sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Metáfora irosa

 

Vale como desabafo. Não se sabe se o toldo cai mesmo, que o toldo é suficientemente espaçoso para albergar circenses, os  excedentes, rodeando o todo, dando-se braços e mãos, como na velha e estimulante canção do “Adeus” das despedidas: “É só até mais ver, irmãs”… Que, neste caso, também contam - e cantam - todos  irmãos. Sem pieguice nem ruptura, mas com decisão.

Caiu o toldo do Circo Costa

O mestre de cerimónias, no seu impecável fato de lantejoulas brilhantes, ofereceu-se à plateia, como homem-bazuca. Aos gritos e pulinhos, anunciou o seu novo estatuto. Era “o Grande Bazuco”.

PAULO TUNHAS

OBSERVADOR, 28 out 2021 

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Nem a Dra. Graça Freitas, nem o Dr. Lacerda Sales, nem o Dr. Marques Mendes, nem sequer o subtilíssimo Marcelo (que depois entrou em pânico e na perversidade política consequente) conseguiram descobrir qualquer “evidência científica” que anunciasse o que se passou nestes últimos dias. Os comentadores quase todos, muito desembaraçados, declararam que o real actual era impossível.

Quando o Circo Costa chegou à cidade, o coro maravilhado não se calou. Vinha aí o maior espectáculo do mundo, o sol radiante que substituiria a noite negra, o deslumbramento da cultura face ao inominável horror da incultura, a atenção ao humano contrariando a paixão do não-humano. Como convém a todo o verdadeiro espectáculo, convinha que ele assentasse num mito fundador. O mito fundador do Circo Costa, anunciado em grandes cartazes por todo o país, era simples e enunciável de forma simples, mais simples – muito mais simples – que o mais simples mito primitivo: o “virar a página da austeridade”.

A pouco e pouco vieram chegando notícias do Circo Costa, notícias que nos diziam que os “trabalhadores do espectáculo”, como se diz, não eram os melhores. Começou a ter-se a prova clara de que o rosto feliz dos artistas dissimulava, cada vez mais dificilmente, uma ficção incongruente. Uma ficção incongruente: um enredo no qual os personagens não apenas oscilavam nas suas características psicológicas mas tinham duas naturezas, que ora se combinavam numa forma, ora se combinavam noutra. Num romance, até pode ter graça – embora, segundo a minha experiência, seja raro. Na realidade, é uma desgraça. Lidamos mal com a labilidade e a duplicidade. A má-fé e a reserva mental estragam-nos a vida. Isto, que vale para a vida pessoal, vale também para a vida política.

O grande empresário político dos nossos dias, Marcelo, suspeitando que o espectáculo atrairia o público, deu-lhe, entusiasmado, cobertura. Estava com Costa aqui e ali, e Costa ali e aqui com ele estava. O namoro aparecia em todas as revistas cor-de-rosa, e os jornais sérios embeveciam-se com prosa teórica delicodoce. Os telejornais competiam em imagens amorosas. E acabavam com o equivalente das declarações: “Somos só bons amigos”.

Até que algo começou, aos olhos do público, a correr mal com o Circo Costa. O mestre de cerimónias, no seu impecável fato de lantejoulas brilhantes, ofereceu-se à plateia, complementando o seu habitual exercício de equilibrismo, como homem-bazuca. Aos gritos e pulinhos, anunciou o seu novo estatuto pelo país inteiro. Era “o Grande Bazuco”.

O problema é que o circo definhava. O palhaço pobre, Eduardo Cabrita, sem ajuda na rábula de nenhum palhaço rico, perdeu o tino que nunca teve e multiplicou-se em graças que nunca agradaram ao público, até porque a não tinham. O domador de animais ferozes, João Leão, esgrimia o chicote “cativações” e o animal feroz de serviço neste circo tão doméstico, Pedro Nuno Santos, ameaçou-o de boca feroz, num rugido televisivo, sem que o mestre de cerimónias dissesse uma palavra. Os restantes animadores – João Pedro Matos Fernandes, Tiago Brandão Rodrigues, Marta Temido e Graça Fonseca – davam voltas e voltinhas circulares, acenando aos espectadores, de cavalo e de triciclo, com sorrisos postiços. Passavam outros também – Nelson de Souza, Ana Abrunhosa, Maria do Céu Antunes, Ricardo Serrão Santos (conhecem-nos? são ministros) – e circulavam igualmente personagens que apareciam aqui e ali, por razões que ninguém percebia ou que se percebiam demasiado bem.

Razões que só se podem classificar como laborais levaram Jerónimo de Sousa e Catarina Martins a abandonar o circo. Andaram a ajudar a montar a tenda nestes últimos anos, de foice e martelo na mão, e não lhes pagavam o que pediam. Uma tristeza! Jerónimo optou por espectáculos ao ar livre, onde ainda tem, por enquanto, público garantido e organizadores eficazes. Catarina decidiu por Catarina, isto é, por nada. Mas ambos tristes. E com razão, bem vistas as coisas. O circo foi-lhes cortando os vários membros do corpo e, a cada corte, ofereceu-lhes um berloque que muito lhes agradou e, regra geral, chateou à brava os espectadores, sem que grande parte destes percebesse bem que os berloques iam corroendo a estrutura da tenda. Até que ficaram só com a cabecinha falante, tristíssima pelas amputações sucessivas, mas com o mesmo mobiliário que tinha quando tinham o corpo inteiro.

O toldo caiu em cima dos espectadores quando os suportes foram cortados pela foice tão parceira do martelo que pregara os suportes da tenda. Dir-se-á que se passa bem sem um espectáculo ou outro. O problema é que ficamos todos a esbracejar debaixo do toldo, aos encontrões desesperados uns aos outros, por culpa única e exclusiva do mestre de cerimónias, com um cartãozinho nas mãos que nos fala das maravilhas da transição climática e digital. A confusão é geral. A única solução, é claro, é buscar a saída. Há um pequeno letreiro, ao fundo, que diz: “Eleições”. Pode não resolver tudo – não vai resolver – mas alivia. Com sorte, alivia desta tão catastrófica combinação do mais descarado oportunismo e do mais consumado arcaísmo ideológico. O Circo Costa teria muito sucesso, creio eu, em Zanzibar. Marcelo, de resto, também lá ficaria bem.

CRISE POLÍTICA   POLÍTICA

COMENTÁRIOS:

Antonyo antonyo: Excelente !! Até se podia citar os Monty Python com os seus “ Os Malucos do Circo” Sérgio: Parabéns, muito bom. Pena esse circo ser um espectáculo tão medíocre e TRÁGICO....         Clarisse Seca: Seria cómico, se não fosse trágico  com tão maus actores. Não os conseguiríamos piores em outras paragens. Deram cabo disto tudo e ainda estarão a rir-se de nós todos. Olhem,  o  Sr. Salgado calhou àquele senhor que ilibou Sócrates  e outros de crimes. Caramba que ainda estão em acção!          Liberal Assinante do Local > Clarisse Seca: O toldo pode cair que isso não os tira do palco.          José Barros: Excelente, Paulo Tunhas. É tempo de desmontar mistificações. O País só tem a ganhar.              Gustavo Lopes: Genial forma de descrever o nosso triste fado dos últimos 6 anos... Nada como brincar, pois que isto está sério, disso poucos têm dúvidas!!! Parabéns pelo texto.            josé maria: Muito me vou rir se o PS vier a obter maioria absoluta na próxima eleição legislativa, ó se vou...              Bernardo Vaz Pinto: O circo caiu…esperamos que algo melhor nasça …cabe a todos acordar e perceber a gigantesca fraude que foram estes 6 anos…basta ver os números , em todo o lado disponíveis …            Antonio Bentes: ANTOLÓGICO!!!. Para memória atual e futura. Extraordinário texto. Muitos e muitos parabéns para a sua análise sobre este nosso triste país. Muito obrigado   hugo Carreira Vou roubar! está impecável!               Rita Salgado: Genial! Que alegoria extraordinária!   João Floriano: Crónica excelente e certeira no alvo. Caiu o toldo mas não faltava adrenalina no circo. A palhaçada era excelente, o ilusionismo de primeira qualidade. Um único senão: voava-se no trapézio sem rede.            José Silva: Excelente texto, como uma ironia refinada e que traduz tudo. Obrigado.      Rosa Teixeira: Espetacular.         Paulo Neves: Excelente fábula sobre a nossa triste realidade, para além dos malabarismos propagandísticos do Largo do Rato.         Hipo Tanso: Do melhor que se tem lido no Obs. Referência especial ao "grande bazuco"! Ironia mais demolidora será difícil.               augusto sousa:  A imagem escolhida “do circo Costa“ e seus protagonistas como “o grande basuco “ está de excelência! Paulo Tunhas tem uma escrita escorreita ,agradável de ler, elegante, com grande ironia, e um pensamento estruturado. Identifico-me com a sua análise da mediocridade dos “artistas” e do mestre de cerimónias e do seu consumado arcaísmo. Como é possível a ausência de sentido de estado e de tanto atraso na forma de ver a sociedade e a sua necessidade de desenvolvimento. O “grande bazuco ” que são só lantejoulas e nada sabe fazer, aproveitou e aliou-se ao que mais retrógrado, obsoleto e reaccionário existe na nossa sociedade para …construir um país moderno ! Que tempo perdido.               João Alves > augusto sousa: O problema é se vamos continuar em busca dele …          bento guerra: É muito cedo para deitar foguetes. O "bazuco" vai só mudar de fato, porque o negócio vai continuar, talvez com mais força.            Lidia Santos: Lindo               Maria Nunes: Excelente.           Antes pelo contrário: Caíu o toldo mas não matou ninguém. Continuam lá todos a rastejar, como cobras.          Pedro Ferreira: Esta historia é baseada em factos reais!               Rui Teixeira: So far, o seu melhor texto , Prof! Um circo sem dignidade alguma, fundado na fraude eleitoral e a viver na e da Mentira. Um circo liderado por uma Coisa execrável, verdadeiramente imprópria para consumo. 20 valores.           José Dias: Lamento a maldição lançada sobre o povo de Zanzibar ... não havia "nexexidade"!           Pedro Sena Esteves: Coitados dos "zanzibaros"!! Ninguém merece tal sorte! Como sempre, está genial! Obrigado!       Paulo Cardoso: Perfeito.


quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Textos complementares


“Se um diz mata, outro diz esfola”. E estamos fritos, sem esperança de reverter, nosso fado.

I - Lapsos

A peça teatral protagonizada há sete anos pelas esquerdas será retirada do cartaz por falta de protagonistas interessados em assegurar a sua continuidade.

MARIA JOÃO AVILLEZ

OBSERVADOR, 28 out 2021

1Parece que me enganei. Errei por escrito e errei no écran levando com isso alguns a pensarem – como eu – que nunca o PCP avançaria resoluto para um não ao OE; que o BE ficaria de fora para alívio do próprio António que não o estima por-aí-além; que o governo continuaria a sua falsamente bem-sucedida vida, mesmo que cada vez mais à custa do empobrecimento do país e basta pensar no que entretanto já cedera à esquerda radical em sete anos. O carrossel das cedências como instrumento de manutenção do poder, foi aliás este ano oficializada pelo próprio chefe do governo com a confissão de ser este o orçamento “mais à esquerda de sempre”. O pregão tão insistentemente cantado pelo governo não deixa de ser sintomático da herança que o socialismo vai deixar ao país: retenha-se apenas o penoso espectáculo das últimas reivindicações das esquerdas radicais, oportunisticamente fora da arquitectura e do contexto do próprio orçamento para perceber a dimensão da herança: fortes abanões numa fraca economia, esgarçando ainda mais o tecido empresarial, atrofiando a criação de riqueza, vetando o indispensável crescimento económico: qualquer dia, aqui d’el-rei. Estamos lembrados.

Ao pé disto governar por duodécimos parecer-se-ia com uma medida de muito bom senso se o Presidente não se tivesse precipitado com a palavra “eleições” e calendarizadas ainda para mais… Não era obrigatório. Eleições à pressa e a pressão? Tudo no actual contexto dispensaria uma coisa e outra.

2A extrema-esquerda desistiu de Costa. Que é outra forma de dizer que a peça teatral protagonizada há sete anos pelo PS, PCP e BE será retirada do cartaz por falta de protagonistas interessados em assegurar a sua continuidade. O PC vinha até já aviado de casa com o seu sonoro “niet” ao OE) e o BE foi apanhado em contra mão. O futuro não lhes sorri.

Apesar de tudo espantei-me: habituada às coreografias que no passado enfeitavam esta espécie de comédia de costumes que se viveu nos últimos anos em Portugal, caí na distração: se tivesse “visto” melhor o resultado das autárquicas teria obrigação de ter percebido a mudança de ciclo que anunciavam. E consequentemente, as (inevitáveis) alterações nas estratégias partidárias que se seguiriam. Tão grandes que um Partido Comunista, banindo credos, convicções e ideologia, nos mostrou sempre votar sem remorso e disciplinadamente em quatro orçamentos do ex-presidente do Eurogrupo, para subitamente se mostrar agora expedito e convicto no chumbo deste: “o mais à esquerda” que Portugal teve nas últimas décadas. E de facto: os patrões sentiram-se tão a mais que se levantaram da sala da concertação social e saíram porta fora. Fizeram bem. Horas depois a palavra “lapso” remetida pelo chefe do governo ao patronato, ficou a balançar nos écrans dessa noite: lapso?

Assistiremos a um passa culpas assassino mas não é difícil escolher um responsável. Só há um, chama-se António Costa, e inventou a geringonça e a sua estratégia: se uma e outra poderiam ter alguma razão de ser na primeira legislatura — para alcançar e manter o poder, Costa só encontraria eco e guarida à esquerda — na segunda, como dizia o outro, não havia necessidade. O governo poderia — deveria – ter ganho distância relativamente à extrema-esquerda exibindo uma equidistância que lhe teria permitido ampliar politicamente a sua capacidade de negociação. O Primeiro-Ministro preferiu — e fez — o contrário. Triturou o PSD, tratou mal a direita, humilhou metade do país. Como há males que vêm por bem, o centro e a direita agradecerão. Nada absolutamente lhes pesa neste desastre, nenhuma responsabilidade lhe poderá ser assacada.

Nisto tudo lembro-me de António Guterres: foi mais inteligente e mais rápido. No próprio dia das eleições autárquicas de 2001, era ele primeiro-ministro, percebeu de imediato que tínhamos caído num pântano. Abalou nesse domingo. Costa, conhecido como um político tão habilidoso, parece ter percebido menos. Deve ter sido outro lapso.

3Acredito que a muitos possa não parecer mas em certo sentido Portugal está mais pobre, mais indefeso, menos estruturado, mais desigual do que em 2011. Olhe-se para os algarismos que certificam a dimensão astronómica da nossa dívida; para a cruel desigualdade económica e social entre portugueses, comprovada por números fiáveis; para a juventude, manietada por salários que lhe vetam qualquer futuro onde caiba um bocadinho de ambição; para as trapalhadas da Justiça; a vergonha da Educação; o angustiante estado da Saúde; para o asfixiante cerco do fisco; para a TAP, o estado dos comboios e agora o modo como se lida com os combustíveis. E já agora para a ficção dos fundos europeus — à qual o governo chama deprimentemente bazuka — que não vai chegar ao bolso dos portugueses porque não é a eles nem a ”isso” que se destina.

Tratar do país vai ser mais complexo, mais duro e mais ingrato do que em 2011 e não estou obviamente com isto a sub- estimar o ciclópico trabalho de Passos Coelho para nos tirar do fundo de um poço ( tirou e ganhou a seguir o prémio das urnas) mas a constatar uma evidência: dez anos depois o país está mais doente mesmo que não pareça ou que a retórica socialista — conforme se ouviu no parlamento — continue incansavelmente ilusória.

4Repito: à hora a que escrevo nada sei sobre o “como” e o “quando” das eleições. Mas há uma coisa que sei: se forem um galope, o país é que sofre e nada ganha. À pressa, as eleições confundirão mais do que clarificarão. Perder-se-á tempo, oportunidades e dinheiro.

Não lhe parece, sr. Presidente que seria sensato evitar um lapso deste tamanho?

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II -Os dois erros de Marcelo (que Costa agradece)

Marcelo errou ao agir como se valesse tudo para aprovar o OE 2022. E errou quando apontou a eleições em Janeiro (com a direita em renovação). Ambos os erros servem as intenções de António Costa.

ALEXANDRE HOMEM CRISTO

OBSERVADOR, 28 out 2021

O Presidente da República envolveu-se directamente nas negociações com vista à aprovação do Orçamento de Estado para 2022 (OE 2022). Tudo normal? Nem por isso. Por um lado, ouvimos os habituais apelos à estabilidade política, que marcam a sua Presidência desde o primeiro mandato. Mas, por outro lado, Marcelo passou o risco. Fê-lo quando usou como argumento para a aprovação do OE 2022 um eventual surgimento de nova pandemia — o que será isto, senão a manipulação pelo medo? Passou o risco quando dramatizou a situação e equivaleu a não-aprovação do OE 2022 a uma crise política — ora, refira-se que em vários países europeus há orçamentos que não passam à primeira e governos em gestão durante meses. E, por fim, passou o risco quando estabeleceu contactos directos com deputados, para os convencer a virar o seu sentido de voto e até a quebrar disciplinas partidárias (com o PSD-Madeira) — o que é verdadeiramente inconcebível.

A tradução é simples: Marcelo pisou o risco porque não aceita limites e porque se deixou levar pelo erro de percepção de que ter um Orçamento péssimo aprovado seria melhor do que ter um Orçamento rejeitado. Talvez o tenha feito para, na opinião pública, legitimar a sua posição e tornar claro que exerceu todos os esforços para evitar um cenário de ruptura. Ou talvez o tenha feito porque, simplesmente, acreditou mesmo nesse erro de percepção. Na prática, faz pouca diferença: o Presidente da República colocou na cabeça dos portugueses que valia tudo para aprovar o OE 2022 — e fez mal.

As medidas que o PS e os parceiros da geringonça negociaram em público converteram o OE 2022 numa manta de retalhos. Pior: várias das exigências de BE e PCP, como as da legislação laboral, constituem retrocessos graves. Como tal, o ponto tornou-se este: o amontoar de cedências do PS à sua esquerda converteu a aprovação deste OE 2022 na pior solução possível para o país. Não haja qualquer dúvida: a ideia de que a aprovação do OE 2022 e que a estabilidade política são bens em si mesmos, e que por isso justificam a adesão a este vale-tudo, é completamente errada. Nada é pior do que ter um OE 2022 que faz o país recuar, em vez de avançar.

O segundo erro de Marcelo foi informar que, perante a não-aprovação do OE 2022, iniciaria muito rapidamente diligências para dissolver o parlamento e convocar eleições legislativas, que nesses termos se poderiam realizar logo em Janeiro. Esta pressa é contraproducente. Desde logo, porque saltou etapasnão ouviu partidos nem o Conselho de Estado, decidiu antes de os factos estarem consumados. Mais importante ainda: até para preservar a estabilidade política e garantir o regular funcionamento das instituições, o Presidente da República deve ter em conta a situação dos partidos da oposição — e estes estão em processos de eleições internas. Goste-se ou não, dê jeito ou não, as coisas são mesmo assim: sem partidos, não há democracia. Não há qualquer vantagem para o país em ir para eleições legislativas em circunstâncias temporais que impossibilitam PSD e CDS de apresentar ao eleitorado as suas equipas (haja ou não mudança de lideranças), explicar as suas propostas e fazer campanha nas ruas. Com eleições em Janeiro, tal seria impossível — haveria apenas tempo para as eleições internas. A razoabilidade impõe que as eleições legislativas só possam realizar-se a partir de meio de Fevereiro.

Marcelo errou ao agir como se valesse tudo para a aprovação do OE 2022. E errou quando apontou a eleições em Janeiro (quando a direita está em renovação). O que têm estes erros em comum? Servem as intenções de António Costa — que aprecia a dramatização à volta da aprovação do OE 2022 e beneficiaria da impreparação da direita num calendário eleitoral apertado. É tudo uma grande coincidência? Talvez haja quem acredite que sim. Mas, na política, o que parece é.

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E já agora

 

Uma crónica enviada pelo Luís, de um autor não identificado, mas de conteúdo sim:

 

QUE FUTURO DE UM PAÍS SEM RUMO? (27OUT21)

“Nenhum vento será favorável se não soubermos o Porto de destino” (Séneca, Ano IV a-C).

Triste espectáculo de António Costa no dia em que é reprovado o Orçamento. Gosta de frases feitas sem saber o seu sentido. Falou de ventos e marés, mas nunca soube qual o Porto de destino.

A grave crise política, económica e social vai conduzir o País a um estado de emergência permanente, que põe em causa o normal funcionamento de um Estado de direito. A complexidade da crise e os seus efeitos tendem a provocar modificações da sociedade e do sistema político. O principal responsável é do demagogo e faccioso António Costa, que nunca teve cultura democrática!

A situação que se vive de permanente encenação com dramatização, a pressão e chantagem do Governo e do BE e PCP é crescentemente insustentável conduzindo à ingovernabilidade do País. Costa ganha, entretanto, tempo para evitar sair de cena derrotado, até para a História: nem liderou o País a partir de uma visão com estratégia, nem fez mais do que sobreviver à circunstância do momento.

Parafraseando o próprio: “Era difícil imaginar tanto disparate, tanta asneira, tanta insensibilidade, tanta irresponsabilidade”… “actos de dissimulação”, promovendo privilegiados -, cujo principal objectivo parece ser “dividir para reinar”. Por outro lado, a dramatização e incerteza potenciam a conflitualidade institucional e social. Coexiste a combinação perigosa entre incompetência e “revanchismo”!

O grande erro de António Costa foi desvalorizar e hostilizar a oposição do PSD ao alienar intempestivamente as hipóteses de diálogo e bom-senso, apenas para dar sinal de lealdade à “gerigonça” (desengonçada) e conseguir sobrepor os interesses partidários aos interesses nacionais.