domingo, 29 de janeiro de 2023

Tudo impostura


É o que sempre me pareceu a atitude de elegância mental do pensamento da tal Iniciativa, na ambiguidade dos seus ditames e comportamentos. Nada consistente, apenas uma falsa elegância de um discurso a querer parecer superior, mas apenas irrisório, na sua incoerência modernista, desdobrada entre o parecer e o ser…

A doença infantil da IL

O contrário de desfilar em marchas ridículas não é ser conservador, fascista, racista, homofóbico, etc. É só alargar aos “costumes” a racionalidade que a IL trouxe à discussão da economia.

ALBERTO GONÇALVES, colunista do OBSERVADOR

OBSERVADOR, 28 jan. 2023, 00:2171

No congresso da Iniciativa Liberal (IL), um orador, de voz trémula, confessa ter “medo de adormecer agarrado ao sonho liberal e acordar agarrado a um partido conservador”. Imagino os pesadelos. É que o homem quer “continuar a acordar num partido que desça a avenida no dia 25 de Abril”. De repente, a voz dele salta do trémulo para a frequência das gémeas Mortágua, e o mero conservadorismo ganha foros de Terceiro Reich: “Não à extrema-direita, fascista, racista, xenófoba e homofóbica!”. A julgar pelo barulho, a sala aprovou.

Vários membros da IL, e um artigo do João Caetano Dias no Observador, garantem-me que semelhantes entusiasmos ou são residuais no partido ou se devem à inexperiência de muitos dos congressistas. Também há quem, também na IL, me garanta que o partido está repleto de fervorosos idênticos ao citado. Não sei. Sei que a IL já desceu a avenida no 25 de Abril, e se teve de o fazer sozinha não foi porque se visse impedida pela “extrema-direita, fascista, racista, xenófoba e homofóbica”: a proibição veio da esquerda em peso, democrática e ecuménica.

Ao invés do que a direcção da IL pensou, e com certeza ainda pensa, a mera intenção de desfilar ao lado de forças comunistas e do actual PS não reivindica “Abril”. Apenas legitima os propósitos dos que tentaram, e quase conseguiram, aproveitar “Abril” para instaurar uma ditadura. E esta tendência da IL para a ilusão, ou para a inocência, não me parece residual nem se esgota nas comemorações do golpe de Estado de 1974.

Já vi, por exemplo, delegações da IL em marchas do “orgulho” gay e provavelmente perdi, por distracção, participações da IL em marchas de orgulhos similares. É possível que a IL, ou uma parcela da IL, se limite a apreciar convívios ao ar livre. Porém, é mais provável que aconteça o que é natural acontecer com gente que aplaude o que outro orador afirmou no congresso: “Se uma ideia liberal, em algum momento e por obra do acaso, é partilhada pelo Bloco de Esquerda, não somos nós que estamos mal: são eles que estão bem”.

Eis a doença infantil da IL, ou de uma parte da IL: imaginar que, em matéria de “costumes”, a liberdade passa perto do BE. Não passa. Nunca passou. Se uma ideia é partilhada pela IL e pelo BE, ambos estão errados e a ideia não é liberal. Tirando o haxixe, que é tema para adolescentes, em que ocasião o BE defendeu alguma coisa cuja finalidade não fosse a opressão? Parafraseando um comentador desportivo, diga uma! Diga uma! Diga uma! Não digo porque não me ocorre. Ocorre-me que, em debate das últimas “legislativas”, Catarina Martins usou contra João Cotrim Figueiredo o facto de a IL se ter oposto a diversas restrições aplicadas a pretexto da Covid. Ou seja: o BE acusou a IL de não ajudar à repressão das massas, que é o sonho a que os leninistas se agarram ao adormecer. Curiosamente, por esquecimento ou por recear maçadas, Cotrim Figueiredo, um bom parlamentar, negou que tivesse rejeitado as proibições. Proibir é o que move o BE, e é triste que às vezes a IL ache necessário esconder a discordância. E que às vezes ache importante negá-la.

É preciso explicar? Berrar pelas minorias sexuais, raciais ou o que calhar não significa real interesse em reconhecer-lhes a dignidade que, em princípio, qualquer pessoa merece. Os delírios “identitários” consistem justamente em subjugar as pessoas a caldos colectivos – as “comunidades” – que as tornam utilizáveis para brincar aos conflitos sociais. Aqui não há indivíduos, por definição dotados de autonomia e especificidade, e sim arquétipos construídos sob instruções como bonecos da Lego. Nada devia ser tão enxovalhante para um homossexual ou um negro quanto passearem “orgulho” por uma característica que não escolheram, não os define e, numa sociedade decente, não os distingue. Discriminar, positiva ou negativamente, cidadãos pelos parceiros que preferem ou pela melanina de que dispõem é um insulto aos que combateram a sério pelos direitos civis. E é sobretudo um abuso de seres humanos.

A IL, ou um pedaço excitável da IL, não identifica o abuso e, talvez sem querer, confunde-o com “liberalismo”. Repito: é o contrário. E o contrário de desfilar em marchas ridículas não é ser conservador, e muito menos de extrema-direita, fascista, racista, homofóbico, etc. É só ter a decência de respeitar os adultos da espécie enquanto tal. É só alargar aos “costumes” a racionalidade que a IL trouxe à discussão da economia. É só traçar as famosas “linhas vermelhas” aquém da cultura de segregação, padronização e coacção que a loucura “woke” representa. É só perceber que no BE e em todos os projectos totalitários não existem bocadinhos “bons” ou sequer aproveitáveis: é da natureza daquilo ser intolerante da cabeça aos pés. Convinha que a IL pensasse com a primeira e não com os segundos. Pedir o voto a jovens baralhados de idades sortidas não implica entregar-lhes o partido. Ou assim espero.

INICIATIVA LIBERAL.   POLÍTICA    BLOCO DE ESQUERDA

COMENTÁRIOS (de 71)

Liberales Semper Erexitque: Não tenho simpatia pelos comunistas caviar que são os burguesinhos de esquerda, mas não posso aceitar frases como esta: Se uma ideia é partilhada pela IL e pelo BE, ambos estão errados e a ideia não é liberal. Deplorável artigo é este, aparentemente de alguém que se vê a si mesmo como o mentor de um jovem partido. Quanto aos militantes da IL que insistem em demarcar-se da Chaga racista, deixo-lhes o meu aplauso. No dia em que a direcção da IL conviver tranquilamente com o deputado André, a IL perderá certamente o meu voto.                João Pimentel Ferreira: Se uma ideia é partilhada pela IL e pelo BE, ambos estão errados e a ideia não é liberal. Ambos defendem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não é uma ideia liberal?                   Maria Paula Silva: Muito bom! É triste chegar à conclusão que o partido que parecia ser uma lufada de ar fresco cheio de ideias boas (IL), afinal não passa de um...flop.... p.s. . mais infantil do que isso, só o Dr. Costa.                      Filipe Freitas: Genial, obrigado Alberto Gonçalves! Com estas tendências woke e um novo presidente que afirmou nunca se coligar com outro partido não-socialista acusando-os de populismos e extremismos, a IL está pura e simplesmente a dar tiros nos pés. Tanto potencial para trazer algo de valor ao país e estão a dançar ao batuque do PS contribuindo para que a situação se mantenha.                     TIM DO Ó: Boa análise à IL. Só uma nota. O partido Chega não é com certeza perfeito, mas é o único que combate a terrível cultura Woke.                Joao Conceicao: A IL se for por esse caminho da fantasia de atacar extremas-direitas invisíveis em Portugal, em vez de se focar no problema real da extrema-esquerda e de PS dono disto tudo então perdem o meu voto nas próximas legislativas.                 Tristão: A IL devia centrar-se sobretudo na liberalização da economia, aliás o que fez e bem Cotrim. Esta deve ser a cola que une os seus militantes ao partido, as questões dos costumes e afins devem ser evitadas pois são temas divisórios e muito da esfera individual. É apenas um conselho se não se querem transformar numa espécie de BE edição liberal.           Manuel Elias: Soberbo. Desmontou a IL. Será que é um caso perdido? Que pena.                     João Ramos: Quanto a costumes a IL pouco se diferencia do BE e é pena, é mais um caso de complexo de esquerda e a prova de muito pouca maturidade política, um partido liberal que se respeite deve pensar com a cabeça e não com o excitamento dos integralistas que de liberal não têm nada!                           F. Mendes: Lamento que o Alberto Gonçalves desperdice o seu grande talento, dedicando mais este artigo a nulidades como o (a ?) IL. Não sendo um movimento particularmente nocivo, nada traz de novo à política portuguesa, exceptuando alguns disparates avulsos, mais comuns na extrema-esquerda. O (A?) IL começa logo por ter um problema de identidade de género. Suprema ironia! Por favor, AG, com este desgoverno, "PR", podridão crescente e tantos temas para tratar, faça-nos rir e pensar sobre coisas que interessam.                     Vitor Batista > TIM DO Ó: Neste momento, o Chega é mais do que perfeito para o arrazoado politico e partidário que existe, é o único que combate o delírio "fracturante".              Miguel Sanches: Brilhante, Alberto Gonçalves. Tudo clarinho.                     Seknevasse: De facto, está muito bem visto. Concordo.                    TIM DO Ó > Joao Conceicao: A IL está a ser um aliado do PS ao combater a direita. Recordo-me que até queriam sentar os seus deputados ao lado dos do PS na assembleia da república.                  Fernando Marques: São entusiasmos residuais que se devem à inexperiência ou infiltração, que vão dar de cara com a realidade do que é um partido liberal, ou então acaba o partido liberal… Quero eu acreditar como liberal que sou                     José B. Dias >servus inutilis: Podia elaborar para que alguém mais consiga entender o tal de "absurdo"?              Vitor Batista > Pedro Belo: Então fique-se com o saco de gatos dos xuxas, pode ser que ganhe uns sapatos "loubotin"quem sabe!...             Joaquim Almeida: Excelente. A.G. a derramar a luz necessária e indispensável sobre as cabecinhas chochas da IL. Pérolas a porcos ? 

 

Mais uma achega à “chaladice”


Da questão descrita no texto anterior, de Eugénia de Vasconcellos, desta feita da autoria de P. Gonçalo  Portocarrero de Almada.

Lola e o racismo de género

Só haverá igualdade quando as pessoas não forem preteridas, nem preferidas, em função da sua raça, cor, religião ou opção de vida sexual.

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista

OBSERVADOR, 28 jan. 2023, 00:1915

Conta-se que Bernard Shaw, para a estreia de uma sua peça teatral, convidou Winston Churchill. Enviou ao primeiro-ministro inglês dois convites: um para ele e o outro para um amigo… se o tivesse!

Apesar de Pedro Almodóvar, que realizou o filme ‘Tudo sobre a minha mãe’, não me ter convidado para a representação da homónima peça, de Samuel Adamson, em exibição no Teatro São Luís, em Lisboa, é público o ocorrido numa recente representação.

O episódio pode ser resumido em poucas palavras: uma activista transsexual invadiu o palco, quando intervinha uma personagem da peça, Lola, também trans, interpretada por André Patrício, o qual não se identifica, na vida real, com essa condição. A intrusa acusou o referido actor de ser transfake, denominação que se atribui a quem interpreta uma personagem transsexual, sem o ser, à imagem e semelhança do blackface que é o “nome que é dado à representação por actores brancos de personagens negras” (Público, 23-1-23).

Parece ter escapado à activista que se tratava de uma representação teatral e, portanto, não era exigível a identificação da personagem representada com a vida real do actor respectivo. Aliás, é muito frequente, tanto no teatro como no cinema, que pessoas de uma determinada condição sejam interpretados por actores sem essa característica: um não cego que interpreta um invisual, ou um actor saudável que representa um autista.

Embora não haja oposição a que um actor, ou actriz, de cor, represente uma personagem histórica que o não seja na vida real, o contrário já não é verdade, porque o blakface pressupõe que se está a usurpar esse papel, que deveria ser desempenhado por quem tenha a condição étnica da personagem representada.

Compreende-se que um Nelson Mandela loirinho e de olhos azuis talvez não seja a melhor opção e, portanto, parece razoável exigir uma certa afinidade entre a personagem e quem a interpreta. O que não parece admissível é que esse critério não seja aplicado universalmente: se é incongruente, por hipótese, um Gungunhana interpretado por um finlandês albino, não é menos incoerente um D. Afonso Henriques negro retinto!

A exclusão de alguém, por razão da sua raça, é, obviamente, racista e, como tal, inconstitucional. É tanto mais injusta quanto a sua contrária – uma pessoa de etnia não branca representar uma personagem branca – é aceitável e até louvável, em ordem à afirmação, certamente verdadeira, da comum dignidade e igualdade humana! Felizmente, passou-se da injusta discriminação de alguns à igualdade entre todos, mas agora, desgraçadamente, a mentalidade woke quer impor, de forma totalitária, um novo racismo, pela supremacia das raças antigamente exploradas!

E, quem diz raças, diz também ‘géneros’. Com efeito, que direito tinha a dita trans que, pelos vistos, exerce como prostituta, para interromper um espectáculo público?! Quem é ela para decidir quem deve fazer parte do elenco da peça?! Quem a legitimou para apear o actor André Patrício?! Quem defende e indemniza todos os que, tendo comprado o respectivo bilhete, viram frustrado o seu direito a assistir ao espectáculo?!

Não obstante a gravidade deste ataque contra a liberdade artística, o pior ainda estava por vir. Com efeito, o Teatro Municipal São Luís não aplicou a lei, que estabelece que, “durante a representação, exibição ou execução de espectáculos, os espectadores devem manter-se nos seus lugares, para não perturbarem os artistas e o público”, e ainda que, “sempre que um espectador perturbar a realização do espectáculo, deve ser obrigado a sair do recinto, sem direito a reembolso” (nº 1 e 2 do artigo 10º do Decreto-Lei nº 23/2014, de 14 de Fevereiro, alterado pelo Decreto-Lei nº 90/2019, de 5 de Julho). Foi ainda mais longe, pois teve a indignidade de substituir o actor André Patrício por uma actriz transsexual! Só faltou que pagasse à indignada espectadora, uma indemnização de meio milhão de euros!

Pergunta-se então: se uma pessoa transsexual pode, impunemente, interromper uma peça de teatro, um cristão também pode fazer o mesmo, sempre que seja ofendida a sua fé? Se a direcção do teatro foi sensível à motivação da espectadora trans, também o será em relação à maioritária religião dos portugueses?! Ou, pelo contrário, sendo iguais todos os cidadãos, em questões artísticas alguns são mais iguais do que os outros?!

Não sou, nem nunca fui, partidário da censura, porque prefiro a liberdade de pensamento e de expressão, também artística. Se a todos os cidadãos deve ser reconhecido o direito à livre expressão, todos têm também o dever de respeitar o próximo, bem como a sua opção de vida e as suas crenças religiosas. Mas nenhum membro de uma minoria tem o direito de impor os seus gostos, contra a liberdade dos outros. Ceder a essa ofensa gratuita é, de facto, prostituir a liberdade artística e ser cúmplice da chantagem das minorias.

A este propósito, escreveu acertadamente Ana Bárbara Pedrosa, na sua página do Facebook, no passado dia 20: “Dia após dia, a loucura ganha espaço. Os actores devem deixar de ser actores, servindo apenas para serem eles mesmos. É o fim da representação, a vitória da representatividade. Sob este ponto de vista, a arte é um instrumento a ser usado para um fim pré-determinado. Deixa de existir com potencial transformador, deixa de existir como pergunta, existe como panfleto e nada mais”. E ainda, Afonso Reis Cabral: “O teatro, a literatura e o cinema são, para quem invade palcos por causa do ‘transfake’, um meio para atingir um fim. A peça pode ser uma bodega, o filme deplorável, o livro uma mediocridade – tanto faz, desde que alerte consciências e lute contra a injustiça. Desde que os represente como acham que devem ser representados” (JN, 25-1-23). Não se trata apenas da politização da arte, mas da sua destruição.

A opção sexual de um artista não justifica que seja discriminado, mas também não é razão para que seja favorecido. No entanto, um actor foi preterido por não ser transsexual, sendo substituído por outro que o é, e esta troca, em termos éticos, é inadmissível e, juridicamente, inconstitucional. Só haverá igualdade quando as pessoas não forem preferidas, nem preteridas, em função da sua raça, cor, religião ou opção de vida. André Patrício foi afastado por um motivo racista, quando o único argumento válido para contratar, ou impugnar, um actor, é a sua arte. Para além do racismo étnico, há que combater o racismo de género, que hierarquiza os cidadãos em função das suas opções sexuais.

Os activistas woke, ao se oporem ao blackface e ao transfake, também têm que ser forçosamente contrários, por uma questão da mais elementar coerência, ao sacerdócio feminino. O padre faz as vezes de Cristo, ou seja, representa-o e, portanto, segundo esta ideologia, seria incongruente que esse papel fosse entregue a alguém com uma identidade sexual que não seja a de Jesus. Mesmo não sendo o actor igual à personagem representada, deve a ela parecer-se tanto quanto possível: nenhum coreógrafo pede a uma mulher que faça de Romeu, nem a um homem que represente Julieta! Portanto, ao blackface e ao transfake, há que acrescentar o priestface!

Winston Churchill não era homem para não reagir a uma provocação. Com o seu típico humor, agradeceu a Bernard Shaw o duplo convite, mas disse que, como não poderia ir à estreia, iria a uma segunda representação… se houvesse!

TRANSGÉNERO   SOCIEDADE   POLITICAMENTE CORRETO    TEATRO SÃO LUIZ   TEATRO   CULTURA

COMENTÁRIOS

Rui Lima O que está a acontecer é combater um mal provocando um mal muito maior, o racismo da seita Woke é muito mais violento e agressivo que a descriminação que as seriam vítimas algumas minorias . É em África que há o recorde de intolerância pela cor da pele a perseguição de pessoas com albinismo com a passividade das autoridades locais e internacionais, temos a minoria mais perseguida no mundo sem que isso incomode a seita do politicamente correcto. Vejo que há crimes que são tolerados desde que o agressor pertença ao bom grupo , porque para eles só pode haver um tipo de culpado o homem branco .

sábado, 28 de janeiro de 2023

Somos ou não somos boa gente?

 

Um “casus belli” muito nosso, de falta de emprego, afinal. Mas arranjou-se emprego, de bons que somos e é isso que conta. Quanto às razões de Eugénia Vasconcellos, são demasiada areia para a nossa camionete, julgo eu, embora também tenha visto "Tootsie" e o Dusty Hoffman nos seus dois papéis e ache as razões de EV intocáveis, mas que havemos de fazer?

Fake, o paradoxo da chaladice

O São Luiz foi invadido pelo activismo tóxico. Quem desrespeitou quem? André Patrício não desrespeitou ninguém, foi desrespeitado por quem lhe exigiu respeito. Maria João Vaz também foi desrespeitada.

EUGÉNIA DE VASCONCELLOS Poeta, ensaísta, escritora

OBSERVADOR, 27 jan. 2023, 00:1523

O futuro ficou para trás no Teatro São Luiz quando Keyla Brasil, activista trans, travesti, «actriz, prostituta», invadiu o palco onde se levava à cena a adaptação de Tudo Sobre a Minha Mãe, e humilhou e responsabilizou um seu colega, o actor André Patrício, pelo seu desemprego e prostituição. Pior. Subalternizou-se o trabalho de André Patrício a um protesto e a uma agenda quando, logo no dia seguinte, o seu papel lhe foi retirado. Pior ainda. Menorizou-se uma actriz, Maria João Vaz, mulher transgénero, ao atribuir-lhe o papel retirado a André Patrício, por ela ser transgénero, não por ser actriz.

Regredimos culturalmente: só uma mulher trans poderá, de acordo com a nova cartilha, interpretar uma mulher trans. Limitámos a representação ao mundo conhecido: deixou, portanto, de ser representação para passar a ser apresentação. Pergunto: só uma mulher trans pode escrever sobre a mulher trans? Isso verte em todas as profissões relacionadas com a experiência transgénero, da psiquiatria à cirurgia?

Quero ser clara: repugna-me e condeno qualquer acto de violência e discriminação ou alienação de direitos do homem e da mulher transgénero. E defenderei sempre a luta política pela igualdade de direitos. Desta ou de outra minoria. Mas o que aconteceu é de outra natureza. A violência, a discriminação e a alienação de direitos recaíram, principalmente, sobre o actor André Patrício durante o exercício da sua profissão. Não por demérito seu como actor, não foi pateado, mas por ter nascido homem e se identificar como homem, ou seja, cisgénero na novilíngua, e interpretar o papel de uma mulher transgénero – para além de outros dois papéis.

O vídeo do acontecimento está disponível e aconselho-o. Nem que seja porque todas as categorias se confundem: lugar político e palco; activismo e arte e cultura; activistas e actores.

Os insultos de transfake que se vêem e ouvem são o paradoxo de toda esta chaladice.

Fake, em português falso ou fingido é, afinal, a chave da representação. Fingir. Fingir muito, ser tão mas tão falso e tão bem, que quem assiste acredita. No caso, acreditar que André Patrício, é Lola, uma mulher transgénero.

Há milhares de exemplos no teatro, no cinema, em séries, deste agora inaceitável fake. Momentos de grandeza, de beleza estarrecedora. Os quais, e não por ironia, fizeram mais pelas causas que neles estão implícitas do que qualquer ofensiva e humilhante invasão de palco.

Em Brokeback Mountain, de Ang Lee, com o já falecido Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, vê-se o amor e a paixão como amor e paixão, independentemente de ser hetero ou homossexual. De igual modo, vê-se o que é a homofobia através da memória de infância de Jack, o personagem de Jake Gyllenhaal, e da sua própria morte. Nenhum dos dois actores era homossexual. E aqueles que no filme espancam e deixam para morrer Jack decerto não são assassinos nem homofóbicos, não os foram buscar à cadeia. Hão-de ter, de certeza absoluta, carteira profissional de, pasme-se, actores.

De acordo com os cada vez mais segmentados critérios do politicamente correcto, a cada dia mais divisor e puritano nas suas instruções, o excelente Brokeback Mountain é um filme homofake. E nem sei o que possa ser dito de uma das minhas séries de eleição, Anjos na América, de Mike Nichols. Afinal, a pretexto do HIV e da sida, e de como foram vividos nos anos 80 politica, religiosa e socialmente, expõe a dor, a solidão, a perda.

Na série, os actores multiplicam papéis. Prior, doente terminal, é na realidade um actor saudável. A actriz Meryl Streep, além de ser um dos anjos, interpreta, entre outros, um homem velho e judeu, o rabi Chemelwtiz, num fingimento tal, numa tão completa falsidade que é irreconhecível. Temos, assim, um homem saudável a representar um doente. Uma mulher cisgénero a fazer de anjo, uma criatura assexuada, dizem. E de rabi. Ora, Meryl não é judia. Pode interpretar um homem pertencente a uma minoria sujeita a perseguição histórica e genocídio? E para mais, velho, sendo que na altura a actriz estava distante dos critérios geriátricos. Mil vezes fake. É caso para gritar «desce daí, respeita esse palco»?

Ou é caso para perguntar: uma mulher transgénero não pode fazer de homem judeu e velho? Não pode interpretar uma mulher heterossexual? Um anjo? Um doente terminal? A ser desta forma, isto é, de acordo com os critérios de Keyla Brasil, terá uma vida profissional muito limitada. Ou então entramos directamente na mirabolante lógica woke: os opressores/maioritários/apropriadores não podem interpretar trans nem isto nem aquilo, mas os oprimidos/minoritários/apropriados podem interpretar todo e qualquer papel.

O palco do São Luiz foi invadido pelo activismo tóxico. Quem desrespeitou quem, de facto? André Patrício não desrespeitou ninguém. Mas foi desrespeitado por quem lhe exigiu respeito. Maria João Vaz também foi desrespeitada.

Este é o mesmo activismo trans cuja toxicidade tem por alvo, em regra, as mulheres agora ditas cisgénero heterossexuais ou lésbicas sexualmente atraídas por outras mulheres cisgénero. Desta vez a toxicidade transbordou e levou de caminho um homem cisgénero.

Há outro activismo trans, não tóxico. É o que tem lugar no palco político.

Em cena, no teatro, está, ou deve estar, o talento, esse mistério onde se fundem as competências técnicas, a vocação e a chama.

No primeiro texto que escrevi para este jornal, falei sobre o caso da tradução do poema de Amanda Gorman, a jovem poeta, modelo e activista que se tornou global na tomada de posse de Joe Biden, ao dizer o seu The Hill We Climb. E de como nos Países Baixos, e depois um pouco por todo lado, se levantou a estapafúrdia questão de que a tradução daquele texto deveria ser feita por uma mulher negra – tradutores de trabalho provado, Booker Prize incluído, viram interrompido o seu trabalho. Porque não exigir também que os tradutores fossem modelos e activistas e de 20 anos?

Sou poeta e tenho poesia traduzida. Não quero saber nem a cor, nem o género, nem com quem dorme, nem em quem vota quem me traduz: desejo apenas um bom tradutor. E um bom filme. Uma boa série. Um bom actor em palco. O que cabe num mundo diverso e plural. E um mundo diverso e plural que não ceda ao activismo tóxico.

O São Luiz cedeu. Fez mal.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

TEATRO   CULTURA   TRANSGÉNERO   SOCIEDADE   POLITICAMENTE CORRECTO

Esclarecimento da história

ANDRÉ FILIPE ANTUNES: Texto

AGÊNCIA LUSA: Texto

OBSERVADOR, 20 jan. 2023, 21:03 

Actriz e prostituta travesti interrompe peça "Tudo Sobre a Minha Mãe" em protesto pela inclusão trans.

Acção de actriz e prostituta interrompeu o espectáculo com apelos à inclusão: "Não temos espaço para estarmos aqui neste palco”. Actriz trans Maria João Vaz interpreta papel já a partir desta sexta-feira.

A plateia do Teatro São Luiz que esta quinta-feira à noite assistia a uma performance da peça “Tudo Sobre a Minha Mãe” foi surpreendida quando Keyla Brasil, actriz e performer travesti, interrompeu o espectáculo em protesto contra a falta de representatividade de actores transgénero – um protesto que acabou por ter consequências rápidas.

Baseada no filme homónimo de Pedro Almodóvar, a peça parte de um texto de Samuel Adamson (com tradução de Hugo van der Ding) e encenação de Daniel Gorjão. A história inclui duas personagens trans, Agrado e Lola. A primeira interpretada pela actriz trans brasileira Gaya de Medeiros, e a segunda pelo actor cisgénero André Patrício.

Foi precisamente este último o alvo do protesto. No vídeo partilhado na página de Instagram do duo musical Fado Bicha (que participou na organização da “acção direta”), é possível ver Keyla Brasil a subir, seminua, ao palco, gritando a palavra “transfake” e exigindo a André Patrício que descesse do palco e tivesse “respeito” por aquele lugar.

Brasil prosseguiu a sua intervenção durante cerca de três minutos. “Gente, boa noite. Chamo-me Keyla Brasil. Sou actriz, sou prostituta”. Enquanto a cortina vermelha ia descendo, a manifestante ignorou os apelos da produção para que saísse do palco, atacando a precariedade dos actores trans em Portugal:

O que está a acontecer agora é um assassinato e um apagamento das identidades travesti. Se contrataram quatro mulheres e três homens, porque é que não contrataram duas pessoas trans para fazer a personagem? Sabem porque é que eu trabalho como prostituta? (…) Porque não temos espaço para estarmos aqui neste palco”.

A intervenção, que a princípio gerou confusão e apupos de respeito pelos actores, acabou por colher o apoio da plateia, que aplaudiu particularmente após a revelação feita pela performer de que teria tido um revólver apontado à cara dias antes enquanto trabalhava como prostituta. “Por causa disto ia sendo morta! Não estão dando oportunidade para um travesti trabalhar”.

A questão da representatividade trans na peça não foi alheia à produção da peça. Na folha de sala do espectáculo, Daniel Gorjão já admitia que “este não é um espetáculo perfeito também neste aspecto, porque a Lola é interpretada por um homem e não por uma mulher trans”, antes de justificar a decisão com pressupostos financeiros. “Infelizmente, as lógicas de produção, às vezes, impõem-se às lógicas artísticas”, pode ler-se.

Na Instagram, os Fado Bicha já tinham, anteriormente, dado voz a um manifesto onde apelaram ao boicote da peça, explicando também a origem e significado do termotransfake – “descreve a acção de artistas que participam na exclusão de trabalhadores culturais trans, através da apropriação de papéis trans”.

O elenco de actores voltou a subir ao palco para falar com a activista: Gaya de Medeiros (a única atriz trans da peça), de punho erguido numa demonstração de apoio, deixou um apelo à plateia:“Quero que vocês entendam com generosidade, de coração. A liberdade de uma não será a liberdade de todas. Eu sou apenas um começo. Isto aqui não está como deveria estar. Mas acho que hoje este acto da Keyla Brasil, uma artista que está na prostituição, deve entrar na história de Portugal, para que se entenda a importância destes corpos ocuparem estes espaços para contarem as suas histórias. Isto não é contra o actor e o director. Isto é contra uma denúncia histórica, que andamos a fazer há muitos anos”.

Actriz trans Maria João Vaz interpreta Lola a partir desta sexta-feira

Após o protesto, a sessão não foi retomada. Esta sexta-feira, quando “Tudo Sobre a Minha Mãe” voltar a subir ao palco, terá mudanças no elenco, com a atriz trans Maria João Vaz a substituir André Patrício no papel de Lola. Patrício não abandona a peça ainda assim: desempenha três papéis no enredo e deixa apenas de desempenhar Lola.

O anúncio, feito na página de Instagram do São Luiz, refere que a mudança foi possível “no seguimento de vários actos de contestação pela representação de uma personagem trans por um actor cis e pela criação de condições de acesso e representatividade para pessoas trans” e foi largamente elogiada nas redes sociais.

Em declarações à Agência Lusa, Daniel Gorjão ofereceu algumas explicações. “Como já assumi, tentei fazer um gesto de representatividade que não foi bem acolhido pela comunidade trans”. O encenador mostrou-se “solidário” com “a sua luta pelo acesso ao trabalho e pela representatividade” da comunidade trans, com quem “sempre” esteve, discordando, porém, da forma “violenta” como o fazem.

“Estou com a comunidade, sempre estive”, frisou, ressalvando que “a mudança faz-se mudando”, pelo que já esta noite vão ter mais uma actriz trans no elenco, a fazer o papel de Lola, no caso a actriz Maria João Vaz. A “possibilidade” surge agora, prosseguiu Gorjão, “depois de todos os acontecimentos”, uma vez “que se reuniram condições”, com “o total suporte dos teatros produtores”.

“Foi isto que aconteceu. Nem tudo sempre é apenas uma questão de vontade. Como eu já tinha explicado, existem sempre condicionantes na criação de um espetáculo”, lembrou Daniel Gorjão à Lusa, lamentando os acontecimentos e sublinhando “nunca ter tido a intenção de ofender quem quer que seja”. “E o meu trabalho também pode falar por mim nestas questões”, concluiu.