Há muito estabelecidas
O que a Alemanha e a Suécia nos dizem sobre o “não é não”
A "cerca
sanitária" em redor da AfD não a enfraqueceu, pelo contrário. O mesmo
sucede com o partido de Le Pen. Quando é que perceberão que essa política não
defende a democracia, protege, é, a esquerda?
JOSÉ MANUEL FERNANDES
OBSERVADOR 16 set. 2026, 00:28
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O Estado da Saxónia-Anhalt é um dos mais
pequenos e sobretudo um dos mais pobres da Alemanha, mas desde a semana passada
que está no centro da política europeia. E talvez não nos enganemos se
acrescentarmos que a vitória esmagadora da AfD – Alternative für Deutschland
— está a ter um impacto que ultrapassa em muito as fronteiras do país.
Não admira. Primeiro,
a AfD teve 43,8% dos votos, ultrapassando as previsões das sondagens e numa
eleição altamente participada, mesmo a mais participada de sempre. Ou
seja, mais do que duplicou a sua votação relativamente a 2021, quando obteve
pouco mais de 20% dos votos. Ao mesmo tempo as sondagens indicam que, a nível nacional, o
partido surge em primeiro lugar, bem à frente da CDU do actual chanceler,
estando a duplicar ou quase duplicar as suas votações mesmo em eleições locais
na antiga Alemanha Ocidental e em regiões ricas.
Depois, a AfD não é apenas um partido populista como
tantos outros – é porventura o mais radical e extremista de todos os que têm
tido sucesso eleitoral, defendendo o levantamento das sanções
contra a Rússia, criticando o apoio à Ucrânia e querendo-a fora da União
Europeia e, na política interna, exigindo políticas de remigração e sendo
acusado de tentar normalizar o passado mais negro da Alemanha. O seu extremismo é tal que o grupo
europeu que integra o partido de Marine Le Pen e o nosso Chega o expulsou antes
das eleições de 2024 por o seu cabeça de lista ao Parlamento Europeu, Maximiliam
Krah, ter considerado ser “errado” afirmar que todos os membros das SS eram
“criminosos”.
Um sucesso com razões conhecidas
O mais extraordinário, porém, é que as razões do
sucesso eleitoral da AfD são conhecidas. É conhecida a decadência económica da Alemanha. É conhecida a incapacidade de promover reformas
que permitam o relançamento da economia. É conhecido o impacto negativo que tiveram
algumas das medidas adoptadas no quadro da chamada “transição energética”. É sobretudo
conhecido o
mal-estar criado pelas recentes vagas migratórias.
O momento de viragem foi a decisão, em 2015, de Angela
Merkel de abrir as portas do país aos refugiados da Síria – a
frase “Wir schaffen
das”, “podemos fazê-lo”, tornou-se mesmo icónica, o que levou à entrada em poucos
meses de mais de um milhão de estrangeiros, com impactos enormes nos serviços
públicos, sobretudo nas estruturas do Estado Social. E apesar de a maioria dos que
chegaram se terem integrado, registou-se um aumento do extremismo,
do antissemitismo e da criminalidade. Isso mesmo: da criminalidade. A Alemanha tem estatísticas e nelas os
estrangeiros surgem sobre-representados na criminalidade: em
2023, por exemplo, 39%
dos condenados não tinham passaporte alemão, uma proporção muito superior à sua
presença no país.
Esta mudança demográfica foi o gatilho que levou ao
rápido crescimento da AfD. Em 2013 o partido era pouco mais do que um grupo de
economistas que se opunham ao euro e aos apoios à Grécia, mas isso durou pouco
tempo. Em 2017, quando conseguiu eleger 94 deputados, a AfD já se tinha
radicalizado, o que não obstou a que continuasse a crescer eleitoralmente,
sendo que na última eleição, em 2025, chegou aos 152 deputados.
A regra do “cordão sanitário”
Durante todo este tempo a AfD foi sempre tratada como
um pária pelos restantes partidos alemães. A regra sacrossanta
foi a do “cordão
sanitário”, uma regra que se manteve até quando o partido começou a ganhar eleições nos Länder
da antiga Alemanha de Leste. Mesmo agora, quando ficou a apenas três mandatos
da maioria absoluta na Saxónia-Anhalt, nenhum dos partidos tradicionais parece
disposto a deixar que governe – apenas um outro partido populista, mas de
extrema-esquerda, estará inclinado a abrir conversações.
O que nos leva a outro
ponto, à política
pura e dura: o que aconteceu não se deve apenas às dificuldades económicas da Alemanha
ou à imigração – é também uma consequência de escolhas feitas por Merkel que continuam a condicionar
as opções da CDU, o grande partido cristão-democrata da direita alemã.
Primeiro, o cinismo com que interpretou o princípio de que à direita da CDU não podia
haver nada (até porque os tribunais o proibiriam), achando que tinha esse
flanco protegido e que podia virar à esquerda. Enganou-se: a AfD acabou por provar
que havia espaço à direita da CDU.
Ao mesmo tempo, ao definir a política do “cordão
sanitário”, acreditou que podia isolar e secar a AfD, e aconteceu
precisamente o contrário: o partido beneficiou de ser praticamente o único da oposição
num tempo de sucessivos “blocos centrais” CDU-SPD, enquanto o seu isolamento
acabou a impulsionar a sua radicalização, congresso após congresso.
A Alemanha confronta-se assim com o pior dos dilemas:
como lidar com um
partido que se desejou marginal mas que está em vias de se tornar o preferido
dos eleitores? Se a estratégia da “cerca sanitária” não resultou, será que
há alternativa? Para onde olhar uma vez que o mesmo pode estar em vias de
acontecer em França, onde a União Nacional de Marine Le Pen já é regularmente o
partido mais votado e a sua líder a favorita para ganhar as presidenciais de
2027?
E que tal olhar para a Suécia, a Finlândia, a Áustria, os
Países Baixos?
Uma hipótese é olhar para a
Suécia, onde houve eleições este domingo. Ainda não é claro que governo possa
sair do novo parlamento (na altura em que escrevo nem sequer todos os votos
estão contados), os sociais-democratas tiveram o seu pior resultado em 100 anos,
mas mesmo assim podem voltar à chefia do executivo pois a coligação de
centro-direita, cujo governo dependia do apoio parlamentar dos radicais dos
Democratas da Suécia, perdeu a sua maioria precisamente porque esses radicais
caíram eleitoralmente (o partido Moderado, o do primeiro-ministro, até subiu).
O que é que isto pode significar? Aquilo
que muitos cientistas políticos têm colocado como hipótese: quando os
partidos radicais são chamados a partilhar responsabilidades governativas,
mesmo que só por via de apoios parlamentares, acabam por ser confrontados com
os limites das suas propostas políticas e por experimentar o desgaste típico da
governação em tempos difíceis. Em Portugal aconteceu com as esquerdas
radicais trituradas pela geringonça, na Suécia pode ter acontecido com a sua
direita radical.
Quando se olha para a experiência de outros países
esta ideia parece confirmar-se. Na Áustria, o primeiro país onde um
partido radical de direita chegou ao poder – o FPÖ de Jörg Haider –, a
experiência de 2000-2002 foi catastrófica: caiu de 26,9% para 10%. Em 2017 voltou
ao governo e voltou a cair, desta vez de 26% para 16,2%. Nos Países Baixos a
experiência é mais recente, pois só em 2023 o PVV de Wilders chegou ao governo, mas este não durou muito e o
partido caiu de 37 para 23 lugares no parlamento em 2025. A experiência finlandesa também
não é muito diferente: o partido dos “verdadeiros finlandeses” foi eleitoralmente
castigado depois da sua primeira experiência ministerial.
Alguns estudos
académicos recentes – como este – parecem confirmar a hipótese de que a
existência de “cordões sanitários” resulta por regra em governos menos
predispostos a atender às inquietações dos partidos radicais, o que depois se
traduz em melhores resultados eleitorais desses mesmos partidos. O que até faz sentido se formos às
origens desta ideia de criar uma barreira – muitas vezes mais moral do
que política – entre os partidos da direita tradicional e
os novos partidos populistas, ou radicais, de direita, sempre apresentados como
fascistas, ou pós-fascistas, ou nazis, ou neonazis, ou racistas, ou o que quer
que possa desconsiderá-los mesmo quando tais acusações fazem pouco sentido.
Mitterrand, esse supremo Maquiavel
Recordemos, pois, François Mitterrand, esse supremo
Maquiavel, que ainda na década de 1980 viu na Frente Popular do pai Le Pen,
e na construção de
uma barreira entre esse partido e a direita republicana, uma
forma de dar à
esquerda mais hipóteses de se manter no poder ao impedir a direita de fazer
aquilo que a esquerda conseguira precisamente da primeira vez que Mitterrand
chegou ao Eliseu: unir-se no apoio a um só candidato.
A cerca sanitária, a que em França
se chama pomposamente “Frente Republicana”, foi permitindo à esquerda
francesa estar mais tempo no poder do que resultaria da simples aritmética
eleitoral e, ao mesmo tempo, foi sempre barrando o caminho do poder, e até do
parlamento, aos apoiantes da direita nacionalista, mesmo quando esta crescia,
crescia e crescia.
Não surpreende por isso
que o nosso Chega tenha sido em boa parte uma criação dos socialistas, que
inicialmente viram nele uma forma de limitar o crescimento da alternativa à sua
direita e,
depois, acreditaram que podiam mobilizar o eleitorado das esquerdas em nome da
criação de “uma barreira ao Chega”. Em 2022 isso ainda permitiu
a António Costa conquistar uma maioria absoluta, mas todos sabemos o que se
seguiu: os escândalos da governação e o desconchavo da política migratória
escancararam as portas a um André Ventura que, no Parlamento, tinha vindo a ser
promovido por um Augusto Santos Silva de má memória.
Podia ter sido diferente? Claro que podia, mas o
mal feito – em Portugal, em Espanha, na França, na Alemanha – é tão grande que começa
a ser difícil reconstruir uma casa em ruínas. Há “cercas sanitárias” que, bem
vistas as coisas, não só fizeram muito mal aos nossos regimes como nos
distraíram do essencial, um essencial que devia começar por ter respeito pelos
eleitores e pelas suas inquietações. Quando em vez disso se prefere erguer
dedos acusatórios, o feitiço acaba por virar-se contra os feiticeiros (que são
muitos, infelizmente).
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Partido Chega Política Marine Le Pen Frente Nacional França
(CONTINUA)
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