações do Centenário da República.

Em 2012, o Museu Colecção Berardo apresentou a exposição antológica "Presente e Passado, 2012-1950"

Em 2013, foi-lhe atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores o Prémio de Artes Visuais.

Em 2014, apresentou na Casa Fernando Pessoa a série de guaches “Lago de Cobre” e a série de desenhos “Estudos de Intenção Transcendente”. Ilustrou a Revista “Colóquio Letras” dedicada a Almada Negreiros.

Em 2017, apresentou na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva a série desenvolvida a partir de 2014, “Paisagens Ocultas-Apologia da Pintura Pura”.

Em 2018, a Fundação Carmona e Costa apresentou uma antologia de gouaches entre 1950 e aquele ano.

Em 2019, o seu nome foi incluído no painel do Metropolitano de Lisboa, que refere os presos políticos durante o salazarismo.

Tem publicado textos de intervenção crítica em diversos jornais e revistas.

Viveu e trabalhou em Lisboa.

É irmão do Coronel Andreas Ribeiro Skapinakis(n. 1913), Oficial da Ordem Militar de Avis a 20 de Outubro de 1951, Comendador da mesma Ordem a 13 de Fevereiro de 1961 e Comendador da Ordem da Fénix, da Monarquia Helénica, em 1955.

Final De uma Entrevista

(Internet)

Publicado originalmente no Público em 2009

- Disse que não é um repentista, e impôs a condição de a entrevista ser escrita. Porquê esta reserva, esta distância, este silêncio? O que seria diferente se fosse sem rede, ou seja, sem tempo para pensar e digerir as perguntas?

- Fui algumas vezes entrevistado para a rádio e a televisão - naturalmente sem rede. Uma entrevista para ser lida, que pretende resumir 60 anos da minha preciosa existência, obriga-me, porém, a consultar diversos elementos e a ponderar a economia das respostas. Realmente, embora converse e discuta com facilidade, não sou repentista. Seria um péssimo advogado de barra e um político inábil, porque a resposta correcta pode não me ocorrer - o que acontece a muita gente boa.

Por exemplo, fiz recentemente uma intervenção na Universidade Nova, no âmbito da História de Arte Contemporânea, e a seguir alguém perguntou se a arte devia escandalizar. Já não recordo o que respondi, mas, rememorando a pergunta, julgo que estava viciada na origem. Isto é, o verbo "dever" não se adequa à obra de arte. Manet não pensou certamente em escandalizar Napoleão III quando pintou Olímpia nua. A lição a tirar é que no processo artístico as intenções não contam, conta a inspiração que não é uma invenção romântica. Na arte não há deveres. E não me lembrei de o afirmar!

-Produziu muito ao longo dos anos. O que é que acha que ficará? Aponte-me três quadros de que goste especialmente.

- Não posso garantir que fique o que quer que seja. As escolhas são apanágio dos críticos e do público. O tempo encarrega-se da rectificação. Se for caso disso.

 

“Felizmente há luar”

 

Que vai iluminando as gentes que vão mantendo o nosso estar aqui, apesar dos desmandos de muita outra gente, como Gomes Freire de Andrade, cuja actuação traidora Sttau Monteiro naturalmente embeleza, ao contrário de um historiador como Jaime Nogueira Pinto, que se limita a ser imparcialmente objectivo, mas deixando pressentir o seu amor pátrio, no discurso sério e simples e rigoroso, que dá prazer reter.

A Santa Aliança e a excepção portuguesa /premium

Entre a oposição discreta mas firme de Londres, o mal disfarçado incómodo da França e a vontade de D. João VI, fracassaram os projectos da intervenção restauracionista em Portugal da Santa Aliança.

JAIME NOGUEIRA PINTO    OBSERVADOR; 28 ago 2020, 00:09

As invasões francesas vêm encontrar um país que, segundo o censo de Pina Manique de 1798, tem cerca de três milhões de habitantes. Em 1807 terá três milhões e duzentos mil, dos quais mais de 85% vivem a norte do Tejo, que representa 2/3 do território continental; o Alentejo e Algarve, com 34% do espaço, têm apenas 13,6% da população. Com uma economia tradicional, uma agricultura débil, dois surtos industriais, um no reinado de D. João V, outro nos últimos anos de Pombal, o Portugal do século anterior estivera muito escorado na sua terceira fortuna colonial, a do Brasil. O exército era grande no papel mas não passaria, na Metrópole, dos 20 mil homens e tinha uma Marinha significativa, com 34 navios de linha, graças a Pombal e a D. Maria I.

Não podia escapar à conjuntura europeia e ao conflito franco-britânico. A aliança tradicional, por razões geopolíticas e económicas, era com os ingleses, e as missões diplomáticas em Lisboa de Lannes e Junot não tinham contribuído para alterar essa linha. Bem pelo contrário. Vindo em 1807, não como embaixador, mas como conquistador, chefiando um exército de 28 mil franceses e 11 mil espanhóis, Junot contou com a colaboração no “partido francês” de alguns liberais portugueses, como Gomes Freire de Andrade e o marquês de Alorna, que iriam alinhar na formação e comando da Legião Portuguesa ao serviço de Bonaparte. Sem que nos alonguemos no tema, convém relembrar alguns factos, como o esforço dos ocupantes franco-espanhóis para desarmar o exército português (de 24 regimentos de infantaria para 6, de 12 regimentos de cavalaria para 3). O resto deste exército constituiria a tal legião portuguesa (12.000 homens) e seguiu para Baiona.

Depois dos acontecimentos de Madrid do 2 de Maio de 1808, com a grande insurreição espanhola contra os franceses e, nos princípios do Verão de 1808, com Sepúlveda em Trás os Montes e Castro Marim no Algarve, começou o levantamento contra os ocupantes. Os ingleses de Wellesley chegam nos primeiros dias de Agosto a Lavos e Junot vai ser derrotado.

Em Espanha houve um número relativamente significativo de altos funcionários e intelectuais que colaboraram com os franceses, “os afrancesados”, como Leandro Fernández de Moratín, colaboracionista com José Bonaparteirmão do imperador e feito por este Rei de Espanha – a que os madrilenos puseram a alcunha de “Pepe Botella”. Estes afrancesados contaram-se por alguns milhares e muitos fugiram para o exílio com as tropas francesas em retirada da Península.

As guerras peninsulares tiveram um alto preço humano. Os portugueses, que seriam 3.200 000 em 1807, eram 2.959 000 em 1814. As fábricas que exportavam para as colónias fecharam. Os franceses causaram grandes destruições e os ingleses, embora mais correctos nos negócios, humilharam os militares, submetendo-os ao seu controlo. Além disso, com a abertura dos portos do Brasil, arruinaram o comércio nacional.

A conjuntura que leva à revolução do Porto e aos acontecimentos que a precedem e seguem é uma daquelas situações históricas em que uma potência periférica (Portugal) é envolvida num conflito entre potências principais (França e Grã-Bretanha), tendo por vizinho uma potência média (Espanha), também envolvida na contenda, embora em moldes diferentes e com alinhamentos sucessivos e contraditórios. Para complicar mais a situação, havia o factor brasileiro, essencial para o desfecho. A luta ideológicatradicionalismo versus liberalismotambém não era linear, dadas as várias linhas e facções internas, quer no liberalismo, quer no tradicionalismo. E houve ainda o papel das solidariedades transnacionais, como a Maçonaria, e a política da Santa Aliança. Tudo isto ia gerar uma crise de geometria variável.

A Maçonaria está muito activa nesta época, em Nápoles, em Espanha e em Portugal. Durante as invasões e ocupação da Península, a par de liberais pró-franceses e anti-franceses, há maçons pró-franceses e pró-ingleses. Em 1812 a Maçonaria tem um papel importante na proclamação da Constituição de Cádis. Fernando VII, de má vontade, aceita a Constituição e, apesar da sua oposição à Maçonaria e aos liberais, colabora com eles em projectos iberistas. O embaixador D. José Pando e o adido militar, tenente coronel José Barreros, colaboram com os conspiradores portuenses do Sinédrio. Espanhóis – e alguns portugueses têm um projecto iberista, de “sete repúblicas” , ficando Portugal dividido em duas “lusitânias”, uma Ulterior, outra Citerior e passando os Algarves para a Bética.

Fernandes Thomaz era contrário a estes projectos iberistas e condenou os seus companheiros de conspiração que neles pareciam alinhar. E foi muito directo quando recusou, com Ferreira Borges e Francisco Gomes da Silva, a proposta de auxílio financeiro e militar a troco da “União Ibérica” dos enviados de Madrid que com eles se encontraram num jardim da rua de Cedofeita, em Junho de 1820.

A ida da Corte para o Brasil tivera o efeito colateral, não só de prejudicar o regime do Pacto Colonial anterior mas de antagonizar progressivamente os dois povos com a alteração da relação, já que, estando o chefe de Estado e o governo na colónia, esta ganhava preponderância sobre a Metrópole.

Mas para Oliveira Lima havia um elemento que unia então brasileiros e portugueses: a “antipatia à Inglaterra”. Os portugueses estavam fartos do proconsulado de Beresford e os brasileiros fartos da oposição de Londres ao tráfico negreiro.

Já para os ingleses, a unidade Reino Unido-Portugal-Brasil era importante pois, sendo eles senhores do mar Atlântico, controlavam as comunicações entre as duas partes do Estado.

D. João VI não gostava nem da palavra nem da ideia, e muito menos do regime liberal. Perante a vitória do “vintismo e os apelos, então respeitosos, para que voltasse à mãe pátria, hesitou. Os rumores e as notícias da revolução liberal tornavam a população do Rio menos respeitadora do rei e da Corte. Os embaixadores em Paris (o 6º Marquês de Marialva) e em Londres (D. José Luiz de Souza) tomaram a iniciativa de pressionar as potências para não reconhecerem o novo governo de Lisboa e para intervirem pela força para restaurar a monarquia tradicional. Mas D. João VI entendeu que não seria bom, nem para ele nem para a dinastia, ser mantido ou restabelecido por forças estrangeiras, como queria Marialva que, nesse sentido, mandou mesmo enviados a Laibach onde estavam os soberanos aliados. Por outro lado, tradicionalistas e liberais viam com igual preocupação o perigo espanhol.

Mas o facto é que o núcleo duro da Santa Aliança – Rússia, Áustria, Prússia – representado por Joannis Capo d’Istria, o greco-russo conselheiro do czar, e por Metternich – ia no sentido de aplicar a doutrina de “tolerância zero” aos movimentos revolucionários liberais. Os diplomatas portugueses empenhavam-se em conseguir que Portugal fosse o caso exemplar de que a nova ordem internacional não podia ser alterada. À França restauracional de Luís XVIII caberia o papel em relação a Portugal e à Espanha que na Itália coubera à Áustria.

António de Souza, o plenipotenciário português em Laibach, procurou desenvolver esta tese junto dos imperadores da Rússia e da Áustria, que o receberam e pareceram dispostos a intervir naquela “cruzada dos tronos contra os povos”. Mas a Inglaterra não queria intervenção.

Portugal argumentava que a intervenção das coligações em França, em 1792, fora fatal para a monarquia de Luís XVI. E o trio imperial da Santa Aliança – Áustria, Prússia e Rússia hesitou perante o controlo da Inglaterra e a evasiva da França.

Decisiva foi a posição de D. João VI que, com intuição e realismo, achava “contraproducente usar tropas estrangeiras para rejeitar os seus vassalos extraviados”. D. João VI queria, sim, que a Inglaterra continuasse a proteger a independência de Portugal contra a Espanha. O que fazia parte do que estava instituído. Assim, entre a oposição discreta mas firme de Londres, o mal disfarçado incómodo da França e a vontade de D. João VI, fracassaram os projectos da intervenção em Portugal da Santa Aliança. Como concluía o visconde da Lapa, o ministro português na Rússia, a decisão fora acertada: Chamar forças externas para coadjuvar a expulsão de inimigos externos é o que a História apresenta a cada passo; porém, para sossegar as desordens internas, é sempre arriscado… A massa da nação é ainda sã, e sendo a força moral a que se deve procurar encaminhar, não posso ocultar que o emprego da força marítima só poderia servir para irritar e conduzir aos desvarios a que a desesperação pode arrastar.”

A Santa Aliança não interviria, mas os pronunciamentos miguelistas da Vilafrancada e da Abrilada acabariam por ter, nas suas consequências político-ideológicas, um efeito restauracionista – só que sem intervenção estrangeira, que viria depois, de outros horizontes, na Guerra Civil de 1828-1834.

A SEXTA COLUNA  LIBERALISMO  ECONOMIA  HISTÓRIA  CULTURA