quarta-feira, 18 de março de 2015

ISAURA


É com lágrimas que a recordo. Não sei se está viva, se já morreu, um dos filhos mantendo-a numa espécie de sequestro, doente, num lar de idosos que não deixa conhecer, por razões de zanga com um irmão, ao qual cortou a possibilidade de contactar com a mãe.
Conheço a Isaura desde Coimbra, ajudou-me a tratar dos primeiros filhos e da casa, mais tarde em África, e posteriormente outra vez cá, a quem dei guarida e trabalho , na casa grande emprestada, quando veio de cambulhada com os filhos, tal como nós, por alturas da descolonização. Pouco a pouco a Isaura retomou a sua vida independente, com o dinheiro que juntou, sempre soube dar-me esse nobre exemplo de juntar dinheiro, que eu nunca fui capaz de acompanhar, foi viver num bairro social em Cascais. Quando os filhos casaram, deu mil contos a cada um, com deslumbramento meu, e continuou a juntar o dinheiro do seu trabalho a dias, nas casas ricas onde era estimada, e na casa que obteve por sorteio e cujo preço mensal era mínimo. Às vezes visitava-a e havia sempre bolo e chá, e cheguei mesmo a almoçar na sua casa acolhedora. Também ela vinha a nossa casa, já depois de reformada, nunca vinha de mãos vazias, generosa e prestável, com lembranças para os meus netos e arroz e massa para a casa, que ela obtinha da Assistência Social. Adoeceu, ia tratar-se aos hospitais, sempre acarinhada pelos filhos, sobretudo esse mais novo que agora a retém num lar que não identifica, por zanga com o irmão, que trabalha em Londres, onde educa o filho bom aluno, bem protegido pelas leis sociais inglesas.
Uma história triste, de uma mãe lutadora, que na fragilidade da doença é mais um caso de perversão e de tragédia humana. Conto-a por homenagem a uma velha amiga que provavelmente não verei mais.
Mas foi a questão do desenvolvimento económico não dependente de educação específica, segundo Vasco Pulido Valente, tese contestada por Luís Soares de Oliveira no “A Bem da Nação”, apoiado em manuais de teses contrárias, que me fez evocar o caso triste da Isaura, neste dia chuvoso e frio, propício a memórias e a considerações sobre o estado da economia entre nós.
A Isaura é exemplo, para mim, de como não é precisa muita cultura para se juntar pecúlio. Basta ser-se trabalhador e poupado. Era o que faziam os nossos antepassados, que trabalhavam de sol a sol e guardavam os dinheiros nas palhas do colchão, já no agoiro previdente e desconfiado contra os banqueiros futuros indignos de crédito. É certo que os “brasileiros de torna-viagem” que no Brasil trabalharam e enriqueceram e construíram uma vasta nação também provam a tese seguida por Pulido Valente, de que -« a  velhíssima crença de que a educação – e a formação – contribuem para o crescimento económico»: é «uma tese desacreditada desde o princípio do século XX”».
O certo é que nunca os dinheiros na enxerga ou entregues a filhos ingratos resultaram em produção que se visse. Mas também é certo que o progresso cultural e tecnológico, trazendo ganho económico e naturalmente bem-estar social, se contribui cada vez mais para uma produção desenfreada em alguns países, com as respectivas consequências de destruição da harmonia ecológica, entre nós converteu-se, sobretudo, numa cada vez maior corrupção, dependência e miséria social.
Daí o cepticismo de Pulido Valente em relação a António Costa, que apenas fará mais do mesmo, num país que, apesar de tudo, me parece agora seguir num rumo certo, no grupo de países onde representa pouco. Talvez, pois, que uma tese de fortalecimento do civismo e da ética contribuísse também para o desenvolvimento económico, pelo crescimento moral facultador, ao menos, de credibilidade e confiança.

Um naufrágio
Público, 15/03/2015
António Costa deu uma entrevista à televisão que veio confirmar o pior sobre a vacuidade e as fantasias do Partido Socialista. A culpa não é dele.
Em si próprio, o socialismo não significa nada: não tem uma filosofia, não tem uma doutrina, não tem uma estratégia universal ou local. Nada do que Costa disse é particularmente socialista, no sentido em que não poderia ser dito, por exemplo, por Passos Coelho. O PS não pára de protestar contra o “pensamento” único. Mas, no fundo, está reduzido como a Direita a defender uma democracia liberal (multiculturalista), com o apêndice do Estado Social. Tudo o que o distingue é um sentimento vago (embora injustificado) de que sofre mais com a pobreza e a exclusão; e de que a direita não se importa com o destino do povo desprotegido.
Mas, na verdade, o que separa Costa de Passos Coelho é simplesmente a questão da política de desenvolvimento, em que as duas partes se iludem com o mesmo fervor e se perdem na mesma irrelevância. Tirando a má-fé, a que por situação e profissão em geral não escapam, acabam ambas num vácuo, que meia dúzia de tecnocratas se esforçam por disfarçar com uma conversa esotérica para iniciados. Ainda por cima, a “zona euro”, como já abundantemente se provou, favorece os fortes e conserva os fracos na usual miséria. Paul Krugman, de que a esquerda tanto gosta, ganhou um prémio Nobel por explicar essa evidência. Na Europa de hoje, Portugal, como o sul de Itália (o antiquíssimo Mezzogiorno), será perpetuamente uma região esfolada e desprezada, sem esperança de regeneração.
Não admira por isso que, na ausência de uma clara concepção do Estado e do seu papel e de uma clara visão do estatuto e possibilidades de Portugal na Europa, António Costa reverta a ilusões, sem fundamento nem desculpa. No plano doméstico, à velhíssima crença de que a educação – e a formação – contribuem para o crescimento económico: uma tese desacreditada desde o princípio do século XX. E, no plano externo, à estranhíssima ideia de que os beneficiários da “zona euro” acabarão voluntariamente ou com alguma chantagem por reduzir os seus privilégios por amor aos pequenos países de que eles neste momento tiram a sua prosperidade e o seu equilíbrio. António Costa ainda julga que irá negociar o nosso desastroso estatuto. Mas ninguém irá negociar com ele. As coisas são o que são; e faz pena assistir ao naufrágio de um homem em quem os portugueses passageiramente confiaram.

O texto de comentário humorístico de Luís Soares de Oliveira ao artigo de Pulido Valente (A Bem da Nação):

EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
Reza a história que Almeida Garrett caminhava pela coxia da Câmara dos Deputados para ocupar o seu lugar quando ouviu o orador no uso da palavra dizer. «Como muita gente sabe,…». O poeta-dramaturgo ignorava que assunto estava a ser tratado; isso não o impediu contudo de interpelar o orador: «Muita gente, quem?» O político na tribuna flexibilizou o discurso e retomou: «Como alguns sabem,…». Garrett fez de novo soar a sua voz tonitruante: "Alguns, quem ?». Perante a insistência, o orador concedeu: «Como eu sei, …»
Pergunta semelhante gostaria eu da fazer ao jornalista Vasco Pulido Valente. Afirma ele (PUBLICO, contra-capa, 15 Mar 2015), cito, «…à velhíssima crença de que a educação - e a formação - contribuem para o crescimento económico: uma tese desacreditada desde o princípio do século XX". Desacreditada por quem? Bastaria ao avisado comentarista ter lido a abalizada notícia da Macropedia Britannica, (vol 17, pgs. 878 a 907) para verificar que a questão do crescimento só começou a ser objecto de estudo e teorização nos anos 30 do dito século XX (Keynes e Schumpeter à frente) e a preocupação com o desenvolvimento, por seu turno, veio na esteira da descolonização processada no pós II Guerra Mundial. Nenhum dos teóricos ali citados se pronunciou pela irrelevância do factor educação-formação. Pelo contrário, o investimento no capital humano é considerado a «chave do progresso» (pg.880) e «factor crucial» (pg 887). Nem poderia deixar de ser uma vez que se constata que a contribuição do factor capital para o PIB seria da ordem dos 25%, ficando os restantes 75% a cargo do elemento humano. As estatísticas apresentadas a páginas 894 e 895 da referida entrada relativas ao crescimento do produto por pessoa empregada mostram claramente como a economia varia em função da educação.
Como experiência pessoal posso registar que, num processo em que intervim, uma multinacional líder mundial desistiu de instalar uma fábrica de computadores em Portugal por várias razões, a principal das quais por ter constatado aqui não encontraria número suficiente de engenheiros.
Temos de reconhecer que Vasco Pulido Valente nem sempre acerta. Tem dias, como toda a gente.

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