Vem isto a propósito do crime
fiscal de Passos Coelho. Crime que os homens honrados não desculpam. Daí que as
vozes se elevem em gritos e ordens de expulsão do Governo, e as pedradas não
faltem contra quem assim prevaricou, tal como, no poder, ele exige o castigo
dos que prevaricam. Passos Coelho já não se livra dos apupos, por muito
“confiteor” que pronuncie, e o seu grave erro de pecador confesso e sem
remissão, ninguém lho perdoa. Ninguém se lembra de que fez estabilizar um pouco
este pequeno país, de muita gente não só furtiva ao pagamento dos seus
impostos, como adquiridora de bens por via fraudulenta. E todos rugem, poucos
que somos, como ruge no oceano a procela despedaçadora.
E Vasco Pulido Valente uma vez
mais expõe o seu saber a respeito dos corredores por onde deslizaram os passos
desses até se alcandorarem em postos chave, não pela via do estudo e do
sacrifício formativo, mas por via de ligação a facções de intriga e de interapoio,
a que a sua penúria ambiciosa recorreu, embora complementada por posterior
formação académica.
Outros o fizeram, e pecaram e
se divertiram à brava, adquirido o posto, fruto de circunstâncias facultadoras,
e viajando, e divertindo-se, despedaçando o erário público em traficâncias ou
passeatas e, extinto o dinheiro do erário nacional, usando o do endividamento
ao exterior, sempre em proveito próprio. Mas esses já não contam, souberam
abafar as suas infracções de lesa-pátria em comportamentos exigentes da ampla
idolatria bacoca nacional, ou embrenhados nas suas vidas posteriores, de demarcação
ou ainda de solicitude para com a res publica, sem compromissos de maior, a não
ser para o exibicionismo da vanglória, ou para o estrebuchar da indignação, nos
apertos da austeridade.
Este pecador dos tempos jovens
da ambição de uma carreira e de um estatuto não pagou durante anos o seu
imposto. Fê-lo agora à pressa, e com justificações esfiapadas, de comiseração
sobre as suas imperfeições. Mas a gente vingativa impõe castigo, troçando das
justificações, ululando os seus modelos de expulsão democrática. Fingem ignorar
o seu esforço salvador da nação em débito, à custa do sacrifício geral, é
certo, o que o torna credor de maior sanha ainda dos que se inocentam, sem
escrúpulo, do seu contributo para esse débito.
Vasco Pulido Valente condena
sobretudo a pátria que fornece os tais aviários de ministros. Mas Alberto
Xavier, no seu artigo de domingo, “Um perfeito político” revela uma
dimensão de análise no seu confronto com a realidade, que admiro, pelo
desassombro de admitir, jovem que é, que aquele é um pecado de menor calibre no
cômputo geral dos pecados nacionais.
O artigo de Vasco Pulido
Valente:
«Aviário de ministros»
«Pedro
Passos Coelho teve uma carreira típica. Entrou muito cedo na JSD, à força de
trabalho e zelo conseguiu chegar a presidente dessa inconcebível organização e,
através dela, entrou no Parlamento.
Quando
saiu aos 35 anos, sem outra qualificação que não fosse o liceu, foi obrigado a
começar uma vida normal: resolveu tirar um curso de Economia e, como entretanto
se casara, arranjar um emprego. Por essa altura, jantei com ele meia dúzia de
vezes, por sugestão de um amigo comum, Eduardo Azevedo Soares. Achei Passos
Coelho um homem agradável e sensato, mas transparentemente inseguro. Também se
via que o dinheiro não lhe sobrava e o futuro era para ele obscuro e, de
maneira geral, pouco prometedor. Não acredito que naquele tempo lhe passasse
pela cabeça chegar a primeiro-ministro.
Como
ele, houve centenas de pessoas que, por causa de uma educação perversa nas
“juventudes partidárias”, entraram na meia-idade (os 35 anos de que fala Dante)
sem um passado profissional e com uma visão do mundo distorcida pela incessante
intriga a que se reduzia a actividade interna do PS e do PSD e em que
participavam de pleno direito e, às vezes, como personagens maiores. Pior
ainda, esta espécie de currículo dava uma certa autoridade a gente a quem faltava
qualquer outra. Não vale a pena falar de António José Seguro. Mas basta lembrar
que António Costa proclama por aí com orgulho que se inscreveu no PS aos 14
anos, para se perceber a natureza da aberração que os partidos promovem,
julgando manifestar a sua perenidade e a sua força. Como se a perenidade e a
força consistissem em enganar inocentes, abaixo da idade do consentimento
político.
A
condição dos membros das várias “juventudes” dos partidos (que vão até aos 30
anos) acaba por ser uma condição de relativa irresponsabilidade, sobretudo para
aqueles que exercem cargos no “aparelho”. Os deveres para com a sociedade e o
Estado são obscurecidos pelas pequenas lutas domésticas pelo poder e pela
grande questão de saber se a seita consegue ou não ocupar o governo e o Estado
– fonte de favores, recompensas, influência e dinheiro. Este mundo fechado
sobre si próprio não se importa muito com o mundo exterior e não exige um
comportamento cívico exemplar. Pelo contrário, tolera uma imensa quantidade de
“erros”, por assim dizer, em nome do interesse superior da facção. Do incidente
fiscal de Pedro Passos Coelho só uma coisa se deve concluir: as “juventudes
partidárias” precisam de ser abolidas, como primeiro acto para a regeneração do
regime. Os jovens que se inscrevam onde quiserem na idade de votar e que sejam
tratados como o militante comum. Que os partidos não sirvam mais de educadores
da “classe política” e aviário de ministros. Basta o que basta.»
O
artigo de Alberto Gonçalves:
«Um perfeito
político»
D. N.,8 março
2015
«Um
político, e para cúmulo um político particularmente zeloso face às obrigações
dos contribuintes, deve acumular um currículo de desleixos fiscais? Talvez não.
Haverá políticos imaculados nesta matéria ou em matérias mais graves, do mero
arranjinho à pura corrupção? Dificilmente. Será saudável que os delitos e os
eventuais crimes cometidos pelos políticos na vida "privada" ou
"pública" (se quiserem, depois discutimos subtilezas) tenham
consequências? Não duvido. Convém escrutinar previamente a seriedade dos
políticos? Com certeza. Estamos preparados para dispensá-los a todos? A
tentação é responder. "E depressa, por favor!". Mas a realidade impõe
cautela.
Pedro
Passos Coelho não se explicou com particular clareza na história dos atrasos à
Segurança Social e ao IRS. Porém, acertou se calhar inadvertidamente em cheio
quando jurou não ter, "ao contrário de outros", usado o cargo para
enriquecer. De facto, há que separar os pecadilhos cometidos por quem não
espera mandar nisto e os esquemas elaborados por quem manda. E não se trata
apenas da dimensão das falhas: terríveis ou minúsculos, os deslizes que
regressam para prejudicar os senhores no poder não são comparáveis aos deslizes
que advêm desse mesmo poder e beneficiam os respectivos titulares. A
imprevidência não é igual ao abuso.
José
Sócrates, que enfiou o barrete com esplendor, está detido por suspeita,
presumivelmente fundada, de artimanhas complicadas e decorrentes de funções
governativas - não por assinar belas moradias na Beira Interior ou concluir
licenciaturas ao domingo. Espertezas destas não são um achado jornalístico: são
a regra no "meio", aliás confirmada nas notícias que de imediato se
espalharam sobre a lisura cívica dos que implícita ou explicitamente desataram
a pedir a cabeça do primeiro-ministro, do Dr. Costa (alegadas trapalhadas na
sisa) ao Sr. Alegre (reforma de três mil euros por três meses na RDP).
É
evidente que Pedro Passos Coelho não sai beatificado do episódio, que no mínimo
mostra tiques de incoerência, alguma presunção de impunidade e, indirectamente,
uma carreira profissional típica, na órbita dos partidos, do Estado e dos
interesses dos partidos no Estado. Sucede que, nos desgraçados tempos que
correm, estes defeitos constituem as virtudes possíveis de um político. A
alternativa é quase sempre pior. Do que se sabe até agora, os
"crimes" de Pedro Passos Coelho não diferem dos perpetrados por
inúmeros cidadãos comuns. Se daqui em diante não se vier a saber mais, exigir a
demissão do homem e condenar, a título de "populista", uma lei contra
o enriquecimento ilícito não é só ridículo: é certificar o óbito da classe
política em peso, proeza menos sensata do que parece. Afinal, é necessário
existir alguém que nos obrigue a pagar impostos, ainda que fora de horas.
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